How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
terça-feira, março 27, 2007
Limites da tolerância
Tudo tem limites, também a tolerância, pois nem tudo vale neste mundo. Os profetas de ontem e de hoje sacrificaram suas vidas porque ergueram sua voz e tiveram a coragem de dizer:"não te é permitido fazer o que fazes". Há situações em que a tolerância significa cumplicidade com o crime, omissão culposa, insensibilidade ética ou comodismo.
Não devemos ter tolerância com aqueles que têm poder de erradicar a vida humana do Planeta e de destruir grande parte da biosfera. Há que submetê-los a controles severos.
Não devemos ser tolerantes com aqueles que assassinam inocentes, abusam sexualmente de crianças, traficam órgãos humanos. Cabe aplicar-lhes duramente as leis.
Não devemos ser tolerantes com aqueles que escravizam menores para produzir mais barato e lucrar no mercado mundial. Aplicar contra eles a legislação mundial.
Não devemos ser tolerantes com terroristas que em nome de sua religião ou projeto político cometem crimes e matanças. Prendê-los e levá-los às barras dos tribunais.
Não devemos ser tolerantes com aqueles que falsificam remédios que levam pessoas à morte ou instauram políticas de corrupção que delapidam os bens públicos. Contra estes devemos ser especialmente duros pois ferem o bem comum.
Não devemos ser tolerantes com as máfias das armas, das drogas e da prostituição que incluem sequestros, torturas e eliminação física de pessoas. Há punições claras.
Não devemos ser tolerantes com práticas que, em nome da cultura, cortam as mãos dos ladrões e submetem mulheres a mutilações genitais. Contra isso valem os direitos humanos.
Nestes níveis não há que ser tolerantes, mas decididamente firmes, rigorosos e severos. Isso é virtude da justiça e não vício da intolerância. Se não formos assim, não teremos princípios e seremos cúmplices com o mal.
A tolerância sem limites liquida com a tolerância assim como a liberdade sem limites conduz à tirania do mais forte. Tanto a liberdade quanto a tolerância precisam, portanto, da proteção da lei. Senão assistiremos à ditadura de uma única visão de mundo que nega todas as outras. O resultado é raiva e vontade de vingança, fermento do terrorismo.
Onde estão então os limites da tolerância? No sofrimento, nos direitos humanos e nos direitos da natureza. Lá onde pessoas são desumanizadas, aí termina a tolerância. Ninguém tem o direito de impor sofrimento injusto ao outro.
Os direitos ganharam sua expressão na Carta dos Direitos Humanos da ONU, assinada por todos os países. Todas as tradições devem se confrontar com aqueles preceitos. Se práticas implicarem violação daqueles enunciados não podem se justificar. A Carta da Terra zela pelos direitos da natureza. Quem os violar perde legitimidade. Por fim, é possível ser tolerantes com os intolerantes? A história comprovou que combater a intolerância com outra intolerância leva à espiral da intolerância. A atitude pragmática busca estabelecer limites. Se a intolerância implicar crime e prejuízo manifesto a outros, vale o rigor da lei e a intolerância deve ser enquadrada. Fora deste constrangimento legal, vale a liberdade. Deve-se confrontar o intolerante com a realidade que todos compartem como espaço vital. Deve-se levá-lo ao diálogo incansável e fazê-lo perceber as contradições de sua posição. O melhor caminho é a democracia sem fim que se propõe incluir a todos e a respeitar um pacto social comum.
Leonardo Boff
Publicado no site do autor em 8 de Junho de 2005 e afixado aqui com a sua autorização.
segunda-feira, março 26, 2007
É bom não esquecer
Tenho estado sem acesso à rede até agora, mas soube, de madrugada, pela minha filha indignada, que o vencedor do concurso do canal público tinha sido o mesquinho ditador de Santa Comba. Sinto compaixão dos que nele votaram. Porque só podem ser lacaios sem patrão ou escravos que não sabem gozar a liberdade que outros lhes conqistaram, muitos com sacrifício da própria vida. Porque sou bastante tolerante, mesmo para com aqueles que o não são, dedico-lhes esta trova cantada pelo Adriano Correia de Oliveira:
Trova do Vento que Passa
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
minha pátria à flor das águas
vi minha pátria florir
verdes folhas verdes mágoas.
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre
domingo, março 25, 2007
... e sonhadores
Sonhadores, sempre existiram. Mas muito poucos conseguiram transformar o seu sonho em realidade. E Jean Monnet foi um desses "pouc0s".
Numa Europa em ruínas, na sequência da megalómana loucura ariana do Adolf, da estupidez do Benito e do silêncio cúmplice do Francisco e do António, e face à ameaça eminente da guerra fria, um francês, internacionalista pragmático bem relacionado, sonhou uma Europa Unida .
Propôs ao Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Robert Schuman, e ao Chanceler alemão Konrad Adenauer, criar um interesse comum entre os seus países: a gestão, sob o controlo de uma autoridade independente, do mercado do carvão e do aço. A proposta foi formulada oficialmente em 9 de Maio de 1950 pela França e fervorosamente acolhida pela Alemanha, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.
O Tratado que instituiu a primeira Comunidade Europeia, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), foi assinado em Abril de 1951, abrindo as portas à Europa das realizações concretas. Seguir-se-iam outras realizações, até que, em 25 de Março de 1957, foi assinado o Tratado de Roma, que instituiu a CEE, criando os instrumentos e mecanismos de tomada de decisão que permitiram dar expressão tanto aos interesses nacionais como a uma visão comunitária. Tinha nascido a actual União Europeia.
Mais de 20 anos após a adesão de Portugal e no cinquentenário do Tratado, a memória num poema premonitório de Fernando Pessoa:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez,
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa
Poesia do Eu - Obra Essencial de Fernando Pessoa - Círculo de Leitores, Setembro de 2006.
Sonhadores, sempre existiram. Mas muito poucos conseguiram transformar o seu sonho em realidade. E Jean Monnet foi um desses "pouc0s".Numa Europa em ruínas, na sequência da megalómana loucura ariana do Adolf, da estupidez do Benito e do silêncio cúmplice do Francisco e do António, e face à ameaça eminente da guerra fria, um francês, internacionalista pragmático bem relacionado, sonhou uma Europa Unida .
Propôs ao Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Robert Schuman, e ao Chanceler alemão Konrad Adenauer, criar um interesse comum entre os seus países: a gestão, sob o controlo de uma autoridade independente, do mercado do carvão e do aço. A proposta foi formulada oficialmente em 9 de Maio de 1950 pela França e fervorosamente acolhida pela Alemanha, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.
O Tratado que instituiu a primeira Comunidade Europeia, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), foi assinado em Abril de 1951, abrindo as portas à Europa das realizações concretas. Seguir-se-iam outras realizações, até que, em 25 de Março de 1957, foi assinado o Tratado de Roma, que instituiu a CEE, criando os instrumentos e mecanismos de tomada de decisão que permitiram dar expressão tanto aos interesses nacionais como a uma visão comunitária. Tinha nascido a actual União Europeia.
Mais de 20 anos após a adesão de Portugal e no cinquentenário do Tratado, a memória num poema premonitório de Fernando Pessoa:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez,
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa
Poesia do Eu - Obra Essencial de Fernando Pessoa - Círculo de Leitores, Setembro de 2006.
sábado, março 24, 2007
Sonhos...
Sonho com o dia em que o Poder
e todos os seus homens de mão
sejam vistos como o problema maior
da Humanidade e não como a solução
ou parte da solução dos problemas da
Humanidade. O dia em que ninguém seja
homem de mão do Poder e ele morra.
Mas como há-de chegar esse dia
se o Poder como anti-Deus que é
criou um universo simbólico dentro
do qual todos nos movemos e nos
(in)comunicamos? É uma Babel
que nos deixa a falar sozinhos mas
o Poder chama-lhe Comunicação.
Fomos criados criadores e irmãos
em feminino e em masculino. Soprados
para sermos Abel uns para os outros. Mas
o sopro do Poder apodera-se de nós
e o Abel que somos torna-nos Caim
mentirosos e assassinos quanto ele
e criadores de um Mundo de loucos.
Houve um Homem nascido de
mulher como os demais que preferiu
viver em deserto o tempo todo a
transformar-se num homem de mão
do Poder. Acabou crucificado às suas
mãos. Mas deixou a descoberto desde
então que todo o Poder é assassino.
Passaram-se os anos. Mil e outros mil
desde que sucederam essas coisas
e a Treva continua aí a cobrir a Mente
dos homens. Muitos deles hoje mais
parecem crianças grandes sedentos
do Poder. Pensam-se salvadores como
Abel. E são assassinos como Caim.
Vestem uns de papa. Vestem outros
de Primeiro Ministro e de Presidente
da República. Tornam-se outros donos
de bancos que juntam Dinheiro como
areia das praias. Há quem aceite ser
reitor de santuário rico e influente. Mas
de Medo e Morte é o sopro de todos eles.
Prefiro viver em deserto a vida inteira
a frequentar os palácios e os manjares
do Poder e dos seus homens de mão
onde se conversam banalidades e se
alimentam megalómanos projectos do
tamanho dos seus vazios e das suas
frustrações. É assim que sou fecundo.
Não falta quem me acuse de subversão
e de deslealdade. E me ameace com
excomunhões e outros castigos sem
nome. Não me perdoam que também
eu revele que são Mentira e Homicídio
o Poder e seus homens de mão. Nem
assim deixo de ser discípulo de Jesus.
Alegrias e tristezas
De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2002 da ONU, sem um controle muito mais eficaz, cerca de mil milhões de pessoas serão infectadas e 35 milhões morrerão de tuberculose até 2020.
E não se pense que a tuberculose é uma doença apenas dos países sub-desenvolvidos. Cá no nosso canto, uma doença considerada irradicada há décadas voltou a surgir em força, há poucos anos. Para pensar e agir, cada um na medida das suas capacidades.
Hoje devia estar bem contente porque, como fã dos Pink Floyd, vou ouvir e ver, na versão Pulse, que possuo em CD e DVD, o alinhamento do álbum Dark Side of the Moon, lançado há precisamente 34 anos, (felizmente, também tenho o álbum original em vinil).
No entanto, não posso passar ao lado do facto de, 125 anos depois (24 de Março de 1882) de Robert Koch ter anunciado a descoberta da bactéria responsável pela tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), todos os anos 60 milhões de pessoas ainda serem infectadas com esta doença. E, embora actualmente ela seja tratável, ainda mata anualmente 2 milhões de pessoas.
De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2002 da ONU, sem um controle muito mais eficaz, cerca de mil milhões de pessoas serão infectadas e 35 milhões morrerão de tuberculose até 2020.
E não se pense que a tuberculose é uma doença apenas dos países sub-desenvolvidos. Cá no nosso canto, uma doença considerada irradicada há décadas voltou a surgir em força, há poucos anos. Para pensar e agir, cada um na medida das suas capacidades.
sexta-feira, março 23, 2007
Malária – Fim à vista?
A malária é uma doença provocada pela picada de um mosquito, que infecta cerca de 400 milhões de pessoas por ano e mata, anualmente, mais de um milhão (entre 700 mil e 2 milhões e 700 mil, segundo a OMS).
Embora também exista em várias zonas da Ásia e da América Central, é sobretudo na África sub-sahariana que o seus efeitos devastadores se fazem sentir.
Na verdade, 90% das mortes ocorrem em crianças dessa zona, 71% são de crianças com menos de 5 anos, custa à África mais de 9.000 milhões de euros por ano e consome 40% das despesas públicas com saúde.
Um estudo publicado, no dia 19 de Março, no "Proceedings of the National Academy of Sciences" (reservado a subscritores), revela que os investigadores criaram em laboratório mosquitos geneticamente modificados resistentes ao parasita causador da malária.
Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação da Malária da Universidade John Hopkins, em Maryland, liderada por Marcelo Jacobs-Lorena, modificou geneticamente mosquitos com um gene que lhes permite evitar serem infectados pelo parasita. Estes mosquitos, que passam o gene protector na reprodução, poderão no futuro, permitir controlar a malária, através da sua propagação nas zonas afectadas.
Naturalmente, este audacioso projecto necessita de ser testado mais profundamente e os próprios cientistas autores do estudo recomendam a realização de mais investigações antes de, eventualmente, estes mosquitos serem libertados na natureza, em número suficiente para se tornarem dominantes e eliminarem os portadores do parasita. De facto, partindo duma população inicial idêntica, os mosquitos geneticamente modificados atingiram, em nove gerações, uma predominância de 70%.
O esforço multimilionário para eliminar uma das mais mortíferas doenças existentes parece abrir novos horizontes para os países menos desenvolvidos, já que 60% das mortes por malária atingem os 20% mais pobres do planeta.
Embora também exista em várias zonas da Ásia e da América Central, é sobretudo na África sub-sahariana que o seus efeitos devastadores se fazem sentir.
Na verdade, 90% das mortes ocorrem em crianças dessa zona, 71% são de crianças com menos de 5 anos, custa à África mais de 9.000 milhões de euros por ano e consome 40% das despesas públicas com saúde.
Um estudo publicado, no dia 19 de Março, no "Proceedings of the National Academy of Sciences" (reservado a subscritores), revela que os investigadores criaram em laboratório mosquitos geneticamente modificados resistentes ao parasita causador da malária.
Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação da Malária da Universidade John Hopkins, em Maryland, liderada por Marcelo Jacobs-Lorena, modificou geneticamente mosquitos com um gene que lhes permite evitar serem infectados pelo parasita. Estes mosquitos, que passam o gene protector na reprodução, poderão no futuro, permitir controlar a malária, através da sua propagação nas zonas afectadas.
Naturalmente, este audacioso projecto necessita de ser testado mais profundamente e os próprios cientistas autores do estudo recomendam a realização de mais investigações antes de, eventualmente, estes mosquitos serem libertados na natureza, em número suficiente para se tornarem dominantes e eliminarem os portadores do parasita. De facto, partindo duma população inicial idêntica, os mosquitos geneticamente modificados atingiram, em nove gerações, uma predominância de 70%.
O esforço multimilionário para eliminar uma das mais mortíferas doenças existentes parece abrir novos horizontes para os países menos desenvolvidos, já que 60% das mortes por malária atingem os 20% mais pobres do planeta.
Foto: Proceedings of the National Academy of Sciences/PA
quinta-feira, março 22, 2007
A IVG na Polónia

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos decidiu, na terça feira, 20 de Março, que a Polónia não garantiu o recurso ao aborto legal, num processo considerado como uma vitória para as mulheres europeias e um fracasso para o governo Polaco, profundamente conservador.
O Tribunal, sedeado em Estrasburgo, reconheceu os danos causados a Alicia Tysiac, uma mãe solteira de Varsóvia, de 35 anos e com 3 filhos, que está quase cega. Alicia processou o governo Polaco porque, em 2000, foi-lhe negado um aborto, apesar das declarações dos médicos de que a sua gravidez iria deteriorar gravemente a sua já débil visão.
Numa decisão que obriga todos os 46 estados membros do Conselho da Europa a assegurar o acesso ao aborto nos países onde este é legal, o Tribunal considerou que os direitos de privacidade de Alicia foram violados e o modo como foi tratada lhe causaram "angústia severa", tendo o estado sido condenado a pagar as custas dos processo, mais uma indemnização de € 25.000,00, por danos. Depois de dar à luz, Alícia teve uma hemorragia da retina, provocando-lhe uma visão tão fraca que necessita de tratamento médico diário, não pode ver para lá de 1,5 metros e corre o risco de cegar completamente.
A Polónia tem um dos regimes mais restritivos da Europa relativamente ao aborto, sómente ultrapassado por Malta e pela Irlanda. O aborto é criminalizado, excepto se tiver fundamentos médicos, risco para a vida, ou resultar de violação. Mas, tal como cá (pelo menos antes do referendo), a classe médica é muito circunspecta e renitente quando se trata da realização de um aborto. Por isso, apesar de Alicia ter pedido para abortar com fundamento em argumentos médicos claros, esse direito foi-lhe negado. E, entretanto, o aborto clandestino, praticado em vãos de escada de ruas esconsas e sem quaiquer condições de higiene e segurança, grassa no País, estimando-se em bem mais de 200.000 por ano.
Há uma dezena de anos, andei pela Polónia durante mais de uma semana, desde Varsóvia até à fronteira com a Eslováquia. E o que vi não me agradou, em termos de fanatismo religioso. Na imagem, o Santuário de Częstochowa, mais conhecido como o da Virgem Negra. Quem se espanta com algumas coisas que se passam em Fátima, ainda não viu nada comparado com aquilo.

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos decidiu, na terça feira, 20 de Março, que a Polónia não garantiu o recurso ao aborto legal, num processo considerado como uma vitória para as mulheres europeias e um fracasso para o governo Polaco, profundamente conservador.
O Tribunal, sedeado em Estrasburgo, reconheceu os danos causados a Alicia Tysiac, uma mãe solteira de Varsóvia, de 35 anos e com 3 filhos, que está quase cega. Alicia processou o governo Polaco porque, em 2000, foi-lhe negado um aborto, apesar das declarações dos médicos de que a sua gravidez iria deteriorar gravemente a sua já débil visão.
Numa decisão que obriga todos os 46 estados membros do Conselho da Europa a assegurar o acesso ao aborto nos países onde este é legal, o Tribunal considerou que os direitos de privacidade de Alicia foram violados e o modo como foi tratada lhe causaram "angústia severa", tendo o estado sido condenado a pagar as custas dos processo, mais uma indemnização de € 25.000,00, por danos. Depois de dar à luz, Alícia teve uma hemorragia da retina, provocando-lhe uma visão tão fraca que necessita de tratamento médico diário, não pode ver para lá de 1,5 metros e corre o risco de cegar completamente.
A Polónia tem um dos regimes mais restritivos da Europa relativamente ao aborto, sómente ultrapassado por Malta e pela Irlanda. O aborto é criminalizado, excepto se tiver fundamentos médicos, risco para a vida, ou resultar de violação. Mas, tal como cá (pelo menos antes do referendo), a classe médica é muito circunspecta e renitente quando se trata da realização de um aborto. Por isso, apesar de Alicia ter pedido para abortar com fundamento em argumentos médicos claros, esse direito foi-lhe negado. E, entretanto, o aborto clandestino, praticado em vãos de escada de ruas esconsas e sem quaiquer condições de higiene e segurança, grassa no País, estimando-se em bem mais de 200.000 por ano.
Há uma dezena de anos, andei pela Polónia durante mais de uma semana, desde Varsóvia até à fronteira com a Eslováquia. E o que vi não me agradou, em termos de fanatismo religioso. Na imagem, o Santuário de Częstochowa, mais conhecido como o da Virgem Negra. Quem se espanta com algumas coisas que se passam em Fátima, ainda não viu nada comparado com aquilo.
quarta-feira, março 21, 2007
Dias mundiais
Há dias mundiais para quase tudo: dos vários que se celebram hoje, escolhi dois:

É habitual dizer-se que uma pessoa, para ser completa, tem de plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro.
Árvores, plantei milhares, num conceito lato de árvore, que inclui desde os castanheiros e pinheiros até às videiras.
Filhos, ou antes filha, fiz uma.
Livros, não escrevi nenhum, e julgo que já não vou a tempo. Só espero que a minha filhota escreva por mim e por ela. Entretanto, vou comendo os frutos, enquanto há. E gosto mesmo de nêsperas!
Há dias mundiais para quase tudo: dos vários que se celebram hoje, escolhi dois:
- Da UNESCO, o Dia Mundial da Poesia. E quem melhor para citar do que a Sophia?
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo de coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaça
Sophia de Mello Breyner Andresen - Livro Sexto, 1962
CEM POEMAS DE SOPHIA – Secção de José Carlos de Vasconcelos – Visão JL - 2004
- Da ONU, o Dia Mundial da Árvore.

É habitual dizer-se que uma pessoa, para ser completa, tem de plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro.
Árvores, plantei milhares, num conceito lato de árvore, que inclui desde os castanheiros e pinheiros até às videiras.
Filhos, ou antes filha, fiz uma.
Livros, não escrevi nenhum, e julgo que já não vou a tempo. Só espero que a minha filhota escreva por mim e por ela. Entretanto, vou comendo os frutos, enquanto há. E gosto mesmo de nêsperas!
terça-feira, março 20, 2007
Desenvolvimento ou sociedade sustentável?
A reflexão crítica tem criado vasto convencimento de que o propalado "desenvolvimento sustentável" no sistema capitalista (pode ser válido num sistema localizado) é uma armadilha que cabe denunciar. A lógica do desenvolvimento neste sistema imperante contradiz a lógica da sustentabilidade. Ele se entende linear, ilimitado e supõe o infinito dos recursos da natureza. A sustentabilidade nos alerta de que vivemos num pequeno planeta, super-habitado, com recursos limitados, alguns renováveis e outros não. Se não elaborarmos um desenvolvimento (que precisamos) bem dosado e equitativo do qual todos possam se beneficiar, inclusive os demais membros da comunidade de vida à qual pertencemos, podemos ir ao encontro de um desastre.
Analistas como o prêmio Nobel de química Christian de Duve começa seu conhecido livro Poeira vital: a vida como imperativo cósmico afirmando que estamos assistindo a sintomas globais que, outrora, no processo evolutivo, antecipavam grandes devastações que atingiram a Terra. Mas há uma diferença, diz ele: outrora eram meteoros rasantes ou cataclismos naturais que devastavam a biosfera. Hoje o meteoro rasante mais perigoso se chama ser humano. Temos que cuidar e vigiar esse "meteoro" ameaçador e imprevisível.
A melhor forma de fazê-lo é deslocar o eixo do desenvolvimento para o da sustentabilidade. O que importa é termos uma sociedade sustentável que encontre para si o desenvolvimento de que precisa para garantir a base material de sua reprodução fazendo com que então o desenvolvimento participe desta sustentabilidade. Como é a sustentabilidade?
Uma sociedade é sustentável quando se organiza e se comporta de tal forma que ela, através das gerações, consegue garantir a vida dos cidadãos e dos ecossistemas na qual está inserida. Quanto mais uma sociedade se funda sobre recursos renováveis e recicláveis, mais sustentabilidade ostenta. Isso não significa que não possa usar de recursos não renováveis. Mas ao fazê-lo, deve praticar grande racionalidade especialmente por amor à única Terra que temos e em solidariedade para com gerações futuras. Há recursos que são abundantes como o carvão, o alumínio e o ferro, com a vantagem de que podem ser reciclados.
Uma sociedade só pode ser considerada sustentável se ela mesma, por seu trabalho e produção, se tornar mais e mais autônoma. Se tiver superado níveis agudos de pobreza ou tiver condições de crescentemente diminui-la. Se seus cidadãos estiverem ocupados em trabalhos significativos. Se a seguridade social for garantida para aqueles que são demasiadamente jovens ou idosos ou doentes e que não podem ingressar no mercado de trabalho. Se a igualdade social e política, também de gênero, for continuamente buscada. Se a desigualdade econômica for reduzida a níveis aceitáveis. Por fim, se seus cidadãos forem socialmente participativos e destarte puderem tornar concreta e continuamente perfectível a democracia. Por estes critérios o Brasil está ainda longe de ser uma sociedade sustentável.
Tal sociedade sustentável deve se colocar continuamente a questão: quanto de bem-estar ela pode oferecer ao maior número possível de pessoas com o capital natural e cultural de que dispõe? Obviamente esta questão supõe a prévia sustentabilidade do Planeta sem a qual todos os demais projetos perderiam sua base e seriam vãos.
Leonardo Boff
Publicado no site do autor em 15 de Setembro de 2006 e afixado aqui com a sua autorização.
segunda-feira, março 19, 2007
Dia do Pai

Em vários países, incluindo Portugal, Espanha, Itália e Bélgica, celebra-se hoje o Dia do Pai.
A Sra. John B. Dodd, de Washington, propôs, pela primeira vez, a ideia de um "dia do pai", em 1909. Queria, dessa forma, honrar, num dia especial, o seu pai, William Smart, um veterano da Guerra Civil, que tinha ficado viúvo quando a sua mlher (a mãe da Sra. Dodd), morreu na ocasião do parto do seu sexto filho; o Sr. Smart teve de educar, sózinho, o recém nascido e os outros 5 filhos.
O primeiro Dia do Pai foi observado em 19 de Junho de 1910, em Spokane, Washington. Actualmente, é celebrado no terceiro Domingo de Junho e inúmeros países.
Sou pai há quase 25 anos e a flor acima - um cravo vermelho, pois então - é uma atenção da minha filha.

Em vários países, incluindo Portugal, Espanha, Itália e Bélgica, celebra-se hoje o Dia do Pai.
A Sra. John B. Dodd, de Washington, propôs, pela primeira vez, a ideia de um "dia do pai", em 1909. Queria, dessa forma, honrar, num dia especial, o seu pai, William Smart, um veterano da Guerra Civil, que tinha ficado viúvo quando a sua mlher (a mãe da Sra. Dodd), morreu na ocasião do parto do seu sexto filho; o Sr. Smart teve de educar, sózinho, o recém nascido e os outros 5 filhos.
O primeiro Dia do Pai foi observado em 19 de Junho de 1910, em Spokane, Washington. Actualmente, é celebrado no terceiro Domingo de Junho e inúmeros países.
Sou pai há quase 25 anos e a flor acima - um cravo vermelho, pois então - é uma atenção da minha filha.
Manuel Ribeiro de Pavia
Manuel Ribeiro de Pavia, desenhador, ilustrador e, aguarelista, foi um dos maiores valores do neo-realismo português, no campo das artes plásticas.
Nasceu em Pavia, Arraiolos, em 1910, e em 1929 veio para Lisboa, onde se dedicou ao desenho e à ilustração. Ilustrou principalmente livros de escritores neo-realistas, nomeadamente Alves Redol.
As Líricas, conjunto de 15 desenhos publicados em album pela Editorial Inquérito em 1950, foram dedicados ao Poeta José Gomes Ferreira.
Morreu há 50 anos, a 19 de Março de 1957, em Lisboa no seu quarto-atelier, numa pensão na Rua Bernardim Ribeiro.
O conjunto pode ser visto aqui. Ficam duas, para aguçar o apetite:

Manuel Ribeiro de Pavia, desenhador, ilustrador e, aguarelista, foi um dos maiores valores do neo-realismo português, no campo das artes plásticas.
Nasceu em Pavia, Arraiolos, em 1910, e em 1929 veio para Lisboa, onde se dedicou ao desenho e à ilustração. Ilustrou principalmente livros de escritores neo-realistas, nomeadamente Alves Redol.
As Líricas, conjunto de 15 desenhos publicados em album pela Editorial Inquérito em 1950, foram dedicados ao Poeta José Gomes Ferreira.
Morreu há 50 anos, a 19 de Março de 1957, em Lisboa no seu quarto-atelier, numa pensão na Rua Bernardim Ribeiro.
O conjunto pode ser visto aqui. Ficam duas, para aguçar o apetite:

domingo, março 18, 2007
Só

António Nobre nasceu no Porto, a 16 de Agosto de 1867 e faleceu na Figueira da Foz, a 18 de Março de 1900, vítima de tuberculose.
Apesar de ter vivido apenas 33 anos, a sua obra é considerada entre as mais originais da sua geração, marcada por romantismo tardio: saudosista, sentimental e melancólico. Os seus traços simbolistas são a musicalidade, as sinestesias e as imagens estranhas e inesperadas. A colectânea de poemas intitulada Só, foi publicada em Paris, em 1892, quando tinha 25 anos. António Nobre tinha viajado para Paris, para estudar na Sorbonne, onde se diplomou em Ciências Políticas e Direito, em 1894.
No aniversário da sua morte, optei por não afixar o seu soneto mais conhecido e preferi escolher um outro que me parece sobremaneira premonitório, escrito no mesmo ano, não no bulício de Coimbra, onde estão estudava, mas na bucólica rotina duriense:
Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.
Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!
Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!
Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.
António Nobre - Belos Ares, 1889.

António Nobre nasceu no Porto, a 16 de Agosto de 1867 e faleceu na Figueira da Foz, a 18 de Março de 1900, vítima de tuberculose.
Apesar de ter vivido apenas 33 anos, a sua obra é considerada entre as mais originais da sua geração, marcada por romantismo tardio: saudosista, sentimental e melancólico. Os seus traços simbolistas são a musicalidade, as sinestesias e as imagens estranhas e inesperadas. A colectânea de poemas intitulada Só, foi publicada em Paris, em 1892, quando tinha 25 anos. António Nobre tinha viajado para Paris, para estudar na Sorbonne, onde se diplomou em Ciências Políticas e Direito, em 1894.
No aniversário da sua morte, optei por não afixar o seu soneto mais conhecido e preferi escolher um outro que me parece sobremaneira premonitório, escrito no mesmo ano, não no bulício de Coimbra, onde estão estudava, mas na bucólica rotina duriense:
Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.
Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!
Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!
Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.
António Nobre - Belos Ares, 1889.
sábado, março 17, 2007
Elis, a Grande

Tendo gravado o primeiro Longa Duração aos 16 anos, ainda teve tempo para gravar mais 27 álbuns, tinha começado a gravar um outro, com Wayne Shorter, nos Estados Unidos e estava a escolher as músicas para o próximo disco a lançar no Brasil, quando morreu.
Em 1965 venceu o Festival de Música Popular Brasileira e o seu álbum, Dois na Bossa, foi o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias.
Em 1968 fez uma viagem à Europa, alcançando enorme sucesso (como eu me lembro disso!), principalmente no Olympia de Paris, onde se tornou a primeira artista a apresentar-se nesse teatro por duas vezes no mesmo ano.
Senhora duma técnica e de um perfeccionismo soberbos, que sabia aliar como poucos à emoção e à energia, Elis é, ainda hoje, considerada a mais completa cantora brasileira de todos os tempos.
Da sua vasta discografia, destaco o álbum Elis & Tom, gravado em 1974 em Los Angeles, com António Carlos Jobim. Haverá alguém que não saiba trautear a faixa Águas de Março, com letra e musica do Tom?
Águas De Março
É pau, é pedra, é o fim do caminho

Em 19 de Janeiro passado foi relembrado o 25º aniversário da sua morte. Hoje, se fosse viva, comemoraria 62 anos de idade. Mas uma overdose de drogas, tranquilizantes e álcool, fê-la deixar-nos aos 37 anos. Chamava-se Elis Regina Carvalho Costa.
Tendo gravado o primeiro Longa Duração aos 16 anos, ainda teve tempo para gravar mais 27 álbuns, tinha começado a gravar um outro, com Wayne Shorter, nos Estados Unidos e estava a escolher as músicas para o próximo disco a lançar no Brasil, quando morreu.
Em 1965 venceu o Festival de Música Popular Brasileira e o seu álbum, Dois na Bossa, foi o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias.
Em 1968 fez uma viagem à Europa, alcançando enorme sucesso (como eu me lembro disso!), principalmente no Olympia de Paris, onde se tornou a primeira artista a apresentar-se nesse teatro por duas vezes no mesmo ano.
Senhora duma técnica e de um perfeccionismo soberbos, que sabia aliar como poucos à emoção e à energia, Elis é, ainda hoje, considerada a mais completa cantora brasileira de todos os tempos.
Da sua vasta discografia, destaco o álbum Elis & Tom, gravado em 1974 em Los Angeles, com António Carlos Jobim. Haverá alguém que não saiba trautear a faixa Águas de Março, com letra e musica do Tom?
Águas De Março
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá, Candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, Festa da Cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de Março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é um tremendo desconto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de Março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de Março fechando o verão
É promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de Março fechando o verão
É promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, inho, resto, toco, pouco, inho
Caco, vidro, vida, ol, noite, orte, laço, sol
São as águas de Março fechando o verão
É promessa de vida no teu coração
sexta-feira, março 16, 2007
Para que o mundo não esqueça

Esta fotografia, que tem 39 anos (foi tirada em 16 de Março de 1968), correu mundo. Tenho quase a certeza de a ter visto muitas vezes, não na RTP e nos jornais portugueses (era a censura prévia), mas nos dois canais da TVE e em vários jornais estrangeiros a que, nesses finais da década de sessenta, tinha o privilégio de ter acesso.
O masssacre de My Lai, fruto da loucura de um homem (e da dos seus comandantes e comandados), o tenente William Calley, revelou ao mundo, mais uma vez, aquilo que são as atrocidades da guerra, neste caso uma guerra internacional e eticamente condenável ( se é que há guerras eticamente aceitáveis), a Guerra do Vietname.
O massacre, que vitimou mais de cinco centenas de inocentes civis vietnamitas, na sua maioria mulheres e crianças (e mesmo bébés) foi levado a cabo pela Companhia Charlie , do 1º Batalhão do 20º Regimento de Infantaria da 11ª Brigada do Exército Americano.
O chefe dos carniceiros, o único a ser condenado, foi sentenciado a prisão perpétua em 1971 mas, poucos meses depois, Richard Nixon reduziu a pena para 20 anos. Por junto, acabou por cumprir apenas três anos e meio de prisão domiciliária e, desde 1974, vive tranquilamente na Geórgia.
A história da fotografia, da autoria de Ronald Haeberle, fotógrafo do Exército, não deixa de ser rocambolesca. Nas palavras de Camilla Griggers, professora de Comunicação Visual e Linguística na Universidade Estadual da Califórnia, em Channel Islands,
the Army photographer, Ronald Haeberle, assigned to Charlie Company on March 16th, 1968 had two cameras. One was an Army standard; one was his personal camera. The film on the Army owned camera, i.e., the official camera of the State, showed standard operations that is, 'authorized' and 'official' operations including interrogating villagers and burning 'insurgent' huts. What the film on the personal camera showed, however, was different. When turned over to the press and Government by the photographer, those 'unofficial' photographs provided the grounds for a court martial. Haeberle's personal images (owned by himself and not the US Government) showed hundreds of villagers who had been killed by U.S. troops. More significantly, they showed that the dead were primarily women and children, including infants. These photographs exposed the fact that the 'insurgents' in popular discourse about Vietnam were actually unarmed civilians. The photos made visible to viewers that the 'enemy' in Vietnam was actually the indigenous Vietnamese population.

Esta fotografia, que tem 39 anos (foi tirada em 16 de Março de 1968), correu mundo. Tenho quase a certeza de a ter visto muitas vezes, não na RTP e nos jornais portugueses (era a censura prévia), mas nos dois canais da TVE e em vários jornais estrangeiros a que, nesses finais da década de sessenta, tinha o privilégio de ter acesso.
O masssacre de My Lai, fruto da loucura de um homem (e da dos seus comandantes e comandados), o tenente William Calley, revelou ao mundo, mais uma vez, aquilo que são as atrocidades da guerra, neste caso uma guerra internacional e eticamente condenável ( se é que há guerras eticamente aceitáveis), a Guerra do Vietname.
O massacre, que vitimou mais de cinco centenas de inocentes civis vietnamitas, na sua maioria mulheres e crianças (e mesmo bébés) foi levado a cabo pela Companhia Charlie , do 1º Batalhão do 20º Regimento de Infantaria da 11ª Brigada do Exército Americano.
O chefe dos carniceiros, o único a ser condenado, foi sentenciado a prisão perpétua em 1971 mas, poucos meses depois, Richard Nixon reduziu a pena para 20 anos. Por junto, acabou por cumprir apenas três anos e meio de prisão domiciliária e, desde 1974, vive tranquilamente na Geórgia.
A história da fotografia, da autoria de Ronald Haeberle, fotógrafo do Exército, não deixa de ser rocambolesca. Nas palavras de Camilla Griggers, professora de Comunicação Visual e Linguística na Universidade Estadual da Califórnia, em Channel Islands,
the Army photographer, Ronald Haeberle, assigned to Charlie Company on March 16th, 1968 had two cameras. One was an Army standard; one was his personal camera. The film on the Army owned camera, i.e., the official camera of the State, showed standard operations that is, 'authorized' and 'official' operations including interrogating villagers and burning 'insurgent' huts. What the film on the personal camera showed, however, was different. When turned over to the press and Government by the photographer, those 'unofficial' photographs provided the grounds for a court martial. Haeberle's personal images (owned by himself and not the US Government) showed hundreds of villagers who had been killed by U.S. troops. More significantly, they showed that the dead were primarily women and children, including infants. These photographs exposed the fact that the 'insurgents' in popular discourse about Vietnam were actually unarmed civilians. The photos made visible to viewers that the 'enemy' in Vietnam was actually the indigenous Vietnamese population.
quinta-feira, março 15, 2007
Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco
( in 'Coração, Cabeça e Estômago' – Obras Escolhidas – Décimo Volume – Círculo de Leitores – Dezembro de 1981 )
Imagem: gravura de Francisco Pastor.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825.
Autor de mais de 50 obras, a sua vida atribulada, que dava, ela própria, tema para uma mão cheia de romances, serviu-lhe, muitas vezes, de inspiração para as suas novelas.
Expoente máximo do romantismo em Portugal, a sua obra extravasa, porém, aquela escola literária. Jacinto do Prado Coelho, por exemplo, considerou que sendo “ideologicamente flutuante, Camilo mantém-se um narrador de histórias românticas ou romanescas com lances empolgantes e situações humanas comoventes” e também que “O romantismo de Camilo é um romantismo em boa parte dominado, contido, classicizado” e, ainda, que há ao “lado do seu alto idealismo romântico a viril contenção da prosa, um bom-senso ligado às tradições e a certo cânones clássicos, um realismo sui generis, de vocação pessoal que parece na razão directa da autenticidade do seu romantismo”.
Retirado de uma obra de 1962, pouco conhecida mas que merece ser visitada muitas vezes, um pequeno e saboroso naco da sua prosa:
Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como o sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição, vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes, e estúpidas, que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
Autor de mais de 50 obras, a sua vida atribulada, que dava, ela própria, tema para uma mão cheia de romances, serviu-lhe, muitas vezes, de inspiração para as suas novelas.
Expoente máximo do romantismo em Portugal, a sua obra extravasa, porém, aquela escola literária. Jacinto do Prado Coelho, por exemplo, considerou que sendo “ideologicamente flutuante, Camilo mantém-se um narrador de histórias românticas ou romanescas com lances empolgantes e situações humanas comoventes” e também que “O romantismo de Camilo é um romantismo em boa parte dominado, contido, classicizado” e, ainda, que há ao “lado do seu alto idealismo romântico a viril contenção da prosa, um bom-senso ligado às tradições e a certo cânones clássicos, um realismo sui generis, de vocação pessoal que parece na razão directa da autenticidade do seu romantismo”.
Retirado de uma obra de 1962, pouco conhecida mas que merece ser visitada muitas vezes, um pequeno e saboroso naco da sua prosa:
Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como o sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição, vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes, e estúpidas, que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista, quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos, que o mais digno homem requestaria com orgulho.
Camilo Castelo Branco
( in 'Coração, Cabeça e Estômago' – Obras Escolhidas – Décimo Volume – Círculo de Leitores – Dezembro de 1981 )
Imagem: gravura de Francisco Pastor.
Exigências da vida moderna
(quem agüenta tudo isso??)
Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes. Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo. Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o quê, mas faz bem.
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver. Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia. E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito.
As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo. Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico.
Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.
Na minha conta são 29 horas por dia.
A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!! Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos e seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher. Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
Agora tenho que ir. É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.
E já que vou, levo um jornal...
Tcháu....
Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail.
Luís Fernando Veríssimo
quarta-feira, março 14, 2007
Einstein e a religião

O grande cientista Albert Einstein nasceu em Ulm, na Alemanha, a 14 de Março de 1879.
No aniversário do seu nascimento e numa altura em que tanto se fala da incompatibilidade entre ciência e religião, deixo aqui uma passagem reveladora do modo como o génio via esse alegado conflito.
"De início, portanto, em vez de perguntar o que é religião, eu preferiria indagar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dá a impressão de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi possível, libertou-se dos grilhões, dos seus desejos egoístas e está preocupada com pensamentos, sentimentos e aspirações a que se apega em razão do seu valor suprapessoal. Parece-me que o que importa é a força desse conteúdo suprapessoal, e a profundidade da convicção na superioridade do seu significado, quer se faça ou não alguma tentativa de unir esse conteúdo com um Ser divino, pois, de outro modo, não poderíamos considerar Buda e Espinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvida quanto ao valor e eminência dos objectivos e metas suprapessoais que não exigem nem admitem fundamentação racional. Eles existem, tão necessária e corriqueiramente quanto ela própria.
Nesse sentido, a religião é o antiquíssimo esforço da humanidade para atingir uma clara e completa consciência desses valores e metas e reforçar e ampliar incessantemente o seu efeito. Quando concebemos a religião e a ciência segundo estas definições, um conflito entre elas parece impossível. Pois a ciência pode apenas determinar o que é, não o que deve ser, isso está fora do seu domínio, logo todos os tipos de juízos de valor continuam a ser necessários. A religião, por outro lado, lida somente com avaliações do pensamento e da acção humanos: não lhe é lícito falar de factos e das relações entre os factos. Segundo esta interpretação, os famosos conflitos ocorridos entre religião e ciência no passado devem ser todos atribuídos a uma apreensão equivocada da situação descrita."
Albert Einstein, in 'Ciência e Religião' (Out Of My Later Years)
Tradução retirada do Citador

O grande cientista Albert Einstein nasceu em Ulm, na Alemanha, a 14 de Março de 1879.
No aniversário do seu nascimento e numa altura em que tanto se fala da incompatibilidade entre ciência e religião, deixo aqui uma passagem reveladora do modo como o génio via esse alegado conflito.
"De início, portanto, em vez de perguntar o que é religião, eu preferiria indagar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dá a impressão de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi possível, libertou-se dos grilhões, dos seus desejos egoístas e está preocupada com pensamentos, sentimentos e aspirações a que se apega em razão do seu valor suprapessoal. Parece-me que o que importa é a força desse conteúdo suprapessoal, e a profundidade da convicção na superioridade do seu significado, quer se faça ou não alguma tentativa de unir esse conteúdo com um Ser divino, pois, de outro modo, não poderíamos considerar Buda e Espinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvida quanto ao valor e eminência dos objectivos e metas suprapessoais que não exigem nem admitem fundamentação racional. Eles existem, tão necessária e corriqueiramente quanto ela própria.
Nesse sentido, a religião é o antiquíssimo esforço da humanidade para atingir uma clara e completa consciência desses valores e metas e reforçar e ampliar incessantemente o seu efeito. Quando concebemos a religião e a ciência segundo estas definições, um conflito entre elas parece impossível. Pois a ciência pode apenas determinar o que é, não o que deve ser, isso está fora do seu domínio, logo todos os tipos de juízos de valor continuam a ser necessários. A religião, por outro lado, lida somente com avaliações do pensamento e da acção humanos: não lhe é lícito falar de factos e das relações entre os factos. Segundo esta interpretação, os famosos conflitos ocorridos entre religião e ciência no passado devem ser todos atribuídos a uma apreensão equivocada da situação descrita."
Albert Einstein, in 'Ciência e Religião' (Out Of My Later Years)
Tradução retirada do Citador
terça-feira, março 13, 2007
Direito à indignação
Uma posta de ontem, com o título A PIDE não torturava, afixada pelo João Vasconcelos Castro no seu Bloco de Notas, também me deu vontade de desatar a dizer coisas naquele vernáculo tipicamente português.
Não li o Público do Domingo, pelo que só conheço aquilo que JVC transcreve da notícia. Mas vir invocar um memorando do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, datado de 30 de Dezembro de 2004, quatro dias depois de o The New York Times ter feito referência a um estudo, publicado na véspera, que aponta para a não existência de distinção entre “tortura” e “tratamento cruel, degradante e inumano”, suscita interrogações sobre as linhas com que se cose o Público, no que toca aos métodos de tortura da polícia política da ditadura salazarista.
E mais: confundir aquilo que o The New York Times cita do referido memorando com a opinião do próprio jornal, que é totalmente oposta, como se pode ver nesta peça jornalística do dia 6 de Março, revela uma de duas coisas – ou o jornalista que escreveu a notícia do Público é incompetente e não sabe, sequer, interpretar o que diz um outro jornal ou então, e isso é muito mais grave, agiu de má fé para branquear o comportamento da PIDE aos olhos dos leitores.
Para alguém mais interessado, pode encontrar o estudo completo no The Archives of General Psychiatry de Março.
Como cantava o Zeca, "o que faz falta é avisar a malta".
Serviço Público
No dia 7 de Março surgiu um espaço de verdadeiro serviço público na blogosfera portuguesa: um novo blogue de ciência, filosofia e educação chamado De Rerum Natura.
Entre os seus autores encontam-se um físico e um matemático, ambos com várias obras de divulgação científica publicadas, um filósofo, autor de diversos livros e manuais da disciplina, uma pedagoga, também com obra publicada, uma química (professora do IST) e dois biólogos.
Desde o início, e as primeiras postagens o confirmaram, mostrou ser um espaço merecedor de visita diária e leitura atenta. Como aperitivo, deixo a posta de apresentação:
O poeta latino Tito Lucrécio Caro, que viveu no século I a.C., escreveu um único livro: o poema De Rerum Natura. Nele defende a teoria atomista (Demócrito já tinha dito antes «Tudo no mundo é átomos e espaço vazio») mas fala, além de coisas da física e da química, de muitas outras coisas: biologia, psicologia, filosofia, etc.
O blog que partilha o título com o poema de Lucrécio falará também de várias coisas do mundo, procurando expor a sua natureza. Partirá da realidade do mundo (o nosso mundo, feito de átomos e espaço vazio) para discutir o empreendimento humano da descoberta do mundo, que é a ciência, e as profundas implicações que essa descoberta tem para a nossa vida no mundo. Mostrará o que é a ciência (história e filosofia da ciência, cultura científica, aplicações da ciência, riscos, educação científica, arte e ciência, etc.).
Enfrentará a anti-ciência nas suas várias formas, sejam elas fraude, demagogia, pseudo-ciência, superstição ou simples erro. Falará em particular do caso português e da nossa necessidade de mais e melhor ciência para sermos um país mais culto, mais desenvolvido e mais livre.
segunda-feira, março 12, 2007
Corrupção e poder
"O poder tem a tendência a se corromper e o absoluto poder a se corromper absolutamente". Esta é a famosa frase de Lord John Emerich Edward Dalberg-Acton (1843-1902) sempre citada em contextos de corrupção. De família aristocrática anglo-italo-alemã, foi professor de história em Cambridge. Católico e adepto do liberalismo, se opunha duramente ao reacionarismo do Papa Pio IX. A 5 de Abril de 1887 escreveu uma carta a seu colega Mandell Creighton que havia publicado cinco tomos sobre a história dos Papas do tempo da Reforma protestante. Ai mostrou como eles, contrariamente aos princípios cristãos, abusavam de sua posição de poder e justificavam suas ações imorais apelando para sua função religiosa, pois, nas palavras de Dalberg-Acton "a função santifica seu portador". Este fato o levou a afirmar que o absoluto poder corrompe absolutamente.
Não sei se por pessimismo ou por realismo afirmava também:"Meu dogma é a geral maldade dos homens com autoridade".
Como católico, o Lorde via na corrupção a presença do pecado original. Esta expressão, não a realidade, foi criada por Santo Agostinho em 416. Por ela queria expressar a visão bíblica segundo a qual "a tendência do coração é má desde a infância"(Gn 8,21). Por esta razão, em lugar de pecado original a tradição cristã usava a expressão corrupção no seu sentido etimológico: ter um coração(cor) rompido(ruptus) ou simplesmente ser homo corruptus. O filósofo Kant não pensava outra coisa quando dizia metaforicamente: "somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas". Em outras palavras, há no ser humano uma corrupção básica que se manifesta maximamente nos portadores de poder. Por que exatamente neles? Ninguém melhor que Thomas Hobbes para nos responder em seu Leviatã (1651): "assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda".
Há, portanto, uma ligação estreita entre poder e corrupção. Corrupção é usar do poder em benefício próprio. O benefício pode ser dinheiro, influência, projeção, tratamento especial. Fundamental é o segredo das transações porque são ou imorais ou ilegais. Usam-se passiva ou ativamente presentes, pressões, fraudes, subornos e nepotismo. Corrupto é quem suborna ou aceita ser subornado para garantir benefícios para si ou para um partido ou para o governo. O ponto central é o abuso da posição de poder.
Como superar a corrupção? De princípio, sempre confiar-desconfiando do ser humano porque nunca é imune de abusar do poder. Nada de dar cheques em branco. Depois, evitar a concentração de poder. A divisão dos poderes foi pensada para evitar a corrupção possível. Em seguida, o controle da sociedade usando especialmente a multimidia. Exigir sempre transparência em todos os procedimentos. Por fim punir os corruptos políticos com penas pesadas por terem cometido um delito especialmente grave que é lesar a coletividade.
Publicado no site do autor em 17/06/2005 e aqui afixado com a sua autorização
domingo, março 11, 2007
Antes que seja tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca
No 14º. Aniversário da sua morte
(in Poemas completos, Forja Editora, 1975)
sábado, março 10, 2007
Domingos Sequeira
Domingos António de Sequeira, nascido em Lisboa a 10 de Março de 1768 e falecido em Roma a 7 de Março de 1837, foi o pintor mais notável do seu tempo, não só de Portugal como de toda a Europa.
Após vários anos de estudos de pintura em Portugal, a rainha D. Maria I, por recomendação do marquês de Marialva, seu vizinho e apreciador, concedeu-lhe uma pensão anual para que fosse aperfeiçoar-se para Roma (cidade das artes da época), onde já se encontravam vários artistas a estudar, enviados pelo Intendente Pina Manique.
Estes estudantes constituíam a Academia Portuguesa, organizada de acordo com a Academia de Medicis e Domingos Sequeira para lá foi em 1788, apenas com 20 anos mostrando-se, desde o início, aluno distintíssimo.
Em 1789 foi estudar com António Cavallucci, um dos mestres de uma nova escola de pintura que se afastava completamente da escola convencional. Após aturado trabalho, em 1791 obteve o primeiro prémio da prestigiada Academia de São Lucas, onde foi admitido como académico emérito em 1794, apenas com 26 anos de idade.
Regressado a Portugal em 1795, teve vários dissabores e retirou-se para a serra do Buçaco, donde passou para o convento da Cartuxa de Laveiras, onde estava disposto a professar, até que em 1802 o príncipe regente (futuro D. João VI) o nomeou primeiro pintor da corte, encarregado de dirigir, com Vieira Portuense, as decorações artísticas do Palácio da Ajuda

Domingos António de Sequeira, nascido em Lisboa a 10 de Março de 1768 e falecido em Roma a 7 de Março de 1837, foi o pintor mais notável do seu tempo, não só de Portugal como de toda a Europa.
Após vários anos de estudos de pintura em Portugal, a rainha D. Maria I, por recomendação do marquês de Marialva, seu vizinho e apreciador, concedeu-lhe uma pensão anual para que fosse aperfeiçoar-se para Roma (cidade das artes da época), onde já se encontravam vários artistas a estudar, enviados pelo Intendente Pina Manique.
Estes estudantes constituíam a Academia Portuguesa, organizada de acordo com a Academia de Medicis e Domingos Sequeira para lá foi em 1788, apenas com 20 anos mostrando-se, desde o início, aluno distintíssimo.
Em 1789 foi estudar com António Cavallucci, um dos mestres de uma nova escola de pintura que se afastava completamente da escola convencional. Após aturado trabalho, em 1791 obteve o primeiro prémio da prestigiada Academia de São Lucas, onde foi admitido como académico emérito em 1794, apenas com 26 anos de idade.
Regressado a Portugal em 1795, teve vários dissabores e retirou-se para a serra do Buçaco, donde passou para o convento da Cartuxa de Laveiras, onde estava disposto a professar, até que em 1802 o príncipe regente (futuro D. João VI) o nomeou primeiro pintor da corte, encarregado de dirigir, com Vieira Portuense, as decorações artísticas do Palácio da Ajuda

Com as invasões francesas, relacionou-se com oficiais às ordens de Junot, para os quais executou várias encomendas, e pintou mesmo para o general o quadro ao lado, intitulado Junot Protegendo Lisboa. O pintor foi julgado por este quadro, tendo estado preso durante 8 meses no Limoeiro, entre o noite de Natal de 1808 e princípio de Setembro de 1809.
Com a contra-revolução absolutista de 1923 (Vila-Francada), Domingos Sequeira teve receio de ser novamente preso e partiu para Paris. Ali, privado de recursos financeiros, trabalhou incansavelmente, tendo exposto no Louvre A Morte de Camões (quadro desaparecido no Brasil), obra que lhe mereceu a medalha de ouro e a colocação entre os pintores românticos mais representativos, ao lado de Eugène Delacroix.
Em finais de 1926 viajou para Roma, onde viveu o resto da sua vida e pintou, pelo menos, 14 quadros mundialmente famosos.
Em Portugal - Dicionário Histórico, encontra-se um extensa entrada sobe Domingos Sequeira.
Com a contra-revolução absolutista de 1923 (Vila-Francada), Domingos Sequeira teve receio de ser novamente preso e partiu para Paris. Ali, privado de recursos financeiros, trabalhou incansavelmente, tendo exposto no Louvre A Morte de Camões (quadro desaparecido no Brasil), obra que lhe mereceu a medalha de ouro e a colocação entre os pintores românticos mais representativos, ao lado de Eugène Delacroix.
Em finais de 1926 viajou para Roma, onde viveu o resto da sua vida e pintou, pelo menos, 14 quadros mundialmente famosos.
Em Portugal - Dicionário Histórico, encontra-se um extensa entrada sobe Domingos Sequeira.
sexta-feira, março 09, 2007
Voto digital

Fala-se muito, a nível mundial, da votação digital.
Equacionam-se temores vários de que a tecnologia a utilizar possa permitir fraudes. E, entretanto, vai-se gastando papel às toneladas, mantendo eleitores fantasma, permitindo “chapeladas”, impedindo o voto de milhares de cidadãos que estão longe da sua assembleia de voto.
Por cá, houve uma Unidade de Missão a estudar o assunto, mas nada se sabe das conclusões. E, afinal, nós podíamos estar na vanguarda do processo. Com o Cartão Único, que engloba, entre outros, o Bilhete de Identidade e o Cartão de Eleitor, a ideia fantástica deste cartune do António Santos e alguma tecnologia do CSI, o problema estava resolvido. Aparelhos portáteis nos locais de voto (para quem não tiver computador dotado dessa tecnologia) com internete sem fios, capazes de lerem a impressão digital, um clique no monitor para aparecer a lista das opções a votos e um segundo clique (aqui sem leitura da impressão digital, pelo facto de o voto ser secreto) para validar o voto. Tudo isto sem necessidade de cada eleitor se apresentar numa determinada assembleia, sem montanhas de papel e com muito menos pessoas nas assembleias de voto, pois apenas seria necessário alguém para limpar (e tomar conta de) os monitores de forma adequada, de vez em quando. Claro que a partir daí, à mesma impressão digital seria barrada a possibilidade de novo voto. Até poderia colocar-se um aviso sonoro de “tentativa de fraude”, para envergonhar os mais atrevidos. E no instante do fecho das “urnas”, comandado a nível nacional, o imediato apuramento dos resultados. Assim, as televisões poderiam dar bons espectáculos, em lugar daquela pastelada habitual em noite de eleições.
Utópico? Provavelmente; mas se uma impressão digital serve para condenar alguém, porque não servirá para exercer o direito de voto? Afinal, o futuro não é já amanhã?
Fala-se muito, a nível mundial, da votação digital.
Equacionam-se temores vários de que a tecnologia a utilizar possa permitir fraudes. E, entretanto, vai-se gastando papel às toneladas, mantendo eleitores fantasma, permitindo “chapeladas”, impedindo o voto de milhares de cidadãos que estão longe da sua assembleia de voto.
Por cá, houve uma Unidade de Missão a estudar o assunto, mas nada se sabe das conclusões. E, afinal, nós podíamos estar na vanguarda do processo. Com o Cartão Único, que engloba, entre outros, o Bilhete de Identidade e o Cartão de Eleitor, a ideia fantástica deste cartune do António Santos e alguma tecnologia do CSI, o problema estava resolvido. Aparelhos portáteis nos locais de voto (para quem não tiver computador dotado dessa tecnologia) com internete sem fios, capazes de lerem a impressão digital, um clique no monitor para aparecer a lista das opções a votos e um segundo clique (aqui sem leitura da impressão digital, pelo facto de o voto ser secreto) para validar o voto. Tudo isto sem necessidade de cada eleitor se apresentar numa determinada assembleia, sem montanhas de papel e com muito menos pessoas nas assembleias de voto, pois apenas seria necessário alguém para limpar (e tomar conta de) os monitores de forma adequada, de vez em quando. Claro que a partir daí, à mesma impressão digital seria barrada a possibilidade de novo voto. Até poderia colocar-se um aviso sonoro de “tentativa de fraude”, para envergonhar os mais atrevidos. E no instante do fecho das “urnas”, comandado a nível nacional, o imediato apuramento dos resultados. Assim, as televisões poderiam dar bons espectáculos, em lugar daquela pastelada habitual em noite de eleições.
Utópico? Provavelmente; mas se uma impressão digital serve para condenar alguém, porque não servirá para exercer o direito de voto? Afinal, o futuro não é já amanhã?
quinta-feira, março 08, 2007
Dia Internacional da Mulher
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Repete-se, ano após ano, que este dia surgiu na sequência de uma greve, realizada em 8 de Março de 1857, por trabalhadoras de uma fábrica têxtil, em Nova Iorque, na sequência da qual as grevistas teriam sido trancadas no interior da fábrica pelos patrões e pela polícia, que ateou fogo ao prédio, matando 129 trabalhadoras.
Embora esta história de luta, sacrifício e morte assente bem ao dia como um mito, seja repetida anualmente por milhares de órgãos de informação e conste mesmo das várias versões da Wikipedia, parece não ter qualquer rigor histórico.
Na verdade, em 1982, duas investigadoras francesas, Liliane Kendel e Françoise Picq, demonstraram que tal greve não vem noticiada em qualquer jornal norte-americano da época e simplesmente não existiu. Pela minha parte, investiguei os arquivos do The New York Times, jornal que certamente a teria noticiado se tivesse existido e não encontrei qualquer indício. O próprio sítio do Dia Internacional da Mulher também não refere essa greve e o sítio da ONU dedicado ao assunto idem aspas.
O que está provado é que em 1908 cerca de 15.000 mulheres marcharam em Nova Iorque pedindo a redução das horas de trabalho, melhores salários e direito de voto e em 1909, na sequência de uma declaração do Partido Socialista da América, comemorou-se o primeiro Dia Internacional da Mulher nos Estados Unidos, no dia 28 de Fevereiro.
Em 1910, na primeira conferência internacional sobre a mulher realizada sob a égide da Internacional Socialista em Copenhaga, foi aprovada, por mais de 100 mulheres de 17 países, a instituição de um Dia Internacional da Mulher, embora sem data fixa. O dia 8 de Março surgiu já depois da Revolução de Outubro, quando Alexandra Kollontai convenceu Lenine a torná-lo num dia oficial. A data foi escolhida porque foi no dia 23 de Fevereiro de 1917 (8 de Março no nosso calendário) que se verificou uma grande manifestação de mulheres russas em São Petersburgo que reclamaram pão e o regresso dos soldados.
O dia 8 de Março como dia dedicado à mulher somente tomou a dimensão que tem após a II Guerra Mundial. A partir de 1960 assume a dimensão de grande acontecimento internacional e em 1975 as próprias Nações Unidas decidiram consagrá-lo como o Dia Internacional da Mulher.

Uma rosa "Caliente" para a minha mulher

Uma rosa "Mon Cheri" para a minha filha

Uma rosa "We Salute You" para as minhas visitantes

Uma rosa "Black Lady" para as restantes amigas
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Repete-se, ano após ano, que este dia surgiu na sequência de uma greve, realizada em 8 de Março de 1857, por trabalhadoras de uma fábrica têxtil, em Nova Iorque, na sequência da qual as grevistas teriam sido trancadas no interior da fábrica pelos patrões e pela polícia, que ateou fogo ao prédio, matando 129 trabalhadoras.
Embora esta história de luta, sacrifício e morte assente bem ao dia como um mito, seja repetida anualmente por milhares de órgãos de informação e conste mesmo das várias versões da Wikipedia, parece não ter qualquer rigor histórico.
Na verdade, em 1982, duas investigadoras francesas, Liliane Kendel e Françoise Picq, demonstraram que tal greve não vem noticiada em qualquer jornal norte-americano da época e simplesmente não existiu. Pela minha parte, investiguei os arquivos do The New York Times, jornal que certamente a teria noticiado se tivesse existido e não encontrei qualquer indício. O próprio sítio do Dia Internacional da Mulher também não refere essa greve e o sítio da ONU dedicado ao assunto idem aspas.
O que está provado é que em 1908 cerca de 15.000 mulheres marcharam em Nova Iorque pedindo a redução das horas de trabalho, melhores salários e direito de voto e em 1909, na sequência de uma declaração do Partido Socialista da América, comemorou-se o primeiro Dia Internacional da Mulher nos Estados Unidos, no dia 28 de Fevereiro.
Em 1910, na primeira conferência internacional sobre a mulher realizada sob a égide da Internacional Socialista em Copenhaga, foi aprovada, por mais de 100 mulheres de 17 países, a instituição de um Dia Internacional da Mulher, embora sem data fixa. O dia 8 de Março surgiu já depois da Revolução de Outubro, quando Alexandra Kollontai convenceu Lenine a torná-lo num dia oficial. A data foi escolhida porque foi no dia 23 de Fevereiro de 1917 (8 de Março no nosso calendário) que se verificou uma grande manifestação de mulheres russas em São Petersburgo que reclamaram pão e o regresso dos soldados.
O dia 8 de Março como dia dedicado à mulher somente tomou a dimensão que tem após a II Guerra Mundial. A partir de 1960 assume a dimensão de grande acontecimento internacional e em 1975 as próprias Nações Unidas decidiram consagrá-lo como o Dia Internacional da Mulher.

Uma rosa "Caliente" para a minha mulher

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quarta-feira, março 07, 2007
Aristóteles
Há 2329 anos, no dia 7 de Março de 322 A.C., morreu Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos, se não mesmo o maior.
Nascido em Estagira, na Macedónia, em 384 A.C., viajou para Atenas em 367 A.C., tornando-se discípulo de Platão e membro da sua Academia durante 20 anos.
Com a morte de Platão, em 347 A.C. abandonou Atenas pelo perído de 13 anos, durante alguns dos quais foi tutor de Alexandre, o Grande.
Em 334 A.C. regressou a Atenas e fundou a sua própria Academia, o Liceu, onde permaneceu até à sua morte.
Aristóteles é considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental, tendo dado uma contribuição inigualável para o pensamento humano em áreas tão diferentes como a ética, a política, a física, a metafísica, a lógica, a psicologia, a poesia, a retórica, a zoologia, a biologia, a história natural e tantas outras.
O texto abaixo reproduzido, que faz parte da sua principal obra sobre ética, mantém-se perfeitamente actual:
O que se irrita justificadamente nas situações em que se deve irritar ou com as pessoas com as quais se deve irritar, e ainda da maneira como deve ser, quando deve ser e durante o tempo em que deve ser, é geralmente louvado. Quem assim for é gentil, se é que a gentileza é uma disposição louvada. Porque o gentil quer permanecer imperturbável e não quer ser levado pela emoção, e apenas o sentido orientador lhe poderá prescrever as situações em que deve irritar-se e durante quanto tempo. Ou seja, o gentil parece pecar mais por defeito, porque não é do tipo vingativo mas mais do género que perdoa.
O defeito, seja uma certa fleuma seja o que for, é repreendido. Os que não se irritam quando têm motivo parecem parvos, o mesmo quando não se irritam de modo correcto, nem quando devem, nem com aqueles que devem. Parece até que não sentem a injúria ou não sofrem com ela. Mas se não se irritarem não conseguem defender-se, e aguentar um insulto ou tolerar os insultos feitos a terceiros é uma característica de subserviência.
Há excessos a respeito de todos os elementos circunstanciais envolvidos num acesso de ira (seja por se dirigir contra as pessoas indevidas, seja por motivos falsos, seja por ser de mais, ou por surgir rapidamente ou por durar tempo de mais), mas certamente que nem todos os elementos circunstanciais estão feridos de um carácter indevido ao mesmo tempo e na mesma pessoa. Não parece que tal possa acontecer. Na verdade, o mal destrói-se a si próprio, e se for integral, torna-se insuportável.
Os irascíveis depressa se irritam com aqueles que não devem e pelos motivos indevidos, ou então mais do que devem, mas, por outro lado, também, depressa deixam de se comportar assim. E é o melhor que têm na sua disposição de carácter. Quer dizer, ficam neste estado porque não conseguem conter a fúria e por precipitação dão logo, às claras, uma resposta de retaliação. Mas depois sossegam.
Os que são extremamente susceptíveis depressa afinam. Irritam-se por tudo e por nada. É daí também que vem o seu nome. Os que são amargos por natureza dificilmente chegam a reconciliações, ficam zangados durante muito tempo e guardam ressentimento. Só ficam descansados quando tiverem retaliado. A vingança faz cessar a ira, pois faz nascer dentro deles um doce prazer, ao expulsar a amargura do sofrimento. Pois, se não conseguirem vingar-se, vivem como que a carregar um fardo pesado. Na verdade, é porque esta maneira de ser não se manifesta facilmente, que ninguém consegue demovê-los dos seus intentos vingativos, e é preciso muito tempo para se conseguir digerir a ira dentro de si. É assim pois que pessoas deste género são as mais inoportunas quer tanto para os seus melhores amigos quanto para os próprios.
Dizemos, então, que têm um feitio difícil aqueles que se zangam com as coisas que não devem, ou mais do que devem ou ainda durante mais tempo do que devem; estes não chegam a nenhuma reconciliação, sem terem tido primeiro uma oportunidade de se vingarem ou aplicado um castigo.
Aristóteles, in 'Ética a Nicómaco'
Texto de Aritóteles retirado do Citador e imagem retirada da versão espanhola da Wikipedia sem indicação da autoria
Há 2329 anos, no dia 7 de Março de 322 A.C., morreu Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos, se não mesmo o maior.Nascido em Estagira, na Macedónia, em 384 A.C., viajou para Atenas em 367 A.C., tornando-se discípulo de Platão e membro da sua Academia durante 20 anos.
Com a morte de Platão, em 347 A.C. abandonou Atenas pelo perído de 13 anos, durante alguns dos quais foi tutor de Alexandre, o Grande.
Em 334 A.C. regressou a Atenas e fundou a sua própria Academia, o Liceu, onde permaneceu até à sua morte.
Aristóteles é considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental, tendo dado uma contribuição inigualável para o pensamento humano em áreas tão diferentes como a ética, a política, a física, a metafísica, a lógica, a psicologia, a poesia, a retórica, a zoologia, a biologia, a história natural e tantas outras.
O texto abaixo reproduzido, que faz parte da sua principal obra sobre ética, mantém-se perfeitamente actual:
O que se irrita justificadamente nas situações em que se deve irritar ou com as pessoas com as quais se deve irritar, e ainda da maneira como deve ser, quando deve ser e durante o tempo em que deve ser, é geralmente louvado. Quem assim for é gentil, se é que a gentileza é uma disposição louvada. Porque o gentil quer permanecer imperturbável e não quer ser levado pela emoção, e apenas o sentido orientador lhe poderá prescrever as situações em que deve irritar-se e durante quanto tempo. Ou seja, o gentil parece pecar mais por defeito, porque não é do tipo vingativo mas mais do género que perdoa.
O defeito, seja uma certa fleuma seja o que for, é repreendido. Os que não se irritam quando têm motivo parecem parvos, o mesmo quando não se irritam de modo correcto, nem quando devem, nem com aqueles que devem. Parece até que não sentem a injúria ou não sofrem com ela. Mas se não se irritarem não conseguem defender-se, e aguentar um insulto ou tolerar os insultos feitos a terceiros é uma característica de subserviência.
Há excessos a respeito de todos os elementos circunstanciais envolvidos num acesso de ira (seja por se dirigir contra as pessoas indevidas, seja por motivos falsos, seja por ser de mais, ou por surgir rapidamente ou por durar tempo de mais), mas certamente que nem todos os elementos circunstanciais estão feridos de um carácter indevido ao mesmo tempo e na mesma pessoa. Não parece que tal possa acontecer. Na verdade, o mal destrói-se a si próprio, e se for integral, torna-se insuportável.
Os irascíveis depressa se irritam com aqueles que não devem e pelos motivos indevidos, ou então mais do que devem, mas, por outro lado, também, depressa deixam de se comportar assim. E é o melhor que têm na sua disposição de carácter. Quer dizer, ficam neste estado porque não conseguem conter a fúria e por precipitação dão logo, às claras, uma resposta de retaliação. Mas depois sossegam.
Os que são extremamente susceptíveis depressa afinam. Irritam-se por tudo e por nada. É daí também que vem o seu nome. Os que são amargos por natureza dificilmente chegam a reconciliações, ficam zangados durante muito tempo e guardam ressentimento. Só ficam descansados quando tiverem retaliado. A vingança faz cessar a ira, pois faz nascer dentro deles um doce prazer, ao expulsar a amargura do sofrimento. Pois, se não conseguirem vingar-se, vivem como que a carregar um fardo pesado. Na verdade, é porque esta maneira de ser não se manifesta facilmente, que ninguém consegue demovê-los dos seus intentos vingativos, e é preciso muito tempo para se conseguir digerir a ira dentro de si. É assim pois que pessoas deste género são as mais inoportunas quer tanto para os seus melhores amigos quanto para os próprios.
Dizemos, então, que têm um feitio difícil aqueles que se zangam com as coisas que não devem, ou mais do que devem ou ainda durante mais tempo do que devem; estes não chegam a nenhuma reconciliação, sem terem tido primeiro uma oportunidade de se vingarem ou aplicado um castigo.
Aristóteles, in 'Ética a Nicómaco'
Texto de Aritóteles retirado do Citador e imagem retirada da versão espanhola da Wikipedia sem indicação da autoria
terça-feira, março 06, 2007
Frágil
No passado Domingo, dia 4, mão amiga fez-me chegar, por correio electrónico, um bonito texto, com a indicação de que a sua autora era professora e que o mesmo seria publicado no número 288 do "Correio da Educação", de 5 de Março. Como esta publicação já está acessível a quem a quiser consultar, tomo a liberdade de o afixar aqui.
Apetecia-me repetir: estou frágil, sinto-me frágil… embora não queira ficar mais frágil. E muito menos dar ar de frágil. Estou frágil, porque deparo, em aulas de substituição, com alguns alunos que preferiam não fazer nada (e em alguns casos era bem melhor ficarem no recreio para libertarem energias) e tenho de arranjar forças para os convencer do contrário. Frágil, porque não sei se devo, se posso, se quero concorrer a professor titular. Porque já desempenhei diferentes cargos na escola. Porque quero dar aulas. Porque não sei quem vai avaliar. Porque muitas vezes a palavra oportuno é uma versão "light" do oportunismo. Porque compreendo os colegas com vontade e direito de se afirmarem na carreira, e que não sabem em que patamar vão ficar e se quem deveria seguir pela escada vai subir mais depressa de elevador. Porque, como também diz a cantiga, é triste a sensação de ficar a perder. Frágil, porque nunca fui de faltar e sempre ouvi que os professores eram todos uns faltosos. Frágil, porque, como os programas e os tempos mudam, continuo a sentir necessidade de estudar, de preparar matérias, de programar actividades, de corrigir trabalhos e, muitas vezes, isso é esquecido. Esquece-o quem determina e esquece-o a sociedade quando se espanta pelo facto de o professor estar ocupado fora das aulas. Como se todos pensassem que o professor tem o dom de chegar à sala de aula e abrir uma torneira donde jorra trabalho feito. Ou, então, que é um computador que armazena e actualiza dados automaticamente. Estou frágil, porque gosto dos meus alunos, mas fico triste perante a displicência. Vejo-lhes no rosto (não sei ler na mão, embora às vezes desse jeito) que coabitam com muitas fragilidades: familiares, educativas, sociais, económicas… Sinto-me frágil, quando alguns alunos desperdiçam fortes capacidades enquanto outros, que nada esbanjam, infelizmente não as têm. Ou quando estudam afincadamente e com sucesso, tendo ainda tempo para participar activa e alegremente em actividades extra-curriculares e, mesmo assim, são incluídos no grupo dos jovens da cauda da Europa, para quem a escola não representa bem-estar. Frágil, quando alguns alunos dizem que o Padre António Vieira viveu no século XIX, Almeida Garrett, no século XV… E voltamos atrás. E repito. E lemos textos. E vemos filmes. E fazemos visitas de estudo. E falamos. E escrevemos. E também nos rimos. E ligamos saberes do passado a realidades actuais para que o fio condutor seja mais longo e mais macio. E, mesmo assim: ai professora, pois é, já não me lembrava… Mas são eles que utilizam, nas aulas, o carrinho multimédia sem engano e com precisão. Sabem o significado de cada fio, de cada tecla, de cada botão…Sinto-me frágil, porque é grande o cansaço à nossa volta. E irritabilidade. E vulnerabilidade. E mistério perante o enigma que é o futuro. Futuro que está a chegar e não se sabe como é nem como vem. Frágil, porque tudo é frágil, embora isso seja cada vez mais natural. Preciso de estímulo, de espaço, de tempo, de força… Ou melhor, precisamos. Para vencer toda esta fragilidade. Esta forte fragilidade.
Dolores Garrido
Vieira da Silva:
Há 15 anos, no dia 6 de Março de 1992, a cultura portuguesa ficou mais pobre com a morte, em Paris, de Maria Helena Vieira da Silva.
Nascida em Lisboa em 1908, Vieira da Silva foi para Paris em 1928, onde conheceu Árpád Szenes, com quem veio a casar em 1930 perdendo, assim, a nacionalidade portuguesa, embora nunca tenha deixado de vir a Portugal, onde tinha um atelier.
Em 1939, após o começo da segunda guerra mundial, o casal resolveu regressar a Portugal e a Lisboa, onde se preparava a Exposição do Mundo Português. Durante a estadia no País, a pintora, já então uma artista conhecida, decidiu pedir que lhe fosse devolvida a nacionalidade portuguesa. Mas a tacanhez do ditador de turno não lhe permitia ligar às artes. Casada com um húngaro, para mais judeu? A nacionalidade foi-lhe recusada e um quadro que lhe tinha sido encomendado pelo Estado para a Exposição também não foi aceite. O país onde nasceu não a quis.

Decidiu partir com o marido para o Brasil, onde a vida não foi fácil nos primeiros tempos. Aí recebia as notícias da guerra na Europa e pintou o quadro ao lado, a que deu o nome de “O Desastre” . Em 1945, já com nome feito no Brasil e com uma exposição em Nova Iorque, regressou a Paris e tornou-se reconhecida internacionalmente. Em 1956 foi naturalizada francesa, por iniciativa do próprio Estado francês.
Em 1983 aceitou o convite para realizar um painel de azulejos para uma nova estação do metropolitano de Lisboa ( Cidade Universitária), a que se seguiria um outro para a estação do Rato. Ainda durante a sua vida (1990) teve tempo para ver ser criada, em Lisboa, a Fundação Árpád Szenes – Vieira da Silva.
Há 15 anos, no dia 6 de Março de 1992, a cultura portuguesa ficou mais pobre com a morte, em Paris, de Maria Helena Vieira da Silva.
Nascida em Lisboa em 1908, Vieira da Silva foi para Paris em 1928, onde conheceu Árpád Szenes, com quem veio a casar em 1930 perdendo, assim, a nacionalidade portuguesa, embora nunca tenha deixado de vir a Portugal, onde tinha um atelier.
Em 1939, após o começo da segunda guerra mundial, o casal resolveu regressar a Portugal e a Lisboa, onde se preparava a Exposição do Mundo Português. Durante a estadia no País, a pintora, já então uma artista conhecida, decidiu pedir que lhe fosse devolvida a nacionalidade portuguesa. Mas a tacanhez do ditador de turno não lhe permitia ligar às artes. Casada com um húngaro, para mais judeu? A nacionalidade foi-lhe recusada e um quadro que lhe tinha sido encomendado pelo Estado para a Exposição também não foi aceite. O país onde nasceu não a quis.

Decidiu partir com o marido para o Brasil, onde a vida não foi fácil nos primeiros tempos. Aí recebia as notícias da guerra na Europa e pintou o quadro ao lado, a que deu o nome de “O Desastre” . Em 1945, já com nome feito no Brasil e com uma exposição em Nova Iorque, regressou a Paris e tornou-se reconhecida internacionalmente. Em 1956 foi naturalizada francesa, por iniciativa do próprio Estado francês.
Em 1983 aceitou o convite para realizar um painel de azulejos para uma nova estação do metropolitano de Lisboa ( Cidade Universitária), a que se seguiria um outro para a estação do Rato. Ainda durante a sua vida (1990) teve tempo para ver ser criada, em Lisboa, a Fundação Árpád Szenes – Vieira da Silva.
segunda-feira, março 05, 2007
Declaração de Bruxelas
Eu concordo plenamente com esta declaração e já a assinei. Leia e, se assim o entender, assine e divulgue.
Obrigatório ler

Desidério Murcho (n. 1965) é autor de Essencialismo Naturalizado (Angelus Novus, 2002), A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Plátano, 2002) e O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003). Organizou, com Aires Almeida, a antologia Textos e Problemas da Filosofia (Didáctica, no prelo) e, com João Branquinho, a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos (2.ª edição revista e aumentada, Quasi, no prelo). É licenciado e mestre em Filosofia (Universidade de Lisboa) e prepara actualmente um doutoramento (King's College London) na mesma área, onde é também tutor em Lógica Filosófica, Ética e Filosofia da Religião e orientador de pós-graduados. Colunista do suplemento "Mil Folhas" do jornal Público, é director da maior revista virtual portuguesa de filosofia: Crítica . É formador de professores de filosofia do ensino secundário.

O seu último livro, lançado em Janeiro de 2006 pela Quasi, é o primeiro de uma série que o filósofo dirige naquela editora.
Em Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade o leitor é convidado a visitar alguns problemas centrais de diferentes disciplinas da filosofia.
Incluindo temas como o sentido da vida, o cepticismo sobre o mundo exterior, a natureza da ciência, a importância da crítica e da argumentação para a democracia, o vegetarianismo e a protecção dos animais não humanos, assim como o legado de Bertrand Russell e a natureza do tempo, trata-se de uma leitura fascinante para o grande público, sendo também esclarecedora para professores e estudantes.
Mais informação sobre esta obra, absolutamente a não perder, pode ser encontrada na Crítica.

Desidério Murcho (n. 1965) é autor de Essencialismo Naturalizado (Angelus Novus, 2002), A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Plátano, 2002) e O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003). Organizou, com Aires Almeida, a antologia Textos e Problemas da Filosofia (Didáctica, no prelo) e, com João Branquinho, a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos (2.ª edição revista e aumentada, Quasi, no prelo). É licenciado e mestre em Filosofia (Universidade de Lisboa) e prepara actualmente um doutoramento (King's College London) na mesma área, onde é também tutor em Lógica Filosófica, Ética e Filosofia da Religião e orientador de pós-graduados. Colunista do suplemento "Mil Folhas" do jornal Público, é director da maior revista virtual portuguesa de filosofia: Crítica . É formador de professores de filosofia do ensino secundário.

O seu último livro, lançado em Janeiro de 2006 pela Quasi, é o primeiro de uma série que o filósofo dirige naquela editora.
Em Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade o leitor é convidado a visitar alguns problemas centrais de diferentes disciplinas da filosofia.
Incluindo temas como o sentido da vida, o cepticismo sobre o mundo exterior, a natureza da ciência, a importância da crítica e da argumentação para a democracia, o vegetarianismo e a protecção dos animais não humanos, assim como o legado de Bertrand Russell e a natureza do tempo, trata-se de uma leitura fascinante para o grande público, sendo também esclarecedora para professores e estudantes.
Mais informação sobre esta obra, absolutamente a não perder, pode ser encontrada na Crítica.
domingo, março 04, 2007
O sepulcro
Jesus volta a estar na berlinda. Agora é um documentário cinematográfico, assinado pelo mesmo realizador de Titanic, que tenta pôr em questão o que há de verdadeiramente essencial no Cristianismo, a ressurreição de Jesus. O argumento de peso a favor desta hipótese mirabolante, apresentada com todo o ar de tese, pelo menos no pensar-dizer da publicidade mundial que está a ser feita ao documentário é este: foi encontrado em Jerusalém um túmulo do século primeiro com restos de humanos que podem muito bem ser duma família judia. Os nomes inscritos no túmulo constam do Novo Testamento e remetem-nos para a possibilidade de serem da família de Jesus, inclusive, de um filho de Jesus e de Maria Madalena, chamado Judas.
É logo de suspeitar que o “picante” em toda esta estória não residirá tanto no "facto" ressurreição de Jesus poder ser definitivamente posto em causa, ao jeito de quem diz: se existe um túmulo com restos mortais de Jesus e familiares de Jesus, isso é a prova provada de que Jesus, afinal, não ressuscitou. (Vejam só que argumento mais bobo, este, como se a ressurreição de Jesus pudesse ser entendida como a simples reanimação do cadáver de Jesus, quando ela o que pretende é revelar/anunciar uma dimensão totalmente outra de Jesus crucificado, que o Templo e o Império que o mataram nem sequer são capazes de suspeitar, muito menos reconhecer). O “picante” em toda esta estória estará em querer saber se Jesus andou ou não perdido de amores com Maria Madalena, se ambos chegaram a casar e se, inclusive, tiveram um filho. O Código Da Vinci foi, se bem se lembram, o maior divulgador desta delirante hipótese, o que garantiu ao seu hábil inventor, Dan Brown, milhões e milhões de dólares de lucro e deixou um enorme amargo de boca nos milhões de incautos em todo o mundo ocidental que caíram no engodo e correram a comprar e a ler o seu romance como se de um livro de história se tratasse, e só depois é que se deram conta de que, afinal, haviam sido levados e bem levados, porque tudo aquilo não passa de um romance, uma obra de ficção. Viram-se então na desconfortada situação dos hilariantes “apanhados” televisivos. Só que aqui com graves danos morais e emocionais para as inúmeras vítimas desta sofisticada versão século XXI do conto do vigário.
Este testemunho do Padre Mário de Macieira da Lixa merece ser lido por todos, crentes ou não crentes. Devido à extenção do documento, recomendo a sua leitura no Diário Aberto do Padre Mário.
sábado, março 03, 2007
Aprender do vôo das águias
Há uma tradição transcultural que apresenta o comportamento de certos animais ou aves como exemplar para os comportamentos humanos. Nisso vai intuição antiga que a ciência dos comportamentos comprovou: existem em nós traços herdados de animais ou aves, pois, embora diferentes, formamos com eles uma única comunidade de vida.
Observemos como as águias voam. Elas voam de forma toda própria. Usam a própria força apenas para iniciar o vôo. Batem as asas e forcejam para ganhar certa altura. Uma vez alcançada, aproveitam a força dos ventos e se deixam carregar por eles. Possuem um instinto muito apurado para captar correntes de ar e sabem tirar proveito delas. Se há apenas brisa leve, elas flutuam suavemente. Se irrompem ventos fortes, elas usam da força deles para voar bem alto e deslocar-se com grande velocidade. Apenas manejando à esquerda e à direita suas enormes asas que podem chegar a mais de dois metros de diâmetro.
Bem diferentes são as galinhas. Quando estão excitadas ou se põem a correr, batem muito as asas, fazem grande barulho mas voam apenas alguns metros.
Apliquemos a sabedoria das águias aos nossos comportamentos. Nós não sabemos entrar em sintonia com a natureza. De saída, rompemos com ela em nosso afã de dominá-la com violência e colocá-la a nosso serviço. Não nos harmonizamos com seus ritmos. Ao contrário, ela tem que obedecer aos ritmos que lhe impomos. Este paradigma está na base de nossa civilização hoje globalizada. Trouxe-nos incontáveis benefícios, mas nos exilou da Terra e nos fez inimigos da natureza. Este projeto de dominação, entretanto, sem limites internos, pode tornar-se altamente perigoso. Ele tem depredado a infra-estrutura da vida a ponto de pôr em risco o futuro da biosfera e da espécie humana.
Por isso, mais e mais pessoas hoje procuram uma nova aliança com a natureza. Assim nasceu a agroecologia que implica produzir interagindo respeitosamente com ela. É ilusório um crescimento econômico à la agronegócio que mata e desmata. Importa conhecer os ritmos da floresta amazônica e utilizar tecnologias adequadas a esses ritmos. Só assim se preserva a natureza e se colabora com ela para que continue a nos dar seus bons frutos. Dito de outro modo: importa moderar a lógica de nossa vontade e fazê-la combinar-se com a lógica objetiva da natureza, a exemplo da águia em seu vôo.
Nosso comportamento é construtivo quando nasce do equilíbrio entre o nosso desejo e o desejo inscrito na natureza. Sábia é a pessoa que capta as duas lógicas, a das coisas e a do eu, se harmoniza com elas e as faz convergir. Imatura é a pessoa e atabalhoado é seu comportamento quando só escuta o próprio eu e a toda hora diz: "eu sei, eu quero, eu decido, eu faço" não escutando a voz da natureza como se ela nem existisse. A tradição do Tao ensina que a pessoa só se sente plena e realizada quando sua obra imita o vôo das águias: trabalha junto com a natureza e jamais contra ela. Caso contrário, sempre há uma réstia de vazio e um sabor amargo de implenitude.
Precisamos desinflar o eu e enraizá-lo na natureza. O eu e a natureza formam um todo dinâmico sempre em busca de um difícil equilíbrio. Ambos, cada qual com sua singularidade, devem permanentemente atuar juntos como garantia de uma vida equilibrada e discretamente feliz.
Leonardo Boff
Publicado no site do autor em 4/03/2005 e aqui afixado com a sua autorização
sexta-feira, março 02, 2007
Happy Birthday
Faz hoje 30 anos o líder de uma das minhas bandas favoritas - Chris Martin dos Coldplay . Espero que passe um dia feliz, na companhia da sua bonita mulher , da Apple e do Moises. E que traga nova criatividade, pois o X&Y já tem quase 2 anos.
Lamentavelmente, não sei como colocar audível um dos discos dos Colplay. Talvez algum(a) samaritano(a) queira deixar uma dica na caixa de comentários. Fico-me, pois, pela letra de uma canção:
You Only Live Twice
You only live twice or so it seems,
One life for yourself and one for your dreams
You drift through the years and life seems tame,
Till one dream appears and love is its name.
And love is a stranger who'll beckon you on,
Don't think of the danger or the stranger is gone.
This dream is for you, so pay the price.
Make one dream come true, you only live twice.
And love is a stranger who'll beckon you on,
Don't think of the danger or the stranger is gone.
This dream is for you, so pay the price.
Make one dream come true, you only live twice.
Faz hoje 30 anos o líder de uma das minhas bandas favoritas - Chris Martin dos Coldplay . Espero que passe um dia feliz, na companhia da sua bonita mulher , da Apple e do Moises. E que traga nova criatividade, pois o X&Y já tem quase 2 anos.Lamentavelmente, não sei como colocar audível um dos discos dos Colplay. Talvez algum(a) samaritano(a) queira deixar uma dica na caixa de comentários. Fico-me, pois, pela letra de uma canção:
You Only Live Twice
You only live twice or so it seems,
One life for yourself and one for your dreams
You drift through the years and life seems tame,
Till one dream appears and love is its name.
And love is a stranger who'll beckon you on,
Don't think of the danger or the stranger is gone.
This dream is for you, so pay the price.
Make one dream come true, you only live twice.
And love is a stranger who'll beckon you on,
Don't think of the danger or the stranger is gone.
This dream is for you, so pay the price.
Make one dream come true, you only live twice.
Luís de Montalvor
Luís de Montalvor é o pseudónimo do poeta português Luís da Silva Ramos. Nasceu em S. Vicente, Cabo Verde, a 31 de Janeiro de 1891 e faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1947. Com 2 meses de idade veio viver para Lisboa, onde começou a escrever em vários jornais ainda muito novo. Quando foi residir para o Brasil foi secretário de Bernardino Machado (1912-1915). Regressou a Lisboa, com Ronald de Carvalho e fundou a revista Orpheu em 1915. Lançou ainda a revista Centauro (1916) e a editorial Ática, revelando-se um inovador nas artes gráficas.
Pelo sexagésimo aniversário da sua morte, “pedi emprestado” ao Insónia este poema:
ENTARDECER
Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!
Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar
–E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!
E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,
Penumbra de segredos!
Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!
E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…
Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…
Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.
Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!
Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.
A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!
quinta-feira, março 01, 2007
Vergílio Ferreira
"Da minha língua vê-se o mar"

No 11º aniversário do seu falecimento
"Da minha língua vê-se o mar"

Estou só - estás só. Não penses. Não fales. És em ti apenas o máximo de ti. Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede.
em Para Sempre
em Para Sempre
No 11º aniversário do seu falecimento
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