thesoundofsilence

How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Um Visitante

Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

Eunice Arruda*

*poetisa brasileira

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Desafio















Recebi um desafio da amiga Sofia que consiste em completar as 5 frases seguintes:

Eu já tive...
Eu nunca...
Eu sei...
Eu quero...

Eu sonho...

Eu já tive o objectivo de ajudar a deixar aos vindouros um país melhor do que aquele que me calhou em sorte. Eu sei que não é fácil e, por vezes, tenho vontade de desistir, mas vou continuar a lutar por isso, porque eu nunca desisti facilmente de lutar por algo que considero ser justo. Eu quero manter acesa esta chama pois, tal como o grande Rómulo de Carvalho, eu acredito que o sonho comanda a vida.

E endosso a brincadeira aos seguintes blogistas e a todos os outros que a quiserem continuar:

O Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

As três pessoas       

A gramática pode ser útil para a compreensão da condição humana, se a ultrapassarmos, se soubermos pensar para além das suas regras e classificações, tornando-a inspiradora.  


Quando conjugamos os verbos, conjugamos de acordo com alguns parâmetros. Um deles são as pessoas. A primeira pessoa do singular, a primeira do plural, e a segunda do singular e a do plural, e a terceira do singular e a do plural. 


Viajar na terceira pessoa - ele viajou, eles viajaram, eles conheceram Fortaleza, Paris, Cairo, Roma, Tóquio, eles deram a volta ao mundo. Tais viagens estão distantes de mim, distantes de nós. Podemos ler os relatos, imaginar como foi ou deixou de ser, pouco mais do que isso.  


Viajar na segunda pessoa do singular - tu viajaste, você viajava - inclui o diálogo, as perguntas, os detalhes, as curiosidades, o olho no olho, em que vejo a sua viagem, em que vejo indiretamente o que você viu, o que você viveu em outras paragens.  


Viajar em primeira pessoa - eu viajei, nós viajamos - tocar com os próprios pés outros chãos da mesma terra, ouvir com os próprios ouvidos outros idiomas, outras músicas, cheirar cheiros diferentes com o próprio nariz, este delicado órgão do conhecimento.  


Aprender na terceira pessoa. É belo ver os outros aprendendo, renomados cientistas, sábios de cabelos brancos e olhos serenos, admiráveis pesquisadores.  


Aprender na segunda pessoa pressupõe a relação, conduz ao encontro. Se você aprendeu, talvez eu possa aprender com você. Ou eu mesmo lhe ensinei algo sem saber. Quem sabe aprender aprende de tudo.  


Aprender em primeira pessoa, prazer pessoal, insubstituível. Quando aprendo, eu não me arrependo, e me prendo a novas liberdades, desencadeio cadeados, destravo a alma, desprendo-me de mim mesmo.  


Amar na terceira pessoa - ele ama, eles amaram, eles se amam. Este amor de telenovela, romance de outros personagens, histórias com final feliz ou trágico, amor dos outros, dicionário amoroso que posso apenas consultar.  


Amar na segunda pessoa, amar o outro, amar-te aqui e agora, ou na China, ou em Marte. Amar-te até morrer. Amar-te com engenho e arte.  


Amar na segunda pessoa já é amar em primeira pessoa. Amar no presente, no passado, no futuro. Amar imperativo. Amar em cada artigo. Amar em vocativo. Amar o amor em sua própria morfologia. Amar substantivamente. Amar embora, contudo, quando, porque...  


Amar, enfim, com toda a riqueza das conjunções.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

Terça-feira, Novembro 17, 2009

O segundo ovo de Colombo

















Quem havia de dizer?

(Imagem surripiada daqui)

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

A Torpe Sociedade onde Nasci

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
- De ser vítima humilde ou ser algoz...

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom - como não é!

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...

António Aleixo, in Este Livro que Vos Deixo...

Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago, in Os Poemas Possíveis

Feliz aniversário, José!

Domingo, Novembro 15, 2009

Matar e corromper









Blackwater é um nome sinistro para uma empresa ainda mais sinistra que se dedica a alugar ( principalmente ao Pentágono) mercenários pagos a peso de ouro para matar tudo o que mexe quando não cai lá muito bem que os assassinatos de civis inocentes sejam assacados às forças de guerra regulares.

Menina dos olhos de Bush, Cheney e Rumsfeld, desde 2004 arrecadou uma pequena maquia superior a mil e quinhentos milhões de dólares para proteger diplomatas estado-unidenses e providenciar-lhes transporte aéreo dentro do Iraque. Outras estipêndios insignificantes terão sido recebidos para operações menos prosaicas, como o assassinato a sangue frio de 17 civis em Bagdade, corria o ano de 2007.

Não admira, portanto, que para fazer face às críticas que a chacina provocou dentro dos burocratas iraquianos a soldo do império, o então presidente da empresa, Gary Jackson, tenha decidido autorizar, em Dezembro de 2007, o pagamento de subornos de um milhão de dólares, para que o governo fantoche não levantasse obstáculos à actuação dos seus meninos de coro em território iraquiano.

Sábado, Novembro 14, 2009

Lavoura Gramatical

Vivo de plantar artigos indefinidos
em frases substantivadas;
suor adverbial, monossilábico sol.

Enxadas verbais mondam palavras,
grãos sintáticos coloram o dia
desta lavra infame.

Ervas metafóricas crescem vorazes
sobre a colheita superlativa.
Hipérboles regam os grelos

desta plantação morfológica.
Eitos absolutos, parônimo canto;
Imensa lavoura gramatical.

Enzo Carlo Barrocco*

*poeta brasileiro