thesoundofsilence

How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.

sexta-feira, Agosto 29, 2014

Eddi Reader faz hoje 55 anos

Edu Lobo faz hoje 71 anos

Pôr do Sol

Que queres tu, viajor, olhando para trás?
O que vês é a distância, é a estrada percorrida,
é o pó das ilusões da vida já vivida,
é o tempo que passou e que não volta mais.

Porventura não vês, após tamanha lida,
que tudo neste mundo é efêmero e falaz?
Inexoravelmente, um dia, zás, a morte
sorrateira, sutil, corta o fio da vida.

Que queres mais, viajor, ó espírito enfermo?
Não vês que longe vais, quão perto estás do termo?
De que valem as cãs que te ornam a cabeça?

Desfita,  pois,  o olhar dos longes do horizonte,
volta as costas ao mundo, eleva a Deus a fronte,
antes que o sol de ponha, antes que a noite desça.


(poeta paraibano falecido faz hoje 39 anos)

quinta-feira, Agosto 28, 2014

Florence Welch faz hoje 28 anos

Paula Fernandes faz hoje 30 anos

Shania Twain faz hoje 49 anos

Messianeida

São Francisco de Assis pregou aos pássaros,
e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...

Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...


(poeta sergipano nascido faz hoje 126 anos)

quarta-feira, Agosto 27, 2014

Paulinho Moska faz hoje 47 anos

Cesária Évora nasceu faz hoje 73 anos

Mania da Solidão

Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.


(poeta italiano falecido faz hoje 64 anos) 

Tradução de Carlos Leite

terça-feira, Agosto 26, 2014

Carlos Paião faleceu faz hoje 26 anos

Dori Caymmi faz hoje 71 anos

O gesto subtraído
               
O gesto subtraído
Não se sabe bem
Por que motivo
Mas entretanto
                      algures
A flor foi atingindo
Sem que ninguém a visse
A plenitude da sua luz.


(poeta português falecido faz hoje 7 anos)

segunda-feira, Agosto 25, 2014

Fernanda Takai faz hoje 43 anos

Stuart Murdoch faz hoje 46 anos

Anúncio

É preciso urgente cortar os excedentes.
Nada de adiposidades.
Estamos em crise.
Os adjetivos que me perdoem,
os substantivos são mais esbeltos,
e a Nova Era recomenda que sejamos seletos.

Há uma pena de andorinha voando à toa.
Há um redemoinho que nos afunda a proa.
Há uma onda marejada que não se escoa.

É preciso pôr um bêbado no timão do barco.
Que saiba das marés pelo trago das estrelas,
que saiba afundar levantando um brinde,
e mesmo nos destroços saber-se príncipe
salvo do rescaldo para o cetro da palavra:
La parole est morte. Vive la parole!

Há uma paixão em cada esquina torta.
Há um resto de angústia celebrando a morta.
Há um boi no labirinto procurando a porta.

É preciso correr atrás da utopia que se fez distante
para que ela volte a habitar os dias mais comuns,
e faça que o sonho se pareça ao sonho,
mesmo sob o manto pessimista da névoa,
afiando o sabre na pedra que restou da cachoeira.
Ah, nuvens vermelhas, derramai vossa chuva de fogo!

Há um canto entravado na garganta.
Há um sufoco que já não me espanta.
Há um espelho que já não me encanta.

É preciso fugir do tempo perdido.
O que ficou pra trás encantou-se com a serpente,
e todos os dias buscamos novos corredores:
aléias renovadas para as pegadas recentes.
Salvemos aqui a parelha dos pés que suporta a canga
nesse itinerário do agora recolhendo ontens.

Há um solitário na mesa de um bar.
Há um suicida na voragem do mar.
Há um reclamante do verbo amar.

É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.
Experimentar o gesto no corpo da amada.
Imprimir no toque a tatuagem serena
para que fique perene quando for saudade:
A vida se amplia num flash de coisas pequeninas,
e o que ficar são ecos de melodia transitória.

Há um desejo que me faz cantor.
Há uma paixão saída da sua cor.
Há um amor na contramão da dor.


(poeta amazonense falecido faz hoje 5 anos)

domingo, Agosto 24, 2014

RISCO

a nódoa azul
nos pães da véspera
um resto de orvalho
na pólvora agora
o leite coalhado
na teta órfã

sustos
ante o quê
por úmido
estraga

ou floresce


(poeta paulista que hoje faz 47 anos)

Léo Ferré nasceu faz hoje 98 anos

Anel Caucasiano

Olha para o anel de ferro
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.


(poeta mineiro que hoje faria 59 anos)

não fosse isso

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase


(poeta paranaense que hoje faria  70 anos)

sábado, Agosto 23, 2014

Andar por aí

Durante uma semana vou andar por aí, das margens do Sena ao Bairro Vermelho, passando pelo Reno,  Maneken-pis  e Maas. Se a tecnologia não pifar deixo-vos com poemas e música, mas não poderei visitar as vossas páginas.

B&A

Julian Casablanca faz hoje 36 anos

Eliza Carthy faz hoje 39 anos

Paula Toller faz hoje 52 anos

O Voo

Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento
desabam no abismo.
que sabes tu do fim...
Se temes que teu mistério seja uma noite,
enche-o de estrelas
conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre para mais alto
no deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota como
um pássaro as canções que tens na garganta
canta, canta para conservar a ilusão de festa e de vitória
talvez as canções adormeçam as feras que esperam
devorar o pássaro
desde que nasceste não és mais que um voo no tempo
rumo ao céu?
que importa a rota
voa e canta enquanto resistirem as asas.


(poeta paulista falecido faz hoje 26 anos)