domingo, maio 01, 2016



Luis Cília - Não me peçam razões



Margem Sul - Adriano Correia de Oliveira

1º. MAIO

Há Maio em cada rosto
em cada olhar
que passa pelo asfalto da Avenida
Há Maio em cada braço
que se ergue
há Maio em cada corpo em cada vida

Há Maio em cada voz
que se levanta
há Maio em cada punho que se estende
há Maio em cada passo
que se anda
há Maio em cada cravo que se vende

Há Maio em cada verso
que se canta
há Maio em cada uma das canções
há Maio que se sente
e contagia
no sorriso feliz das multidões

Há Maio nas bandeiras
que flutuam
e mancham de vermelho
o céu de anil
Há Maio de certeza
em cada peito
que sabe respirar o ar de Abril

Mas há Maio sobretudo
no poema
que se escreve sem ler o dicionário
porque Maio há-de ser
mais do que um grito
porque Maio é ainda necessário

Canto Maio e se canto
logo existo
que o meu canto de Maio é solidário
com o canto que escuto
e em que medito
e que sai da boca do operário

Fernando Peixoto


(poeta portuense)

sábado, abril 30, 2016


Amanda Palmer faz hoje 40 anos

Jeff Timmons faz hoje 43 anos

Willie Nelson faz hoje 83 anos

Dorival Caymmi nasceu faz hoje 102 anos
Para lá da praia

Baía morena da nossa terra 
vem beijar os pézinhos agrestes 
das nossas praias sedentas, 
e canta, baía minha 
os ventres inchados 
da minha infância, 
sonhos meus, ardentes 
da minha gente pequena 
lançada na areia 
da Praia Gamboa morena 
gemendo na areia 
 da Praia Gamboa.
 
Canta, criança minha
teu sonho gritante 
na areia distante 
da praia morena.
Teu teto de andala 
à berma da praia.
Teu ninho deserto 
em dias de feira.
Mamã tua, menino 
na luta da vida 
gamã pixi à cabeça 
na faina do dia 
maninho pequeno, no dorso ambulante 
e tu, sonho meu, na areia morena 
camisa rasgada, 
no lote da vida,
na longa espera, duma perna inchada 
Mamã caminhando p'ra venda do peixe 
e tu, na canoa das águas marinhas ...

 — Ai peixe à tardinha
na minha baía...
Mamã minha serena
na venda do peixe.


(poetisa são-tomense nascida faz hoje 90 anos)

sexta-feira, abril 29, 2016


Gonzaguinha faleceu faz hoje 25 anos

Jo O'Meara faz hoje 37 anos

Vinícius de Cantuária faz hoje 66 anos

Nana Caymmi faz hoje 75 anos
Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação             
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.


(Nuno Júdice faz hoje 67 anos)

quinta-feira, abril 28, 2016


B. W. Stevenson faleceu faz hoje 28 anos com 38 de idade

Ithamara Koorax faz hoje 41 anos
Ode ao Amor do Mar

Gosto do mar
pelo absurdo
sensual
de suas sereias

pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis

pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas

gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores

gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas

gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.


(poeta cearense falecido faz hoje 4 anos)

terça-feira, abril 26, 2016


Ariane Moffatt faz hoje 37 anos

Nerina Pallot faz hoje 41 anos

RebeckaTörnqvist faz hoje 52 anos
As Velhas

Elas nos olham, mas não vêem nada.
Sua vida é a que foi, muito lá atrás.
São quase máscaras, mascando o nada,
E em seus olhos há um charco, não a paz.

Como em molduras, nas janelas, duras,
São pré-retratos, mas dirão: de quem?
Fitam o amor e a fúria, aves obscuras
No batente-poleiro que as sustém.

Sabem, no quarto escuro que é o seu dia,
Que não são deste mundo. A sua voz,
Se existisse, a nós, sãos, perguntaria
Se porventura sê-lo-emos nós.


(poeta carioca que hoje faz 53 anos)