quarta-feira, dezembro 31, 2008

Um Bom Ano de
Os alvos “terroristas” Imagem do campo de refugiados da Jabalya, na Faixa de Gaza, onde se pode ver um “perigoso terrorista” palestino de palmo e meio, destinado, desde o momento da fecundação, a tentar “destruir” o estado judaico; com ele ao colo, vê-se outro “perigoso terrorista”, seu pai, rodeado por duas familiares velhotas, também elas “perigosas terroristas” apostadas, apesar da sua provecta idade, em parir centenas de outros “perigosos terroristas”, que vão tentar reclamar ao “povo eleito” os parcos palmos de terra e velhos casebres que os seus ancestrais possuíam de pleno direito antes de serem deles expulsos pelos ínclitos defensores da “civilização ocidental” no meio dos “bárbaros” do Médio Oriente. Pelo menos é isso que, através dos media de “referência” a soldo, nos quer fazer crer o governo sionista do estado de Israel, muito bem acolitado pelos governantes da União de além Atlântico e sua cúmplice de aquém Atlântico, entre os quais se conta um distinto ministro português mal amado e milhentos figurões, figuras, figurinhas e figurantes de idêntico jaez. Antes de fazerem figuras tristes, seria muito útil aos que vivem dos nossos impostos aprenderem alguma coisa de história para ficarem a saber que a existência da Faixa de Gaza é a prova viva e permanente das centenas de milhares de palestinos que perderam as suas terras e as suas casas, donde foram expulsos ou fugiram com terror da limpeza étnica levada a cabo por Israel há 60 anos, num momento em que uma onda de milhões de refugiados varria a Europa após a Segunda Guerra Mundial e uma mão cheia de árabes perseguidos e torturados por “irmãos” dos sobreviventes da barbárie nazi não importava muito a um mundo dito “civilizado” ainda atónito com o holocausto e a lamber as feridas dos seis anos da guerra mais destruidora de que há memória. É verdade que essa parte da história é branqueada e escondida o mais possível pelos “historiadores” do nosso “regime ocidental”, mas há suficientes Historiadores judeus com a coluna vertebral direita e cuja leitura apenas não abre os olhos a quem o não quer, por cegueira, comodismo ou conveniência. O conceituado jornalista Tariq Ali acabava a sua coluna de ontem no The Guardian, a propósito da situação em Gaza, com as seguintes palavras (ligeiramente adaptadas) de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, para meditação dos cidadãos israelitas (e dos seus indefectíveis apoiantes, acrescento eu): "Eu sou palestino. Um palestino não tem olhos? Um palestino não tem mãos, órgãos, altura e peso, sentidos, afectos, paixões? Não é alimentado com a mesma comida, ferido com mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido ou arrefecido no mesmo Inverno e no mesmo Verão, como o é um judeu? Se nos picais, nós não sangramos? Se nos fazeis cócegas, nós não nos rimos? Se nos envenenais, nós não morremos? Se nos fazeis mal, não podemos ripostar? Se nós somos iguais a vós em tudo o resto, vamos parecer-nos convosco também nisso… a vileza que me ensinaste, eu irei praticá-la; e isso vai ser duro mas será melhor a lição”. Nota: Para responder a um comentador lá de baixo, não tenho qualquer ódio a Israel, nem aos israelitas, nem a qualquer outro país ou povo. Já visitei Israel - onde fui muito bem tratado (e percebi a doutrinação anti-palestina desde o berço) - e dezenas de outros países, desde Hong Kong aos Estados Unidos, da Tailândia ao Brasil, passando pela Turquia, Polónia e quase todos os países da Europa Ocidental e onde fui menos bem tratado foi na Noruega, onde penso não voltar a menos que me veja obrigado por motivos profissionais ou familiares. Mas uma coisa é o povo israelita e outra o seus governantes sionistas. Como sempre, procuro informar-me nas mais diversas fontes e fazer a minha leitura dos acontecimentos. Os mesmos media que eu consulto estão ao dispor de toda a gente que os queira ler e não se contente em seguir a manada. Gosto de não andar nu, para poder dizer que quase todos os “nossos reis vão nus”.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Patti Smith
Aos 62 anos está bem e recomenda-se.
Because the Night take me now baby here as I am pull me close, try and understand desire is hunger is the fire I breathe love is a banquet on which we feed come on now try and understand the way I feel when I'm in your hands take my hands as the sun descends they can't hurt you now, can't hurt you now, can't hurt you now because the night belongs to lovers because the night belongs to love because the night belongs to lovers because the night belongs to love have I doubt when I'm alone love is a ring, the telephone love is an angel disguised as lust here in my bed until the morning comes come on now try and understand the way I feel when I’m in yours hands take my hands as the sun descends they can't hurt you now, can't hurt you now, can't hurt you now because the night belongs to lovers ... And love we feel With doubt the vicious circle Turns and burns Without you, oh! I cannot live Forgive, the yearning burning I believe it's time, to feel the real So touch me now, touch me now, touch me now Because the night belongs to lovers Because the night belongs to love Because the night belongs to lovers Because the night belongs to love Because we believe in the night we’re lovers Because we believe in the night we trust Because the night belongs to lovers Because the night belongs to love
Patti Smith/Bruce Springsteen

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Mais um Massacre em Gaza Desinformação, dissimulação e mentiras: Como surgiu a ofensiva de Gaza Uma preparação ao longo de meses, uma cuidadosa recolha de informação, discussões secretas, farsas operacionais e desorientação do público estiveram por trás a Operação Cast Lead do exército israelita contra pretensos objectivos do Hamas na Faixa de Gaza, que começou no Sábado de manhã. A análise é de Bark David, correspondente do prestigiado jornal israelita Haaretz, onde foi publicada, embora, certamente por lapso, apareça sem os dois primeiros parágrafos, pelo que é melhor ser lida aqui.

domingo, dezembro 28, 2008

Três dias sem escrever Foram três dias. Três dias sem escrever. Diziam os antigos que um escritor deve produzir ao menos uma linha por dia. Foram três dias sem escrever uma linha, sem arriscar uma palavra, uma vírgula sequer. Três dias com suas três noites. A morte do texto. O escritor paralisado. Perplexo diante de sua própria inatividade. Foram três dias sem pensar, sem ler, sem escrever. Três dias de exílio. De jejum forçado. De desmaio. De coma profundo. De olhar perdido em direção nenhuma. Vontade apenas de fazer algo bem burocrático, bem automático, bem carimbático, bem sorumbático. Foram três dias. Nem longos nem curtos. A morte não tem medida, não usa relógio. O escritor morto pensa em tudo aquilo que nunca poderia ter acontecido e jamais acontecerá. O escritor morto, respirando o mínimo possível. Nem dormindo nem trabalhando. Foram três dias que valeram por três mil. Ou por três segundos. Foram três dias debaixo da terra. As idéias morreram. As palavras definharam. Não há conexão. Não há linha. Não há jeito. Não há forma. Não há como. Não há nada. Morte indolor. Morte sem anúncio. Morri. Três dias. Foram três dias perdidos. Três dias no fundo do mar. Três dias no deserto. Três dias sepultado. Três dias crucificado. Três dias arruinado. Três dias falido. Três dias esmagado por todos os pesos. Foram três dias. O motivo não vem ao caso. Três dias de azar. Três dias vagando pela terra, como os lêmures, querendo vingar-me do mundo. Três dias sem inspiração, se é que existe inspiração. Três dias sem projetos, se é que projetos fazem algum sentido. Depois de três dias, um passarinho começou a cantar. Dizem que um é pouco, dois é bom, três já é demais. No terceiro dia, ressuscitei dentre os mortos. Nunca mais serei o mesmo. Não se vive a morte impunemente. Não se morre à toa. Morrer durante três dias é tempo além da conta. Não morrerei de novo. O escritor voltou a escrever. Escravo da escrita, escrevo outra vez. Nem melhor nem pior do que antes. Três dias estéreis trazem progressos insignificantes. O importante não é importante. De repente... estava vivo. Três dias foram o suficiente. É desagradável morrer. É imprescindível renascer. Não desejo a morte a ninguém. Mas a todos desejo que, mortos um dia, ao terceiro dia venham contar o que aconteceu. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, dezembro 27, 2008

Amor é mistério porque o amor é concreto é preciso construi-lo com tijolos de carinho porque o amor é cristalino e por ele nos tornamos transparentes é preciso tijolo em parede de vidro montado em argamassa de mistério Carlos Gildemar Pontes* *poeta brasileiro

sexta-feira, dezembro 26, 2008

A Obrigação da Verdade Quando olhamos um espelho, pensamos que a imagem à nossa frente é exacta. Mas basta movermo-nos um milímetro para a imagem se alterar. Aquilo que estamos realmente a ver é uma gama infindável de reflexos. Mas, às vezes, o escritor tem de quebrar o espelho - porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara. Estou convencido de que, apesar dos enormes obstáculos existentes, há uma obrigação crucial que recai sobre todos nós enquanto cidadãos: de com uma determinação intelectual inflexível, inabalável e feroz definir a verdade autêntica das nossas vidas e das nossas sociedades. É de facto uma obrigação imperativa. Se essa determinação não se incorporar na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós - a dignidade do homem. Harold Pinter, no Discurso de Aceitação do Prémio Nobel

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Falavam-me de amor Quando um ramo de doze badaladas se espalhava nos móveis e tu vinhas solstício de mel pelas escadas de um sentimento com nozes e com pinhas, menino eras de lenha e crepitavas porque do fogo o nome antigo tinhas e em sua eternidade colocavas o que a infância pedia às andorinhas. Depois nas folhas secas te envolvias de trezentos e muitos lerdos dias e eras um sol na sombra flagelado. O fel que por nós bebes te liberta e no manso natal que te conserta só tu ficaste a ti acostumado. Natália Correia, in O Dilúvio e a Pomba

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Um conto de Natal De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver. E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá. E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa... Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama! Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes. Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura. Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha. Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não. Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar. Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo. Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava? Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira. - Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José. Miguel Torga – in Novos Contos da Montanha

terça-feira, dezembro 23, 2008

Jardins Secretos A Goya Além do espaço que o corpo esculpe existem abismos. São segredos que vão se consumindo em silêncio como cera no calor da vida são silêncios de uma cor tão clara são como flores. Como são pássaros as almas. Carlos Figueiredo* *poeta brasileiro

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Chico Mendes Há 20 anos, no dia 22 de Dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado na porta traseira de sua casa em Xapuri, sua cidade natal no estado do Acre, por causa da sua luta pela preservação da Amazónia e do ganha pão de todos os seringueiros. Seringueiro desde os 9 anos de idade, apenas aprendeu a ler aos 20, tornando-se sindicalista e activista ambiental de projecção mundial. Um pouco por toda a imprensa brasileira, são-lhe hoje dedicados os mais variados artigos, desde o publicado pela antiga ministra do ambiente Marina Silva na Folha de São Paulo, até ao assinado no Portal EcoDebate por Moisés Diniz, professor e deputado estadual do Acre. Segundo Tom Phillips, correspondente no Brasil para o jornal inglês The Guardian, espera-se que Lula se dirija ao País através da televisão para prestar homenagem a Chico Mendes, como parte de uma conjunto de tributos que irão desde marchas no Rio de Janeiro até às celebrações em Xapuri. No mesmo artigo, em que chama a Chico Mendes “um mártir dos nossos tempos – o Ganghi ou, talvez, o Che Guevara da nossa era ambiental”, o mesmo jornalista divulga dados de um relatório da Comissão Pastoral da Terra ainda não tornado público, segundo os quais pelo menos 260 pessoas vivem sob a ameaça de morte devido à sua luta contra uma coligação de madeireiros, fazendeiros e rancheiros criadores de gado dispostos a queimar literalmente a Amazónia com vista a potenciar os seus negócios criminosos. Entre os que correm risco de vida, encontra-se o padre francês Frei Henri de Rosiers, pároco de Xinguara, no Pará, um alvo especial que terá a sua cabeça a prémio por cerca de 20 mil euros, facto a ser investigado pela polícia federal; Maria José Dias da Costa, uma líder sindical de Rondon do Pará; e o bispo austríaco D. Erwin Kräutler, prelado de Xingu, também no Pará.

domingo, dezembro 21, 2008

Folha sobre folha Folha sobre folha verde sobre cinza sobre folha vento sobre folha lento pobre manto cobre tanta folha sobre folha. O tempo se acumula, quando sobre nunca, até que o passado ressurja inteiro, coberto de folhas, memória liberta de si mesma. Carlos Felipe Moisés* *poeta paulista

sábado, dezembro 20, 2008

Financeiros e Fraudadores Primeiro foi Nick Leeson, corretor de Singapura e uma estrela em ascensão no bicentenário britânico Banco Barings, que levou à falência ao manipular contas em contratos de futuros, conduzindo a prejuízos de mais de mil milhões de euros a preços de 1995. Passou 3 anos numa prisão de Singapura, durante os quais escreveu o livro Rogue Trador detalhando a sua actividade especulativa, livro esse que deu origem ao filme do mesmo nome, de 1999. Parece que, actualmente, é um conceituado palestrante a 15 mil euros a dose. Em Janeiro deste ano, os chefões do gigante francês Société Générale descobriram, aparentemente estupefactos, que um desconhecido empregado chamado Jérôme Kerviel tinha feito transacções ilícitas, também no mercado de futuros, que provocaram prejuízos de mais de cinco mil milhões de euros. Aguarda, em liberdade, o julgamento em que poderá ser condenado a um máximo de 3 anos de prisão. Atendendo à sua idade, ao brilhantismo da sua actuação (dizem que foi mesmo brilhante) e ao facto de nada ter beneficiado com as transacções, augura-se-lhe um futuro brilhante na alta finança, que mais não seja como consultor e conferencista. Há um mês, um antigo político cá do burgo viu-se em prisão preventiva, alegadamente por ter pretendido amealhar uns patacos para dar à mulher de quem tencionava divorciar-se, facto que se diz ter concretizado. Ninguém deu por nada, nem sequer pelo banco em Cabo Verde ou pelo balcão instalado no portátil e os prejuízos foram transferidos para a Caixa Geral de Depósitos. Pelo andar da nossa justiça e da nossa política, é provável que venha a ser absolvido “suma cum fraude” e agraciado com uma qualquer sinecura de fundo de prateleira. Se não a conseguir cá, sempre pode ir de portátil ao Brasil, que as comendas lá são ao preço dos tremoços. Entretanto, muito embora com outro pretexto mas, certamente, para “tapar o buracão”, o capital da CGD vai ser aumentado em mil milhões de euros. No passado dia 12, foi a vez da ordem de prisão calhar a um antigo nadador-salvador que juntou uns 5.000 dólares para criar uma Sociedade de Investimentos em Wall Street, agora em liquidação, e que teve a lábia de enganar tudo e todos, desde grandes bancos espanhóis, suíços, franceses, holandeses e de muitos outros países, até aos responsáveis da SEC, dando sumiço a cerca de quarenta mil milhões de euros, um quarto do PIB português. Não teve de se esforçar muito para levar a tal ponto o Esquema Ponzi, inventado nos Estados Unidos nos anos vinte por um emigrante italiano quase analfabeto e utilizado nos mais variados países e situações, entre as quais a da nossa bem conhecida, e também analfabeta, D. Branca. O que espanta no caso Bernard Madoff é o gabarito dos patos, a dimensão e duração da fraude e o sono de 10 anos da SEC. A procissão ainda vai no adro, o homem está em prisão domiciliária com pulseira electrónica e falta apurar toda a extensão dos danos, mas a justiça estado-unidense costuma ter mão pesada. A ver vamos quem escreve o livro e dirige o filme. Apesar de umas “caldeiradas” de milhões de há largos anos e de umas alegadas “rendas” milionárias da actualidade, quem disse que a arte do desenrasca é tipicamente portuguesa?

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Canção de Minha Descoberta Eis-me resignado. Fugi de tudo que fui e pelo caminho de minha renúncia venho buscar bandeiras novas. Agora persigo a palavra nova por eles que esperam com o coração amargo e o grito dentro do coração. Não poderei aceitar o silêncio e ficar em paz com a morte dos desgraçados caídos sem voz em nossa porta. As crianças minhas morreram todas, Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta e vou surgindo novo entre lenços brancos agitados de dor pela mão dos homens. José Carlos Capinam Feliz 67º aniversário, Capinam!

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Somos somos apenas para dizer palavras e entregamos o nosso corpo nas ruas depois repousamos os músculos. não somos puros porque despidos depois de amar não permanecemos. nos perdemos na busca de símbolos: só as casas têm números só os homens têm nomes. queimadas as pálpebras nas cinzas do sono não sabemos que a madrugada se faz nas estrelas que gotejam sangue. morremos e não percebemos as semelhanças que há no peixe e no pássaro no musgo e no vento. possuímos um silêncio para os mortos e um tumulto para o que amamos. guardamos cores na lembrança e envelhecemos antes de sair da infância. refletimos o nosso medo e solidão nos muros, nos bichos, nas flores, sem sabermos que os mortos são fotogênicos sem acharmos a serenidade que faz este mar azul. Carlos Cunha* *poeta brasileiro

terça-feira, dezembro 16, 2008

Dunduca, valente e esperto Seu Dunduca, apesar do apelido infantil, não é nenhum moleque. Homem forte, decidido, resolveu ir arriscar a vida na região de Brasília, quando a cidade ainda estava sendo construída. Foi com a família toda, mas não para Brasília mesmo. Parou num lugar ali perto, sabendo que as terras iam se valorizar muito, e começou a criar gado ao mesmo tempo em que comprava fazendas dos antigos moradores, para dividir e vender como sítios e chácaras aos que chegavam. Comprava por alqueire e vendia, às vezes, por metro quadrado. Logo que chegou à região, tinha um valentão que não gostava de quem vinha de fora. Viu Dunduca num bar e já entrou provocando. Pegou uma garrafa de cachaça e começou a beber no gargalo, enquanto duvidava da macheza do recém-chegado. Deu-se um duelo no velho estilo dos filmes de bangue-bangue e, antes que o tal valentão engatilhasse o revólver, Dunduca quebrou a garrafa em que ele bebia, com um tiro certeiro. Ou melhor, casual, não foi certeiro, não. Dizem os irmãos do próprio Dunduca que ele era péssimo de pontaria. Talvez tenha tentado acertar o sujeito, errou e pegou a garrafa. Mas ficou com a fama. Outra fama juntou-se à de bom atirador: a de esperto. Jamais era enganado nos negócios. E enganava muita gente, mas sempre sem mentir: - Eu só falo a verdade. Se os outros não sabem entender, não é culpa minha. Um dia, acharam que Dunduca entrou pelo cano, afinal. Tinha comprado um sítio horrível que jamais conseguiria passar pra frente. Nem capim nascia naquela terra ruim. Ele mesmo já achava que dessa vez tinham-lhe passado a perna, embora alegasse que na verdade ele não comprara o sítio, apenas trocara por umas armas e um monte de bodes. - A maior parte das armas estava com defeito, e bode só dá prejuízo. Eis que um dia apareceu a salvação: um morador de Brasília queria um sítio para passar fins de semana. Tinha de ter um riacho, pra pescar com os amigos. Dunduca mostrou-lhe seu sítio com um riacho correndo no fundo sem nem uma árvore na margem. Mas o comprador não entendia de terra nem de rio. Apenas perguntava se tinha peixe naquele “rio”. E Dunduca respondeu: - Ô! Já comi muito peixe na beira desse rio. Feito o negócio, passada a escritura, Dunduca, já com o dinheiro depositado no banco, falou pro comprador: - Já comi umas duzentas latas de sardinha na beira daquele rio! Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Pregadores É um período maravilhoso, uma enorme oportunidade de evangelização para nós. Quando as pessoas são sacudidas até ao âmago, isso pode abrir portas(REV. A. R. BERNARD, pastor da maior congregação evangélica de Nova Iorque, acerca da crise económica.) Ouvir esta bacorada da boca de um pastor evangélico, não é nada de surpreendente, pois alguns urubus da religião costumam pairar sobre a miséria humana como abutres à procura de carne em decomposição. Ao ler a citação num jornal estado-unidense de ontem, não pude deixar de recordar a tal pérola sobre a “janela de oportunidade”, debitada há uns tempos por um político pequenino com lugar marcado semanalmente no canal público. Entre um vendedor de banha da cobra, aos Domingos, e um saltitão armado em pregador, às Segundas, quem nos acode?

domingo, dezembro 14, 2008

Baú A palavra é um baú desses existentes nos sótãos das casas antigas. Sem nenhum valor se não aberto explorado fuçado! Cada qual com sua história e razão de ser... Quão valioso é um baú cheio de quinquilharias se no mesmo encontramos algo que necessitamos! Muitas vezes por baixo da poeira contida nele há uma mensagem que não tá ali de bobeira mensagem que veio de alguma moleira um tanto inquieta. E quantos baús há neste mundo aguardando a mão atrevida! Carlos Alberto Teixeira* *poeta brasileiro

sábado, dezembro 13, 2008

O turismo que temos Fui apenas ali, à borda sul do rectângulo, para ver como paravam as modas, e não gostei do que vi. Num complexo presumivelmente de quatro estrelas, limpeza dia sim dia não e mudança de toalhas e lençóis a meio da semana, fogão eléctrico de quatro bicos, sem forno, termoacumulador e aquecimento a óleo, mas um quadro eléctrico que não permitia ter mais de dois aparelhómetros ligados - ou um aparelhómetro e um bico do fogão - sem dar o berro. Acesso à Internet a 5 euros à hora, tanto como me custa uma ligação vinte e quatro horas por dia durante uma semana. Que lhes faça bom proveito. Nos restaurantes das redondezas, a garrafa de vinho custava entre quatro e cinco vezes o preço de venda numa grande superfície da área, e por uma caneca de 0,4l de cerveja exigiam-se 3 euros, o custo de 3 litros da dita. Salvou-se a companhia, o descanso e a cataplana de peixe do almoço de ontem, por encomenda, no restaurante Vilarinho, na praia Sra. da Rocha. Depois queixem-se da crise.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

A Felicidade Vem do Compromisso
A felicidade vem do compromisso. Alguns pensam que não, que uma pessoa mais solta, sem ligações nem obrigações, é mais feliz! Será? Ela faz o que lhe apetece e não o que quer. Fica escrava das ondas, das emoções, vai para onde puxa o que “está a dar” e não para onde quer e deve. Estar solto não é o mesmo que ser livre. E comprometer-se livra-nos da escravidão das fantasias e dos apetites. Vasco Pinto de Magalhães, in Não Há Soluções, Há Caminhos
Posta dedicada à minha companheira, com quem casei faz hoje 32 anos

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Rói Rói qualquer possibilidade de sono essa minimalíssima música de cupins esboroando tacos sob a cama imagino a rede de canais que a perquirição predatória possa ter riscado pelo madeirame apodrecido se aguço o ouvido capto súbito o mundo dos vermes Carlito Azevedo* *poeta brasileiro

quarta-feira, dezembro 10, 2008

A Tirania do Sofrimento O homem, quando sofre, faz uma ideia muito ideia muito especial do bem e do mal, ou seja, do bem que os outros lhe deveriam fazer e que ele pretende como se do seu sofrimento derivasse um qualquer direito a ser compensado, e do mal que pode fazer aos outros como se igualmente o seu sofrimento o autorizasse a praticá-lo. E se os outros não lhe fazem o bem quase por dever, ele acusa-os; e de todo o mal que ele faz, quase por direito, facilmente se desculpa. Luigi Pirandello , in O Falecido Mattias Pascal

terça-feira, dezembro 09, 2008

Contrariar as Contrariedades Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida. Clarice Lispector, in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Os Professores Estudei harmonia com o professor Paulo Silva. Ele ainda usava aquela gravata vermelha que dá laço e cai no peito. Ficava tristíssimo quando as composições não obedeciam àquelas regras rígidas. Estudei com Alceu Bochinno, aprendi muito com Radamés Gnattali. Minha intenção era o conserto com s. Começar a consertar as coisas porque está tudo quebrado. Eu sentia uma grande admiração por essas pessoas que faziam música brasileira. Fui à casa do Villa-Lobos. Eu ouvia falar que ele era maluco. Quando escutei o Choro nº 10, eu chorei, mas de felicidade, de alegria, entende? Botava aquilo na vitrola e chorava ali na Rua Nascimento e Silva. O meu contato com esse tipo de música foi um pouco tardio. Quando fui estudar com a Lúcia Branco, que era ligada à música erudita, eu já tinha uns 17 anos. Aquelas menininhas tocavam muito mais do que eu aquelas músicas de Chopin. Quando comecei a escutar Chopin a sério, pensei, meu Deus, o que é isso? Como é que um sujeito que nasceu há mil anos já sabia de tudo que eu quero saber agora? Já sabia do ritmo, da harmonia, esse polonês-francês Frédéric Chopin, como o outro, Claude Debussy. Fui ficando extasiado com aquela beleza: Ravel, Beethoven, Bach. Comecei a tocar Bach com a professora Lúcia Branco, que tinha estudado em Paris. Fui estudar com Tomás Teran, um espanhol muito amigo do Villa-Lobos, a quem o Villa-Lobos dedicou um álbum daquelas músicas dele. Teran era um cara muito escolástico, muito clássico, mas ao mesmo tempo amigo do Villa-Lobos. O Villa-Lobos dizia: "O Brasil é uma floresta encantada onde a Europa jogou o tapete persa velho, mofado, cheio de poeira, cheio de ácaro". Eu estudava a harmonia no piano. Composição eu fui fazendo porque o Paulo Silva exigia, mas era um troço quadrado para burro. Subdominante, dominante, tônica. Quando eu saía disso, ele brigava comigo. Tom Jobim
Vaidade A um grande poeta de Portugal Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade ! Sonho que um verso meu tem claridade Para encher todo o mundo ! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade ! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita ! Sonho que sou Alguém cá neste mundo ... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a Terra anda curvada ! E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ... Florbela Espanca – in Livro de mágoas

domingo, dezembro 07, 2008

Epígrafe De palavras não sei. Apenas tento desvendar o seu lento movimento quando passam ao longo do que invento como pré-feitos blocos de cimento. De palavras não sei. Apenas quero retomar-lhes o peso a consistência e com elas erguer a fogo e ferro um palácio de força e resistência. De palavras não sei. Por isso canto em cada uma apenas outro tanto do que sinto por dentro quando as digo. Palavra que me lavra. Alfaia escrava. De mim próprio matéria bruta e brava - expressão da multidão que está comigo. José Carlos Ary dos Santos

sábado, dezembro 06, 2008

Mudanças e seus modos A vida tem ciclos. Idas e vindas, giros e voltas, corre-corres. Há entra-e-sai, perde-ganha, sobe-e-desce. Mudamos de pele, de roupas, de cidade, mudamos de idéias. Muito pouco é imutável. Sobre a base do amor incondicional e das convicções inegociáveis, devemos realizar alterações, inovações, evoluções, transformações. Mudar o modo de amar, sem matar o amor. Mudar o modo de andar, sem cortar os pés. Mudar as cores, conservando os olhos. Mudar o horizonte, e manter as asas. Sair de onde estamos para continuar em frente. Descartar o descartável para assegurar o eterno. Enfraquecer as rotinas para fortalecer os vínculos que valem a pena. Tenho medo de mudar, não vou negar. Mudar mexe, machuca, mói. Mudar dá trabalho. Quem muda não pode mais ficar mudo. Mudança faz dançar. Mudança cansa. Mudar arranca pedaços. Na mudança nem tudo pode ser levado. Mudar é despojar-se. Quero mudar o modo de comer, sem acabar com a fome. Mudar o modo de falar, sem enrolar a língua. O modo de trabalhar, e não perder o pique. Mudar o modo de ler, encontrando o avesso dos livros dos quais não vou me separar. Ser mutante sem esvaziar o ser. Mudando a casca, protejo o miolo. Mudando a cara, restauro o rosto. Mudando o entorno, salvo o estofo. Mudando os ares, recupero o fôlego. Mudando a letra, liberto o espírito. Para mudar não é preciso muito. Nem pouco. Nem sempre os outros reparam. Todos notam. Atribuem notas. Avaliam. As mudanças mais profundas parecem tão inofensivas. Eu mudando, o mundo dos outros não muda. Mas, o meu, sim. Mudarei de repente e lentamente. Mudarei num piscar de olhos depois de muito planejar. Mudarei por dentro e por fora, mudarei sem fazer rascunho. Mudarei agora. Pronto, mudei. A mudança me fez ser a criança que jamais fui. Mudei de jogo. Mudei de lado. Mudei num pulo. Mudei e ninguém sabe para onde fui. Gostei de mudar. A mudança me fez bem. Você não vê, leitor/leitora, mas a mudança já começou a influenciá-lo/a. A mudança começa devagar. Vai comendo pelas bordas. Vai roendo pelos cantos. Vai subindo pouco a pouco. Vai entrando pelas brechas. Mudado, posso fazer o novo, de novo. Mudado, reafirmo que não morrerei para sempre. Mudado, posso voltar para casa. Meu nome é o mesmo, mas a assinatura mudou. Minha vida, idas e vindas. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Sossego Nos próximos oito dias andarei por ali. Mas, se a tecnologia não me pregar uma partida, as postas irão aparecendo mesmo que não tenha acesso à net.
Papagaio! Zeca conta de uma caçada que fez sozinho, num dia de muito azar: – Já tinha andado meio dia no mato e não encontrei nenhum bicho que valesse um cartucho. Fiquei irritado, pensei: qualquer bicho que aparecer agora, eu mato. Pode ser passarinho, tatu, macaco ou qualquer outra coisa. Tenho que tirar o azar. Saiu do mato e entrou por um pasto, cada vez mais bravo. No meio do pasto, saiu um papagaio voando a toda velocidade em sua direção: – É nesse papagaio mesmo que eu vou mandar chumbo. Mas, quando ia fazer a mira para atirar no papagaio em pleno vôo, viu por que ele voava tão depressa: – Tinha um baita gavião voando no calcanhar dele. Então, resolvi matar o gavião, em vez do papagaio. Mirei bem, calculei a velocidade do vôo e pá... o gavião caiu morto e o papagaio continuou voando. Deu uma volta, passou perto do mato gritando e aí saiu um bando enorme de papagaios desse mato, voando alto, vindo pro meu lado. Quando estavam bem em cima de mim, baixaram todos de uma vez. Até bem baixo, perto do chão, e gritaram: VIVA O ZECA! Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

quinta-feira, dezembro 04, 2008

O Perdão e a Promessa Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma. Hannah Arendt, in A Condição Humana

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Livre-arbítrio Se não quer família, birra, comida, se não quer gíria ou café da manhã... não queira. Se não quer relógio, aconchego, piscina, remédio, tampouco telefonema... não queira. Se não quer paixão, luxúria, ódio, se não quer malícia, hastear bandeiras... não queira. Se não quer afeto, sexo, veneno, piedade, ser feliz de qualquer maneira... não queira. Se não quer sabor, vinho, o beijo, assistir filme, criar dilemas... não queira. Se não quer dançar, amar, amargurar, abraçar, dormir, velar... não queira. Se não quer sorrir, parir, chorar, se não quer gritar até... não queira. Se não quer sofrer, ferir, refletir, tampouco viajar para outro país... não queira. O livre-arbítrio existe através de negativas. Carla Dias* *poetisa barsileira

terça-feira, dezembro 02, 2008

Diálogo de pensadores O professor Antoni Domènech, catedrático de Filosofia Moral da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Barcelona e editor da revista política internacional Sin Permiso, idealizou um diálogo entre os economistas e filósofos Adam Smith e Karl Marx, a propósito da crise actual do capitalismo financeiro, no qual os dois pensadores põem a nu os “usos e abusos” que em seu nome foram feitos ao longo dos dois últimos séculos e no que vai decorrido do século actual. A versão original do interessante diálogo pode ser lida aqui; há uma tradução para português do Brasil que não tem o “sabor” do diálogo original, mas que contém notas informativas sobre algumas passagens do texto.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Caos Urbano Sirenes alucinantes Luzes no asfalto molhado Gado humano caminhando Para o abate diário Reféns do próprio ego Proclamam-se reis, Monarcas de sua estupidez. Pregações e pregões Vendem tudo...liquidação O paraíso em três vezes Sem juros, juro por Deus Corremos em círculo Fugindo da sombra Medo, pânico, muito pânico Muito pano para a manga Soldados desfilam Sobre os cadáveres Dos que lutam pela vida Acuados nos becos, nas marquises, Nas pontes, nos túneis. Chaminés, escapamentos, fossas nasais De todos os buracos brotam fumaça Fome, muita fome de tudo As pessoas fogem aos olhares E são muitos os olhos O anti-sonho psicodélico Cristalizado em concreto Campo de batalha, caos urbano. Carlos Carvalho Cavalheiro* *poeta paulista

domingo, novembro 30, 2008

Marcelo 1 – Manuela 0 Ao ouvir, há minutos, a discorrência de Manuela Ferreira Leite no congresso da “jota” laranja, veio-me à ideia o Marcelo. Não aquele que gosta de mergulhar nos cagalhões do Tejo, que lê mais de 250 livros por semana, que parece que dá (vende a bom preço) aulas de direito e pareceres jurídicos e que me obriga o fugir do canal público nos Domingos à noite; mas aquele outro Marcelo que, nos meus 20 anos, iam decorridos os finais dos anos sessenta, tentava iludir os Coitos (ou coitados) e quejandos com as tais “conversas em família”. Nessa altura, já familiarizado com as obras proibidas do Karl e do Friedrich, do Vladimir Ilitch e do Herbert, do Jean Paul e do Louis, o tal Marcelo da dita “primavera” nunca me convenceu de que tínhamos saído da mais invernosa das ditaduras. Hoje, quarenta anos passados e continuando a manter a minha costela marxista e a minha análise dialética da história, acho - e com pena o digo - que a Manuela Ferreira Leite nem para subsecretária de estado daquela altura serviria. Nem sequer para escrever a coluna “coscuvilhices” de um antigo matutino da capital, assinada por Maria Armanda Falcão, mais conhecida por “Vera Lagoa”. Onde para o saudoso José Vilhena?

sábado, novembro 29, 2008

Dia O relógio parou, imoral, agredindo e violentando a necessidade de um novo dia. Peço outro sol, qualquer luz que traga delírio, gente nova, para habitar um mundo enredado por teias de aranha. Um raio dourado, queimando a pele, ardendo nos couros, deixando um vermelho seguido por manchas. A claridade chegando, chamando para a vida, jogando na cara a renovação. Traiçoeiro dia, irônico que brinca com a ansiedade lançando promessas com ar descrente, falando com jeito de desmentido Carla Bianca* *poetisa brasileira

sexta-feira, novembro 28, 2008

Amizade A amizade é um amor que nunca morre. A amizade é uma virtude que muitos sabem que existe, alguns descobrem, mas poucos reconhecem. A amizade quando é sincera o esquecimento é impossível. A confiança, tal como a arte, não deriva de termos resposta para tudo, mas de estarmos abertos a todas as perguntas. A dor alimenta a coragem. Você não pode ser corajoso se só aconteceram coisas maravilhosas com você. A esperança é um empréstimo pedido à felicidade. A felicidade não é um prémio, e sim uma consequência, a solidão não é um castigo, e sim um resultado. A felicidade não está no fim da jornada, e sim em cada curva do caminho que percorremos para encontrá-la. A gente tropeça sempre nas pedras pequenas, porque as grandes a gente logo enxerga. A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delicia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você. A infelicidade tem isto de bom: faz-nos conhecer os verdadeiros amigos. A inteligência é o farol que nos guia, mas é a vontade que nos faz caminhar. A maior fraqueza de uma pessoa, é trocar aquilo que ela mais deseja na vida, por aquilo que ele deseja no momento. A persistência é o caminho do êxito. A pior solidão é aquela que se sente na companhia de outros. A SOLIDÃO É UMA GOTA NO OCEANO QUE SÓ OLHA PARA SI MESMA... UMA GOTA QUE NÃO SABE QUE É OCEANO... Amigos são a outra parte do oceano que a gota procura... A tua única obrigação durante toda a tua existência é seres verdadeiro para contigo próprio. A verdadeira amizade deixa marcas positivas que o tempo jamais poderá apagar. A verdadeira amizade é aquela que não pede nada em troca, a não ser a própria amiga. A verdadeira generosidade é fazer alguma coisa de bom por alguém que nunca vai descobrir. A verdadeira liberdade é poder tudo sobre si. Algumas pessoas acham-se cultas porque comparam sua ignorância com as dos outros. Amigo de verdade é aquele que transforma um pequeno momento em um grande instante. Amigo é a luz que não deixa a vida escurecer. Amigo é aquele que conhece todos os seus segredos e mesmo assim gosta de você ! Amigo é aquele que nos faz sentir melhor e sobre tudo nos faz sentir amados... Amigo é aquele que, a cada vez, nos faz entrever a meta e que percorre conosco um trecho do caminho. Amigos são como flores cada um tem o seu encanto por isso cultive-os. Amizade é como música: duas cordas afinadas no mesmo tom, vibram juntas... Amizade, palavra que designa vários sentimentos, que não pode ser trocada por meras coisas materiais... Deve ser guardada e conservada no coração!!! As pessoas entram em nossas vidas por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem. Celebrar a vida é somar amigos, experiências e conquistas, dando-lhes sempre algum significado. Diante de um obstáculo não cruzes os braços, pois o maior homem do mundo morreu de braços abertos. Elogie os amigos em público, critique em particular. Errar é humano, perdoar é divino. Evitar a felicidade com medo que ela acabe; é o melhor meio de ser infeliz. Faça amizade com a bondade das pessoas, nunca com seus bens! Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. Érico Veríssimo

quinta-feira, novembro 27, 2008

Os últimos gorgolejos dos perus O Dia de Acção de Graças, comemorado na 4ª quinta feira de Novembro, é um importante feriado celebrado nos Estados Unidos (e no Canadá) com lautos jantares, cujo prato forte é o peru. Por isso, nos dias que antecedem a festividade, dezenas de milhões de perus são mortos para abastecerem as mesas da quase totalidade dos mais de trezentos milhões de cidadãos estado-unidenses. Dizem os apreciadores, entre os quais não me incluo, que o peru, antes de ser morto, deve ser embebedado com água-ardente, para tornar a carne mais saborosa. Desconheço se por aquelas paragens existe tal hábito e as imagens recolhidas na passada quinta feira em Anchorage - nas quais Sarah Palin, na festa do Perdão do Peru, deu uma entrevista a um canal de televisão tendo com pano de fundo um tal Joe, o matador de perus, em plena actividade - não mostram qualquer pessoa na tarefa de enfiar bagaço pelas goelas das aves. Seja como for, ainda restam perus vivos e alguns parecem bem abastecidos de álcool, seja ele água-ardente ou Jack Daniels. Vem isto a propósito da dupla W/Condy, que desencadeou uma inesperada iniciativa na Europa, incitando os aliados da NATO a oferecerem de bandeja a qualidade de membros à Ucrânia e à Geórgia, dispensando o lento processo de adesão e o preenchimento dos necessários requisitos, entre eles a integridade territorial, numa manobra de última hora para ensombrarem, ainda mais, as relações com Moscovo e deixarem Obama sem grande margem de manobra. Embora seja pouco provável obterem sucesso, como se pode ler aqui pelos depoimentos de várias pessoas, os últimos gorgolejos dos actuais perus da Casa Branca são de meter medo ao susto.

quarta-feira, novembro 26, 2008

uma certa quantidade
(Imagem: Porta de entrada para o mundo paralelo – Mário Ceasriny)
Uma certa quantidade de gente à procura de gente à procura duma certa quantidade Soma: uma paisagem extremamente à procura o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha) e o problema do quarto-atelier-avião Entretanto e justamente quando já não eram precisos apareceram os poetas à procura e a querer multiplicar tudo por dez má raça que eles têm ou muito inteligentes ou muito estúpidos pois uma e outra coisa eles são Jesus Aristóteles Platão abrem o mapa: dói aqui dói acolá E resulta que também estes andavam à procura duma certa quantidade de gente que saía à procura mas por outras bandas bandas que por seu turno também procuravam imenso um jeito certo de andar à procura deles visto todos buscarem quem andasse incautamente por ali a procurar Que susto se de repente alguém a sério encontrasse que certo se esse alguém fosse um adolescente como se é uma nuvem um atelier um astro Mário Cesariny

terça-feira, novembro 25, 2008

Dependência do Governo Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e os olhos para ele como para uma Providência sempre presente. Eça de Queirós, in 'Cartas de Inglaterra' 163 anos após o nascimento do autor e mais de 100 anos passados sobre a escrita das Cartas de Inglaterra, o que mudou relativamente à dependência do Governo? Mudou muito, mas para pior, pois os que defendem menos Estado são os primeiros a estender a mão ao mínimo solavanco. BPP diz alguma coisa a alguém?

segunda-feira, novembro 24, 2008

Poema do futuro Conscientemente escrevo e, consciente, medito o meu destino. No declive do tempo os anos correm, deslizam como a água, até que um dia um possível leitor pega num livro e lê, lê displicentemente, por mero acaso, sem saber porquê. Lê, e sorri. Sorri da construção do verso que destoa no seu diferente ouvido; sorri dos termos que o poeta usou onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo; e sorri, quase ri, do íntimo sentido, do latejar antigo daquele corpo imóvel, exhumado da vala do poema. Na História Natural dos sentimentos tudo se transformou. O amor tem outras falas, a dor outras arestas, a esperança outros disfarces, a raiva outros esgares. Estendido sobre a página, exposto e descoberto, exemplar curioso de um mundo ultrapassado, é tudo quanto fica, é tudo quanto resta de um ser que entre outros seres vagueou sobre a Terra. António Gedeão

domingo, novembro 23, 2008

Não me leia assim Não me leia com a pestana que eu não sou Mario Quintana. Não me leia de joelhos que eu não sou Paulo Coelho. Não me leia ensimesmado que eu não sou o Saramago. Não me leia com teimosice que eu não sou Clarice. Não me leia a fuzilar que eu não sou Ferreira Gular. Não me leia como duende que eu não sou Murilo Mendes. Não me leia de cima que eu não sou Jorge de Lima. Não me leia com aspereza que eu não sou Cristóvão Tezza. Não me leia de retrós que eu não sou Amós Oz. Não me leia acurado que eu não sou Adélia Prado. Não me leia do abacateiro que eu não sou João Ubaldo Ribeiro. Não me leia com cara de sueco que eu não sou Umberto Eco. Não me leia na biblioteca que eu não sou Rubem Fonseca. Não me leia como rabino que eu não sou Fernando Sabino. Não me leia respondão que eu não sou Ignácio de Loyola Brandão. Não me leia furioso, ou furiosa, que eu não sou Guimarães Rosa. Não me leia fumando cigarro que eu não sou Manoel de Barros. Não me leia na cadeira que eu não sou Manuel Bandeira. Não me leia na separata que eu não sou o Mario Prata. Não me leia na Bahia que eu não sou Moacyr Scliar. Não me leia em Praga que eu não sou Rubem Braga. Não me leia na gráfica que eu não sou Kafka. Não me leia com ares de estudo que eu não sou Câmara Cascudo. Não me leia em celibato que eu não sou Monteiro Lobato. Não me leia fazendo pose que eu não sou Alfredo Bosi. Não me leia a arquejar que eu não sou Fabrício Carpinejar. Não me leia tão quieto que eu não sou João Cabral de Melo Neto. Não me leia bebendo uísque que eu não sou Paulo Leminski. Não me leia mais... que eu não sou Vinicius de Moraes. Não me leia como se eu não fosse eu... ou Casimiro de Abreu. Não me leia agora que eu já vou embora. Não me leia rindo que eu já estou indo. Não me leia correndo que eu não sou referendo. Não me leia pedindo justiça que eu não sou dobradiça. Não me leia hoje antes que eu fuja. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, novembro 22, 2008

Anarquia A rebeldia que nos alimenta Vem talvez do fel Derramado pela serpente adâmica Vem talvez da morte De heróis que não se sabiam Vem talvez da dor De crianças desnascidas Vem talvez de nós E dessa vontade incontrolável De ser Carine Araújo* *poetisa brasileira

sexta-feira, novembro 21, 2008

“Basta!” Seven years of waiting for our legal system to give them an answer to their legal question is enough”. Foi com as palavras acima citadas, que não constam da sentença “oficial”, que o juiz Richard J. Leon, do Tribunal Federal, em Washington, ordenou ontem a libertação imediata de 5 argelinos detidos em Guantánamo desde Janeiro de 2002. Conservador, nomeado por George W. Bush, o juiz Leon fez uma enérgica acusação às decisões de detenção da administração Bush e deu um inquestionável testemunho da importância de permitir aos juízes federais avaliar as provas secretas do governo utilizadas para justificar as detenções, o que constitui um enorme revés para o Mr. W. E não se ficou por aqui, o juiz. Numa outra atitude extraordinária, instou o Departamento de Justiça a não recorrer da sua sentença, porque “sete anos à espera...é suficiente”.

quinta-feira, novembro 20, 2008

A negritude e a liberdade Enquanto o mundo inteiro comemora a chegada do primeiro negro ao posto de presidente dos Estados Unidos e muitos refletem sobre as conseqüências disso para a América do Norte e para o mundo, o Brasil recorda a figura de Zumbi, líder negro do Quilombo dos Palmares, assassinado no dia 20 de novembro de 1697. Ele teve a sua cabeça exposta em um poste, numa praça do Recife, para que ninguém mais ousasse liderar um quilombo ou pretendesse ajudar os escravos a serem livres. Ao invés de pôr fim às lutas pela liberdade, a morte de Zumbi, ao contrário, suscitou da parte de muitos escravos a consciência de que não poderiam deixar que a morte desse grande chefe fosse inútil. A memória do seu martírio se tornou incentivo para que negros, índios e brancos se unissem em torno de um projeto de igualdade humana e de um Estado cujas raças e etnias pudessem ser cidadãs de pleno direito. Até hoje, esta democracia racial plena não é um direito adquirido. No Brasil, as pessoas de raça negra ainda têm menos condições de acesso à educação, ao trabalho remunerado e à plena cidadania. E não só isso. José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, afirma: "A cor negra da pele de homens e mulheres, assim como sua raça e cultura próprias, foram motivos de crueldade humana e de barbárie que mancharam e continuam manchando a dignidade da humanidade" A reflexão é de Marcelo Barros, monge beneditino e escritor brasileiro, e pode ser lida no jornal online Adital, onde também se encontram outros artigos de opinião sobre Zumbi dos Palmares, como Valeu Zumbi!, da jornalista Elaine Tavares, ou Zumbi dos Palmares liderou a 1ª experiência democrática do Brasil, de Ismar C. de Souza, militante do movimento negro e jornalista free lancer.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Disse, está dito! Quando não se está em democracia é outra conversa, EU digo como é que é e faz-se”; “E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia”. Foi isto o que eu ouvi MFL dizer, com a maior das calmas, entre outras barbaridades, e até me ia engasgando com a sopa. Não se tratou de palavras ditas “no calor da luta política”, como concedeu Marcelo, apoiante incondicional deste abencerragem. Foram lidas (pelo menos tinha papéis na estante) na calma de um pós almoço na Câmara do Comércio Luso-Americana e, a menos que tenha decidido seguir na peugada do seu ídolo ajardinado, sabia muito bem o que dizia. Também não foi uma afirmação “irónica”, como veio defender o vassalo Guedes. Para além de não haver qualquer ironia na afirmação, também não a havia na voz. Ainda menos acredito que “não pode ter querido dizer aquilo que disse”, ao contrário do que defendeu o seu antigo adversário Coelho, o Passos. Quando se lê algo que se escreveu (e, de tão mau, teve de ser escrito por ela), não há lugar para equívocos. MFL é mesmo assim, uma espécie de múmia cristalizada no tempo da outra senhora, uma pretensa economista que da economia tem a percepção de um contabilista (com o devido respeito para com estes últimos, que têm uma profissão importante na sociedade). A mensagem dela não passa, porque não pode passar algo que inexiste, mesmo que toda a comunicação social fosse sua lacaia, longe vá o agoiro. MFL não deixou de ter condições de liderar o maior partido da oposição pelo que ontem afirmou; ela nunca teve condições de liderar o que quer que fosse, talvez com a excepção de umas folhas do Balanço e de Ganhos e Perdas. Perdem todos o que acreditam na democracia, mesmo numa democracia burguesa com as falhas que a nossa tem tido; e o Sócrates também ganha, pois bem pode descansar de uma oposição que se opõe a si própria.

terça-feira, novembro 18, 2008

Light my fire O cara chega ao escritório cantarolando um clássico do The Doors - mas isso é uma provocação, por favor, não faz! Ela, que sempre adorou o Jim Morrison com aquele timbre poderoso de contrabaixo e um embalo meio jazzístico. Aquele jeito malvado num rosto de menino. Quando a amiga lhe disse ao telefone “o Jim tá morto, morreu de overdose, na banheira”, tirou o jeans preto do armário, fez voto de silêncio, e pelo resto do mês desfilou seu luto. Até pra morrer o filho da mãe inventa um estilo. Afinal, não é o que importa? Ter estilo? Ela era tão nova. E boba. Bobinha. Na cabeceira da cama, onde deveria impor-se um crucifixo de conter a libido mal domada das mocinhas, vigiava o ídolo. Tinha noites em que o roqueiro voltava do além via pôster fazendo-a despertar inteira. Bom, quando o monumento entra embalando a voz “vem bebê acender o meu fogo”, numa onda tipo não sei de nada, ela se faz tocha de incendiar caminhos - vem por aqui, por aqui - ou um interruptor capaz de ativar milhões de watts em testosterona. Aí, fica difícil... Vai concentrar no trabalho, vai, uma falação medonha, quanta miudeza boa pra se guardar num armarinho. E ela ali - mulher, teu nome é paciência - num esforço capricorniano mantém a pose profissional o quanto pode. Transbordando The Doors por entre frestas e aberturas. Algumas vezes, o que temos de melhor é a memória. A loira lembrou de coisas no momento em que despachava assuntos. O sabor retornando à rosa boca. A boca que se impôs. Absoluta. No sexo absoluto dele. E enquanto a cabeça era empurrada repetidas vezes sufocando-a em direção ao todo, suas narinas se dilatavam num esforço de guardar-lhe o almíscar. Lembrou tantas bobagens ao encará-lo de frente... Deliciosamente burra durante o expediente. Myrian Beck Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

segunda-feira, novembro 17, 2008

Resíduos a lágrima é um ápice a réstia um âmbito a morte é um ritmo o corpo uma oferenda o beijo é uma núpcia efêmera Cândido Rolim* *poeta brasileiro

domingo, novembro 16, 2008

Biografias Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel. Esta convicção de que tudo quanto dizemos e fazemos ao longo do tempo, mesmo parecendo desprovido de significado e importância, é, e não pode impedir-se de o ser, expressão biográfica, levou-me a sugerir um dia, com mais seriedade do que à primeira vista possa parecer, que todos os seres humanos deveriam deixar relatadas por escrito as suas vidas, e que esses milhares de milhões de volumes, quando começassem a não caber na Terra, seriam levados para a Lua. Isto significaria que a grande, a enorme, a gigantesca, a desmesurada, a imensa biblioteca do existir humano teria de ser dividida, primeiro, em duas partes, e logo, com o decorrer do tempo, em três, em quatro, ou mesmo em nove, na suposição de que nos oito restantes planetas do sistema solar, houvesse condições de ambiente tão benévolas que respeitassem a fragilidade do papel. Imagino que os relatos daquelas muitas vidas que, por serem simples e modestas, coubessem em apenas meia dúzia de folhas, ou ainda menos, seriam despachados para Plutão, o mais distante dos filhos do Sol, aonde de certeza raramente quereriam viajar os investigadores. Decerto se levantariam problemas e dúvidas na hora de estabelecer e definir os critérios de composição das ditas “biobliotecas”. Seria indiscutível, por exemplo, que obras como os diários de Amiel, de Kafka ou de Virginia Woolf, a biografia de Samuel Johnson, a autobiografia de Cellini, as memórias de Casanova ou as confissões de Rousseau, a par de tantas outras de importância humana e literária semelhante, deveriam permanecer no planeta onde haviam sido escritas para que fossem testemunho da passagem por este mundo de homens e mulheres que, pelas boas ou más razões do que tinham vivido, deixaram um sinal, uma presença, uma influência que, tendo perdurado até hoje, continuarão a deixar marcadas as gerações vindouras. Os problemas surgiriam quando sobre a escolha do que deveria ficar ou enviar ao espaço exterior começassem a reflectir-se as inevitáveis valorações subjectivas, os preconceitos, os medos, os rancores antigos ou recentes, os perdões impossíveis, as justificações tardias, tudo o que na vida é assombração, desespero e agonia, enfim, a natureza humana. Creio que, afinal, o melhor será deixar as coisas como estão. Como a maior parte da melhores ideias, também esta minha é impraticável. Paciência. José Saramago Publicado em O Caderno de Saramago Felizes 86 anos, José!

sábado, novembro 15, 2008

Por trás da palavra há o caos o caos antecede o tempo o tempo antevê o homem o homem antepara o caos o caos antecede o tempo antevê o homem antepara o caos o caos antepara o homem antevê o tempo antecede o caos Camilo Mota* *poeta mineiro

sexta-feira, novembro 14, 2008

Ser Independente da Opinião Pública Ser independente da opinião pública é a primeira condição formal para realizar qualquer coisa grandiosa ou racional, tanto na vida como na ciência. Com o tempo, este feito será seguramente reconhecido pela opinião pública, que na altura conveniente o transformará em mais um dos seus preconceitos. Georg Hegel, in 'Filosofia do Direito'

quinta-feira, novembro 13, 2008

Os Convencidos da Vida Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se? (...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi. Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim" Retirado do Citador

quarta-feira, novembro 12, 2008

Os Deuses de Hoje (Segundo soneto) É preciso que a música aparente no vaso harmonizado pelo oleiro seja perfeitamente consistente com o gesto interior, seu companheiro e fazedor. O vaso encerra o cheiro e os ritmos da terra e da semente porque antes de ser forma foi primeiro humildade de barro paciente. Deus, que concebe o cântaro e o separa da argila lentamente, foi fazendo do meu aprendizado o Seu compêndio de opacidades cada vez mais claras, e com silêncios sempre mais esplêndidos foi limando, aguçando o que escutara. Bruno Tolentino

terça-feira, novembro 11, 2008

As letras do riso Li há muito tempo, não sei onde, que podemos rir em diferentes letras. Quem ri em A ri o riso solto, franco, generoso, como se cantasse em dia de sol, de peito aberto, braços abertos, coração aberto, gargalhada aberta. Riso em A pode virar riso em K, kakakaka! Ou em H aspirado, hahahahaha! Gargalhar com a garganta e com a alma. Outro tipo de riso é o riso em E. Malicioso riso, um tanto triste, porque é riso de quem ri da humanidade, esquecendo-se, o gozador, que todos à humanidade pertencemos. Riso meio cínico, se é que existe meio cinismo. Riso de quem pensa que tem tudo e por isso ri de quem nada tem. Riso em tom menor, riso que ri da dor alheia, mas é sintoma de outra dor, oculta dor. O riso em I é riso ingênuo, tímido, fino riso de quem tem medo de rir. Riso talvez bobo, envergonhado riso, riso que ri à toa, sem muita graça, ri para mostrar que sabe rir. Riso com receio de ser ilícito, riso implícito, riso solícito, bondoso, bondoso até demais. Sub-riso. Sorrisinho. Riso escondido de si mesmo, riso preso, riso que até parece choro magoado. Há aqueles que riem em O, riso de Papai Noel, riso gordo, riso corajoso, orgulhoso da arte de rir, riso poderoso, abastoso, copioso, incopiável. Riso redondo, que vai rolando e se desenrolando como tapete a convidar para a festa sem fim, para o mundo melhor, para a alegria sincera. Riso bonachão, luminoso, afetuoso, amoroso, caloroso, riso que entrega uma rosa para a criança doente, riso delicioso como um doce. O riso em U, hipócrita riso, misantropo riso, inescrupuloso riso. Riso do mal. Riso sádico. Riso irresponsável. Riso que humilha, tortura, machuca, tritura. Riso azedo que ri da amargura alheia. Riso que não ouve, não fala, não responde. Riso rude, ruim, sem rosto. Mas existe riso para além das vogais. Podemos rir em diversas consoantes. Rir em X. Riso enigmático, boca fechada, olhos faiscando. Rir em L. Riso lateral, prometendo não se sabe o quê. Rir em S. Riso sinuoso, melífluo riso, só uns poucos entendem sua mensagem. Rir em V. Riso da vitória, que pode ser riso em W, se forem duas pessoas rindo de mãos dadas. Risos vários. É preciso alfabetizar-se para entender o humor de cada um. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, novembro 10, 2008

Cogito Eu sou como eu sou Pronome Pessoal intransferível Do homem que iniciei Na medida do impossível Eu sou como eu sou Agora Sem grandes segredos dantes Sem novos secretos dentes Nesta hora Eu sou como eu sou Presente Desferrolhado indecente Feito um pedaço de mim Eu sou como eu sou Vidente E vivo tranqüilamente Todas as horas do fim Torquato Neto* *poeta brasileiro

domingo, novembro 09, 2008

O caminhoneiro boémio Um caminhoneiro alegre era o Tonhão. Levava sempre na cabina do seu Fenemê um violão, que dedilhava todas as noites acompanhando a cantoria dos companheiros nos postos de gasolina das estradas onde pernoitavam. Na Rio-Bahia, na Fernão Dias, nas estradas goianas ou do sul, todo mundo conhecia o Tonhão, gostava dele e achava bom quando coincidia de passar a noite no mesmo posto de gasolina. Iam para o bar, a cerveja corria solta (“só à noite”, aconselhava ele, “nada de beber antes de dirigir”) e a música também. Boleros e sambas-canções enchiam o ar com músicas que quase sempre falavam de amor ou de saudade. Mas, quando chegava em casa, numa cidade pequena do interior de São Paulo, logo depois de matar a saudade da família, Tonhão ficava doido para viajar de novo, seu romantismo parece que terminava. O problema era a falta de vida noturna que era obrigado a ter, quando estava em casa. Na sua cidade, nove horas da noite já não tinha ninguém na rua. Só alguns “boêmios”. E ele gostava da vida de boemia de verdade, de ficar até tarde bebendo cerveja, tocando seu violão e cantando. Os seus amigos gostavam quando ele chegava, mas logo a mulher começava a lhe falar para não chegar tarde em casa. Aquelas coisas de sempre. Ele ia para um bar, se embalava na música e na cerveja, e nunca chegava antes da meia-noite em casa. Aí, era aquela briga! Um fim de tarde, fazia uma semana que tinha chegado de viagem e esperava carga para viajar de novo, antes do jantar a mulher já foi lhe avisando: - Se for para chegar de madrugada em casa hoje, não precisa nem voltar. Pode ir embora. E o Tonhão saiu só para dar uma voltinha à noite, com intenção de tomar um arzinho e voltar. Mas, no bar da praça, encontrou o Zico, que ele considerava “o melhor cantor das músicas do Nelson Gonçalves”. Topou acompanhar o Zico “só numa música”. E tomou um copinho de cerveja. Aí veio mais uma música, mais uma cerveja... Quando viu era quase uma hora da manhã. Foi embora preocupado e, à uma hora em ponto, entrou em casa devagarzinho, silencioso para não acordar a mulher. Tirou a roupa e entrou com cuidado debaixo das cobertas, ao lado da esposa e dormiu. Cedinho, sentiu um chacoalhão. Abriu os olhos, era a mulher furiosa: - Que hora você chegou essa noite, hem? - Dez horas – disse, sabendo que normalmente a essa hora a mulher já devia estar dormindo. - Mentiroso! Pensa que eu não vi? Quando você entrou, o relógio da igreja estava batendo uma hora! Uma hora, viu? - Uai, o que é que você queria? Que ele batesse no zero também? Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sábado, novembro 08, 2008

Os 12 trabalhos de W. Como é pouco crível que alguém esteja disposto a esportular várias dezenas de euros para ouvir barbaridades, é muito improvável que o Mr. W. venha a ter algum sucesso como conferencista. Mas o ainda inquilino da Casa Branca não tem de se preocupar a procurar trabalho, já que o jornalista do The Guardian Tim Dowling, com o refinado humor que lhe é peculiar, já elaborou uma lista de vários empregos, adequados ao gosto por desafios do “talentoso” sujeito. Embora restrita, a proposta abrange uma dúzia de cargos, desde líder da Coreia do Norte a estrela do musical W, passando por ministro do interior do Irão ou por melhor amigo de Paris Hilton.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Reinvenção A vida só é possível reinventada. Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas... Ah! tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo... - mais nada. Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços. Projeto-me por espaços cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura. Não te encontro, não te alcanço... Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva. Só - na treva, fico: recebida e dada. Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. Cecília Meireles* *poetisa brasileira

quinta-feira, novembro 06, 2008

Sacode as nuvens Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, Sacode as aves que te levam o olhar. Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. Porque eu cheguei e é tempo de me veres, Mesmo que os meus gestos te trespassem De solidão e tu caias em poeira, Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras E os teus olhos nunca mais possam olhar. Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, novembro 05, 2008

Esperança A vitória de Obama, por margem esmagadora em número de votos do Colégio Eleitoral e por margem bem confortável em termos de percentagem, representou a derrota da politica mais rasteira, violenta e hipócrita. Seria utópico pensar que tudo mudou de repente, já que a evolução das mentalidades demora gerações e o povo dos Estados Unidos, como qualquer povo, não passou a ser sábio da noite para o dia e a ideologia continua bem viva. Mas, se o novo Presidente do país mais poderoso do mundo conseguir que, a pouco e pouco, os Estados Unidos: *Deixem de portar-se como donos do mundo e olhem para os outros países em pé de igualdade; *Deixem de interferir na vida dos povos, em qualquer parte do mundo e sobretudo na América Latina, para que cada povo tome o rumo que melhor se adaptar aos seus anseios, em liberdade e em paz; *Levantem o bloqueio a Cuba; *Saiam tão cedo quanto possível dos lodaçais do Iraque e do Afeganistão; *Resolvam diplomaticamente o problema do Irão; *Convençam o aliado israelita de que a única forma de viver em paz é partilhar a terra com os palestinos; *Reconheçam que a Rússia tem justas pretensões a desempenhar um papel relevante no mundo e que deve ser um parceiro, não um inimigo; *Passem a respeitar os direitos humanos, que tanto apregoam, em todas as partes do globo e não apenas onde lhes dá jeito; *Se submetam ao TPI; *Comecem a prestar atenção às alterações climáticas; *Encarem de frente a crise financeira mundial, começando por punir exemplarmente os predadores de Wall Street; *E se tornem num país socialmente mais equilibrado, com garantias de acesso à educação e à saúde para todos os cidadãos.... ...terá valido a pena ter concretizado um sonho de 40 anos.

terça-feira, novembro 04, 2008

Rondó da Liberdade É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer. Há os que têm vocação para escravo, mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão. Não ficar de joelhos, que não é racional renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas. É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer. O homem deve ser livre... O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo, e pode mesmo existir quando não se é livre. E no entanto ele é em si mesmo a expressão mais elevada do que houver de mais livre em todas as gamas do humano sentimento. É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer. Carlos Marighella* *poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Palavra Uma palavra pode ser proferida E esquecida com o tempo Outra pode ser aquecida e sentida Além da eternidade Uma palavra pode ser mantida Pode ser vencida Pode ser transformada Pode ser omitida Pode ser deturpada Pode ser lembrada Uma palavra Afasta o homem da ignorância Aponta a saída do labirinto Fantasiosa ou realista Carrega vida em seu sentido Uma palavra Quando lançada Não tem rumo Não tem caminho certo Trilha ao impulso do vento E na velocidade do pensamento Segue firme, vaga e veloz Como uma flecha Pode destronar uma certeza E como uma chama Pode transformar corações em brasa Uma palavra Simples e inútil Pode mudar o mundo Pode ultrapassar uma crença Pode desatar nós e preconceitos Pode vencer uma guerra Aquela mesma palavra Esquecida em meio a tantas outras Na página amarelada de um livro qualquer Pode ser a salvação Ou a perdição Na vida de alguém Uma simples e imperfeita Palavra Bernardo Almeida* *poeta brasileiro

domingo, novembro 02, 2008

E se insistir? Dona Odualda recebeu um dinheirinho de herança e resolveu comprar uma casa no interior de Goiás, onde poderia criar com todo o cuidado suas duas jóias, Odarcy e Oderly, mocinhas de corpo bem feito, rostos bonitos e muita sensualidade esparramada pelo corpo inteiro. Viúva, com as duas filhas moças, ela não pôde escolher muito, comprou a primeira casa que lhe apareceu por preço razoável. Só tinha um detalhe: era a principal casa de prostituição da cidade. Muitos fregueses das antigas moradoras apareciam todas as noites na casa da dona Odualda, a fim de dar uma trepadinha. Um dia, apareceu na porta da casa uma plaquinha escrita com letras tortas: “Casa de família. Não insista.” Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sábado, novembro 01, 2008

Dedicatória Leões passeiam sua juba imponente à frente de teu esquálido esqueleto. És um pedinte que tem fome, sarnento fraldiqueiro, um cão sem nome? Serás um homem? Um caniço pensante? Um bípede sem penas, ou um rinoceronte apenas? Sofres de angústia existencial ou medo, simplesmente? És um obreiro do transcendental ou só um inocente? Benedicto Ferri de Barros* *poeta brasileiro

sexta-feira, outubro 31, 2008

Para ler e ouvir, sempre! Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de Outubro de 1902. Por mero acaso, deparei-me com este retrato falado, por ele próprio. Para mim, valeu mesmo a pena ouvir.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Íncubo Escorou-se na janela aberta para a rua e sentiu um calafrio esquisito percorrer-lhe a espinha. Estava escuro? Sim, todas as luzes estavam apagadas. Ela amava perambular em silêncio na escuridão da casa. Tatear o contorno dos móveis antigos, as linhas do próprio corpo... sim, ela amava despir-se diante das brumas da madrugada e da memória. Contemplar as estrelas. Tão raro poder vê-las. As luzes da cidade ofuscam o encanto da noite assim como o mistério dos olhos. Diante da janela que emoldurava rubis e diamantes estelares afastou as pernas, alongou o pescoço, os braços, um para cada lado... também era uma estrela de cinco pontas pulsando na noite morna. De repente, emerge da própria companhia para um sobressalto. Não tem coragem de voltar o olhar quando a porta do quarto bate. É o vento, faz o sinal da cruz. Na praia já havia passado por algo do tipo, benze-se outra vez, algo que tentava esquecer, quando interrompera aquela discussão e, descendo do mezanino, fora dormir na sala. Acomodou-se no sofazinho, de costas para a escada. A luz amarelada da varanda penetrando pelas frestas do telhado sem lambri. Com o rosto voltado para a parede abraçou a almofada e, pondo uma das quatro pontas entre os joelhos, cobriu sua nudez com uma manta cheirando a armário. Aconchegara-se na própria mágoa para esquecer os insultos que ouvira. Mas, na fronteira entre a vigília e o sono, ali, onde confundimos os mundos, percebeu alguém em pé, quase encostado no sofá, ao seu lado. Mesmo sem olhar, sentiu a energia de um homem. Seria o seu? Arrependido das grosserias lhe beijaria as faces, os olhos vermelhos do choro sufocado, “me perdoa, gringa”, ela iria ouvir reconfortada e fariam as pazes e depois amor. Mas não houve palavra. Nem gesto. Alguém permanecia ali, imóvel, espiando seu corpo. E então, agora, a mesma impressão de estar sendo vigiada. Quando a porta do quarto bate, de morno, o ar fica gelado. Os pelos da nuca retesados conectam sua lembrança com o resto do episódio da praia quando, agarrada ao escapulário encarou um estranho, metido num capote preto até o chão, lá em cima um chapéu de abas enormes a ocultar, nas trevas, rosto e intenção. Pareceu-lhe ouvir seu respirar: lento e profundo como quando se está no domínio da situação. Pareceu-lhe mais, pareceu-lhe intensamente úmido e ainda mais salobro o ar. A criatura tem algo nas mãos... uma pedra? Vai esmagar minha cabeça! Ao amanhecer estarei morta e o mundo nem vai ligar, no máximo uma notinha no jornal local “veranista é trucidada dormindo”, mas eu não estou dormindo, não estou, JOHNNY!, pensou ter gritado. E vai ver que gritou, de fato. Pois o grito dado ou pensado libertou-a do quebranto. FLASH SOBRE DUAS GARRAS VERDES, VISCOSAS, NAS PONTAS DO QUE SERIAM DEDOS, VENTOSAS, NÃO ESTOU DORMINDO, POR DEUS, AQUILO TRAZ UMA GAIOLA INFESTADA DE RATOS, AMARRADA NA CINTURA... OU... DO UMBIGO FAZ PARTE E FLUTUA! Não quer lembrar o verão! Sai da janela, rápido, tateando até a cama; protege-se entre ursinhos de pelúcia, negações e travesseiros. Só que ele a espreita de novo e, a qualquer momento, sem qualquer ruído pode arrancar-lhe o lençol, seu esconderijo de pano. Sob as abas do chapéu, lá em cima, Johnny, a gente se salva no afeto ou na saliva densa de sede e fome? Então, a criatura retirou de dentro da gaiola o maior deles. O mais peludo. Com seu rabo de chicote. Seu guincho de porco na degola. Retirou aquele rato bem do fundo e, lentamente, intimamente, levantando a manta com cheiro de armário forçou o bicho várias vezes até abrir caminho. Foi quando a noite partiu-se ao meio. Com gemidos de quem sucumbe ao diabo, ou dele se liberta. Por espasmos da garganta ou da vagina. Myrian Beck Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
“He's Not One of Us” As John McCain's chances seem weakened or dead, Republican rallies become mobs instead. They have no civility left-not a shred. They curse at Obama, their faces bright red: "A traitor!" "A terrorist!" "Off with his head!" "He's not one of us," Sarah Palin has said. Lucky him. Calvin Trillin Publicado no The Nation

quarta-feira, outubro 29, 2008

O RIO NÃO MORRE “También se muere el mar” (Garcia Lorca) “Aquele rio era um cão sem plumas” (João Cabral de Melo Neto) Não se mata um rio como não se enterra um morro Como a fogueira não se põe no bolso Como um leão não pede socorro Um rio terminal é a soma da baba do rebanho viscoso no que tem de sono aéreo no que tem de sonho O mar recebe o rio feito de escombros O mar pode morrer (Netuno exangue) Não por obra do rio que guarda o sopro Envenenado talvez, mas nunca morto Um rio sobrevive sem suas vertentes Um rio pode seguir sem ser corrente Um rio não é a escama de nenhum peixe Ele será sempre o rio da minha infância O Uruguai antes do saque touro frente à lua surra de gigante Nesse rio sem fim mora meu povo Cobre de minuano ao frio Charrua de invencível lança Não se mata um rio O sol não cabe numa estante A eternidade acampou e faz a ronda Nei Duclós* *poeta brasileiro que hoje celebra 60 anos
O Homem Público N. 1 Tarde aprendi bom mesmo é dar a alma como lavada. Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Que significa isso? Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Discursos detonam. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir. No entanto também escrevi coisas assim, para pessoas que nem sei mais quem são, de uma doçura venenosa de tão funda. Ana Cristina Cesar* *no 25º aniversário da sua morte, aos 31 anos de idade.

terça-feira, outubro 28, 2008

Peço desculpas Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, de economias familiares, o capital de seus empreendimentos. Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão. Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos - os economistas neoliberais - saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés. Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade. Reduzi todos os valores ao casino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços. Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização. Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me. Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante. Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas. Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezanove anos. Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período. Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação. Para contê-la, o governo subiu os juros... e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário. Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou. Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro. Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação. Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado! Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores. Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e precisarão repensar suas políticas econômicas. Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura. Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência. Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim. Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel. Frei Betto* *escritor e teólogo da libertação brasileiro Publicado originalmente no Adital