quarta-feira, janeiro 31, 2007

A classe de um Embaixador Recebi, por correio electrónico, uma mensagem que retrata a classe do Embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa. Como já escrevi, às vezes os boatos são perigosos, pelo que devemos combatê-los sem tréguas. Decidi, pois, averiguar a veracidade da mensagem e, à primeira tentativa, lá estava ela em destaque no sítio da Embaixada de Portugal no Brasil. É, portanto, verdade, que o “jornalista” de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, sr. Políbio Braga, publicou no seu sítio http://www.polibiobraga.com.br/ , no dia 5 de Dezembro de 2006, a seguinte nota: Portugal não merece ser visitada e os portugueses não merecem nosso reconhecimento Há apenas uma semana, em apenas quatro anos, o editor desta página visitou pela quinta vez Lisboa, arrependendo-se pela quarta vez de ter feito isto. Portugal não merece ser visitada e os portugueses não merecem nosso reconhecimento. É como visitar a casa de um parente malquisto, invejoso e mal educado. Na sexta e no sábado, dias 24 e 25, Portugal submergiu diante de um dilúvio e mais uma vez mostrou suas mazelas. O País real ficou diante de todos. Portugal é bonito por fora e podre por dentro. O dinheiro que a União Européia alcançou generosamente para que os portugueses saíssem do buraco e alcançassem seus sócios, foi desperdiçado em obras desnecessárias ou suntuosas. Hoje, existe obra demais e dinheiro de menos. O pior de tudo é que foi essa gente que descobriu e colonizou o Brasil. É impossível saber se o pior para os brasileiros foi a herança maldita portuguesa ou a herança maldita católica. Talvez as duas . Com a categoria que lhe é reconhecida, o Embaixador de Portugal no Brasil respondeu ao sr. Políbio Braga, na carta que transcrevo: Brasília, 8 de Dezembro de 2006 Senhor Políbio Braga Um cidadão brasileiro, que faz o favor de ser meu amigo, teve a gentileza de me dar a conhecer uma nota que publicou no seu site, na qual comentava aspectos relativos à sua mais recente visita a Portugal. Trata-se de um texto muito interessante, pelo facto de nele ter a apreciável franqueza de afirmar, com todas as letras, o que pensa de Portugal e dos portugueses. O modo elegante como o faz confere-lhe, aliás, uma singular dignidade literária e até estilística. Mas porque se limita apenas a uma abordagem em linhas muito breves, embora densas e ricas de pensamento, tenho que confessar-lhe que o seu texto fica-nos a saber a pouco. Seria muito curioso se pudesse vir a aprofundar, com maior detalhe, essa sua aberta acrimónia selectiva contra nós. Por isso lhe pergunto: não tem intenção de nos brindar com um artigo mais longo, do género de ensaio didáctico, onde possa dar-se ao cuidado de explanar, com minúcia e profundidade, sobre o que entende ser a listagem de todas as nossas perfídias históricas, das nossas invejazinhas enraizadas, dos inumeráveis defeitos que a sua considerável experiência com a triste realidade lusa lhe deu oportunidade de decantar? Seria um texto onde, por exemplo, poderia deter-se numa temática que, como sabe, é comum a uma conhecida escola de pensamento, que julgo também partilhar: a de que nos caberá, pela imensidão dos tempos, a inapelável culpa histórica no que toca aos resquícios de corrupção, aos vícios de compadrio e nepotismo (veja-se, desde logo, a última parte da Carta de Pêro Vaz de Caminha), que aqui foram instilados, qual vírus crónico, para o qual, nem os cerca de dois séculos, que se sucederam ao regresso da maléfica Corte à fonte geográfica de todos os males, conseguiram ainda erradicar por completo. Permita-me, contudo, uma perplexidade: porquê essa sua insistência e obcecação em visitar um país que tanto lhe desagrada? Pela quinta vez, num espaço de quatro anos ? Terá que reconhecer que parece haver algo de inexoravelmente masoquista nessa sua insistente peregrinação pela terra de um "parente malquisto, invejoso e mal educado". Ainda pensei que pudesse ser a Fé em Nossa Senhora de Fátima o motivo sentimental dessa rotina, como sabe comum a muitos cidadãos brasileiros, mas o final do seu texto, ao referir-se à "herança maldita católica", afasta tal hipótese e remete-o para outras eventuais devoções alternativas. Gostava que soubesse que reconheço e aceito, em absoluto, o seu pleníssimo direito de pensar tão mal de nós, de rejeitar a "herança maldita portuguesa" (na qual, por acaso, se inscreve a Língua que utiliza). Com isso, pode crer, ajuda muito um país, que aliás concede ser "bonito por fora" (valha-nos isso !), a ter a oportunidade de olhar severamente para dentro de si próprio, através da arguta perspectiva crítica de um visitante crónico, quiçá relutante. E porque razão lhe reconheço esse direito ? Porque, de forma egoísta, eu também quero usufruir da possibilidade de viajar, cada vez mais, pelo maravilhoso país que é o Brasil, de admirar esta terra, as suas gentes, na sua diversidade e na riqueza da sua cultura (de múltiplas origens, eu sei). Só que, ao contrário de si, eu tenho a sorte de gostar de andar por onde ando e você tem o lamentável azar de se passear com insistência (vá-se lá saber porquê!), pela triste terra dessa "gente que descobriu e colonizou o Brasil". Em má hora, claro! Da próxima vez que se deslocar a Portugal (porque já vi que é um vício de que não se liberta) espero que possa usufruir de um tempo melhor, sem chuvas e sem um "dilúvio" como o que agora tanto o afectou. E, se acaso se constipou ou engripou com o clima, uma coisa quero desejar-lhe, com a maior sinceridade: cure-se ! Com a retribuída cordialidade do Francisco Seixas da Costa Embaixador de Portugal no Brasil A propósito do mesmo “jornalista”, a não perder o comentário de Paulo Torck , afixado no sítio PORTUGAL DIGITAL, em 28 de Janeiro, sob o título “o que penso do Políbio”.
Retrato da campanha?


Qualquer semelhança entre este desenho e a campanha do referendo não é pura coincidência.
















Amável oferta do autor
Desmistificar fantasias – III Tendo analisado o que é a senciência, quando começa ela nos seres humanos? “Quais são os critérios na base dos quais podemos avaliar a senciência nos embriões humanos? Quando os critérios( fisiológico e comportamental) são aplicados aos embriões humanos, verifica-se que os embriões humanos a serem utilizados na investigação em células estaminais não têm a capacidade de sentir dor. Analisemos primeiro o critério fisiológico. Para o embrião ter consciência de uma sensação de dor precisam de existir, pelo menos, as seguintes estruturas anatómicas: i) receptores sensoriais capazes de responder a um estímulo doloroso; ii) nervos para conduzir os impulsos gerados nestes receptores até à medula espinal; iii) fibras nervosas na medula espinal que transmitam estes impulsos de dor ao cérebro. Provas comportamentais de que estas estruturas estão presentes são a presença de respostas reflexas, visto que estas requerem que os nervos que emergem da medula espinal estejam intactos e funcionais. Os nervos responsáveis por transportar as sensações da pele à medula espinal desenvolvem-se por volta do fim da sétima semana de gestação (por exemplo, observaram-se respostas labiais tácteis depois desse período), e o tálamo, ao qual as fibras nervosas transmitem os impulsos dolorosos, diz-se que está funcional a partir da oitava semana de gestação. Mas, como vimos, a presença de respostas reflexas não é, só por si, suficiente para a percepção da dor. Em algumas descrições da senciência em embriões, a formação de todas as estruturas necessárias à percepção da dor aparece muito mais tarde na tabela de desenvolvimento pré-natal, quando se estabelecem ligações sinápticas no cérebro. Isto acontece no terceiro trimestre de gravidez.” Lisa Bortolotti e John Harris

terça-feira, janeiro 30, 2007

Desmistificar fantasias - II Em 1998 foram utilizadas imagens de embriões ou fetos alegadamente abortados para tentar incutir nas pessoas a ideia de que, quando se pratica uma IVG, existe um ser que sofre. Agora, a mesma ideia é transmitida num cartaz em que se pergunta: “ABORTAR POR OPÇÃO QUANDO JÁ BATE UM CORAÇÃO?”. Vejamos, entanto, o que é a senciência: “Uma breve definição de senciência foi dada atrás quando foi feita a distinção entre a capacidade de ter experiências e reagir adequadamente a estímulos externos (senciência) e a capacidade adicional de estar ciente de si próprio enquanto indivíduo distinto cuja existência começou um dia no passado e se prolongará no futuro (autoconsciência). Ao fazer essa distinção, pressupôs-se que a senciência e a consciência representam a mesma capacidade e que ser senciente consiste em ter experiências conscientes. A senciência será aqui examinada com mais profundidade porque na bibliografia sobre o bem-estar animal e na ética aplicada em geral este conceito é utilizado de forma ambígua para distinguir duas capacidades diferentes. Num dos sentidos de "senciência", o conceito não implica consciência fenomenológica (ou saber o que é ter uma certa experiência). É apenas reactividade discriminativa, isto é, a capacidade de reagir a estímulos externos. As plantas e os computadores podem fazê-lo, sem estarem cientes dos aspectos qualitativos dos estímulos a que reagem. Ter experiências fenomenologicamente conscientes requer o conhecimento de alguns aspectos qualitativos (ou qualia) das experiências que temos, por exemplo a vivacidade de uma cor que distinguimos visualmente. Pressupomos que os outros seres humanos são fenomenologicamente conscientes tal como nós, mas (saber) se alguns animais não humanos são fenomenologicamente conscientes é uma discussão em aberto (Carruthers, 1992) . De notar que nem todos os filósofos acreditam que a consciência fenomenológica seja um conceito digno de respeito e alguns têm sustentado que a existência dos qualia enquanto tais é um mito (Churchland, 1988; Dennett, 1988). A outra caracterização de senciência como capacidade de sentir dor ou prazer inclui a presença da consciência fenomenológica, ou é neutra em relação a ela. Embora as plantas e os computadores possam reagir a estímulos externos de uma forma adequada, não podem sentir dor ou prazer porque carecem da estrutura interna que permita que a dor ou o prazer sejam percepcionados. Quando se trata de animais não humanos, não se pode fazer uma afirmação geral. Alguns animais têm um sistema nervoso semelhante ao nosso, e é provável que sintam dor quando confrontados com estímulos adversos, ao passo que outros animais não. A senciência no último sentido será examinada por duas razões. Primeiro, não acreditamos que o conceito de consciência fenomenológica seja particularmente útil, se é que é de todo legítimo. Segundo, este último é o sentido no qual a maioria dos filósofos e outros indivíduos preocupados com o bem-estar animal utilizam a palavra. Visto que o que interessa para a consideração moral directa é a presença de crenças e desejos acerca do próprio bem-estar, sentir dor é uma condição necessária para querer evitar a causa da dor. A capacidade de sentir dor é aquilo que nos parece moralmente relevante”. Lisa Bortolotti e John Harris

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Marchas e procissões Amável oferta do autor.
Desmistificar fantasias – I Como afirmei aqui, o meu voto SIM no próximo referendo baseia-se na conclusão, retirada da análise dos argumentos dos grandes especialistas em bioética a nível mundial, de que “até para bastante além das 10 semanas o feto humano não tem interesses que devam ser salvaguardados pelo estado, dado que não lhe é infligida dor nem lhe são cerceados quaisquer direitos já adquiridos”. Ao longo de várias “postas”, vou tentar desmistificar algumas fantasias avançadas pelos defensores do NAO. Para o efeito, servir-me-ei de extractos de um ensaio de Lisa Bortolotti e John Harris, inicialmente publicado em Reprodutive BioMedicine Online, Vol.10, Sup. 1, 2005 pp.68-75. A tradução deste ensaio foi publicada na revista online de filosofia Crítica, em 19 de Julho de 2006, sendo o acesso reservado a subscritores. Para o efeito, obtive do respectivo director a devida autorização. De notar que o ensaio, cujo nome original é "Stem cell research, personhood and sentience", é dedicado à investigação em células estaminais embrionárias mas, sendo os argumentos dos adversários os mesmos que são utilizados para a recusa da despenalização da IVG, a sua refutação é perfeitamente ajustada. Lisa Bortolotti, da Universidade de Birmingham e John Harris, da Universidade Manchester, são ambos especialistas em ética aplicada e têm extensa bibliografia publicada sobre a matéria. John Harris preside ao Grupo de Trabalho do projecto Eureka dedicado à “Ética da Investigação em Células Estaminais e Terapia na Europa” e Lisa Bortolotti integra, também, esse Grupo de Trabalho.

domingo, janeiro 28, 2007

A ver se nos entendemosaqui afirmei que ser pelo direito à vida também pode significar votar SIM. Já escrevi, também, que sou livre, consciente e informadamente católico e que vou votar SIM. E também já fui, em alguns fóruns da blogosfera, acusado de ser ateu, de não ser católico nem cristão e, até, de talvez não ser baptizado. Mas porque razão afirmaria eu ser crente e pertencer a uma determinada igreja, quando hoje tal não pode ser motivo de orgulho (não vou justificar esta afirmação, pois deixo isso para os anti-clericais) e até é preciso ter coragem para o assumir? Porque razão é que um crente teria de votar NÃO? De toda a panóplia de argumentos, só vejo dois que possam levar alguém a votar NÃO. O primeiro, que pode ser subscrito também por não crentes, tem por base a potencialidade do embrião e do feto. Por mais rebuscada que seja a argumentação, vai sempre dar ao mesmo: se ninguém interferir com o processo normal de desenvolvimento, o embrião e o feto serão, um dia, um ser igual a nós. Não é este o espaço apropriado para rebater este argumento mas, para além de não esclarecer o que é o processo normal de desenvolvimento, não tem em conta os estudos recentes sobre senciência e pessoalidade e reveste-se de uma acentuada vertente especista. O segundo, tem a ver com a “santidade” da vida humana desde o momento da concepção, e é de cariz exclusivamente religioso. Mas, mesmo para quem é religioso, ainda há muito por explicar. Como é sabido, São Tomas de Aquino defendia que um embrião não tem alma até várias semanas depois do início da gravidez. São Tomás aceitava a opinião de Aristóteles de que a alma é a "forma substancial" do ser humano. O seu ponto de vista acerca desta questão foi oficialmente aceite pela igreja no Concílio de Viena, em 1312, e até hoje nunca foi oficialmente repudiado. Sobre o ponto de vista aristotélico-tomista afirmou o Sr. D. José, no seu primeiro documento dedicado ao referendo, que “essa questão foi completamente ultrapassada pela Teologia e pelo Magistério”. Será que foi mesmo? Onde, quando, por quem e com que autoridade? Por Pio IX, que também se declarou infalível? Acha mesmo o Sr. D. José que o Papa é infalível, ou só o é quando age e faz doutrina com o conjunto dos Bispos? Mas, dando esta questão de barato, a quem é que ela obriga? Aos católicos e a mais ninguém. Então, porque é que nós temos de impor a quem tem outras crenças ou não tem crença nenhuma uma “verdade” assente no Magistério da Igreja? Que eu saiba, a infusão da alma não tem quaisquer bases científicas, sendo, apenas, uma questão de fé. Pela minha parte, nunca tive, felizmente, de ajudar a minha mulher a decidir interromper ou não uma gravidez. Porque não seguimos o tal Magistério quanto aos contraceptivos, encontrámos um clínico geral e uma ginecologista/obstetra absolutamente exemplares e sem teias de aranha na cabeça e, sobretudo, tivemos a ventura de não nos termos deparado com uma gravidez não desejada. Se a Teologia e o Magistério entendem que a IVG é um pecado grave, é-o apenas para os católicos, que terão a sanção da sua igreja, isto é, serão excluídos da comunidade de crentes (excomungados) até que alguém, neste caso um Bispo, levante essa exclusão. Já não o é para os seguidores de outras crenças e, muito menos, para os não crentes. Ao votar SIM, não estou a obrigar nenhuma mulher a fazer uma IVG e, muito menos, a abrigar uma católica a cometer um pecado mortal. Estou, apenas, a deixar, com toda a tolerância que devemos ter para com estas questões, a decisão à consciência de cada um. Pois, abstraindo-me racionalmente da minha fé para pensar em termos de protecção de direitos por parte do Estado, não vejo, nesta questão, que direitos cumpre ao Estado defender.

sábado, janeiro 27, 2007

Religião e dever público Na governação dos Estados democráticos, a coisa pública não pode andar ao sabor das crenças religiosas, pois os Estados têm o dever de tratar igualmente todos os seus cidadãos. Assim, se um governante é confrontado com a necessidade de tomar decisões que vão contra os ditames da sua religião e não é capaz de ultrapassar essa situação, só tem um caminho a seguir: retirar-se, humildemente, da gestão da coisa pública. Não foi isso que sucedeu com António Guterres quando, em 1998, o Parlamento tinha condições para legislar sobre a IVG. A sua crença religiosa sobrepôs-se ao seu dever de líder do governo e do partido então maioritário. Como consequência, tivemos um referendo marcado para uma época alta de férias (28 de Junho), com muita gente a ir para a praia e muitos outros impedidos de votar (como foi o meu caso e o de tantos milhares de portugueses com férias negociadas e já pagas em locais muito distantes da sua assembleia de voto quando a data do referendo foi marcada), mais oito anos num país que não faz cumprir as suas leis e um novo referendo onde parece valer tudo, até “tirar olhos”. Também tal não aconteceu quando o presidente dos Estados Unidos, empossado há alguns meses, decidiu, em Agosto de 2001, que a investigação em células estaminais embrionárias não devia ser financiada por fundos federais dado que, em seu entender, tal investigação atentava contra a “santidade” da vida humana. Embora por linhas tortas, foi isso que aconteceu quando o Parlamento Europeu se opôs à tomada de posse, como comissário de Durão Barroso encarregado de velar pelos direitos de todos os cidadãos europeus, do Sr. Rocco Butiglioni, que declarara que, para si, a homossexualidade era um pecado. Recordo-me de que, na altura, Mário Pinto se insurgiu, nas páginas do Público, contra esse impedimento, uma vez que o italiano saberia destrinçar entre a sua fé e as suas obrigações como comissário europeu. O mesmo Mário Pinto que, poucos meses depois, assinou um alerta aos eleitores católicos para que não votassem em forças políticas que defendessem a IVG. Mistérios da incoerência militante. Veremos agora o que acontece em Inglaterra, onde Ruth Kelly, membro do Opus Dei e ministra de Toni Blair, tem de preparar legislação que proíba a discriminação contra os casais homossexuais e onde o próprio primeiro ministro parece ter sérios problemas com tal legislação. Laicidade, precisa-se.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

A pobreza do debate - III Existirão, de facto, posições claramente religiosas sobre as grandes questões morais, que os crentes sejam obrigados a aceitar? A ser assim, serão essas posições diferentes das perspectivas que outras pessoas podem alcançar através da simples tentativa de raciocinar para descobrir o melhor caminho a seguir? A retórica do púlpito sugere que a resposta a ambas as questões é "sim". Mas há várias razões para pensar de outra forma. Em primeiro lugar, é frequentemente difícil descobrir uma orientação moral específica nas escrituras. Os nossos problemas não são os mesmos que os judeus e primeiros cristãos enfrentaram há muitos séculos; não é por isso surpreendente que as escrituras possam nada dizer sobre questões morais que a nós nos parecem prioritárias. Vale a pena ler o artigo Moral, aborto e religião, de James Rachels publicado em 19 de Janeiro na Crítica

terça-feira, janeiro 23, 2007

Minha liberdade acaba onde começa a tua? Muitas vezes escutamos esta frase, tida quase como um princípio. Nunca vi alguém questioná-la. Mas pensando nos pressupostos subjacentes e nas possíveis consequências, devemos questioná-la seriamente. É a típica liberdade propugnada pelo liberalismo como filosofia política. Com a derrocada do socialismo realmente existente se perderam algumas virtudes que ele, bem ou mal, havia suscitado como o sentido do internacionalismo, a importância da solidariedade e a prevalência do social sobre o individual. Com a ascensão ao poder de Thatcher e de Reagan voltaram furiosamente os ideais liberais e a cultura capitalista: a exaltação do indivíduo, a supremacia da propriedade privada, a democracia delegatícia, por isso reduzida, e a liberdade dos mercados. As consequências são visíveis: atualmente há muito menos solidariedade internacional e preocupação com as mudanças em prol dos pobres do mundo do que antes. É neste pano de fundo que deve ser entendida a frase "a minha liberdade acaba onde começa a tua". Trata-se de uma compreensão individualista, do eu sozinho, separado da sociedade. É a liberdade do outro e não com o outro. Para que a tua liberdade comece, a minha tem que acabar. Ou para que tu comeces a ser livre, eu devo deixar de sê-lo. Consequentemente, se a liberdade do outro não começa, por qualquer razão que seja, significa então que a minha liberdade não conhece limites, se expande como quiser porque não encontra a liberdade do outro. Ocupa todos os espaços e inaugura o império do egoísmo. A liberdade do outro se transforma em liberdade contra o outro. Essa compreensão subjaz ao conceito vigente de soberania territorial dos estados nacionais. Até aos limites do outro estado, ela é absoluta. Para além desses limites, é inexistente. A consequência é que a solidariedade não tem mais lugar. Não se promove o diálogo, a negociação, buscando convergências e o bem comum supranacional. Por ocasião da crise do gás entre o Brasil e a Bolívia assistimos à vigência deste conceito de liberdade neoliberal e de soberania individualista, manifestada por muitos. Normalmente quando esse paradigma entra em função, se instaura o conflito para cuja solução se apela à força. A soberania de um esmaga a soberania do outro, sacrificando a liberdade. Foi sabedoria do Presidente Lula não se pautar por esta lógica e não ter desistido, para irritação de gente do velho paradigma da força e do troco, de incansavelmente dialogar e de buscar convergências com o presidente Evo Morales. No que efetivamente foi bem sucedido mostrando que a política do ganha-ganha é possível e preferível à do ganha-perde. Por isso, esta deve ser a frase correta: a minha liberdade somente começa quando começa também a tua. É o perene legado deixado por Paulo Freire: jamais seremos livres sozinhos; só seremos livres juntos. Minha liberdade cresce na medida em que cresce também a tua e conjuntamente gestamos uma sociedade de cidadãos livres e solidários. Por detrás desta compreensão da liberdade solidária se encontra o princípio humanista: "faze aos demais o que queres que te façam a ti". Ninguém é uma ilha. Somos seres de convivência. Todos somos pontes que nos ligam uns aos outros. Por isso ninguém é sem os outros e livre dos outros. Todos são chamados a serem livres com os outros e para os outros. Como bem deixou escrito Che Gevara em seu Diário: "somente serei verdadeiramente livre quando o último homem tiver conquistado também a sua liberdade". Leonardo Boff Artigo publicado no site do autor em 21 de Julho de 2006 e aqui afixado com a sua autorização

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O que faz falta... ... é avisar a malta, como cantou Zeca Afonso. Ficou admirado(a) com a publicidade feita nas televisões a um livro, (penso que era um livro) apadrinhado pelos defensores do “não”, no qual mulheres espanholas falam (e falaram na reportagem) sobre os traumas pós-aborto? Aproveitou o fim de semana para fazer uma viagem pela blogosfera e surpreendeu-se com algumas pretensas verdades aduzidas pelo defensores do “não” acerca da discussão sobre o aborto nos Estados Unidos? Quer conhecer o arsenal de lá importado (mal) pelos defensores do “não”? Na véspera do dia em que se cumprem 34 anos sobre a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, no caso Roe contra Wade, de tornar legal o aborto em toda a União, durante os primeiros 2 trimestres de gravidez , a edição de ontem do Sunday Magazine, suplemento dominical do The New York Times, tem para si um documento imperdível. Da autoria de Emily Bazelon, editora sénior da Slate Magazine e que escreve frequentemente sobre “lei e ciência”, Is There a Post-Abortion Syndrome? merece ser lido. Mas apresse-se, pois alguns artigos, por vezes, só estão disponíveis para não subscritores durante cerca de uma semana.
CANTO DOS LUGARES Tantas vezes os lugares habitam no Homem e os homens tantas vezes habitam nos lugares que os habitam, que podia dizer-se que o cárcere de Sócrates, estando nele Sócrates, nao o era, como diz Séneca em epístola a Helvia. Por isso cada lugar nos mostra uma vida clara e desmedida, enquanto o Tempo oscila e nos oculta que é curto e ambiguo porque nos dá a morte e a vida. E os lugares somente acabam porque é mortal cada homem que houve em si algum lugar. Fiama Hasse Pais Brandão

domingo, janeiro 21, 2007

A táctica americana de D. José Todos sabemos que nos Estados Unidos há jurados nos julgamentos. E também conhecemos a táctica dos advogados, quer da acusação quer da defesa, para influenciar a decisão desses jurados. Tentam sacar às testemunhas ou colocar na sua boca as respostas que consideram poderem decidir os destinos dos casos. Dir-se-á que é para isso mesmo que servem os interrogatórios. Pois é. Mas, muitas vezes, a formulação das perguntas e a distorção das respostas carecem de legalidade, o que leva o juiz que preside ao julgamento a dizer aos jurados que não devem ter em conta tal ou tal resposta ou insinuação. Só que os jurados já ouviram e no seu subsconsciente nunca mais vão esquecer isso. O fim que os advogados queriam atingir foi alcançado. Parece que o Sr. D. José Policarpo decidiu utilizar o mesmo estratagema. Escreveu uma Carta aos Párocos e Comunidades Cristãs da sua diocese acerca do referendo do próximo dia 11 de Fevereiro que refere no ponto 1: "A doutrina da Igreja sobre a vida, inviolável desde o seu primeiro momento, obriga em consciência todos os católicos. Estes, para serem fiéis à Igreja, não devem tomar posições públicas contrárias ao seu Magistério. O esclarecimento que os católicos são chamados a fazer sobre esta questão tem de ter em conta também os critérios de fidelidade à Igreja." Seguidamente, recomenda: "Os sacerdotes, enquanto presidentes das assembleias litúrgicas, devem limitar-se, durante as mesmas, à apresentação da doutrina da Igreja sobre o respeito pela vida. A celebração litúrgica não pode ser lugar de campanha, rebatendo argumentos contrários, analisando vertentes políticas e sociológicas do problema. A celebração litúrgica é momento para escutar apenas a Palavra de Deus e a palavra da Igreja. Procurem enquadrar o problema do aborto no conjunto de toda a exigência do respeito pela vida, em todas as circunstâncias, desde a concepção à morte natural, campo vasto do exercício da caridade." E termina resumindo os principais pontos da doutrina da Igreja sobre a vida. Mas D. José não se limitou a escrever a carta. Pediu expessamente que ela fosse lida em todas as celebrações litúrgicas do Patriarcado, o que, de facto transformou as missas em sessões de esclarecimento da campanha do "não". Subvertendo as suas próprias palavras e fazendo tábua rasa de anteriores declarações em contrário. E mais. Transformou os locais de culto em lugares de violentação de consciências. Passou a todos os padres da diocese um atestado de incompetência. E rotulou de atrasados mentais todos os fiéis. Mais grave, ainda, colocou fora da lei a RTP1 que, hoje de manhã, deu uma hora de campanha do "não" à Igreja católica, ao transmitir uma missa semelhante a tantas outras onde a sua carta foi lida. Não sei se nessa o foi ou não, nem isso interessa. Desde há muito, qualquer transmissão do que quer que esteja ligado à Igreja católica é um acto público da campanha do "não". Já que o Sr. Almerindo Marques não tem vergonha na cara nem respeito pelos portugueses, pelo menos a Comissão Nacional de Eleições devia tê-los.

sábado, janeiro 20, 2007

A pobreza do debate - II Aproxima-se mais um refendo sobre o aborto e a discussão pública começa já a surgir nos jornais e na Internet. Nesta, como noutras discussões públicas, dá-se um fenómeno social curioso que importa esclarecer: muitos dos que intervêm no debate fazem-no com argumentos que carecem de informação básica e que são epistemicamente circulares. Os argumentos carecem de informação básica quando as pessoas se recusam a estudar a bibliografia relevante. É um pouco como discutir a química dos vulcões sem nada saber de química nem de vulcões. Este tipo de fenómeno acontece muitas vezes no que respeita a matérias filosóficas. Vale a pena ler o artigo Aborto, argumentação e política, de Desidério Murcho, publicado na Crítica, no dia 7 de Janeiro.
Declaração de Males Paulo Mendes Campos, escritor brasileiro, morreu em 1991. Esta carta é o seu último texto. Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda. Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda. Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho. Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho. Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos. Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário. Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário. Já estive, sem diagnóstico, bem doente. Fui acabando confuso e autocomplacente. Deixei o futebol por causa do joelho. Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho. No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor. Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço. Sou órfão de mãe excelente. Outras doces amigas morreram de repente. Não sei cantar. Não sei dançar. A morte há de me dar o que fazer até chegar. Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim. Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica. Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser. Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato? Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato. Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura. Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara. Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem. Não acredito nos relógios... the pule cast of throught... sou o que não sou (all that I am I am not). Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância. O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo. Não creio contudo em myself. Nem creio mais que possa revelar-me em other self. Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida. Sou o próprio síndico de minha massa falida. Não amei com suficiência o espaço e a cor. Comi muita terra antes de abrir-me à flor. Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra. Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir. A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir. A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante. Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante. Algum deus em mim persiste mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe. Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia. Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia. Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude. Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão. Jamais compreendi os estatutos da mente. O mundo não é divertido, afortunadamente. E mesmo o desengano talvez seja um engano. Texto extraído do livro "O amor acaba", Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1999, pág. 259, organização de Flávio Pinheiro.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Porque mataram Saddam Amável oferta do autor
Miscigenação de Humanos e Neandertais? Um crânio encontrado na caverna Pestera cu Oase (Caverna com Ossos), no sudoeste da Roménia, apresenta características dos Humanos modernos e dos Neandertais, sugerindo a possibilidade de ter havido acasalamento entre as duas espécies, há milhares de ano. Os Neandertais foram substituídos pelos primitivos Humanos modernos e os investigadores têm debatido, durante muito tempo, se houve mistura das duas espécies, embora a maioria duvide disso. Um estudo publicado na edição de 16 de Janeiro do Proceedings of the National Academy of Sciences (requer subscrição ou compra avulso), da autoria de Erik Trinkaus, da Universidade de Washington, St. Louis e do português João Zilhão, da Universidade de Bristol, Inglaterra, entre outros, aborda as características antigas e modernas existentes no crânio, cuja datação por radiocarbono indica que terá, pelo menos, 35.000 anos, podendo mesmo ter mais de 40.000 anos. Segundo os investigadores, o crânio tinha as mesmas proporções da cabeça de um humano moderno e carecia das largas arcadas supra-orbitais associadas comummente aos Neandertais. No entanto existiam algumas características pouco usuais nos humanos modernos, tais como um achatamento frontal, um osso razoavelmente grande por detrás do ouvido (apófises mastóides muito desenvolvidas) e uns molares superiores excepcionalmente grandes, características essas encontradas entre os Neandertais e outros hominídeos primitivos. Como declarou João Zilhão, “tais diferenças levantam questões importantes acerca da história evolutiva dos humanos modernos. Podem retratar uma situação na qual as características antigas reaparecem num humano moderno ou podem indicar uma miscigenação de populações.” Segundo frisou o Dr. Richard Potts, do Museu Nacional de História Natural Smithoniano, o crânio representa o mais primitivo humano moderno alguma vez encontrado na Europa.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

A propósito da posta anterior... ...das declarações de Gentil Martins... (Amável oferta do autor) ... e de outros defensores do "não".
Trogloditas e foras-da-lei A Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adoptada e proclamada pela Assembleia Geral da Nações Unidas na sua Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948 e transcrita para o direito português através da sua publicação no Diário da República, I Série A, n.º 57/78, de 9 de Março de 1978, mediante aviso do Ministério dos Negócios Estrangeiros. No seu artigo 18 dispõe que “toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião”. Vivemos em Portugal, no século XXI e em Janeiro de 2007. Mas, por certas tomadas de posição, parece que vivemos simultaneamente em cavernas e no velho oeste americano, onde impera a lei da bala. Com a diferença de que os homens das cavernas sabem ler e escrever (alguns até muito bem), as armas da coação e do medo são apontadas às consciências e não aos corpos e não há xerifes a perseguir os fora-da-lei. Senão, vejamos: O Papa, na homilia de Ano Novo, comparou o aborto ao terrorismo; O Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, depois de afirmar que a igreja não faria campanha, decidiu publicar uma série de quatro documentos sobre o referendo. No primeiro afirma que, a vencer o “sim”, a nova lei “não será uma solução legítima, pois uma tal lei fere princípios éticos universais” e que o aborto é “um atropelo à civilização”, pondo em causa, como já o tinha feito a Conferência Episcopal, a legitimidade para legislar de um estado democrático e constitucionalmente laico; Ilídio Mesquita, padre de Soutelo Mourisco, em Macedo de Cavaleiros, diocese de Bragança, afirmou que vai “implorar” pela votação no “não” no próprio dia do referendo, o que é manifestamente proibido por lei; O Bispo da Guarda, D. Manuel Rocha Felício, afirmou que o aborto é “uma exclusão social”; O Bispo de Bragança e Miranda, D. António Montes Pereira, comparou o aborto à morte de Saddam Hussein; O cónego Tarcísio Alves, pároco de Castelo de Vide, Diocese de Portalegre, no seu quarto boletim semanal dedicado ao tema e distribuído aos fiéis na missa do passado Domingo, afirma que “os cristãos que votarem sim incorrem numa excomunhão e os que se abstiverem de votar cometem um pecado mortal gravíssimo, que os irá impedir de participar na missa”. Padres vários organizam “terços” públicos de desagravo à Virgem e distribuem folhetos da Virgem com lágrimas nos olhos a chorar pelos futuros pecados das mulheres portuguesas. No entanto, todos estes defensores do “não” afirmam que o voto no referendo é uma questão de consciência. Ora, se assim é, porque estão permanentemente a violentar a consciência das populações, ameaçando-as impunemente se não seguirem as suas directrizes? Se eu vivo num pais que me garante a liberdade de pensamento, de consciência e de religião, se sou livre, consciente e informadamente católico, reassumido já depois dos quarenta anos após um interregno de mais de vinte anos, e se o referendo é uma questão de consciência, então por que é que: O Chefe máximo da minha igreja me compara a um terrorista? O Cardeal que preside à minha diocese acha que eu só tenho legitimidade para votar “não”, quando a minha consciência me diz para votar “sim” e que, além disso, sou um atropelador de civilizações? O Bispo de outra diocese do meu país acha que eu me comporto como quem mandou matar Saddam? Outro Bispo de uma outra diocese me acusa de querer excluir socialmente as mulheres que tiverem de interromper a sua gravidez? Um padre da minha igreja desrespeita impunemente as leis do meu país? Um cónego qualquer diz que eu já estou excomungado, visto que há muito decidi que vou votar sim? Outros padres da minha igreja andam a violentar publicamente as consciências dos mais humildes e indefesos? E querem obrigar-me, contra a minha vontade, a ajudar impor as normas morais da minha religião a quem a não professa?
Dois em um Amável oferta do autor
18 de Janeiro de 1984 Cumprem-se hoje 23 anos sobre a morte daquele que ficou conhecido como o poeta de Abril, de seu nome José Carlos Ary dos Santos. A mão implacável da morte não permitiu que ele continuasse a encher-nos com a sua poesia de amor, paixão e sarcasmo e a maravilhar-nos com a sua qualidade de dizer. Por mero acaso, consegui encontrar há uns anos, perdido numa grande superfície, uma CD com o Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, dito pelo Zé Carlos. Sublime. De um humilde admirador que, apesar dos escasso convívio, teve o privilégio de o conhecer ainda antes de Abril, aqui fica uma singela homenagem. Poeta Castrado, Não! Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo dromedário fogueira de exibição teorema corolário poema de mão em mão lãzudo publicitário malabarista cabrão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado, não! Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria uma coragem serena em renegar a poesia quando ela nos envenena. Os que entendem como eu a força que tem um verso reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso: Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa - mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança? Do frio não reza a história - a morte é branda e letal - mas que dizer da memória de uma bomba de napalm? E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?! - Ah não me venham dizer que é fonética a poesia! Serei tudo o que disserem por temor ou negação: Demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado, não! José Carlos Ary dos Santos

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Casamento Amável oferta do autor

Crânio apoia teoria da Migração do Homem O crânio descoberto em 1952 perto da cidade de Hofmeyr, na África do Sul dá nova força à teoria de que os humanos migraram há uns milhares de anos da África para a Eurásia. Um grupo de investigadores declarou que a idade do crânio Sul Africano, que dataram de há cerca de 36.000 anos, coincidia com a idade de crânios de humanos que nessa altura viviam na Europa, no extremo oriente e mesmo na Austrália e tinha estreitas semelhanças com os destes humanos. Numa comunicação publicada na edição do dia 12 de Janeiro da revista Science, uma equipa de investigação liderada por Frederick E. Grine, da Universidade Estadual de Nova Iorque, em Stony Brook, concluiu que o crânio Sul Africano forneceu uma confirmação decisiva das provas arqueológicas e genéticas que indiciam que os humanos, na sua forma moderna, tiveram origem na África Sub-Sahariana e migraram, quase inalterados, para povoar a Europa e a Ásia. O Dr. Grine e os seus colegas disseram, ao anunciar a descoberta, que o crânio é a primeira prova fóssil que “está de acordo com a Teoria da Migração, que preconiza que humanos semelhantes aos que habitaram a Eurásia deviam encontrar-se na África Sub-Sahariana há cerca de 36.000 anos". Por ocasião da sua descoberta, há 54 anos, o crânio estava praticamente completo, mas os ossos estavam degradados e não sobrava carbono suficiente para que os cientistas, nessa altura, pudessem proceder a uma datação por radiocarbono. Usando uma nova tecnologia, Richard Bailey e outros investigadores da Universidade de Oxford mediram o montante da radiação que foi absorvida pelos grãos de areia que encheram a caixa craniana desde o seu enterro. Calcularam a taxa anual à qual a radiação foi absorvida pela areia e compararam-na com os resultados de uma Tomografia Axial Computorizada do osso. E, assim, determinaram que o crânio de Hofmeyr pertenceu a um humano que viveu há 36.000 anos, com uma variação até 3.000 para mais ou para menos. Uma nova machadada da ciência no criacionismo da “terra jovem”. Mais informação aqui e aqui

terça-feira, janeiro 16, 2007

Ordem ou desordem? Amável oferta do autor
Às vezes os boatos são perigosos Já é a enésima vez que esta mensagem aparece na minha caixa de correio electrónico: "Um bombeiro tinha acabado de salvar uma Dobermann prenha de um incêndio em sua casa, resgatando-a e levando-a para o relvado da frente. O bombeiro teve medo dela no início, pois nunca antes tinha resgatado um dobermann. Depois de a ter largado, voltou para combater as chamas. Quando finalmente o fogo foi extinto, o bombeiro sentou-se na relva para recuperar o fôlego e descansar. Um fotografo do jornal "The Observer", de Charlotte, Carolina do Norte, notou a dobermann olhando para o bombeiro. Ele viu-a andar na direcção dele e perguntou-se o que a cachorra ia fazer. Enquanto o fotógrafo levantava a câmara, ela aproximou-se do bombeiro que tinha salvo a sua vida e as dos seus filhos e beijou-o. Este é o verdadeiro gesto de gratidão e carinho...depois dizem que os animais são irracionais.... " Desta vez decidi tirar tudo a limpo. Uma pesquisa no Google a Doberman + Fireman + Charlotte deu mais de 25.000 respostas, as primeiras das quais dizem que a fotografia é verdadeira mas a noticia está incorrecta, como se pode ver pela seguinte transcrição: "The scene pictured above was captured by Charlotte Observer Patrick Schneider during a house fire in July 1999 and shows firefighter Jeff Clark receiving a doggie greeting from a pregnant red Doberman named Cinnamon. As the Observer described the circumstances behind the photograph in an April 2005 retrospective: Charlotte firefighter Jeff Clark and Cinnamon, a pregnant red Doberman, gained international exposure with this photograph snapped by the Observer's Patrick Schneider during a July 1999 house fire. Seen through wire services and the Internet, the picture has moved people around the world and is still a top reprint seller. As Clark himself explained, he didn't rescue the dog, and his encounter with her was pure happenstance: We didn't do anything (special) to save Cinnamon. When we have a house fire, we have to do a primary search. There could be people home and inside. Our first major concern is life safety. That house was full of smoke and we couldn't see it very well. All I saw was a dog run out, and one was (already) in the backyard. I think Cinnamon got out the door herself. The dog approached me. As soon as I knelt down and took my mask off, Patrick was coming around the corner of the house and took the picture. Jeff Clark is still with the Charlotte Fire Department. Cinnamon eventually gave birth to five puppies and lived for several more years until she passed away in January 2005. Antes de se reencaminharem as mensagens, não custa nada confirmar. O boato é uma coisa muito perigosa. Desta mensagem específica, não vem mal nenhum a ninguém. Mas outras podem acarretar danos irreparáveis, pelo que todo o cuidado é pouco.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

A alimentação dos portugueses Amável oferta do autor
Vacina contra o HPV A notícia sobre a chegada a Portugal da vacina contra o Papilomavírus Humano, uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns, encheu os telejornais do fim de semana. Lamentavelmente, como sempre, não houve jornalismo de investigação. Algumas entrevistas esparsas a especialistas, informações sobre os custos das vacinas e alguma esperança no ar. Portugal juntou-se ao grupo de 12 países que já comercializam a primeira vacina contra o HPV (Human Papillomavirus), vírus causador do cancro do colo do útero. Segundo as informações existentes, Portugal é o país da Europa com maior taxa de incidência desta doença, sendo detectados anualmente 900 novos casos e mais de 300 casos mortais. A vacina agora chegada a Portugal, chamada Gardasil, foi patenteada pela Merck & Co. Por altura da sua aprovação pela FDA dos Estados Unidos, em meados de 2006, um painel de aconselhamento sobre vacinação a nível federal (Advisory Committee on Immunization Practices) aprovou por unanimidade, em 29 de Junho de 2006, uma recomendação para que todas as raparigas e mulheres entre os 11 e os 26 anos recebessem a nova vacina, um voto que implicaria um gasto de cerca de 2 mil milhões de dólares por parte do orçamento federal, apenas num programa de vacinação das raparigas mais pobres entre os 11 e os 18 anos. De imediato se levantaram vários grupos religioso conservadores que se opuseram à vacinação obrigatória de raparigas pré-adolescentes, com medo de que a vacinação contra uma doença sexualmente transmissível enviasse uma mensagem subtil que iria contra a sua abordagem da saúde sexual baseada na abstinência. Chegaram mesmo a chamar-lhe a vacina da “promiscuidade”. Apesar disso, meia dúzia de estados já introduziram legislação que obriga à vacinação das estudantes do ensino médio, vários outros disponibilizam as três doses da vacina sem custo e assiste-se a uma vaga de fundo favorável a uma vacinação em massa. Por cá, a vacina não é comparticipada e é cara, muito mais cara que nos Estados Unidos (€ 480,00 contra $ 360,00) e a informação escassa. Esperemos que, ao menos, as vozes fundamentalistas a condenar a vacinação não se façam ouvir, já que, no actual estado das finanças públicas, a comparticipação não será, infelizmente, para já. E esperemos, também, que a vacina concorrente da GlaxoSmithKline, de nome Cervarix, cuja pedido de aprovação já foi solicitada às autoridades da União Europeia e dos Estados Unidos, apareça rapidamente no mercado, fazendo baixar o preço.

domingo, janeiro 14, 2007

Podemos viver sem convenções ?

Há quem diga que é pouco convencional. Há mesmo quem se vanglorie de viver contra todas as convenções. Mas será isso possível? O filósofo Ludwig Wittgenstein ensinava que nossa comunicação não passa de um grande jogo de palavras. Não há relação direta entre palavras e coisas. Palavras são inventadas arbitrariamente. Seu sentido é fruto de uma convenção e tudo depende do uso que fazemos delas. Estabelecem-se, pois, convenções, a partir de algo arbitrário. Há anos numa aula de filosofia em Munique escutei a seguinte história que faz pensar. Havia um professor que após a aposentadoria se entediava muito porque tudo lhe parecia chato e sem graça A mesa era sempre mesa, as cadeiras, cadeiras, a cama, cama, o quadro, quadro. Por que não poderia ser diferente? Os brasileiros chamam a casa de casa, os franceses de maison, os alemães de Haus e os ingleses de home. E resolveu dar outros nomes às coisas já que tudo nessa área é mesmo arbitrário. Assim chamou à cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, o despertador de álbum de fotografias, o armário de jornal, o tapete de armário, o quadro de mesa e o álbum de fotografias de espelho. Portanto: o homem ficava bastante tempo no quadro, às nove tocava o álbum de fotografias, se levantava e punha-se em cima do armário para não apanhar frio nos pés, depois tirava a roupa do jornal, vestia-se, olhava para a cadeira na parede, sentava-se no despertador junto ao tapete e folheava no espelho até encontrar a mesa da filha. O homem achava tudo aquilo muito engraçado. As coisas começaram de fato a mudar. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Tudo se chamava de outra maneira. Ele já não era um homem mas um pé, e o pé era uma manhã e a manhã um homem. E continuou a dar significações diferentes às palavras: tocar a campainha diz-se pôr, ter frio diz-se olhar, estar deitado diz-se tocar, estar de pé diz-se ter frio e pôr diz-se folhear. E a coisa ficou então assim: Pelo homem, o pé ficou bastante tempo tocando no quadro, às nove pôs o álbum de fotografias, o pé teve frio e folheou-se no armário para não olhar para a manhã. E o aposentado se divertia com as novas designações que atribuía às palavras. Fez tanto que acabou realmente esquecendo a linguagem comum com a qual as pessoas se comunicam entre si. Quando conversava com os outros tinha que fazer muito esforço porque somente lhe vinham à mente os sentidos que havia dado às palavras. Ao quadro dele, as pessoas chamavam de cama, ao tapete de mesa, ao despertador de cadeira, à cama de jornal, a mesa de quadro e ao espelho de álbum de fotografias. Ria muito quando ouvia as pessoas falarem:"hoje vou assistir o jogo de abertura da copa mundial de futebol" ou "como faz frio hoje". Ria porque não entendia mais nada. Mas o triste da história é que ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém.

Leonardo Boff

Texto publicado no site do autor em 9 de Junho de 2006 e aqui afixado com sua autorização

sábado, janeiro 13, 2007

Língua traiçoeira Amável oferta do autor
Em nome do pai Para quem tem televisão por cabo, o canal AXN é, cada vez mais, uma excelente alternativa à pasmaceira pacóvia dos três canais generalistas nacionais. Excelentes séries, transmitidas a horas em que o cidadão comum as possa ver calmamente, e filmes, quase sempre muito bons. Foi graças ao AXN que ontem vi, pela primeira vez, o filme "Em nome do pai". Realizado por Jim Sheridam em 1993, mostra-nos os dois lados da justiça Britânica. Uma face negra, muito negra, pontuada por investigadores, brutais no espancamento e tortura psicológica dos presos, especialistas forenses sem quaiquer escrúpulos em fabricar provas condenatórias e sonegar à defesa provas ilibatórias, e um um arremedo de juiz que tem esta frase lapidar que cito de cor: "estou surpreendido por não ter sido acusado de traição à coroa; nesse caso, a sentença poderia ser a pena de morte por enforcamento que, nas actuais circunstâncias, não teria quaisquer dúvidas em aplicar". Como resultados, vários inocentes, entre os quais crianças, são condenados a severas penas de prisão, perpétua em alguns casos, por causa de um atentado do IRA que não cometeram. E uma face preocupada em fazer justiça, protuganizada por uma advogada incansável na busca da verdade e por um juiz que, 15 anos depois, não se atemoriza com a conversa dos investigadores fraudulentos e encerra todos os casos com a respectiva absolvição. Caso verídico passado no início dos anos setenta, este episódio mostra-nos o que pode acontecer quando se concede à polícia carta branca para, em situações de crise, prender e interrogar, durante dias e sem qualquer controlo judicial, quem muito bem entendam. Estanhas coincidências com o que se passa nos dias actuais.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Eles comem tudo... Amável oferta do autor
Novo desafio a Bush Foi aprovada no Congresso uma nova lei destinada a reverter a decisão de Bush, tomada em Agosto de 2001, de vedar o financiamento público à investigação em células estaminais embrionárias. Na sequência dessa decisão, somente puderam continuar a ser financiadas pelo orçamento federal as linhas de células já derivadas nessa altura, cerca de duas dezenas. Em tudo semelhante à lei que foi vetada há poucos meses por Bush, a nova lei teve um apoio esmagador (253 votos a favor - 37 dos quais republicanos - e 174 contra) e tem a sua aprovação no Senado praticamente garantida. No entanto, corre o risco de voltar a ser vetada, dado que só com 290 votos ou mais a favor o presidente seria obrigado a arrepiar caminho. Enfrentando uma grande oposição da opinião pública e dos politícos e o cepticismo da maioria do Congresso sobre o reforço do envolvimento no atoleiro do Iraque, e sob ameaça dos democratas de não aprovarem o financiamento da deslocação de mais tropas, veremos como reage a este novo desafio o guerreiro que diz ter sido guiado por Deus para defender os campos petrolíferos do Médio Oriente. Na imagem a Representatante Diana DeGette, Democrata do Colorado, e membros do seu pessoal de apoio brindam à aprovação da lei. (fotografia de Jamie Rose para The New York Times)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Chapéus há muitos Tenho recebido de várias proveniências, mensagens segundo as quais a GNR pode interpelar os condutores por causa de CDs não-originais que tenham no carro. Por cortesia do Carlos Medina Ribeiro, do Sorumbático, que afirma ter recebido a informação de fonte segura e fiável e autoriza a sua reprodução, aqui fica: "Isto é uma coisa sem pés nem cabeça, fruto de algum inventor (de que este mundo da Internet é alfobre), ou da parvoíce de algum GNR, que se armou em esperto. É perfeitamente legal que o cidadão faça uma cópia dos seus CDs para usar no carro, ou para o IPOD, ou para qualquer outro sistema de escuta. É a chamada cópia privada, contemplada na lei. O automóvel não é um espaço público, onde a difusão e utilização da música já tem de ser feita a partir de suportes legais, ou eventualmente de outros (disco rígido do computador, por exemplo), tendo nesse caso de ter os CDs legais junto a si". Cartune do Sergei, retidado da sua página
A ética do aborto Pedro Galvão é licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa, onde prepara o doutoramento em Ética. É autor de artigos de ética normativa, tem publicado traduções de obras filosóficas e edita a Trolei, uma revista electrónica de filosofia moral e política. Para o livro “A ética do aborto”, editado em 2005 pela Dinalivro, seleccionou, traduziu e organizou seis textos marcantes sobre as implicações éticas do aborto, três que o defendem e três que o condenam. Mas todos colocam o debate num nível elevado e de grande sofisticação. Falta exactamente um mês para que nos possamos pronunciar em referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, até às 10 semanas de gestação, a pedido da mulher. Este livro de 199 páginas, com uma excelente introdução do tradutor e organizador, lê-se de um fôlego. Fazê-lo, ajudará a limpar a mente dos argumentos maus e falaciosos que têm sido esgrimidos na autêntica batalha campal que tem sido o pseudo debate a que assistimos diariamente.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Uma parelha de polarizadores Na sua coluna de hoje no The Washington Post, dedicada à política de Bush para o Iraque, Harold Meyerson diz, a dado passo: “O mais polarizante presidente da América está a dizer ao polarizante primeiro ministro do Iraque para parar de polarizar” No dia em que se espera que Bush anuncie aos Estados Unidos e ao mundo o envio de mais alguns milhares de soldados para o Iraque, vale a pena ler este editorial. Para, entre outras coisas, perceber melhor porque chamei bonifrate ao senhor al-Maliki.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A verdade Amável oferta do autor
Confidências Leonardo Boff é um filósofo e teólogo brasileiro, doutorado em filosofia e teologia pela Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, Alemanha e o rosto mais conhecido da “Teologia da Libertação”. Autor de vasta obra (mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia e Antropologia e incontáveis artigos) a partir de segunda metade dos anos sessenta, foi professor de Teologia Sistemática e Ecuménica e de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades do Brasil e doutros países, além de professor visitante nas universidades de Lisboa, Salamanca, Harvard, Basel e Heidelberg. Em 1984, por causa das suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no seu livro “Igreja: Carisma e Poder”, foi alvo de um processo por parte da Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, liderada por Joseph Ratzinger, actual Papa. Em 1985 foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e destituído de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986, pelo que pôde retomar algumas das suas actividades. Em 1992, tendo sido de novo ameaçado com uma segunda punição pelo Vaticano, renunciou às suas actividade de padre e passou ao estado de leigo, continuando as suas actividades como teólogo da libertação, escritor, professor e conferencista em auditórios por todo o mundo, assessorando, também, movimentos sociais de cunho libertador, como o Movimento dos Sem Terra, entre outros. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado, em Estocolmo, com o Prémio Nobel alternativo, Right Livelihood Award. Depois de ter lido a entrevista concedida à Visão de 4 de Janeiro por Mariela Castro, filha de Raul e sobrinha de Fidel, decidi divulgar estas suas confidências: Os 80 anos de Fidel: confidências O que vou publicar aqui vai irritar ou escandalizar os que não gostam de Cuba ou de Fidel Castro. Não me importo com isso. Se não vês o brilho da estrela na noite escura, a culpa não é da estrela mas de ti mesmo. Em 1985 o então Card. Joseph Ratzinger me submeteu, por causa do livro "Igreja: carisma e poder", a um "silêncio obsequioso". Acolhi a sentença, deixando de dar aulas, de escrever e de falar publicamente. Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me para passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que junto com Frei Betto havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes. Demandei a Cuba. Apresentei-me ao Comandante. Ele imediatamente, à minha frente, telefonou para o Núncio Apostólico com o qual mantinha relações cordiais e disse:"Eminência, aqui está o Fray Boff; ele será meu hóspede por 15 dias; como sou disciplinado, não permitirei que fale com ninguém nem dê entrevistas, pois assim observará o que o Vaticano quer dele: o silêncio obsequioso. Eu vou zelar por essa observância". Pois assim aconteceu. Durante 15 dias seja de carro, seja de avião, seja de barco me mostrou toda a Ilha. Simultaneamente durante a viagem, corria a conversa, na maior liberdade, sobre mil assuntos de política, de religião, de ciência, de marxismo, de revolução e também críticas sobre o deficit de democracia. As noites eram dedicadas a um longo jantar seguido de conversas sérias que iam madrugada a dentro, às vezes até às 6.00 da manhã. Então se levantava, se estirava um pouco e dizia:"agora vou nadar uns 40 minutos e depois vou trabalhar". Eu ia anotar os conteúdos e depois, sonso, dormia. Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação. Lera uma montanha de livros, todos anotados, com listas de termos e de dúvidas que tirava a limpo comigo. Cheguei a dizer: "se o Card. Ratzinger entendesse metade do que o Sr. entende de teologia da libertação, bem diferente seria meu destino pessoal e o futuro desta teologia". Foi nesse contexto que confessou: "Mais e mais estou convencido de que nenhuma revolução latino-americana será verdadeira, popular e triunfante se não incorporar o elemento religioso". Talvez por causa desta convicção que praticamente nos obrigou a mim e ao Frei Betto a darmos sucessivos cursos de religião e de cristianismo a todo o segundo escalão do Governo e, em alguns momentos, com todos os ministros presentes. Esses verdadeiros cursos foram decisivos para o Governo chegar a um diálogo e a uma certa "reconciliação" com a Igreja Católica e demais religiões em Cuba. Por fim uma confissão sua: "Fui interno dos jesuítas por vários anos; eles me deram disciplina mas não me ensinaram a pensar. Na prisão, lendo Marx, aprendi a pensar. Por causa da pressão norte-americana tive que me aproximar da União Soviética. Mas se tivesse na época uma teologia da libertação, eu seguramente a teria abraçado e aplicado em Cuba." E arrematou:"Se um dia eu voltar à fé da infância, será pelas mãos de Fray Betto e de Fray Boff que retornarei". Chegamos a momentos de tanta sintonia que só faltava rezarmos juntos o Pai-Nosso. Eu havia escrito 4 grossos cadernos sobre nossos diálogos. Assaltaram meu carro no Rio e levaram tudo. O livro imaginado jamais poderá ser escrito. Mas guardo a memória de uma experiência inigualável de um chefe de Estado preocupado com a dignidade e o futuro dos pobres. Leonardo Boff Artigo publicado no site do autor em 11 de Agosto de 2006 e aqui afixado com a sua autorização.

domingo, janeiro 07, 2007

Criança para toda a vida - II Cerca de 30 horas depois de eu ter aqui afixado um post sobre a pequena Ashley, a RTP1 abordou a questão. E o que fez? Durante os mais de dois minutos que durou a reportagem, passou várias das fotografias que constam do blogue dos pais da menina, deu a conhecer alguns dos motivos dos pais e entrevistou um "especialista", Daniel Serrão. Isso mesmo. Um professor catedrático de medicina de 78 anos de idade, que representa o que de mais retrógrado existe na área da bioética médica. Que subscreveu a petição para que se fizesse um referendo sobre a Procriação Medicamente Assistida e sobre a utilização de embriões excedentários na Investigação em Células Estaminais Embrionárias. Que, entre outras organizações, é membro da Academia Pontifícia para a Vida, grupo de aconselhamento do Papa para as questões ligadas à vida. O que se esperava de uma pessoa destas? Claro que só podia ser uma posição frontalmente contra, com acusações de falta de ética aos médicos que lidaram com a situação e a condenação liminar dos pais da menina. É esta a televisão de serviço público que temos. Quem tiver uma visão diferente da da casa, não é ouvido. Se alguém tiver alguma dúvida, leia o Parecer sobre investigação em células estaminais, do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vída (47/CNECV/2005) e a declaração de voto do venerando professor.
Os vampiros Embora esteja consciente da má situação do país, é-me difícil perceber por que razão é que são sempre os mesmos a pagar a crise. Por isso, à notícia, já há muito conhecida mas só agora recordada pelos media, de que os combustíveis vão aumentar, a partir de amanhã e, em média, três cêntimos por litro, sem cuidar da influência que tal decisão terá no aumento dos tranportes públicos de passageiros e mercadorias, com as graves consequências que acarretará para o preço dos bens de primeira necessidade, recordo-me da canção do Zeca que, no final dos anos sessenta, ouvia assiduamente: No céu cinzento sob o astro mudo Batendo as asas pela noite calada Vêm em bandos com pés veludo Chupar o sangue fresco da manada Se alguém se engana com seu ar sisudo E lhes franqueia as portas à chegada Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada [bis] A toda a parte chegam os vampiros Poisam nos prédios poisam nas calçadas Trazem no ventre despojos antigos Mas nada os prende às vidas acabadas São os mordomos do universo todo Senhores à força mandadores sem lei Enchem as tulhas bebem vinho novo Dançam a ronda no pinhal do rei Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada No chão do medo tombam os vencidos Ouvem-se os gritos na noite abafada Jazem nos fossos vítimas dum credo E não se esgota o sangue da manada Se alguém se engana com seu ar sisudo E lhes franqueia as portas à chegada Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada
A fanfarrice de um bonifrate O títere do cowboy texano num país esfrangalhado que, até há 4 anos, se chamou Iraque, de seu nome Nouri al-Maliki, ontem , olhou-se ao espelho e, pensando ter visto lá reflectidos Alá e o seu Profeta, ameaçou «rever as relações com todos os Estados que não respeitaram a vontade do povo» sobre a execução de Saddam Hussein, «assunto interno que diz apenas respeito aos iraquianos» É capaz de ter razão. Afinal, no exemplo de democracia que são os Estados Unidos da América, a pena de morte nem sequer é um assundo do Estado mas um assunto dos estados. Uns consagram-na nas suas leis e outros não. Mesmo que, neste início do século XXI, qualquer pessoa com um mínimo de ética e bom senso considere a pena de morte uma barbaridade. Mas o povo, mesmo que tenha decidido em plenas condições de liberdade, o que não aconteceu na antiga Mesopotâmia, também se engana. E pode, ao fim de um certo número de anos, mudar os presidentes, os parlamentos e os governos que elegeu por engano, ou fazer reverter as leis aprovadas em circuntâncias às vezes obscuras. Mas o senhor Nouri al-Maliki esqueceu-se de várias coisas: Em primeiro lugar, ignorou que Saddam não foi condenado à morte por um tribunal isento, mas sim pelos responsáveis dos países ocidentais que invadiram o seu ex-país. E que, se queriam julgar Saddam com um mínimo de justiça e de dignidade, deviam tê-lo trazido para o TPI e não deixá-lo entregue à sanha assassina dos irmãos na fé do neto do Profeta do fantoche al-Maliki. Em segundo lugar, esqueceu-se de que a política interna para o seu ex-país não é decidida em Bagdade. É-o na Casa Branca, sendo depois contrabandeada no mercado das ilusões da democracia, a preços de sangue e petróleo, por uma correio da droga ideologica que, para essas ocasiões, se veste de negro, um negro mais negro do que a morte que costuma deixar à sua passagem. Em terceiro lugar, quis olvidar que Saddam foi apoiado com armas e conselheiros e mantido no seu lugar durante muitos anos por anteriores inquilinos da Casa Branca, um deles pai do actual, até que se convenceu de que o petróleo da sua terra não lhe era suficiente e quis ir explorar poços no quintal do vizinho. Foi escorraçado sem grande polémica, segundo a legalidade internacional, mas Bush pai menteve-o no seu posto, e por lá ficou por mais uma dúzia de anos, até que o Bush Jr. alegou que tinha sido mandado por Deus para o guerrear, quando na verdade queria esconder a crassa incompetência do seu governo em prevenir os atentados do 11 de Setembro. Quando o mesmo Deus decidir que o senhor al-Maliki já não serve para nada, deixá-lo-á cair como quem atira um preservativo usado para o caixote do lixo. Por fim, não se lembrou o senhor Nouri al-Maliki de que, se o Saddam era um ditador que tinha de ser julgado e condenado à morte, devia, há muito tempo, ter tomado medidas tendentes à instauração de um regime que tivesse o apoio do seu povo, sem esperar pelos homens e armas idos de muito longe para "libertar" o seu solo pátrio. Há muitos povos que o fizeram. Aqui os nossos vizinhos deixaram morrer em paz um ditador que chacinou centenas de milhares de compatriotas para, pela mão de um Rei educado no Estoril, fazer uma transição pacífica para a democracia. Nós próprios, por acção directa de soldados fartos de verem dezenas de milhares de companheiros mortos e estropiados numa guerra iníqua em três frentes, conseguimos, de forma mais ou menos pacífica, entrar numa democracia representativa que, se não é aquilo com que tantos sonharam e pela qual muitos lutaram e alguns morreram, é aquilo que a maioria dos portugueses escolheu. O senhor al-Maliki, de costas quentes, pode vociferar à vontade. Até pode cortar-nos o seu petróleo. Mas nós e os nossos parceiros europeus também podemos fechar as torneiras das ajudas e dos negócios, que talvez fosse o que devia ser feito se os lucros das empresas não fossem contruídos, em grande parte, sobre o sangue e o sofrimento dos povos. E, já agora, o senhor al-Maliki, em vez de fanfarronar, que tal se conseguisse arranjar empregos com salários e água, luz e alimentos pra o povo que diz liderar? Como diria o Raúl Solnado, pois!..

sábado, janeiro 06, 2007

Pluralidade religiosa Amável oferta do autor a este blogue
Criança para toda a vida Ashley é uma menina que será menina até à morte. Nasceu em Seattle, nos Estados Unidos, de parto normal em 1995. Logo após o nascimento foi-lhe diagnosticada uma doença cerebral de causas desconhecidas e as suas faculdades mentais e motoras nunca se desenvolveram. Ao longo dos anos, neurologistas, geneticistas e outros especialistas realizaram todos os testes tradicionais e experimentais conhecidos, mas não conseguiram ainda determinar uma causa ou fazer um diagnóstico da doença, pelo que a apelidaram de “encefalopatia estática de etiologia desconhecida”. Tem o mesmo nível de desenvolvimento mental desde os três meses de idade e nunca poderá andar, falar ou sentar-se e é alimentada por um tubo. Há três anos começou a mostrar sinais de puberdade precoce, o que aumentou a ansiedade dos pais quanto ao impacto da fertilidade e do rápido crescimento do peso e altura da menina na sua qualidade de vida. Em discussões com os médicos do Hospital Pediátrico de Seattle foi idealizado o tratamento: parar o crescimento físico (uma vez que o mental tinha parado aos 3 meses de idade). Através de cirurgias e da administração de elevadas doses de estrogéneo, em 2004 o crescimento físico foi “congelado” nos 9 anos de idade. Com uma esperança de vida normal, Ashley ficará até ao fim dos seus dias com uma mente de 3 meses de idade, uma altura de 130 cm, em vez dos esperados 168 cm, e com um peso de 34 kg , em vez dos previsíveis 57 kg. Quando a notícia foi conhecida, a reacção foi violenta . Nas salas de conversação ouviram-se comentários de “isto faz lembrar eugenia”, “isto cheira mal” e quejandos. Também organizações que representam deficientes manifestaram o seu “horror”. Os pais dizem que só tomaram essa decisão por amor, que assim poderão ter ao colo a sua “Pillow Angel”, como lhe chamam, tratar bem dela, levá-la em viagem e fazer com que ela tenha uma vida mais digna e confortável, evitando os ferimentos que, se fosse mais pesada, lhe seriam provocados pelo facto de estar quase sempre imóvel. Os pais da Ashley escolheram manter o anonimato. Sabe-se apenas que são profissionais com educação universitária e que residem algures em Washington DC. Mas afixaram num blogue um extenso esclarecimento sobre o seu desejo de parar o crescimento da filha. É claro que para cada inovação médica se levanta uma nova questão ética. E creio que aqui a questão ética é sobre o que mantém esta família unida; é sobre o senso comum e a decência humana; é sobre os pais de uma criança deficiente – que afinal de contas, também têm direito à existência em condições de dignidade – e os limites da sua resistência física e mental. E, para mim, a atitude destes pais foi um enorme acto de amor.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

A pobreza do debate Como se esperava, o debate sobre a interrupção voluntária da gravidez tem sido muito pobre. Com maus argumentos de um lado e do outro, alguns extremamente falaciosos. Se quer ter acesso a uma excelente análise crítica quer dos argumentos usados na campanha para o referendo quer dos principais argumentos presentes na bibliografia especializada sobre bioética, leia este ensaio do Pedro Madeira. Para mim, é a melhor e mais esclarecedora abordagem sobre o assunto que encontrei escrita em língua portuguesa. Pedro Madeira é um jovem filósofo português, licenciado em filosofia pelo King’s College London, onde continua os seus estudos.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Terrorismo? Que Terrorismo? Não costumo ouvir as mensagens de Ano Novo. Por isso fiquei incrédulo quando ouvi que Bento XVI teria comparado o aborto, a investigação em células estaminais embrionárias e a eutanásia ao terrorismo. Seria mesmo assim? Decidi, pois, consultar a fonte. E lá está, no ponto 5 da Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz : “Quanto ao direito à vida, cabe denunciar o destroço de que é objecto na nossa sociedade: junto às vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia. Como não ver nisto tudo um atentado à paz?” Ainda atordoado, verifiquei a versão inglesa, não fosse haver algum erro de tradução. Mas não, pois também lá consta: “As far as the right to life is concerned, we must denounce its widespread violation in our society: alongside the victims of armed conflicts, terrorism and the different forms of violence, there are the silent deaths caused by hunger, abortion, experimentation on human embryos and euthanasia. How can we fail to see in all this an attack on peace?” Nas versões francesa, espanhola e italiana (que presumo ter sido a original), o significado é o mesmo, mais ponto menos vírgula. Então uma mulher que decide abortar e os profissionais de saúde que lhe dão apoio são terroristas ou equivalentes? E os cientistas que fazem investigação em embriões, também? Não posso aceitar tal qualificativo. Tenho lá em casa uma mestranda em biologia molecular e genética que, se tiver sorte, tem grandes possibilidade de vir a fazer investigação nessa área. E nunca será uma terrorista por isso. Nem para mim nem para qualquer pessoa de boa fé, pois: Terrorismo é negar o funeral religioso a Piergiorgio Welbi, que desejou morrer, e concedê-lo a um carniceiro como o Pinochet; Terrorismo é condenar à morte milhões de seres em África, ao considerar pecaminoso o uso do preservativo, ao enganar o povo ignorante dizendo que não protege do vírus da Sida e ao patrocinar a destruição de centenas de milhares de unidades para lá enviadas pelos países desenvolvidos; Terrorismo é proibir a interrupção voluntária da gravidez quanto o embrião tem anomalias graves e exigir, como se faz no cânone 241 § 1, que apenas sejam admitidos no seminário maior aqueles que, atendendo (...) à sua saúde física e ao seu equilíbrio psíquico, (...), sejam considerados capazes de dedicar-se aos sagrados ministérios de maneira perpétua; Terrorismo é querer intervir na relação íntima do casal; Terrorismo é obrigar ao nascimento de filhos indesejados que irão, muitos deles, engrossar o exército dos mal tratados e dos miseráveis; Terrorismo é fazer das mulheres cristãos de segunda, ao impedir o seu acesso ao sacerdócio; Terrorismo é negar o acesso aos sacramentos a um casal cujo casamento não resultou e resolveu separar-se e refazer a vida com outros companheiros; Terrorismo é estigmatizar os crentes homossexuais; Terrorismo é pôr entraves ao desenvolvimento da ciência e à cura de incontáveis doenças, ao não admitir a investigação em células estaminais embrionárias. Terrorismo é impedir um casal de ser feliz, ao reprovar o recurso à Procriação Medicamente Assistida; Terrorismo, o mais hediondo terrorismo, é dar cobertura a padres pedófilos, subtraindo-os à justiça civil e mudando-os de paróquia. É tempo de mais crentes dizerem basta. Afinal, a igreja somos nós.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

No início do novo ano Cantemos o novo dia Olhai que vamos a passar Nosso canto é de verdade; vinde connosco lutar, nós somos a liberdade. A terra está toda em flor, o céu é todo alegria A nossa voz é de amor Cantemos o Novo Dia! Ó jovem que és cavador, Semeia, hás-de colher. A papoila é nossa flor, O trigo é nosso querer. Toda a palavra é de amor, a hora é nossa, confia, nosso olhar tem mais fulgor Cantemos o Novo Dia! Há seiva forte a brotar, novas folhas a nascer, a Primavera a chegar os homens querem viver. A juventude é mais moça Quando o amor principia Pois se a vida é toda nossa Cantemos um Novo Dia! (poema de Luísa Irene; música de Fernando Lopes Graça - Gravada no Coliseu dos Recreios em 25 de Maio de 1974)