terça-feira, março 06, 2007

Vieira da Silva:

Há 15 anos, no dia 6 de Março de 1992, a cultura portuguesa ficou mais pobre com a morte, em Paris, de Maria Helena Vieira da Silva.

Nascida em Lisboa em 1908, Vieira da Silva foi para Paris em 1928, onde conheceu Árpád Szenes, com quem veio a casar em 1930 perdendo, assim, a nacionalidade portuguesa, embora nunca tenha deixado de vir a Portugal, onde tinha um atelier.

Em 1939, após o começo da segunda guerra mundial, o casal resolveu regressar a Portugal e a Lisboa, onde se preparava a Exposição do Mundo Português. Durante a estadia no País, a pintora, já então uma artista conhecida, decidiu pedir que lhe fosse devolvida a nacionalidade portuguesa. Mas a tacanhez do ditador de turno não lhe permitia ligar às artes. Casada com um húngaro, para mais judeu? A nacionalidade foi-lhe recusada e um quadro que lhe tinha sido encomendado pelo Estado para a Exposição também não foi aceite. O país onde nasceu não a quis.


Decidiu partir com o marido para o Brasil, onde a vida não foi fácil nos primeiros tempos. Aí recebia as notícias da guerra na Europa e pintou o quadro ao lado, a que deu o nome de “O Desastre” . Em 1945, já com nome feito no Brasil e com uma exposição em Nova Iorque, regressou a Paris e tornou-se reconhecida internacionalmente. Em 1956 foi naturalizada francesa, por iniciativa do próprio Estado francês.

Em 1983 aceitou o convite para realizar um painel de azulejos para uma nova estação do metropolitano de Lisboa ( Cidade Universitária), a que se seguiria um outro para a estação do Rato. Ainda durante a sua vida (1990) teve tempo para ver ser criada, em Lisboa, a Fundação Árpád Szenes – Vieira da Silva.

segunda-feira, março 05, 2007

Declaração de Bruxelas Eu concordo plenamente com esta declaração e já a assinei. Leia e, se assim o entender, assine e divulgue.
Obrigatório ler


Desidério Murcho (n. 1965) é autor de Essencialismo Naturalizado (Angelus Novus, 2002), A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Plátano, 2002) e O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003). Organizou, com Aires Almeida, a antologia Textos e Problemas da Filosofia (Didáctica, no prelo) e, com João Branquinho, a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos (2.ª edição revista e aumentada, Quasi, no prelo). É licenciado e mestre em Filosofia (Universidade de Lisboa) e prepara actualmente um doutoramento (King's College London) na mesma área, onde é também tutor em Lógica Filosófica, Ética e Filosofia da Religião e orientador de pós-graduados. Colunista do suplemento "Mil Folhas" do jornal Público, é director da maior revista virtual portuguesa de filosofia: Crítica . É formador de professores de filosofia do ensino secundário.


O seu último livro, lançado em Janeiro de 2006 pela Quasi, é o primeiro de uma série que o filósofo dirige naquela editora.

Em Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade o leitor é convidado a visitar alguns problemas centrais de diferentes disciplinas da filosofia.

Incluindo temas como o sentido da vida, o cepticismo sobre o mundo exterior, a natureza da ciência, a importância da crítica e da argumentação para a democracia, o vegetarianismo e a protecção dos animais não humanos, assim como o legado de Bertrand Russell e a natureza do tempo, trata-se de uma leitura fascinante para o grande público, sendo também esclarecedora para professores e estudantes.

Mais informação sobre esta obra, absolutamente a não perder, pode ser encontrada na Crítica.

domingo, março 04, 2007

O sepulcro
Jesus volta a estar na berlinda. Agora é um documentário cinematográfico, assinado pelo mesmo realizador de Titanic, que tenta pôr em questão o que há de verdadeiramente essencial no Cristianismo, a ressurreição de Jesus. O argumento de peso a favor desta hipótese mirabolante, apresentada com todo o ar de tese, pelo menos no pensar-dizer da publicidade mundial que está a ser feita ao documentário é este: foi encontrado em Jerusalém um túmulo do século primeiro com restos de humanos que podem muito bem ser duma família judia. Os nomes inscritos no túmulo constam do Novo Testamento e remetem-nos para a possibilidade de serem da família de Jesus, inclusive, de um filho de Jesus e de Maria Madalena, chamado Judas. É logo de suspeitar que o “picante” em toda esta estória não residirá tanto no "facto" ressurreição de Jesus poder ser definitivamente posto em causa, ao jeito de quem diz: se existe um túmulo com restos mortais de Jesus e familiares de Jesus, isso é a prova provada de que Jesus, afinal, não ressuscitou. (Vejam só que argumento mais bobo, este, como se a ressurreição de Jesus pudesse ser entendida como a simples reanimação do cadáver de Jesus, quando ela o que pretende é revelar/anunciar uma dimensão totalmente outra de Jesus crucificado, que o Templo e o Império que o mataram nem sequer são capazes de suspeitar, muito menos reconhecer). O “picante” em toda esta estória estará em querer saber se Jesus andou ou não perdido de amores com Maria Madalena, se ambos chegaram a casar e se, inclusive, tiveram um filho. O Código Da Vinci foi, se bem se lembram, o maior divulgador desta delirante hipótese, o que garantiu ao seu hábil inventor, Dan Brown, milhões e milhões de dólares de lucro e deixou um enorme amargo de boca nos milhões de incautos em todo o mundo ocidental que caíram no engodo e correram a comprar e a ler o seu romance como se de um livro de história se tratasse, e só depois é que se deram conta de que, afinal, haviam sido levados e bem levados, porque tudo aquilo não passa de um romance, uma obra de ficção. Viram-se então na desconfortada situação dos hilariantes “apanhados” televisivos. Só que aqui com graves danos morais e emocionais para as inúmeras vítimas desta sofisticada versão século XXI do conto do vigário.
Este testemunho do Padre Mário de Macieira da Lixa merece ser lido por todos, crentes ou não crentes. Devido à extenção do documento, recomendo a sua leitura no Diário Aberto do Padre Mário.

sábado, março 03, 2007

Estrela Legenda para aquela estrela azul e fria que me apontaste já de madrugada: amar é entristecer sem corrompermos nada. Carlos de Oliveira Obras completas/Círculo de Leitores/Abril de 2001
Aprender do vôo das águias Há uma tradição transcultural que apresenta o comportamento de certos animais ou aves como exemplar para os comportamentos humanos. Nisso vai intuição antiga que a ciência dos comportamentos comprovou: existem em nós traços herdados de animais ou aves, pois, embora diferentes, formamos com eles uma única comunidade de vida. Observemos como as águias voam. Elas voam de forma toda própria. Usam a própria força apenas para iniciar o vôo. Batem as asas e forcejam para ganhar certa altura. Uma vez alcançada, aproveitam a força dos ventos e se deixam carregar por eles. Possuem um instinto muito apurado para captar correntes de ar e sabem tirar proveito delas. Se há apenas brisa leve, elas flutuam suavemente. Se irrompem ventos fortes, elas usam da força deles para voar bem alto e deslocar-se com grande velocidade. Apenas manejando à esquerda e à direita suas enormes asas que podem chegar a mais de dois metros de diâmetro. Bem diferentes são as galinhas. Quando estão excitadas ou se põem a correr, batem muito as asas, fazem grande barulho mas voam apenas alguns metros. Apliquemos a sabedoria das águias aos nossos comportamentos. Nós não sabemos entrar em sintonia com a natureza. De saída, rompemos com ela em nosso afã de dominá-la com violência e colocá-la a nosso serviço. Não nos harmonizamos com seus ritmos. Ao contrário, ela tem que obedecer aos ritmos que lhe impomos. Este paradigma está na base de nossa civilização hoje globalizada. Trouxe-nos incontáveis benefícios, mas nos exilou da Terra e nos fez inimigos da natureza. Este projeto de dominação, entretanto, sem limites internos, pode tornar-se altamente perigoso. Ele tem depredado a infra-estrutura da vida a ponto de pôr em risco o futuro da biosfera e da espécie humana. Por isso, mais e mais pessoas hoje procuram uma nova aliança com a natureza. Assim nasceu a agroecologia que implica produzir interagindo respeitosamente com ela. É ilusório um crescimento econômico à la agronegócio que mata e desmata. Importa conhecer os ritmos da floresta amazônica e utilizar tecnologias adequadas a esses ritmos. Só assim se preserva a natureza e se colabora com ela para que continue a nos dar seus bons frutos. Dito de outro modo: importa moderar a lógica de nossa vontade e fazê-la combinar-se com a lógica objetiva da natureza, a exemplo da águia em seu vôo. Nosso comportamento é construtivo quando nasce do equilíbrio entre o nosso desejo e o desejo inscrito na natureza. Sábia é a pessoa que capta as duas lógicas, a das coisas e a do eu, se harmoniza com elas e as faz convergir. Imatura é a pessoa e atabalhoado é seu comportamento quando só escuta o próprio eu e a toda hora diz: "eu sei, eu quero, eu decido, eu faço" não escutando a voz da natureza como se ela nem existisse. A tradição do Tao ensina que a pessoa só se sente plena e realizada quando sua obra imita o vôo das águias: trabalha junto com a natureza e jamais contra ela. Caso contrário, sempre há uma réstia de vazio e um sabor amargo de implenitude. Precisamos desinflar o eu e enraizá-lo na natureza. O eu e a natureza formam um todo dinâmico sempre em busca de um difícil equilíbrio. Ambos, cada qual com sua singularidade, devem permanentemente atuar juntos como garantia de uma vida equilibrada e discretamente feliz. Leonardo Boff Publicado no site do autor em 4/03/2005 e aqui afixado com a sua autorização

sexta-feira, março 02, 2007

Happy Birthday

Faz hoje 30 anos o líder de uma das minhas bandas favoritas - Chris Martin dos Coldplay . Espero que passe um dia feliz, na companhia da sua bonita mulher , da Apple e do Moises. E que traga nova criatividade, pois o X&Y já tem quase 2 anos.

Lamentavelmente, não sei como colocar audível um dos discos dos Colplay. Talvez algum(a) samaritano(a) queira deixar uma dica na caixa de comentários. Fico-me, pois, pela letra de uma canção:

You Only Live Twice

You only live twice or so it seems,
One life for yourself and one for your dreams
You drift through the years and life seems tame,
Till one dream appears and love is its name.

And love is a stranger who'll beckon you on,
Don't think of the danger or the stranger is gone.

This dream is for you, so pay the price.
Make one dream come true, you only live twice.

And love is a stranger who'll beckon you on,
Don't think of the danger or the stranger is gone.

This dream is for you, so pay the price.
Make one dream come true, you only live twice.
Luís de Montalvor Luís de Montalvor é o pseudónimo do poeta português Luís da Silva Ramos. Nasceu em S. Vicente, Cabo Verde, a 31 de Janeiro de 1891 e faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1947. Com 2 meses de idade veio viver para Lisboa, onde começou a escrever em vários jornais ainda muito novo. Quando foi residir para o Brasil foi secretário de Bernardino Machado (1912-1915). Regressou a Lisboa, com Ronald de Carvalho e fundou a revista Orpheu em 1915. Lançou ainda a revista Centauro (1916) e a editorial Ática, revelando-se um inovador nas artes gráficas. Pelo sexagésimo aniversário da sua morte, “pedi emprestado” ao Insónia este poema: ENTARDECER Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro! Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa. Surdina fluida: anda o silêncio a orar –E há crepúsculos de asas e, na água, O céu é mármore extático a cismar! E nas faces marmóreas dos rochedos Esboçam-se perfis, - Cintilações, Penumbra de segredos! Ó painéis de nuvens sobre a terra, Ogivas delirantes Na água refractando… Encheis de sombra o mar de espumas rasas, Iniciando A hora pânica das asas! E, à meia luz da tarde, Na areia requeimada, São vultos sonolentos As proas dos navios… Ó tristeza dos balões Iluminando, Na água prateada, Os pegos e baixios… Dormentes constelações Que, em fundos lacustres E musgosos, Pondes reverberações Em nossos olhos ansiosos. Ó tardes de aquático esplendor, Descendo em meu olhar! Num sonho de regresso, Numa ânsia de voltar, Em mim todo me esqueço E fico-me a cismar. A tarde é toda um sonho moribundo. É já olor da cor que amorteceu. O céu vive no mar: sono profundo. A asa do rumor no ar adormeceu!

quinta-feira, março 01, 2007

Esta língua portuguesa!!!





















Amável oferta do autor
Vergílio Ferreira

"Da minha língua vê-se o mar"



Estou só - estás só. Não penses. Não fales. És em ti apenas o máximo de ti. Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede.

em Para Sempre

No 11º aniversário do seu falecimento

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Estanha forma de morrer

Morrer, em pleno século XXI e no país mais rico do mundo, em virtude de uma dor de dentes não tratada a tempo parece inconcebível. Mas foi o que aconteceu a Deamonte Driver, um adolescente de 12 anos, de Prince Gerorge’s County, Maryland, Estados Unidos. Mais inconcebível, ainda, é que uma extracção de rotina do dente, que custa 80 dólares, talvez o pudesse ter salvo se: a sua mãe tivesse seguro; a sua família não tivesse perdido temporariamente o seu Medicaid (sistema público de saúde para as famílias de baixos rendimentos, co-financiado pelo orçamento federal e pelos orçamentos estaduais), talvez devido a extravio de documentos; não fosse tão difícil encontrar dentistas que trabalhem para o Medicaid; a sua mãe não estivesse, há meses, concentrada em arranjar um dentista para o irmão de 10 anos, que tinha 6 dentes apodrecidos. Assim, quando a dor de dentes do Deamonte mereceu atenção médica, as bactérias provenientes do abcesso já se tinham disseminado pelo cérebro, segundo disseram os médicos; depois de duas intervenções cirúrgicas e mais de 6 semanas de internamento no hospital, o jovem faleceu no passado domingo. O mais absurdo de tudo é que o custo total dos tratamentos a que acabou por ser submetido poderá ultrapassar os 250.000 dólares, o que daria, pelo menos, para 3.125 extracções de rotina. Pode ler aqui a história completa.

Os pulmões ou a vida!
















Amável oferta do autor
A águia e a macroeconomia Há anos, quando escrevi o livro A águia e a galinha, uma metáfora da condição humana, estudei a fundo o comportamento das águias. E percebi que nele há grandes lições que podemos aplicar a situações atuais. Hoje me proponho recolher uma delas que não pôde ser explorada no referido livro: a forma como as águias ensinam seus filhotes a ser autônomos e a voar com suas próprias forças. É sabido que as águias fazem seus ninhos no alto das montanhas ou na copa das grandes árvores. O tamanho do ninho é considerável: um metro de altura, três de comprimento e dois de largura. Depois de nascer, os filhotes ficam aí por dois meses, alimentados pela mãe até estarem aptos a voar. Após certo tempo, a mãe escasseia a comida. Em substituição, começa a pairar longamente sobre o ninho a fim de mostrar aos filhotes o vigor de suas asas e sua capacidade de voar. Então desce sobre o ninho e começa a empurrar o filhote contra a borda até fazê-lo cair. E ao cair, se apressa em ampará-lo sobre suas asas estendidas. E depois o devolve ao ninho. Repete várias vezes a cena, pairando sobre o ninho, fazendo círculos para desafiar os filhotes a superarem o medo, a confiarem em suas jovens asas e a quererem voar. E faz isso até os filhotes se libertarem. Curiosamente o livro do Deuteronômio testemunha este fato: "Deus é semelhante à águia que desperta a ninhada, voando sobre seus filhotes, estendendo as asas para segurá-los e carregá-los sobre suas penas" (32,11). É a prova de risco e de coragem a que a mãe-águia submete o filhote para que ganhe confiança em suas próprias forças e comece a voar autonomamente. A fim de impedir que volte ao ninho, remexe as folhas e os galhos para fazê-lo não mais habitável. Finalmente, o filhote começa a voar e procura por ele mesmo o seu próprio alimento. Agora é já águia adulta. A lição é cristalina: não podemos ficar eternamente no berço e sob a asas dos pais. Há que enfrentar a vida com seus desafios que muitas vezes nos fazem dizer:"Meu Deus, será que estou à altura"? Percebemos o risco e a possibilidade do fracasso. Mesmo que fracassemos, sempre podemos aprender. Por outro lado, nunca falta alguma asa a nos amparar e algum ombro amigo no qual podemos nos apoiar. Resumindo: vamos ganhando coragem para voar por nós mesmos e seguir o rumo que nós mesmos traçamos. Outra lição: as tarefas que nos propomos, devem conter exigências que pareçam ir além de nossas forças. Caso contrário, não descobrimos nosso poder nem conhecemos nossas energias escondidas e assim deixamos de crescer. Esta lição aplico-a à atual política econômica do Governo. Sabidamente manteve-se a macroeconomia neo-liberal, aceitando o receituário do FMI e do Banco Mundial. O que obrigou a sacrificar as políticas sociais punindo os pobres. É a opção preguiçosa dos que preferem ser galinhas a águias. Recusam a difícil alternativa de discutir, negociar e pressionar até abrir um caminho novo que faça da economia um instrumento da política social voltada para as maiorias. Essa atitude os faria ser águias e não galinhas. Estes é que garantem as transformações sociais imprescindíveis para superar as desigualdades gritantes. O destino de um povo é ser águia e voar autonomamente. Missão dos políticos é fazer o que fazem as águias com os filhotes: estimular o povo a voar livremente e a plasmar o destino de seu pais. Leonardo Boff Publicado no site do autor em 25/02/2005 e aqui afixado com a sua autorização. Nota: qualquer semelhança com a realidade portuguesa não é mera coincidência.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Andy Warhol



A propósito desta posta, mais uma amável oferta do autor.
75 anos de uma diva

Nascida em 27 de Fevereiro de 1922, em Hampstead, Londres, Elizabeth Taylor celebra hoje o seu septuagésimo quinto aniversário.

Protagonista de mais de 60 filmes, recebeu dois Óscares para melhor actriz, o primeiro em 1960, por Butterfield 8 e o segundo em 1966, por Quem Tem Medo de Virgínia Woolf tendo, ainda, sido nomeada por mais três vezes para o Óscar de melhor actriz: em 1957 por Raintree County, em 1958 por Gata Em Telhado de Zinco Quente e em 1959 por Bruscamente no Verão Passado.

Em 1963 tornou-se a estrela de cinema mais bem paga até então, ao receber 1 milhão de dólares para protagonizar Cleópatra, ao lado de Richard Burton, que veio a ser o quinto e o sexto dos seus oito maridos.

Actuou também no teatro, na Broadway e West End, e em várias séries televisivas.

Tem a mão e o pé impressos na fachada do Grauman's Chinese Theater, uma estrela no passeio da fama e foram-lhe atribuídos inúmeros prémios e condecorações, entre os quais pela rainha de Inglaterra em 1999 e por Bill Clinton em 2001.

Sobreviveu a uma intervenção a um tumor benigno do cérebro, a falhas cardíacas, a duas pneumonias e a um cancro da pele. Confinada a uma cadeira de rodas, continua a celebrar a vida e a dedicar-se a causas humanitárias, com relevo da luta contra a SIDA.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Os Cantos do Crepúsculo Desde que eu meu lábio levei ao copo plenamente cheio, Desde que eu minhas mãos coloquei em minha fronte pálida, Desde que eu respirei às vezes o sopro suave De tua alma , perfume de tua sombra enterrada, Desde que me era dado ouvir um ao outro me chamar As palavras que se derramam no coração misterioso, Desde que eu vi chorar, desde que eu vi sorrir Sua boca em minha boca e seus olhos em meus olhos; Desde que eu vi brilhar em minha cabeça encantada Um raio de tua estrela, ai! sempre escondida, Desde que eu vi desabar nas ondas de minha vida Uma folha de rosa arrancou os teus dias, Eu me coloco agora a contar os rápidos anos: - Passam! Passam sempre! Eu não tenho mais a idade ! Vou partir para que tuas flores desbotem todas; Eu tenho na alma uma flor que ninguém pode colher! Suas asas batendo não farão que nada se derrame Do vaso d’água que bebo e que eu bem enchi Minha alma não tem mais fogo do que vós possuís em cinzas! Meu coração não tem mais amor do que vós possuís esquecimento! Vitor Hugo

domingo, fevereiro 25, 2007

Manias! O mundo é velha cena ensanguentada, Coberta de remendos, picaresca; A vida é chula farsa assobiada, Ou selvagem tragédia romanesca. Eu sei um bom rapaz, – hoje uma ossada, – Que amava certa dama pedantesca, Perversíssima, esquálida e chagada, Mas cheia de jactância quixotesca. Aos domingos a deia já rugosa, Concedia-lhe o braço, com preguiça, E o dengue, em atitude receosa, Na sujeição canina mais submissa, Levava na tremente mão nervosa, O livro com que a amante ia ouvir missa! Cesário Verde (no 152º aniversário do seu nascimento)

sábado, fevereiro 24, 2007

E Esta?


Antropólogos da Universidade Estadual do Iowa, após uma investigação levada a cabo entre Março de 2005 e Julho de 2006, acabam de divulgar uma descoberta surpreendente.

Um grupo de chimpanzés, de que faz parte a fêmea da imagem acima, de nome Tia, foi visto a talhar, a partir de ramos de árvores, lanças capazes de matar, utilizando-as depois para caçar pequenos mamíferos – a primeira prática de produção de armas mortais alguma vez observada em animais não humanos.

A prática de fabricar lanças utilizando múltiplos passos, documentada pelos investigadores no Senegal, onde passaram anos ganhar a confiança dos chimpanzés, aumenta a credibilidade da ideia de que os antepassados dos humanos construíram ferramentas semelhantes há vários milhões de anos.

A extraordinária observação também apoia a longamente debatida asserção de que as fêmeas – as principais artífices e utilizadoras entre os chimpanzés senegaleses – têm a tendência para serem inovadoras e solucionadoras criativas de problemas na cultura primata, já que, tendo os investigadores documentado 22 casos de fabrico e utilização de lanças, dois terços envolveram fêmeas.


Nesta imagem ao lado pode ver-se a fotografia de uma das lanças, com cerca de 70 cm de comprimento.

As presas são uma espécie de lémures, pequenos símios conhecidos como Galago senegalensis, que pesam cerca de 250 gramas e dormem, durante o dia, em buracos nos troncos das árvores. Numa sequência típica, o chimpanzé descobriu primeiro um buraco capaz de abrigar a presa, partiu um ramo de árvore direito, com as mãos e os dentes retirou-lhe as folhas e os raminhos, afiou-o com os dentes e, depois, impeliu-o repetidamente para dentro da concavidade, a uma média de 2 estocadas por segundo. Depois de cada pequena série de estocadas, cheirou ou lambeu a lança, como se estivesse a testar se tinha apanhado alguma coisa.

Só numa das 22 observações um chimpanzé conseguiu apanhar a presa, mas a líder da investigação disse que isso é razoavelmente eficiente, comparado com a forma habitual de os chimpanzés caçarem, que consiste em perseguir um macaco ou outra presa, agarrá-la pelo rabo e bater-lhe com a cabeça, com força, contra o chão. No caso em que foi bem sucedido, o chimpanzé, depois de ter usado o pau afiado, saltou em cima do buraco da árvore até ele se partir, expondo o lémure, que extraiu.

O artigo, publicado na revista científica “Current Biology”, está acessível ao público em geral. Também a Universidade e a National Geographic dedicaram um amplo espaço à descoberta.

(fotografia da Tia: Maja Gasporic-AP)
E por vezes E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos. David Mourão-Ferreira (No 80º aniversário do seu nascimento)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O rosto de uma utopia


No dia 23 de Fevereiro de 1987 faleceu, vítima de doença incurável (esclerose lateral amiotrófica), José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, o grande Zeca Afonso.

Foi, juntamente com Adriano Correia de Oliveira, um dos mentores da canção de intervenção em Portugal e um baladeiro/compositor notável, que soube conciliar a música popular portuguesa e os temas tradicionais com a palavra de protesto.

Recordo, comovidamente, aqueles dias dos finais da década de sessenta e princípios da de setenta em que, fechado, ouvia, uma vez e outra, o Zeca, O Adriano e o Luís Cília, num excelente leitor Geloso, de quatro pistas, em que uma única fita, que mão amiga fizera passar na fronteira, debaixo dos olhos da pide, tinha dezasseis horas de música.

Tendo-se tornado, com “Os vampiros”, um símbolo da resistência antifascista, o Zeca viu-se expulso do ensino, devido ao seu activismo contra o regime salazarista, subsistindo durante quase uma década através da música e das explicações.

Após Abril continua a cantar e a ter intervenção política, participando em numerosos “cantos livres” e editando vários álbuns, o último dos quais, “Galinhas do Mato”, em 1985, no qual, devido ao estado avançado da sua doença, já não consegue cantar a totalidade das canções.

No final de 1983 foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, mas o Zeca, sempre coerente, recusou. Mais tarde, em 1994 foi feita nova tentativa a título póstumo, mas a sua mulher recusou, dizendo que, se o marido a não tinha aceitado em vida, não seria depois de morto que a iria receber.

Era bom que neste 20º aniversário da sua morte alguém se abalançasse à reedição da sua obra musical completa, para que a memória não se apague. Entretanto, deixo-vos com um dos seus sublimes poemas:

Utopia

Cidade

Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(Na imagem, estátua do artista em Grândula)