quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Na corda bamba

Decorre desde as 10 da manhã (hora de Washington) de hoje uma espécie de cimeira entre Democratas e Republicanos, presidida por Obama e televisionada para todos o país, com vista a encontrar uma solução para a prestação de cuidados de saúde, uma das bandeiras da campanha do actual Presidente.

Goste-se ou não de Barack Obama, é necessário reconhecer que é muito o que está em causa, não só para os Estados Unidos mas também para o resto do mundo.

Por um lado, os Estados Unidos já gastam 17% do seu PIB na prestação de cuidados de saúde, o que corresponde a mais do dobro da média dos países desenvolvidos, e continua a ter perto de 50 milhões de cidadãos fora do sistema, aparecendo no 37º lugar na lista da OMS em termos de cobertura dos cidadãos. Na mortalidade infantil, por exemplo, caíram da 12ª posição, em 1960, para a 30ª, em 2005. Se não for encontrada uma solução que aumente drasticamente a eficiência, prestando cuidados de saúde a muitas mais pessoas com custos significativamente reduzidos, poderá estar em causa a bancarrota de centenas ou milhares de empresas (os males da GM e da Chrysler tiveram a sua origem, em grande parte, na incapacidade de fazer face aos custos com cuidados de saúde contratualmente garantidos aos seus empregados) e, em última instância, do próprio país, o que só alguém completamente louco e fanático poderá desejar.

Por outro lado, se Obama não conseguir fazer aprovar legislação significativa neste particular, dificilmente conseguirá fazê-lo noutras áreas fulcrais da governação, desde o emprego à regulação bancária, passando pela energia, pela responsabilidade orçamental ou outras políticas macro económicas. E todos estamos a sentir na pele aquilo a que pode conduzir a desregulação das instituições financeiras.

O economista e colunista britânico Anatole Kaletsky dá-nos, no Times de hoje, uma panorâmica do que pode estar em causa a nível global se a cimeira de hoje falhar. Para ler e meditar.
Sentir

Amor não é paixão
Às vezes vem de lá
Às vezes, não.

Paixão não é amor
Às vezes chega lá
Às vezes, não.

Sexo não é paixão nem amor
Às vezes toca lá
e às vezes, não.


*poetisa, compositora, escritora, jornalista e intérprete brasileira

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

A cavalo no vento 

A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A palavra

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
              investe
                    perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se
A palavra precisa de ternura

Excesso insuportável de palavras inúteis



Pedro Tadeu, no Diário de Notícias de hoje.

Até há poucas semanas nunca tinha ouvido falar de Pedro Tadeu. Continuo a desconhecer em absoluto quem é, a não ser que escreve, esporadicamente, umas crónicas no DN. Mas está carregado de razão, neste país de necrófagos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Perguntas

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros  e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Joaquim Pessoa, in Os dias da Serpente - 1981

(no seu 62º aniversário)

domingo, fevereiro 21, 2010

Manifestações

Houve ontem duas manifestações, separadas por algumas horas, mais de 300 quilómetros de distância e grandes diferenças em número de manifestantes, mas cujos objectivos se distinguiram por uma letrinha apenas: uma, na capital, com a finalidade de discriminar todos aqueles que não vêem o casamento como uma instituição cujo único fim é procriar; a outra, na invicta e convocada expressamente para os média, promovida por jogadores, equipa técnica e dirigentes de um clube de futebol, com vista a descriminar os seus jogadores que se portam dentro do campo e seus anexos como se estivessem a actuar nas noites brancas.

Por mim, não vou à bola nem com uns nem com outros.

sábado, fevereiro 20, 2010

Vómitos

Vómito cor de rosa, chamou-lhe o saudoso Mário Castrim quando o defunto Comércio do Funchal, com pergaminhos na luta contra a ditadura, passou a ser dominado pelos defensores da revolução a todo o vapor, do grande educador da classe operária e companhia, objectivamente postos ao serviço dos homens de monóculo.

Hoje vivemos rodeados de vómitos de muitas cores: o da cor do sol, o expressamente dito, o descaradamente público, o que é entregue pelos CTT com o correio da manhã, o que dura 24 horas, os que trazem escândalos mascarados de notícias, o da uma, o das treze, o das vinte, o da noite, o tele qualquer coisa, o jornal das tantas. Gómitos, golfadas, vomições e nós sem antieméticos.
Ratos

Tem sempre um chato
em cada canto
multiplicando-se
hipócrita
falso santo.

Tem sempre um tonto
em cada sala
multiplicando-se
perdida bala
babando sangue.

Tem sempre um chato
multiplicando-se
como rato tonto

Frederico Barbosa

(no 49º aniversário do autor)

Retirado do seu sítio pessoal

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Jornalismo

O jornalismo é uma catapulta imensa, posta em movimento por ódios mesquinhos.

Honoré de Balzac
DIDÁTICA

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos).

Jose Carlos Capinan

(no seu 69º aniversário)

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Disparates

Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti.

Virgílio Ferreira, in "Escrever"
Quadra

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

António Aleixo

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Ignorância

Ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma.

Giordano Bruno,  teólogo, filósofo, padre e escritor italiano queimado na fogueira da inquisição há 410 anos, no dia 17 de Fevereiro de 1600.
A poesia que desce ao poeta

Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das idéias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha.

E é então que vejo descer sobre ele
Uma como sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia, a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som infinito, vindo de outras esferas,
Que é a comunicação miraculosa de outros seres
e de outras regiões.

Múcio Leão*

*poeta brasileiro

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Carnaval

Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.

Virgílio Ferreira
CHAMA

Um menino
cruzou o meu caminho.
Despido de tudo,
até quase de vida,
restava-lhe, apenas,
no fundo dos olhos,
uma chama pequena,
quase apagada,
de pura inocência.
Dei-lhe um sorriso,
velho e surrado,
de esmola
e fui procurar
a minha chama
perdida...

Luiz Carlos Amorim*

*poeta brasileiro que hoje comemora 57 anos

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Carnaval a dois

Cartoon: Peter Brookes/Times
Meio-dia

Choque de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!

Ronald de Carvalho

domingo, fevereiro 14, 2010

A rotura

Dando o dito por não dito, um candidato a líder da oposição vindo de Bruxelas afirmou que a sua candidatura seria uma rotura com a política socialista que vem a ser seguida nos últimos quinze anos.

Considerando que, nesse período, durante três anos houve dois desgovernos do seu partido, ficámos a saber que considera socialistas as políticas de Barroso e Santana Lopes. Como será mais fácil enfiar um camelo no cu da agulha do que o putativo governo de Rangel fazer algo de diferente, para melhor, daquilo que fizeram os seus comparsas, talvez a apregoada rotura não se refira a uma ruptura com o pensamento dominante mas sim à liderança de um grupo de rotos, quem sabe?!

sábado, fevereiro 13, 2010

Retrato de Catarina Eufémia

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Os necrófagos

Quando me levantei de madrugada pensei falar de necrófagos, não sei bem porquê, talvez pelo cheiro a cadáver que se sente no ar da baixa pombalina. Hienas que riem, urubus e abutres à espreita ou corvos na bandeira da capital nunca me seduziram, apesar de serem animalejos cada vez mais presentes nos vários níveis da sociedade portuguesa. Mas o céu plúmbeo (um comportamento criminoso do sol, em linguagem popular) alterou-me de tal modo o humor que prefiro ficar-me pelo céu muito nublado com aguaceiros frequentes. E se estivesse sozinho em casa, ia ouvir as quatro missas de requiem que tenho numa caixa de cêdês tripla. Como há boa companhia, vai um tinto alentejano para desanuviar a mente.
As marmotas














Uma já saiu da toca a outra espera a sua vez.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

O salva, não salva

Sempre que um Estado-Membro se encontre em dificuldades ou sob ameaça de dificuldades devidas a calamidades naturais ou ocorrências excepcionais que não possa controlar, o Conselho, sob proposta da Comissão, pode, sob certas condições, conceder ajuda financeira da União ao Estado-Membro em questão. O Presidente do Conselho informará o Parlamento Europeu da decisão tomada.

É isto que dispõe o artigo 122 do Tratado de Lisboa e a Grécia alega que os ataques dos especuladores se enquadram nas ocorrências excepcionais que não pode controlar. Por isso não percebo porque é que os líderes da UE andaram este tempo todo a encanar a perna à rã e permitiram os disparates do senhor Almunia – que, em nada contribuindo para minorar os problemas gregos, prejudicaram grandemente Portugal (porque é que os deputados do PS não se manifestaram na votação sobre a Comissão Barroso II ?) - para agora se reunirem a correr para discutir a situação grega. Quanto mais que não se trata de arriscar dinheiro dos contribuintes, como se apressaram a fazer com os bancos. Os próprios gregos lembraram que uma antecipação dos fundos estruturais que estão previstos resolveria o problema, havendo ainda várias outras possibilidades, desde a emissão de euro-obrigações até à compra de títulos do Tesouro grego.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Liberdade, eis a questão

A questão é esta: há liberdade de imprensa em Portugal? É ociosa, a pergunta, para quem, como eu, vem do tempo em que se escrevia baixinho, tão baixinho que perdêramos muitas das palavras, por mudez e falta de uso. Já me não surpreende a desvergonha de alguns daqueles que têm desfilado nas televisões a proclamar que vivemos numa asfixia. Mas indigna-me o silêncio calculado dos que se não erguem a protestar contra a ambiguidade do assunto.

***

Há algo de torpe neste alvoroço. Um ex-ministro, agora protestador grave e atroz, foi, na sombria década cavaquista, controleiro da RTP. E um dos agora acusadores da falta de liberdade era o zeloso varejeiro do noticiário. Não cauciono, de forma alguma, tentativas de domínio da imprensa pelo poder político. Mas não colaboro neste imbróglio, que tem estimulado a perda do sentido das coisas e a adulteração da verdade histórica. A reabilitação de falsos fantasmas apenas serve para se ocultar a medonha dimensão do que ocorreu na década de 80. Os saneamentos, a extinção de títulos, a substituição de direcções de jornais e a remoção de jornalistas incómodos por comissários flutuantes eram o pão nosso de cada dia. Já se esqueceram?

Baptista-Bastos, In Diário de Notícias
Tempos Sombrios

Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.

Bertold Brecht

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Podia-ó-calá-lo???


























É inqualificável a intervenção de Paulo Rangel no PE sobre um alegado plano do Governo para controlar os órgãos de comunicação social. A existir mesmo tal plano - o que carece de ser provado, não bastando as diarreias mentais (e logo pela pena de quem!!!) do órgão oficioso do PSD detido pela Opus Dei e por Isabel dos Santos - a sua discussão e respectivas consequências políticas são um assunto interno do país, não tendo qualquer cabimento ou justificação que políticos portugueses o arrastem para palcos internacionais.

A troglodita atitude de Rangel revela duas coisas: primeiro, que para ele tudo vale na política; e depois, que se comporta no Parlamento Europeu como o marido que desconfia que a mulher lhe põe os cornos e, em lugar de averiguar os factos e discuti-los em casa, vai para o café da esquina fazer queixinhas dela.

Imagem: Karim Sahib/AFP/Getty
refeição

lambe a palavra

pelo canto
da boca
escorre
um verbo líquido

o papel não absorve mais
a tinta
das veias

saliva impaciente
por uma página vazia

Andreia Laimer*

*poetisa gaúcha

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Tê-los no sítio

Seja o que for quem pensem acerca dele como pessoa, este é o homem que saiu para o campo no último Sábado, possivelmente o pior dia da sua vida, e teve os “tomates” para marcar o golo da vitória.

Esta é a forma como a colunista Carol Midgley termina um curiosíssimo artigo da passada quinta feira sobre o assunto do momento em Inglaterra: um alegado caso entre o capitão do Chelsea e da selecção, John Terry, e uma modelo de roupa interior que tinha sido companheira de um ex-colega de clube, actualmente no Manchester City. Um caso que incendiou os media ingleses, desde os tablóides aos mais circunspectos (com um coro de indignação a pedir o afastamento do jogador do seu lugar de capitão - pressão a que Fabio Capello já cedeu, manifestações de jogadores do City em apoio do colega que já não vivia com a modelo à data dos alegados factos, invejas mesquinhas pelo ordenado do “mau”, a honra da pátria em perigo, etc.) e chegou, até, à intelectualidade estado-unidense, passando por diversos países europeus.

Quer para quem goste do jogo da bola quer para quem o deteste ou lhe seja indiferente, este artigo é uma verdadeira pedrada no charco e, para mim, fez-me sentir bem por viver no meu país, apesar da porcaria que por ai vai. Afinal, por cá pode ser quase tudo uma grande rasquice mas, parafraseando um dito célebre, sempre é a nossa rasquice e não atinge um nível tão baixo.
Vazio

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

Augusto Frederico Schmidt*

*poeta carioca

domingo, fevereiro 07, 2010

Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!...
e no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Sebastião da Gama

sábado, fevereiro 06, 2010

GUMES DE NÉVOA

Lágrimas?
Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?

*****
TERRA DE CANAÃ

Não, piloto israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
E nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
As belas palavras do Cântico dos Cânticos.

E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
Contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.

Foi para este holocausto que sobreviveste
Ao teu genocídio nos tempos da Nazilândia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?

José Craveirinha

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

A Irresponsabilidade da Multidão

A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar «Abaixo!» sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.

No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espectáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espectáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue - pelo menos, vê-lo.

Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.

Giovanni Papini, in Relatório Sobre os Homens
Ao Bater da Chuva

A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.

As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de protecção!

A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...

E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...


*escritor angolano, falecido a 5 de Fevereiro de 2006

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

A cassandra

Como se não fossem suficientes as parvoíces das agências de notação a que os mercados internacionais dão muita credibilidade, teve de vir o agoirento Joaquin Almunia dizer que a situação de Portugal era igual à da Grécia - prejudicando gravemente o nosso país, já que é o Comissário Europeu para os Assuntos Económicos e Monetários - dando-se, no entanto, ao trabalho de esclarecer que a situação do seu próprio país devia ser analisada separadamente, já que era de menos risco.

Sucede que o insuspeito Paul Krugman escreveu, no dia 2 de Fevereiro, que a verdadeira ameaça para a zona euro não é a Grécia mas a Espanha, coincidindo, assim, com afirmações anteriores de Nouriel Roubini (o economista que previu a crise com a antecedência de 2 anos), segundo o qual é a Espanha que constitui o verdadeiro risco para a euro zona, acrescentando que “se a Grécia se afunda é um problema” mas “se a Espanha se afunda é um desastre”.

É por isso que uns são professores de prestígio, reputados escritores de livros sobre economia e prémios Nobel e outros não passam de burocratas pagos a peso de ouro.
Passeio

Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.

E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.

Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.

Hilda Hilst*

*poetisa paulista

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

In memoriam

E de novo a armadilha dos abraços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato de Faria

terça-feira, fevereiro 02, 2010

O monstro de duas cabeças

O NEGÓCIO está registado em nome de Binyamin Netanyahu. Mas a realidade é diferente.

Netanyahu nunca foi mais do que um vendedor de medicamentos manhoso. Uma daquelas figuras que aparece frequentemente nos filmes do Oeste americanos a vender um elixir que é bom para tudo: para a gripe e para a tuberculose, para os ataques cardíacos e para a loucura intermitente. A principal arma do vendedor é a língua: a sua torrente de palavras constrói castelos no ar, rebenta bolhas cintilantes e silencia todas as dúvidas.

Desde a eleição, há quase um ano, a sua maior (literalmente) proeza foi constituir um gabinete: 30 ministros e uma mão cheia de adjuntos, a maioria dos quais sem quaisquer funções perceptíveis, alguns deles encarregues de ministérios para os quais são os mais incapazes de todos os candidatos possíveis. A partir daí, a sua principal tarefa tem sido aquela em que é perito: a sobrevivência política.

Neste jardim zoológico governamental, a única criatura realmente Importante é o Liebarak – um monstro de duas cabeças que aterroriza todos os outros animais. Esse animal é 50% Lieberman, 50% Barak e 0% humano.

Uri Avnery


Um olhar implacável sobre a política de “Ocupação Eterna” nazi-sionista, racista e anti-semita* do estado de Israel, pela pena de alguém que a conhece muito bem por dentro.

*(Quem apelida de anti-semita todo aquele que ousa criticar as políticas de Israel é bom que saiba que os palestinos são tão semitas como os judeus; assim, a actuação de Israel é duplamente anti-semita, não só porque quer erradicar outro povo semita, mas também porque é a principal causa de ressentimentos contra os seus próprios cidadãos.)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

As putas da Avenida

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

Fernando Assis Pacheco

domingo, janeiro 31, 2010

Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

Fernando Namora, in Mar de Sargaços

sábado, janeiro 30, 2010

Fazer

Há dois tipos de pessoas: as que fazem as coisas, e as que dizem que fizeram as coisas. Tente ficar no primeiro tipo. Há menos competição.

Mahatma Gandhi
Poesiar

poesiar
é beber

das
palavras

sentindo
o gosto

do copo.

Fernando Cereja*

*poeta brasileiro

sexta-feira, janeiro 29, 2010

O princípio do fim?

Embora Obama não seja tão pateta quanto o seu predecessor, ele não está menos desejoso de sacrificar milhares de vidas em troca de benefícios políticos.

Ray McGovern

Vindo de alguém que passou quase 30 anos nos serviços secretos dos Estados Unidos, o artigo do qual consta a afirmação merece leitura atenta.
Liberdade

até as pedras negam
a paternidade
da terra.

no chão, não há reforma
nem raízes.

os homens fingem
acreditar em Deus,
enquanto as crianças
sonham com esfinges
e mitos,
porque adormecem com fome

quero uma enxada
e um arado,
porque onde piso
até as lágrimas
proliferam.

quero a união dos povos
e o amor de irmãos,
porque dito a paz
e não acredito em esmolas.

quero ajuda para construir,
esperança para modificar
e depois gritar:
liberdade! liberdade!

Fernando Braga*

*poeta brasileiro

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Quando Fores Velha

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

William Butler Yeats

Tradução: José Agostinho Baptista
Honduras


Reconhecido apenas pelos do costume (Estados Unidos, Israel, Colômbia e alguns lacaios mais) tomou posse "Pepe" Lobo, "eleito" no arremedo de eleições de Novembro. A perpetuação do golpismo nas Honduras.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Tempo

é difícil
definir
o meu tempo:

desenhos
de fome
nas paredes

velhos meninos,
de manhã

poetas
à noite
nos quartéis.

é difícil
definir
o meu tempo:

homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais

Fernando Batinga de Mendonça*

*poeta brasileiro

terça-feira, janeiro 26, 2010

Lição de boas maneiras

Ao arroto mal cheiroso dado pelo incompetente Jean-Claude Trichet a propósito dos actuais problemas orçamentais da Grécia, reagiu um Prémio Nobel da Economia do outro lado do Atlântico com uma soberba lição do que deve ser uma Europa solidária com os seus pequenos e periféricos membros.

Como dizia um conhecido comentador das corridas de Fórmula 1, há curvas dos circuitos onde os homens se distinguem dos rapazes. A situação actual da Grécia, que até podia ser a nossa, é claramente uma curva onde a seriedade e argúcia do homem Joseph Stiglitz contrastam com a inépcia e incapacidade do rapaz Jean-Claude Trichet.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

A garrafa

Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
- se foi a criança
ou o ladrão
ou o filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si ou para os outros.

Que se destrua contra os recifes
ou role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja vista por olhos humanos
que importa?
... se só de atirá-la às ondas vagabundas
libertei meu destino
da sua prisão?...

Manuel Lopes*

*poeta cabo-verdiano
Haiti - II














Cartoon: Iván Lira

domingo, janeiro 24, 2010

Afagando sonhos

Meu coração afaga sonhos.
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...

Fernanda Benevides*

*poetisa brasileira

sexta-feira, janeiro 22, 2010

O eucalipto e o Saci

Um dia fui passear
Lá no reino encantado
E em cima de um cupim
Eu vi o saci sentado
Com os olhos cheios d’água
Que há pouco tinha chorado
Então lhe perguntei
Por que estava desolado

Deu um rodamoinho
E ele me respondeu
Olha para as montanhas
Veja o que aconteceu
Plantaram uns paus compridos
Que depressa cresceram
Todos os bichos foram embora
E alguns até morreram

É o tal de eucalipto
Planta que não é daqui
Uma mata silenciosa
Que acabou com tudo ali
Os macacos foram embora
Até o mico e o sagüi
Que saudade do sabiá
Do sanhaço e do bem-te-vi

Esta planta suga a terra
As nascentes estão secando
Nossos rios caudalosos
Devagar vão se acabando
As fazendas destruídas
Pelas máquinas vão tombando
O caipira sem destino
Pra cidade está mudando

Como são 32 oitavas, façam o favor de ler as restantes aqui.

(a propósito do 4º aniversário da plantação de um eucalipto para os lados Belém)
Os novos cruzados

















Está a causar grande celeuma a denúncia de que um fabricante de miras telescópicas, que são vendidas às centenas de milhares às forças armadas dos Estados Unidos para serem incorporadas em espingardas utilizadas no Iraque e no Afeganistão pelos militares, quer nas operações de guerra quer no treino dos exércitos e polícias locais, coloca disfarçadamente à frente do número de série referências codificadas ao Novo Testamento, o que desrespeita a Constituição do país e os Regulamentos militares.

Na imagem é visível a inscrição JN8:12, uma clara referência ao versículo 12 do capítulo 8 do Evangelho de João: “Jesus falou-lhes novamente e disse: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. Mas há outras imagens com o código 2COR4:6, referência ao versículo 6 do capítulo 4 da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios: “Porque o Deus que disse: das trevas brilhe a luz, foi quem brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo”.

A notícia apareceu inicialmente em 18 de Janeiro no sítio da ABC News, por denúncia da Fundação para a Liberdade Religiosa Militar, que recebeu inúmeras queixas de militares no activo, e rapidamente se espalhou por vários jornais, incluindo os chamados “de referência”.

Apesar de o assunto ter vindo a ser comentado nos bastidores há quase 4 anos, porta-vozes do Exercito e dos Fuzileiros Navais disseram que os serviços não tinham conhecimento das inscrições. Entretanto, as forças da Nova Zelândia no Afeganistão, que utilizam o mesmo tipo de miras, já disseram que iam remover tais códigos.

Este é o tipo de gentalha que depois se queixa de que os muçulmanos são fundamentalistas e que se eriça toda quando alguém fala dos novos cruzados.

P.S. Parece que a empresa, após os veementes protestos de neozelandezes e australianos e reparos dos militares estado-unidenses, se prontificou a retirar os códigos. A notícia pode ser lida no sítio da FLRM.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Haiti



Cartoon de Langer
Filha roubada

Mais uma história de arrepiar, numa reportagem do jornalista José Ramos e Ramos no programa Linha da Frente de ontem, na RTP1, cerca das 21 horas, posta corajosamente no ar mesmo perante as ameaças recebidas.

Maria é o nome da criança de 8 anos que, há 7 meses, foi retirada à mãe sob pretexto de sofrer de um desequilíbrio psíquico (síndrome de alienação parental) da qual nem a Organização Mundial de Saúde nem a Associação Americana de Psiquiatria reconhecem a existência.

Pelo que se vi e ouviu, os pais da criança divorciaram-se há alguns anos, tendo a criança ficado à guarda da mãe. Mas, com o tempo, Maria recusou-se peremptoriamente a visitar o pai e, vai daí, um juiz de 30 anos, com “larga experiência” em assuntos de crianças, decidiu interná-la compulsivamente numa instituição dirigida por uma seita religiosa do mais troglodita que existe (mas mesmo que não o fosse, o problema persistia), sem sequer autorizar que se despedisse da mãe e de outros familiares.

Que sim, afirmou um psicólogo que viu a Maria a pedido do pai, a criança sofria do tal desequilíbrio, mas ele não foi ouvido sobre o seu internamento e considerava um perfeito disparate que o juiz a tivesse retirado à mãe. Outros especialistas mais maduros, quer da área da medicina quer da área do direito, zurziram a bom zurzir no juiz inimputável.

As visitas da mãe são limitadas a uma hora, sempre na presença de alguém da instituição, só foi autorizada a levar um brinquedo e não pode tirar fotografias à filha. As crianças são periodicamente enfiadas numa carrinha para se deslocarem ao serviço religioso e saem da carrinha sem o apoio de qualquer adulto.

Tudo em defesa dos “superiores interesses da criança” um chavão que alguém inventou para classificar o inclassificável. Talvez quem o cunhou e o tal juiz nunca tenham sido crianças, quem sabe. Entretanto o avô chora, a mãe (professora) desfaz-se em lágrimas e vive em desespero, enquanto se perpetua a injustiça em nome da justiça.

Para quem não viu, vale a pena ouvir e ver.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Eles estão de volta


Santiago do Chile: os apoiantes de Sebastian Piñera comemoram a vitória do seu candidato erguendo bem alto um busto do ditador Augusto Pinochet. A imagem não surpreende quem sabe que o multimilionário está rodeado dos ideólogos da ditadura, dos mentores do descalabro económico da mesma e dos torcionários que ainda pululam pelo país. Mau sinal e um alerta para a América Latina, depois do golpe nas Honduras, das bases estado-unidenses na Colômbia e no Panamá, dos ataques à Venezuela, dos confrontos entre o poder político e o poder económico na Argentina e dos crescentes perigos de golpe no Paraguai. Evidentemente, a CIA não tem nada a ver com todos estes acontecimentos.

Fotografia: Jorge Saenz/AP

terça-feira, janeiro 19, 2010

Quarto interior

Na cómoda algumas gavetas
com os caprichosos guinchos da madeira
não só entoavam sons como aspergiam
o ar de antiquíssima alfazema.
Moviam-se devagar para o regaço,
aceitavam escassamente a luz,
gemiam até estancarem
abertas e exalarem
por fim a plena
onda de aroma.

Fiama Hasse Pais Brandão
Fragmento do Homem

Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.

E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?

Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.

Eugénio de Andrade, in Os Afluentes do Silêncio

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Jose Carlos Ary dos Santos, in Fotosgrafias

domingo, janeiro 17, 2010

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga - in Câmara Ardente

sábado, janeiro 16, 2010

O eucalipto e a má moeda

Não é preciso ser um especialista em silvicultura para saber que o eucalipto e a má moeda têm mais afinidades do que dissemelhanças.

O eucalipto, árvore oriunda do continente quase deserto, seca tudo à sua volta para que ele próprio e os seus eucaliptozinhos se possam alimentar dos escassos nutrientes da terra árida. A má moeda transforma os pobres em miseráveis e os remediados em pobres para que os ricos possam ser cada vez mais ricos.

Normalmente são aliados, como quando se trata de anatematizar “evangelhos” pouco canónicos ou tocar em violinos peças escritas para piano. Quando a má moeda pode ameaçar a plantação do eucalipto em terreno mais fértil, tornam-se inimigos e à má moeda não resta outra solução que não seja “andar por aí”, até que o eucalipto desertifique o novo local de plantio e dê largas à sua” magnanimidade”, convertendo a má moeda em boa moeda e elevando-a a uma categoria merecedora de sinecuras por serviços distintos prestados à pátria.

A Bem da Nação.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Meus pensamentos são nómadas

Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos
como a água que vem da montanha
e não sabe nada
do coração dos homens. O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento
e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.

Casimiro de Brito

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Fundamentalismo e cretinice troglodita


Mesmo perante os maiores infortúnios, como é o caso do arrasador terramoto do Haiti, há mamíferos falantes que continuam a pensar com o intestino grosso.

É o caso do pretenso ministro cristão, o tele-evangelista Pat Robertson, que no seu programa televisivo de terça-feira à noite disse que o terramoto do Haiti era devido ao seu povo ter sido amaldiçoado por ter feito um pacto com o diabo, referindo-se aos rituais vodu realizados antes da revolta de 1791 contra os colonizadores franceses.

Depois de ter advogado o assassinato puro e simples de Hugo Chaves, de ter atribuído aos pagãos, defensores do aborto, feministas e homossexuais a culpa do 11 de Setembro e do furacão Katrina e de dizer que o acidente vascular cerebral que Ariel Sharon sofreu foi castigo de Deus pela retirada dos colonatos de Gaza, chegou agora a vez de bolçar sobre o martirizado povo haitiano o seu ódio a tudo o que ultrapassa a sua tacanha visão das coisas. E, o que é ainda mais triste, tem dezenas de milhões de ouvintes e seguidores fundamentalistas.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Lixo televisivo
















Cartoon: Jim Morin/Slate Magazine
Deixemo-nos matar e logo se vê














A jovem da fotografia chama-se Myleene Klass e é uma apresentadora de televisão inglesa e modelo da Marks & Spencer. À meia noite de sexta feira, 8 de Janeiro, encontrava-se na cozinha da sua casa, com a sua filha no andar de cima (o companheiro estava ausente em negócios), quando descobriu uns  jovens intrusos no seu jardim. Cheia de medo, agarrou numa faca e começou a bater com ela na janela e a gritar antes de eles terem fugido. Acabou por ser avisada pela polícia de que não devia ter utilizado a faca para assustar os jovens, porque empunhar uma “arma ofensiva”, mesmo dentro da própria casa, era ilegal. A polícia explicou-lhe, ainda, que mesmo que estivesse sozinha em casa e se confrontasse com um intruso, não podia proteger-se.

Esta bizarro episódio surge menos de um mês depois de uma controversa sentença que condenou Munir Hussain e o seu irmão Tokeer Hussain a 30 e 39 meses de prisão efectiva. Munir Hussain é um pacato homem de negócios londrino e, quando chegou a casa durante o Ramadão, vindo da mesquita com a família, foi confrontado com três ladrões mascarados que os prenderam e ameaçaram matá-los a todos. O filho adolescente conseguiu fugir e foi pedir ajuda ao tio Tokeer, que veio em auxílio da família. Os ladrões fugiram, mas os dois irmãos conseguiram apanhar um deles, criminoso com 50 condenações no cadastro, batendo-lhe com uma pá de críquete, o que lhe deixou danos neurológicos permanentes. Tratou-se, na opinião do juiz que os condenou, de “um terrível e violento ataque” cometido pelos dois irmãos. Resolveu, por isso, destruir as suas famílias, pois é disso que se trata quando um homem de negócios islâmico é condenado a dois anos e meio de prisão num país como a Inglaterra.

Cá mais perto, um ourives da Trofa foi assaltado por jovens armados, espoliado de mais de duzentos mil euros e baleado. Conseguiu, mesmo assim, empunhar uma caçadeira e atingir um dos ladrões no abdómen. Com o comparsa a esvair-se em sangue dentro da viatura, os outros continuaram os assaltos até que o ferido morreu e foi abandonado. O ourives foi acusado de “homicídio privilegiado», um crime previsto na lei para os casos em que a actuação surge num estado de «emoção violenta, desespero ou motivo de relevante valor social ou moral, que diminuam sensivelmente a culpa» e é punível com prisão entre um a cinco anos.

Não deixa de ser curioso que o assaltado seja acusado de “homicídio privilegiado”, pois dá-se a entender que nem todos os cidadãos podem ter o “privilégio” de serem assaltados, roubados, baleados e, ainda, terem acesso a uma caçadeira e espetarem com um chumbos no abdómen de um dos assaltantes. Compreendia-se melhor se fosse acusado de homicídio por negligência, já que não tomou as medidas ao seu alcance para levar mais uns tiros dos bondosos rapazes que o assaltaram.

Bem sei que num estado de direito não se pode fazer justiça pelas próprias mãos e longe de mim ser apologista de tal. Mas isso é uma coisa, e ter de ficar inactivo enquanto se é assaltado, violado, roubado ou baleado é outra completamente diferente, já que a faca de cozinha, a pá de críquete e, presumo, a caçadeira estavam legalmente na posse das pessoas. Depois queixem-se de que os paulinhos das feiras de lá e de cá atraem muita gente quando falam de insegurança e pedem um polícia para cada cidadão mais dois polícias para vigiarem cada um dos outros e se vigiarem mutuamente.

E eu que até estava a pensar comprar um machado no AKI para ter atrás da porta de entrada da minha casa! Agora, até a vara de oliveira vou ter de arrumar e, se for assaltado, pergunto se querem beber umas bujecas com amendoins ou tremoços. Caso sejam da elite, poderei mesmo oferecer uns uísques velhos acompanhados de figos secos com nozes, presunto com broa e vinho verde, porto vintage com queijo da serra de comer à colher ou tinto alentejano do meio da tabela com torresmos, enquanto a minha companheira tenta, sub-repticiamente, telefonar à polícia para virem acompanhá-los à porta.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Um Sonho de Simplicidade

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?

Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.

A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.

Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca - foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.

Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?

Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo. mas deixasse a alma sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver - sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

Rubem Braga (in"A Traição das Elegantes”)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

De degrau em degrau

de degrau em degrau afundo-me na sabedoria
do ouro e da visão conheço a lenta travessia
onde o corpo se evapora no fogo do tempo
reclamado de rostos e de petrificadas memórias

regresso pela transparente teia dos gestos
e pelos desertos junto ao mar
amámos
sobre o envelhecido espelho
fingimos morrer

já não posso dizer que nada existe
repovoámos o sonho e na boca cresceu
subitamente um pássaro o exíguo espaço
de um país

ó ave
dispersa esta réstia de sangue sobre o mar!

Al Berto

domingo, janeiro 10, 2010

Seu nome é hoje

Somos culpados
de muitos erros e faltas
porém nosso pior crime
é o abandono das crianças
negando-lhes a fonte
da vida.

Muitas das coisas
de que necessitamos
podem esperar. A criança não pode.

Agora é o momento em que
seus ossos estão se formando
seu sangue também o está
e seus sentidos
estão se desenvolvendo.

A ela não podemos responder “amanhã”.
Seu nome é hoje.

Gabriela Mistral

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

sábado, janeiro 09, 2010

Homenagem a Picasso

O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparentemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juízo final.

João Cabral de Mello Neto

(Pedra do Sono, 1940/1941)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Uma EPAL sem vergonha


Fiquei hoje a saber, através do presidente da AMEGA (Associação de Municípios para Estudos e Gestão da Água), que vou ter de pagar mais pela água que consumo, porque a EPAL o vai impor apesar da inflação negativa.

A AMEGA reúne 19 serviços municipalizados de água abastecidos pela EPAL, desde Vila Nova da Barquinha e Torres Novas até Cascais e Sintra, passando pela totalidade dos municípios que formam a área metropolitana de Lisboa a norte do Tejo, e a quase totalidade da água captada pela EPAL provém desses mesmo municípios.

Mais fiquei a saber, pelo também presidente da Câmara de Loures, que a EPAL e Lisboa estão a subsidiar-se à custa dos municípios limítrofes, já que a EPAL vende a água directamente aos clientes de Lisboa a 16 cêntimos por metro cúbico, enquanto vende o mesmo metro cúbico aos municípios pelo módico preço de 47 cêntimos ( 3 vezes mais), obrigando os serviços municipalizados a disponibilizá-la aos munícipes a mais de 50 cêntimos.

Isto significa que as centenas de milhares de pessoas que se deslocam todos os dias para os seu locais de trabalho na capital, ziguezagueando por entre os buracos existentes em tudo o que é rua e avenida, saltitando nos passeios para evitar os excrementos dos cães, tendo de caminhar pelas ruas porque os passeios estão atulhados de carros e tendo de utilizar chapéus para se protegeram da merda dos pombos, têm como recompensa pela riqueza que trazem à cidade (as transferência para os municípios estão relacionadas com os impostos arrecadados pelo estado em cada um) a imposição de subsidiarem a água que os lisboetas - que não têm a mínima responsabilidade no facto - consomem, além dos luxos da própria EPAL, como o pagamento de consultadoria a uma empresa terrorista israelita de que já aqui falei.

A atitude da EPAL é ainda mais obscena por se traduzir numa grosseira manipulação da opinião pública acerca dos custos dum serviço público fundamental, já que em Lisboa toda os munícipes sabem que o preço da água é da responsabilidade da EPAL, enquanto a imensa maioria dos quase dois milhões de habitantes da área abrangida pela AMEGA julga que o preço da água é da responsabilidade das respectivas câmaras municipais, sobre as quais recai o odioso da situação.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

A biquinha

Zeca sente muita saudade do tempo de criança. Ele morava numa casa na roça, onde tudo era melhor.

A água era pura, cristalina, trazida diretamente da mina até a porta da cozinha por uma bica feita com um pau oco apoiado sobre algumas forquilhas fincadas no chão. Ela saía da mina e já entrava na bica, para cair lá na frente, limpinha, gostosa, para Zeca pegar para sua mãe, beber ali mesmo ou brincar com monjolinhos.

- Os anos foram passando – conta Zeca – e a bica continuava lá, já meio podre. Um dia ela caiu de vez, mas a água já estava acostumada e continuou saindo da mina, indo até lá na frente pelo ar, como se a bica continuasse existindo, e caindo na porta da cozinha...

Mouzar Benedito

Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Careca mais à mostra

Será que Rupert Murdoch tem ogivas nucleares para vender? Na verdade, depois de a CIA ter dito que o relatório publicado no The Times em 14 de Dezembro sobre a alegada posse de tecnologia para uma bomba nuclear, por parte do Irão, era uma fraude, o jornal voltou à carga, agora com uma história rocambolesca de corte e costura.

Como sempre, Gareth Porter não deixou os seus créditos por mãos alheias e voltou a pôr tudo em pratos limpos, com pormenores indesmentíveis. Parece que o jornal londrino se assemelha cada vez mais à sua "irmã" Fox News, onde pontifica o troglodita Glen Beck. Como disse o grande Cícero na 4ª Catilinária, o tempora o mores!

terça-feira, janeiro 05, 2010

Verdade


Temei os profetas e aqueles que estão dispostos a morrer pela verdade, pois, em geral, farão morrer muitos outros juntamente com eles, frequentemente antes deles, por vezes no lugar deles.

Vem esta citação a pretexto do 78º aniversário do grande escritor italiano e para, mais uma vez, desmascarar um auto-proclamado paladino dos valores da "liberdade", que afirmou recentemente estar disposto a morrer por ela, provavelmente depois de matar mais umas dezenas de milhares de concidadãos, como aconteceu há mais de duas décadas.

Refiro-me ao sr. Mir-Hossein Moussavi, que foi um protegido de Khomeini, o líder espiritual da dita revolução de 1979, e exerceu o cargo de primeiro ministro do Irão entre de 1981 e 1989, durante a guerra com o Iraque, deixando feitos de se lhe tirar o chapéu.

Das suas proezas em prol da “liberdade” já falei aqui com algum detalhe. Não me espanta que o ocidente defenda este lacaio com unhas e dentes, pois a liberdade e os direitos humanos são só para encher a boca, não valendo um chavo quando os torcionários disponibilizam bases militares, petróleo ou outras matérias primas essenciais ao seu estilo de vida. O que me espanta, apesar do fraco conceito em que tenho o sr. Ahmadinejad, é que tanta gente que se reclama de progressista embarque nas loas a tal escroque.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

NÚPCIAS DE NADA

Desenhar riscos de nada sobre nada
que sofrem por antecipação
pelo nada que são;
fazer do nada lixo
para o nada imanente
ao momento de criação.

De um nada ao outro
criar uma ponte ausente
onde trafega a ilusão

de dor que vai
e volta pequena
dádiva de absolvição

da culpa de nada.
Aqui está: de absolutamente
nada a representação.

Mas diga que não há,
após tais núpcias de nada,
algum mistério absurdo,
algum silêncio túrgido,
alguma fosforescência no pensando.

Felipe Vasconcelos*

*poeta carioca

domingo, janeiro 03, 2010

Sinais contraditórios




Embora não exista combate sério à corrupção, dizem que milhares de polvos começaram a dar à costa. Mas, pela relação quantidade/peso, são só polvinhos, como se a corrupção existisse apenas ao nível da pequena repartição ou do coveiro da freguesia mais remota. Aguardam-se polvos de muito maior tamanho e pertencentes a todos os patamares da hierarquia do Estado e a todos os poderes institucionais, subterrârreos ou assim-assim.
Para que não esqueçam



























Há cinquenta anos foi assim
!

sábado, janeiro 02, 2010

Para que ninguém esqueça















Crianças palestinas participam numa manifestação contra as barreiras na fronteira de Gaza com o Egipto.

Para elas, um novo ano será sempre pior do que o anterior até que o chamado ocidente lhes reconheça o direito de viverem como seres humanos, direito que lhes foi negado quando decidiram expoliá-las da terra que pertencia aos seus ancestrais.

Imagem: Said Khatib/AFP/Guardian

sexta-feira, janeiro 01, 2010

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade