segunda-feira, janeiro 15, 2007

Vacina contra o HPV A notícia sobre a chegada a Portugal da vacina contra o Papilomavírus Humano, uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns, encheu os telejornais do fim de semana. Lamentavelmente, como sempre, não houve jornalismo de investigação. Algumas entrevistas esparsas a especialistas, informações sobre os custos das vacinas e alguma esperança no ar. Portugal juntou-se ao grupo de 12 países que já comercializam a primeira vacina contra o HPV (Human Papillomavirus), vírus causador do cancro do colo do útero. Segundo as informações existentes, Portugal é o país da Europa com maior taxa de incidência desta doença, sendo detectados anualmente 900 novos casos e mais de 300 casos mortais. A vacina agora chegada a Portugal, chamada Gardasil, foi patenteada pela Merck & Co. Por altura da sua aprovação pela FDA dos Estados Unidos, em meados de 2006, um painel de aconselhamento sobre vacinação a nível federal (Advisory Committee on Immunization Practices) aprovou por unanimidade, em 29 de Junho de 2006, uma recomendação para que todas as raparigas e mulheres entre os 11 e os 26 anos recebessem a nova vacina, um voto que implicaria um gasto de cerca de 2 mil milhões de dólares por parte do orçamento federal, apenas num programa de vacinação das raparigas mais pobres entre os 11 e os 18 anos. De imediato se levantaram vários grupos religioso conservadores que se opuseram à vacinação obrigatória de raparigas pré-adolescentes, com medo de que a vacinação contra uma doença sexualmente transmissível enviasse uma mensagem subtil que iria contra a sua abordagem da saúde sexual baseada na abstinência. Chegaram mesmo a chamar-lhe a vacina da “promiscuidade”. Apesar disso, meia dúzia de estados já introduziram legislação que obriga à vacinação das estudantes do ensino médio, vários outros disponibilizam as três doses da vacina sem custo e assiste-se a uma vaga de fundo favorável a uma vacinação em massa. Por cá, a vacina não é comparticipada e é cara, muito mais cara que nos Estados Unidos (€ 480,00 contra $ 360,00) e a informação escassa. Esperemos que, ao menos, as vozes fundamentalistas a condenar a vacinação não se façam ouvir, já que, no actual estado das finanças públicas, a comparticipação não será, infelizmente, para já. E esperemos, também, que a vacina concorrente da GlaxoSmithKline, de nome Cervarix, cuja pedido de aprovação já foi solicitada às autoridades da União Europeia e dos Estados Unidos, apareça rapidamente no mercado, fazendo baixar o preço.

domingo, janeiro 14, 2007

Podemos viver sem convenções ?

Há quem diga que é pouco convencional. Há mesmo quem se vanglorie de viver contra todas as convenções. Mas será isso possível? O filósofo Ludwig Wittgenstein ensinava que nossa comunicação não passa de um grande jogo de palavras. Não há relação direta entre palavras e coisas. Palavras são inventadas arbitrariamente. Seu sentido é fruto de uma convenção e tudo depende do uso que fazemos delas. Estabelecem-se, pois, convenções, a partir de algo arbitrário. Há anos numa aula de filosofia em Munique escutei a seguinte história que faz pensar. Havia um professor que após a aposentadoria se entediava muito porque tudo lhe parecia chato e sem graça A mesa era sempre mesa, as cadeiras, cadeiras, a cama, cama, o quadro, quadro. Por que não poderia ser diferente? Os brasileiros chamam a casa de casa, os franceses de maison, os alemães de Haus e os ingleses de home. E resolveu dar outros nomes às coisas já que tudo nessa área é mesmo arbitrário. Assim chamou à cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, o despertador de álbum de fotografias, o armário de jornal, o tapete de armário, o quadro de mesa e o álbum de fotografias de espelho. Portanto: o homem ficava bastante tempo no quadro, às nove tocava o álbum de fotografias, se levantava e punha-se em cima do armário para não apanhar frio nos pés, depois tirava a roupa do jornal, vestia-se, olhava para a cadeira na parede, sentava-se no despertador junto ao tapete e folheava no espelho até encontrar a mesa da filha. O homem achava tudo aquilo muito engraçado. As coisas começaram de fato a mudar. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Tudo se chamava de outra maneira. Ele já não era um homem mas um pé, e o pé era uma manhã e a manhã um homem. E continuou a dar significações diferentes às palavras: tocar a campainha diz-se pôr, ter frio diz-se olhar, estar deitado diz-se tocar, estar de pé diz-se ter frio e pôr diz-se folhear. E a coisa ficou então assim: Pelo homem, o pé ficou bastante tempo tocando no quadro, às nove pôs o álbum de fotografias, o pé teve frio e folheou-se no armário para não olhar para a manhã. E o aposentado se divertia com as novas designações que atribuía às palavras. Fez tanto que acabou realmente esquecendo a linguagem comum com a qual as pessoas se comunicam entre si. Quando conversava com os outros tinha que fazer muito esforço porque somente lhe vinham à mente os sentidos que havia dado às palavras. Ao quadro dele, as pessoas chamavam de cama, ao tapete de mesa, ao despertador de cadeira, à cama de jornal, a mesa de quadro e ao espelho de álbum de fotografias. Ria muito quando ouvia as pessoas falarem:"hoje vou assistir o jogo de abertura da copa mundial de futebol" ou "como faz frio hoje". Ria porque não entendia mais nada. Mas o triste da história é que ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém.

Leonardo Boff

Texto publicado no site do autor em 9 de Junho de 2006 e aqui afixado com sua autorização

sábado, janeiro 13, 2007

Língua traiçoeira Amável oferta do autor
Em nome do pai Para quem tem televisão por cabo, o canal AXN é, cada vez mais, uma excelente alternativa à pasmaceira pacóvia dos três canais generalistas nacionais. Excelentes séries, transmitidas a horas em que o cidadão comum as possa ver calmamente, e filmes, quase sempre muito bons. Foi graças ao AXN que ontem vi, pela primeira vez, o filme "Em nome do pai". Realizado por Jim Sheridam em 1993, mostra-nos os dois lados da justiça Britânica. Uma face negra, muito negra, pontuada por investigadores, brutais no espancamento e tortura psicológica dos presos, especialistas forenses sem quaiquer escrúpulos em fabricar provas condenatórias e sonegar à defesa provas ilibatórias, e um um arremedo de juiz que tem esta frase lapidar que cito de cor: "estou surpreendido por não ter sido acusado de traição à coroa; nesse caso, a sentença poderia ser a pena de morte por enforcamento que, nas actuais circunstâncias, não teria quaisquer dúvidas em aplicar". Como resultados, vários inocentes, entre os quais crianças, são condenados a severas penas de prisão, perpétua em alguns casos, por causa de um atentado do IRA que não cometeram. E uma face preocupada em fazer justiça, protuganizada por uma advogada incansável na busca da verdade e por um juiz que, 15 anos depois, não se atemoriza com a conversa dos investigadores fraudulentos e encerra todos os casos com a respectiva absolvição. Caso verídico passado no início dos anos setenta, este episódio mostra-nos o que pode acontecer quando se concede à polícia carta branca para, em situações de crise, prender e interrogar, durante dias e sem qualquer controlo judicial, quem muito bem entendam. Estanhas coincidências com o que se passa nos dias actuais.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Eles comem tudo... Amável oferta do autor
Novo desafio a Bush Foi aprovada no Congresso uma nova lei destinada a reverter a decisão de Bush, tomada em Agosto de 2001, de vedar o financiamento público à investigação em células estaminais embrionárias. Na sequência dessa decisão, somente puderam continuar a ser financiadas pelo orçamento federal as linhas de células já derivadas nessa altura, cerca de duas dezenas. Em tudo semelhante à lei que foi vetada há poucos meses por Bush, a nova lei teve um apoio esmagador (253 votos a favor - 37 dos quais republicanos - e 174 contra) e tem a sua aprovação no Senado praticamente garantida. No entanto, corre o risco de voltar a ser vetada, dado que só com 290 votos ou mais a favor o presidente seria obrigado a arrepiar caminho. Enfrentando uma grande oposição da opinião pública e dos politícos e o cepticismo da maioria do Congresso sobre o reforço do envolvimento no atoleiro do Iraque, e sob ameaça dos democratas de não aprovarem o financiamento da deslocação de mais tropas, veremos como reage a este novo desafio o guerreiro que diz ter sido guiado por Deus para defender os campos petrolíferos do Médio Oriente. Na imagem a Representatante Diana DeGette, Democrata do Colorado, e membros do seu pessoal de apoio brindam à aprovação da lei. (fotografia de Jamie Rose para The New York Times)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Chapéus há muitos Tenho recebido de várias proveniências, mensagens segundo as quais a GNR pode interpelar os condutores por causa de CDs não-originais que tenham no carro. Por cortesia do Carlos Medina Ribeiro, do Sorumbático, que afirma ter recebido a informação de fonte segura e fiável e autoriza a sua reprodução, aqui fica: "Isto é uma coisa sem pés nem cabeça, fruto de algum inventor (de que este mundo da Internet é alfobre), ou da parvoíce de algum GNR, que se armou em esperto. É perfeitamente legal que o cidadão faça uma cópia dos seus CDs para usar no carro, ou para o IPOD, ou para qualquer outro sistema de escuta. É a chamada cópia privada, contemplada na lei. O automóvel não é um espaço público, onde a difusão e utilização da música já tem de ser feita a partir de suportes legais, ou eventualmente de outros (disco rígido do computador, por exemplo), tendo nesse caso de ter os CDs legais junto a si". Cartune do Sergei, retidado da sua página
A ética do aborto Pedro Galvão é licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa, onde prepara o doutoramento em Ética. É autor de artigos de ética normativa, tem publicado traduções de obras filosóficas e edita a Trolei, uma revista electrónica de filosofia moral e política. Para o livro “A ética do aborto”, editado em 2005 pela Dinalivro, seleccionou, traduziu e organizou seis textos marcantes sobre as implicações éticas do aborto, três que o defendem e três que o condenam. Mas todos colocam o debate num nível elevado e de grande sofisticação. Falta exactamente um mês para que nos possamos pronunciar em referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, até às 10 semanas de gestação, a pedido da mulher. Este livro de 199 páginas, com uma excelente introdução do tradutor e organizador, lê-se de um fôlego. Fazê-lo, ajudará a limpar a mente dos argumentos maus e falaciosos que têm sido esgrimidos na autêntica batalha campal que tem sido o pseudo debate a que assistimos diariamente.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Uma parelha de polarizadores Na sua coluna de hoje no The Washington Post, dedicada à política de Bush para o Iraque, Harold Meyerson diz, a dado passo: “O mais polarizante presidente da América está a dizer ao polarizante primeiro ministro do Iraque para parar de polarizar” No dia em que se espera que Bush anuncie aos Estados Unidos e ao mundo o envio de mais alguns milhares de soldados para o Iraque, vale a pena ler este editorial. Para, entre outras coisas, perceber melhor porque chamei bonifrate ao senhor al-Maliki.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A verdade Amável oferta do autor
Confidências Leonardo Boff é um filósofo e teólogo brasileiro, doutorado em filosofia e teologia pela Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, Alemanha e o rosto mais conhecido da “Teologia da Libertação”. Autor de vasta obra (mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia e Antropologia e incontáveis artigos) a partir de segunda metade dos anos sessenta, foi professor de Teologia Sistemática e Ecuménica e de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades do Brasil e doutros países, além de professor visitante nas universidades de Lisboa, Salamanca, Harvard, Basel e Heidelberg. Em 1984, por causa das suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no seu livro “Igreja: Carisma e Poder”, foi alvo de um processo por parte da Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, liderada por Joseph Ratzinger, actual Papa. Em 1985 foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e destituído de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986, pelo que pôde retomar algumas das suas actividades. Em 1992, tendo sido de novo ameaçado com uma segunda punição pelo Vaticano, renunciou às suas actividade de padre e passou ao estado de leigo, continuando as suas actividades como teólogo da libertação, escritor, professor e conferencista em auditórios por todo o mundo, assessorando, também, movimentos sociais de cunho libertador, como o Movimento dos Sem Terra, entre outros. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado, em Estocolmo, com o Prémio Nobel alternativo, Right Livelihood Award. Depois de ter lido a entrevista concedida à Visão de 4 de Janeiro por Mariela Castro, filha de Raul e sobrinha de Fidel, decidi divulgar estas suas confidências: Os 80 anos de Fidel: confidências O que vou publicar aqui vai irritar ou escandalizar os que não gostam de Cuba ou de Fidel Castro. Não me importo com isso. Se não vês o brilho da estrela na noite escura, a culpa não é da estrela mas de ti mesmo. Em 1985 o então Card. Joseph Ratzinger me submeteu, por causa do livro "Igreja: carisma e poder", a um "silêncio obsequioso". Acolhi a sentença, deixando de dar aulas, de escrever e de falar publicamente. Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me para passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que junto com Frei Betto havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes. Demandei a Cuba. Apresentei-me ao Comandante. Ele imediatamente, à minha frente, telefonou para o Núncio Apostólico com o qual mantinha relações cordiais e disse:"Eminência, aqui está o Fray Boff; ele será meu hóspede por 15 dias; como sou disciplinado, não permitirei que fale com ninguém nem dê entrevistas, pois assim observará o que o Vaticano quer dele: o silêncio obsequioso. Eu vou zelar por essa observância". Pois assim aconteceu. Durante 15 dias seja de carro, seja de avião, seja de barco me mostrou toda a Ilha. Simultaneamente durante a viagem, corria a conversa, na maior liberdade, sobre mil assuntos de política, de religião, de ciência, de marxismo, de revolução e também críticas sobre o deficit de democracia. As noites eram dedicadas a um longo jantar seguido de conversas sérias que iam madrugada a dentro, às vezes até às 6.00 da manhã. Então se levantava, se estirava um pouco e dizia:"agora vou nadar uns 40 minutos e depois vou trabalhar". Eu ia anotar os conteúdos e depois, sonso, dormia. Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação. Lera uma montanha de livros, todos anotados, com listas de termos e de dúvidas que tirava a limpo comigo. Cheguei a dizer: "se o Card. Ratzinger entendesse metade do que o Sr. entende de teologia da libertação, bem diferente seria meu destino pessoal e o futuro desta teologia". Foi nesse contexto que confessou: "Mais e mais estou convencido de que nenhuma revolução latino-americana será verdadeira, popular e triunfante se não incorporar o elemento religioso". Talvez por causa desta convicção que praticamente nos obrigou a mim e ao Frei Betto a darmos sucessivos cursos de religião e de cristianismo a todo o segundo escalão do Governo e, em alguns momentos, com todos os ministros presentes. Esses verdadeiros cursos foram decisivos para o Governo chegar a um diálogo e a uma certa "reconciliação" com a Igreja Católica e demais religiões em Cuba. Por fim uma confissão sua: "Fui interno dos jesuítas por vários anos; eles me deram disciplina mas não me ensinaram a pensar. Na prisão, lendo Marx, aprendi a pensar. Por causa da pressão norte-americana tive que me aproximar da União Soviética. Mas se tivesse na época uma teologia da libertação, eu seguramente a teria abraçado e aplicado em Cuba." E arrematou:"Se um dia eu voltar à fé da infância, será pelas mãos de Fray Betto e de Fray Boff que retornarei". Chegamos a momentos de tanta sintonia que só faltava rezarmos juntos o Pai-Nosso. Eu havia escrito 4 grossos cadernos sobre nossos diálogos. Assaltaram meu carro no Rio e levaram tudo. O livro imaginado jamais poderá ser escrito. Mas guardo a memória de uma experiência inigualável de um chefe de Estado preocupado com a dignidade e o futuro dos pobres. Leonardo Boff Artigo publicado no site do autor em 11 de Agosto de 2006 e aqui afixado com a sua autorização.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

domingo, janeiro 07, 2007

Criança para toda a vida - II Cerca de 30 horas depois de eu ter aqui afixado um post sobre a pequena Ashley, a RTP1 abordou a questão. E o que fez? Durante os mais de dois minutos que durou a reportagem, passou várias das fotografias que constam do blogue dos pais da menina, deu a conhecer alguns dos motivos dos pais e entrevistou um "especialista", Daniel Serrão. Isso mesmo. Um professor catedrático de medicina de 78 anos de idade, que representa o que de mais retrógrado existe na área da bioética médica. Que subscreveu a petição para que se fizesse um referendo sobre a Procriação Medicamente Assistida e sobre a utilização de embriões excedentários na Investigação em Células Estaminais Embrionárias. Que, entre outras organizações, é membro da Academia Pontifícia para a Vida, grupo de aconselhamento do Papa para as questões ligadas à vida. O que se esperava de uma pessoa destas? Claro que só podia ser uma posição frontalmente contra, com acusações de falta de ética aos médicos que lidaram com a situação e a condenação liminar dos pais da menina. É esta a televisão de serviço público que temos. Quem tiver uma visão diferente da da casa, não é ouvido. Se alguém tiver alguma dúvida, leia o Parecer sobre investigação em células estaminais, do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vída (47/CNECV/2005) e a declaração de voto do venerando professor.
Os vampiros Embora esteja consciente da má situação do país, é-me difícil perceber por que razão é que são sempre os mesmos a pagar a crise. Por isso, à notícia, já há muito conhecida mas só agora recordada pelos media, de que os combustíveis vão aumentar, a partir de amanhã e, em média, três cêntimos por litro, sem cuidar da influência que tal decisão terá no aumento dos tranportes públicos de passageiros e mercadorias, com as graves consequências que acarretará para o preço dos bens de primeira necessidade, recordo-me da canção do Zeca que, no final dos anos sessenta, ouvia assiduamente: No céu cinzento sob o astro mudo Batendo as asas pela noite calada Vêm em bandos com pés veludo Chupar o sangue fresco da manada Se alguém se engana com seu ar sisudo E lhes franqueia as portas à chegada Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada [bis] A toda a parte chegam os vampiros Poisam nos prédios poisam nas calçadas Trazem no ventre despojos antigos Mas nada os prende às vidas acabadas São os mordomos do universo todo Senhores à força mandadores sem lei Enchem as tulhas bebem vinho novo Dançam a ronda no pinhal do rei Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada No chão do medo tombam os vencidos Ouvem-se os gritos na noite abafada Jazem nos fossos vítimas dum credo E não se esgota o sangue da manada Se alguém se engana com seu ar sisudo E lhes franqueia as portas à chegada Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada Eles comem tudo eles comem tudo Eles comem tudo e não deixam nada
A fanfarrice de um bonifrate O títere do cowboy texano num país esfrangalhado que, até há 4 anos, se chamou Iraque, de seu nome Nouri al-Maliki, ontem , olhou-se ao espelho e, pensando ter visto lá reflectidos Alá e o seu Profeta, ameaçou «rever as relações com todos os Estados que não respeitaram a vontade do povo» sobre a execução de Saddam Hussein, «assunto interno que diz apenas respeito aos iraquianos» É capaz de ter razão. Afinal, no exemplo de democracia que são os Estados Unidos da América, a pena de morte nem sequer é um assundo do Estado mas um assunto dos estados. Uns consagram-na nas suas leis e outros não. Mesmo que, neste início do século XXI, qualquer pessoa com um mínimo de ética e bom senso considere a pena de morte uma barbaridade. Mas o povo, mesmo que tenha decidido em plenas condições de liberdade, o que não aconteceu na antiga Mesopotâmia, também se engana. E pode, ao fim de um certo número de anos, mudar os presidentes, os parlamentos e os governos que elegeu por engano, ou fazer reverter as leis aprovadas em circuntâncias às vezes obscuras. Mas o senhor Nouri al-Maliki esqueceu-se de várias coisas: Em primeiro lugar, ignorou que Saddam não foi condenado à morte por um tribunal isento, mas sim pelos responsáveis dos países ocidentais que invadiram o seu ex-país. E que, se queriam julgar Saddam com um mínimo de justiça e de dignidade, deviam tê-lo trazido para o TPI e não deixá-lo entregue à sanha assassina dos irmãos na fé do neto do Profeta do fantoche al-Maliki. Em segundo lugar, esqueceu-se de que a política interna para o seu ex-país não é decidida em Bagdade. É-o na Casa Branca, sendo depois contrabandeada no mercado das ilusões da democracia, a preços de sangue e petróleo, por uma correio da droga ideologica que, para essas ocasiões, se veste de negro, um negro mais negro do que a morte que costuma deixar à sua passagem. Em terceiro lugar, quis olvidar que Saddam foi apoiado com armas e conselheiros e mantido no seu lugar durante muitos anos por anteriores inquilinos da Casa Branca, um deles pai do actual, até que se convenceu de que o petróleo da sua terra não lhe era suficiente e quis ir explorar poços no quintal do vizinho. Foi escorraçado sem grande polémica, segundo a legalidade internacional, mas Bush pai menteve-o no seu posto, e por lá ficou por mais uma dúzia de anos, até que o Bush Jr. alegou que tinha sido mandado por Deus para o guerrear, quando na verdade queria esconder a crassa incompetência do seu governo em prevenir os atentados do 11 de Setembro. Quando o mesmo Deus decidir que o senhor al-Maliki já não serve para nada, deixá-lo-á cair como quem atira um preservativo usado para o caixote do lixo. Por fim, não se lembrou o senhor Nouri al-Maliki de que, se o Saddam era um ditador que tinha de ser julgado e condenado à morte, devia, há muito tempo, ter tomado medidas tendentes à instauração de um regime que tivesse o apoio do seu povo, sem esperar pelos homens e armas idos de muito longe para "libertar" o seu solo pátrio. Há muitos povos que o fizeram. Aqui os nossos vizinhos deixaram morrer em paz um ditador que chacinou centenas de milhares de compatriotas para, pela mão de um Rei educado no Estoril, fazer uma transição pacífica para a democracia. Nós próprios, por acção directa de soldados fartos de verem dezenas de milhares de companheiros mortos e estropiados numa guerra iníqua em três frentes, conseguimos, de forma mais ou menos pacífica, entrar numa democracia representativa que, se não é aquilo com que tantos sonharam e pela qual muitos lutaram e alguns morreram, é aquilo que a maioria dos portugueses escolheu. O senhor al-Maliki, de costas quentes, pode vociferar à vontade. Até pode cortar-nos o seu petróleo. Mas nós e os nossos parceiros europeus também podemos fechar as torneiras das ajudas e dos negócios, que talvez fosse o que devia ser feito se os lucros das empresas não fossem contruídos, em grande parte, sobre o sangue e o sofrimento dos povos. E, já agora, o senhor al-Maliki, em vez de fanfarronar, que tal se conseguisse arranjar empregos com salários e água, luz e alimentos pra o povo que diz liderar? Como diria o Raúl Solnado, pois!..

sábado, janeiro 06, 2007

Pluralidade religiosa Amável oferta do autor a este blogue
Criança para toda a vida Ashley é uma menina que será menina até à morte. Nasceu em Seattle, nos Estados Unidos, de parto normal em 1995. Logo após o nascimento foi-lhe diagnosticada uma doença cerebral de causas desconhecidas e as suas faculdades mentais e motoras nunca se desenvolveram. Ao longo dos anos, neurologistas, geneticistas e outros especialistas realizaram todos os testes tradicionais e experimentais conhecidos, mas não conseguiram ainda determinar uma causa ou fazer um diagnóstico da doença, pelo que a apelidaram de “encefalopatia estática de etiologia desconhecida”. Tem o mesmo nível de desenvolvimento mental desde os três meses de idade e nunca poderá andar, falar ou sentar-se e é alimentada por um tubo. Há três anos começou a mostrar sinais de puberdade precoce, o que aumentou a ansiedade dos pais quanto ao impacto da fertilidade e do rápido crescimento do peso e altura da menina na sua qualidade de vida. Em discussões com os médicos do Hospital Pediátrico de Seattle foi idealizado o tratamento: parar o crescimento físico (uma vez que o mental tinha parado aos 3 meses de idade). Através de cirurgias e da administração de elevadas doses de estrogéneo, em 2004 o crescimento físico foi “congelado” nos 9 anos de idade. Com uma esperança de vida normal, Ashley ficará até ao fim dos seus dias com uma mente de 3 meses de idade, uma altura de 130 cm, em vez dos esperados 168 cm, e com um peso de 34 kg , em vez dos previsíveis 57 kg. Quando a notícia foi conhecida, a reacção foi violenta . Nas salas de conversação ouviram-se comentários de “isto faz lembrar eugenia”, “isto cheira mal” e quejandos. Também organizações que representam deficientes manifestaram o seu “horror”. Os pais dizem que só tomaram essa decisão por amor, que assim poderão ter ao colo a sua “Pillow Angel”, como lhe chamam, tratar bem dela, levá-la em viagem e fazer com que ela tenha uma vida mais digna e confortável, evitando os ferimentos que, se fosse mais pesada, lhe seriam provocados pelo facto de estar quase sempre imóvel. Os pais da Ashley escolheram manter o anonimato. Sabe-se apenas que são profissionais com educação universitária e que residem algures em Washington DC. Mas afixaram num blogue um extenso esclarecimento sobre o seu desejo de parar o crescimento da filha. É claro que para cada inovação médica se levanta uma nova questão ética. E creio que aqui a questão ética é sobre o que mantém esta família unida; é sobre o senso comum e a decência humana; é sobre os pais de uma criança deficiente – que afinal de contas, também têm direito à existência em condições de dignidade – e os limites da sua resistência física e mental. E, para mim, a atitude destes pais foi um enorme acto de amor.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

A pobreza do debate Como se esperava, o debate sobre a interrupção voluntária da gravidez tem sido muito pobre. Com maus argumentos de um lado e do outro, alguns extremamente falaciosos. Se quer ter acesso a uma excelente análise crítica quer dos argumentos usados na campanha para o referendo quer dos principais argumentos presentes na bibliografia especializada sobre bioética, leia este ensaio do Pedro Madeira. Para mim, é a melhor e mais esclarecedora abordagem sobre o assunto que encontrei escrita em língua portuguesa. Pedro Madeira é um jovem filósofo português, licenciado em filosofia pelo King’s College London, onde continua os seus estudos.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Terrorismo? Que Terrorismo? Não costumo ouvir as mensagens de Ano Novo. Por isso fiquei incrédulo quando ouvi que Bento XVI teria comparado o aborto, a investigação em células estaminais embrionárias e a eutanásia ao terrorismo. Seria mesmo assim? Decidi, pois, consultar a fonte. E lá está, no ponto 5 da Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz : “Quanto ao direito à vida, cabe denunciar o destroço de que é objecto na nossa sociedade: junto às vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia. Como não ver nisto tudo um atentado à paz?” Ainda atordoado, verifiquei a versão inglesa, não fosse haver algum erro de tradução. Mas não, pois também lá consta: “As far as the right to life is concerned, we must denounce its widespread violation in our society: alongside the victims of armed conflicts, terrorism and the different forms of violence, there are the silent deaths caused by hunger, abortion, experimentation on human embryos and euthanasia. How can we fail to see in all this an attack on peace?” Nas versões francesa, espanhola e italiana (que presumo ter sido a original), o significado é o mesmo, mais ponto menos vírgula. Então uma mulher que decide abortar e os profissionais de saúde que lhe dão apoio são terroristas ou equivalentes? E os cientistas que fazem investigação em embriões, também? Não posso aceitar tal qualificativo. Tenho lá em casa uma mestranda em biologia molecular e genética que, se tiver sorte, tem grandes possibilidade de vir a fazer investigação nessa área. E nunca será uma terrorista por isso. Nem para mim nem para qualquer pessoa de boa fé, pois: Terrorismo é negar o funeral religioso a Piergiorgio Welbi, que desejou morrer, e concedê-lo a um carniceiro como o Pinochet; Terrorismo é condenar à morte milhões de seres em África, ao considerar pecaminoso o uso do preservativo, ao enganar o povo ignorante dizendo que não protege do vírus da Sida e ao patrocinar a destruição de centenas de milhares de unidades para lá enviadas pelos países desenvolvidos; Terrorismo é proibir a interrupção voluntária da gravidez quanto o embrião tem anomalias graves e exigir, como se faz no cânone 241 § 1, que apenas sejam admitidos no seminário maior aqueles que, atendendo (...) à sua saúde física e ao seu equilíbrio psíquico, (...), sejam considerados capazes de dedicar-se aos sagrados ministérios de maneira perpétua; Terrorismo é querer intervir na relação íntima do casal; Terrorismo é obrigar ao nascimento de filhos indesejados que irão, muitos deles, engrossar o exército dos mal tratados e dos miseráveis; Terrorismo é fazer das mulheres cristãos de segunda, ao impedir o seu acesso ao sacerdócio; Terrorismo é negar o acesso aos sacramentos a um casal cujo casamento não resultou e resolveu separar-se e refazer a vida com outros companheiros; Terrorismo é estigmatizar os crentes homossexuais; Terrorismo é pôr entraves ao desenvolvimento da ciência e à cura de incontáveis doenças, ao não admitir a investigação em células estaminais embrionárias. Terrorismo é impedir um casal de ser feliz, ao reprovar o recurso à Procriação Medicamente Assistida; Terrorismo, o mais hediondo terrorismo, é dar cobertura a padres pedófilos, subtraindo-os à justiça civil e mudando-os de paróquia. É tempo de mais crentes dizerem basta. Afinal, a igreja somos nós.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

No início do novo ano Cantemos o novo dia Olhai que vamos a passar Nosso canto é de verdade; vinde connosco lutar, nós somos a liberdade. A terra está toda em flor, o céu é todo alegria A nossa voz é de amor Cantemos o Novo Dia! Ó jovem que és cavador, Semeia, hás-de colher. A papoila é nossa flor, O trigo é nosso querer. Toda a palavra é de amor, a hora é nossa, confia, nosso olhar tem mais fulgor Cantemos o Novo Dia! Há seiva forte a brotar, novas folhas a nascer, a Primavera a chegar os homens querem viver. A juventude é mais moça Quando o amor principia Pois se a vida é toda nossa Cantemos um Novo Dia! (poema de Luísa Irene; música de Fernando Lopes Graça - Gravada no Coliseu dos Recreios em 25 de Maio de 1974)