sexta-feira, julho 03, 2015

Um novo milagre é preciso  

“A sua cidade já não existe.” Sem rosas
nem quimeras de marear
as rotas, escuta-se serodiamente
apenas o intrínseco alvoroço de vozes ausentes
de sílabas híbridas,
um hálito dos corpos ébrios de sede
e do olhar enigmático de alguns ciganos
com a alma suja de desperdícios
onde só as altivas sobras de solidão mancham
a visão retemperadora do astro-rei
queimando o mondego
quando os peixes se mutilam
desassossegando as águas de guelras vermelhas
no regaço alquímico de Isabel,

hoje o rio secou o assombro
e a infinda maresia da embarcação
dos náufragos primordiais
“desapareceu. Foi abandonada por toda a gente”,
mas no centro da cidade
está oculto um inexplicável oceano
para aqueles que nunca o ousarem sulcar,
o sustento da pedra onde se alimentam os corpos
dilacerou a sua unidade de utopia
obstruindo o percurso da boca às raízes
“e depois veio a areia e engoliu-a”.

Um novo milagre é preciso
e embeber a inutilidade de um poema é preciso,
deveremos ser bilíngues de rotas e casas
em uma única cidade
pois é nela que a nudez de quem fere e sangra
não questiona o heróico murmúrio do estorvo do verbo.


(poeta coimbrão que hoje faz 50 anos)

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