A rotura
Dando o dito por não dito, um candidato a líder da oposição vindo de Bruxelas afirmou que a sua candidatura seria uma rotura com a política socialista que vem a ser seguida nos últimos quinze anos.
Considerando que, nesse período, durante três anos houve dois desgovernos do seu partido, ficámos a saber que considera socialistas as políticas de Barroso e Santana Lopes. Como será mais fácil enfiar um camelo no cu da agulha do que o putativo governo de Rangel fazer algo de diferente, para melhor, daquilo que fizeram os seus comparsas, talvez a apregoada rotura não se refira a uma ruptura com o pensamento dominante mas sim à liderança de um grupo de rotos, quem sabe?!
How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
domingo, fevereiro 14, 2010
sábado, fevereiro 13, 2010
Retrato de Catarina Eufémia
Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
José Carlos Ary dos Santos
Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
José Carlos Ary dos Santos
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Os necrófagos
Quando me levantei de madrugada pensei falar de necrófagos, não sei bem porquê, talvez pelo cheiro a cadáver que se sente no ar da baixa pombalina. Hienas que riem, urubus e abutres à espreita ou corvos na bandeira da capital nunca me seduziram, apesar de serem animalejos cada vez mais presentes nos vários níveis da sociedade portuguesa. Mas o céu plúmbeo (um comportamento criminoso do sol, em linguagem popular) alterou-me de tal modo o humor que prefiro ficar-me pelo céu muito nublado com aguaceiros frequentes. E se estivesse sozinho em casa, ia ouvir as quatro missas de requiem que tenho numa caixa de cêdês tripla. Como há boa companhia, vai um tinto alentejano para desanuviar a mente.
Quando me levantei de madrugada pensei falar de necrófagos, não sei bem porquê, talvez pelo cheiro a cadáver que se sente no ar da baixa pombalina. Hienas que riem, urubus e abutres à espreita ou corvos na bandeira da capital nunca me seduziram, apesar de serem animalejos cada vez mais presentes nos vários níveis da sociedade portuguesa. Mas o céu plúmbeo (um comportamento criminoso do sol, em linguagem popular) alterou-me de tal modo o humor que prefiro ficar-me pelo céu muito nublado com aguaceiros frequentes. E se estivesse sozinho em casa, ia ouvir as quatro missas de requiem que tenho numa caixa de cêdês tripla. Como há boa companhia, vai um tinto alentejano para desanuviar a mente.
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
O salva, não salva
Sempre que um Estado-Membro se encontre em dificuldades ou sob ameaça de dificuldades devidas a calamidades naturais ou ocorrências excepcionais que não possa controlar, o Conselho, sob proposta da Comissão, pode, sob certas condições, conceder ajuda financeira da União ao Estado-Membro em questão. O Presidente do Conselho informará o Parlamento Europeu da decisão tomada.
É isto que dispõe o artigo 122 do Tratado de Lisboa e a Grécia alega que os ataques dos especuladores se enquadram nas ocorrências excepcionais que não pode controlar. Por isso não percebo porque é que os líderes da UE andaram este tempo todo a encanar a perna à rã e permitiram os disparates do senhor Almunia – que, em nada contribuindo para minorar os problemas gregos, prejudicaram grandemente Portugal (porque é que os deputados do PS não se manifestaram na votação sobre a Comissão Barroso II ?) - para agora se reunirem a correr para discutir a situação grega. Quanto mais que não se trata de arriscar dinheiro dos contribuintes, como se apressaram a fazer com os bancos. Os próprios gregos lembraram que uma antecipação dos fundos estruturais que estão previstos resolveria o problema, havendo ainda várias outras possibilidades, desde a emissão de euro-obrigações até à compra de títulos do Tesouro grego.
Sempre que um Estado-Membro se encontre em dificuldades ou sob ameaça de dificuldades devidas a calamidades naturais ou ocorrências excepcionais que não possa controlar, o Conselho, sob proposta da Comissão, pode, sob certas condições, conceder ajuda financeira da União ao Estado-Membro em questão. O Presidente do Conselho informará o Parlamento Europeu da decisão tomada.
É isto que dispõe o artigo 122 do Tratado de Lisboa e a Grécia alega que os ataques dos especuladores se enquadram nas ocorrências excepcionais que não pode controlar. Por isso não percebo porque é que os líderes da UE andaram este tempo todo a encanar a perna à rã e permitiram os disparates do senhor Almunia – que, em nada contribuindo para minorar os problemas gregos, prejudicaram grandemente Portugal (porque é que os deputados do PS não se manifestaram na votação sobre a Comissão Barroso II ?) - para agora se reunirem a correr para discutir a situação grega. Quanto mais que não se trata de arriscar dinheiro dos contribuintes, como se apressaram a fazer com os bancos. Os próprios gregos lembraram que uma antecipação dos fundos estruturais que estão previstos resolveria o problema, havendo ainda várias outras possibilidades, desde a emissão de euro-obrigações até à compra de títulos do Tesouro grego.
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
Liberdade, eis a questão
A questão é esta: há liberdade de imprensa em Portugal? É ociosa, a pergunta, para quem, como eu, vem do tempo em que se escrevia baixinho, tão baixinho que perdêramos muitas das palavras, por mudez e falta de uso. Já me não surpreende a desvergonha de alguns daqueles que têm desfilado nas televisões a proclamar que vivemos numa asfixia. Mas indigna-me o silêncio calculado dos que se não erguem a protestar contra a ambiguidade do assunto.
Há algo de torpe neste alvoroço. Um ex-ministro, agora protestador grave e atroz, foi, na sombria década cavaquista, controleiro da RTP. E um dos agora acusadores da falta de liberdade era o zeloso varejeiro do noticiário. Não cauciono, de forma alguma, tentativas de domínio da imprensa pelo poder político. Mas não colaboro neste imbróglio, que tem estimulado a perda do sentido das coisas e a adulteração da verdade histórica. A reabilitação de falsos fantasmas apenas serve para se ocultar a medonha dimensão do que ocorreu na década de 80. Os saneamentos, a extinção de títulos, a substituição de direcções de jornais e a remoção de jornalistas incómodos por comissários flutuantes eram o pão nosso de cada dia. Já se esqueceram?
Baptista-Bastos, In Diário de Notícias
A questão é esta: há liberdade de imprensa em Portugal? É ociosa, a pergunta, para quem, como eu, vem do tempo em que se escrevia baixinho, tão baixinho que perdêramos muitas das palavras, por mudez e falta de uso. Já me não surpreende a desvergonha de alguns daqueles que têm desfilado nas televisões a proclamar que vivemos numa asfixia. Mas indigna-me o silêncio calculado dos que se não erguem a protestar contra a ambiguidade do assunto.
***
Há algo de torpe neste alvoroço. Um ex-ministro, agora protestador grave e atroz, foi, na sombria década cavaquista, controleiro da RTP. E um dos agora acusadores da falta de liberdade era o zeloso varejeiro do noticiário. Não cauciono, de forma alguma, tentativas de domínio da imprensa pelo poder político. Mas não colaboro neste imbróglio, que tem estimulado a perda do sentido das coisas e a adulteração da verdade histórica. A reabilitação de falsos fantasmas apenas serve para se ocultar a medonha dimensão do que ocorreu na década de 80. Os saneamentos, a extinção de títulos, a substituição de direcções de jornais e a remoção de jornalistas incómodos por comissários flutuantes eram o pão nosso de cada dia. Já se esqueceram?
Baptista-Bastos, In Diário de Notícias
Tempos Sombrios
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.
Bertold Brecht
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.
Bertold Brecht
terça-feira, fevereiro 09, 2010
Podia-ó-calá-lo???
É inqualificável a intervenção de Paulo Rangel no PE sobre um alegado plano do Governo para controlar os órgãos de comunicação social. A existir mesmo tal plano - o que carece de ser provado, não bastando as diarreias mentais (e logo pela pena de quem!!!) do órgão oficioso do PSD detido pela Opus Dei e por Isabel dos Santos - a sua discussão e respectivas consequências políticas são um assunto interno do país, não tendo qualquer cabimento ou justificação que políticos portugueses o arrastem para palcos internacionais.
A troglodita atitude de Rangel revela duas coisas: primeiro, que para ele tudo vale na política; e depois, que se comporta no Parlamento Europeu como o marido que desconfia que a mulher lhe põe os cornos e, em lugar de averiguar os factos e discuti-los em casa, vai para o café da esquina fazer queixinhas dela.
Imagem: Karim Sahib/AFP/Getty
É inqualificável a intervenção de Paulo Rangel no PE sobre um alegado plano do Governo para controlar os órgãos de comunicação social. A existir mesmo tal plano - o que carece de ser provado, não bastando as diarreias mentais (e logo pela pena de quem!!!) do órgão oficioso do PSD detido pela Opus Dei e por Isabel dos Santos - a sua discussão e respectivas consequências políticas são um assunto interno do país, não tendo qualquer cabimento ou justificação que políticos portugueses o arrastem para palcos internacionais.
A troglodita atitude de Rangel revela duas coisas: primeiro, que para ele tudo vale na política; e depois, que se comporta no Parlamento Europeu como o marido que desconfia que a mulher lhe põe os cornos e, em lugar de averiguar os factos e discuti-los em casa, vai para o café da esquina fazer queixinhas dela.
Imagem: Karim Sahib/AFP/Getty
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
Tê-los no sítio
Seja o que for quem pensem acerca dele como pessoa, este é o homem que saiu para o campo no último Sábado, possivelmente o pior dia da sua vida, e teve os “tomates” para marcar o golo da vitória.
Esta é a forma como a colunista Carol Midgley termina um curiosíssimo artigo da passada quinta feira sobre o assunto do momento em Inglaterra: um alegado caso entre o capitão do Chelsea e da selecção, John Terry, e uma modelo de roupa interior que tinha sido companheira de um ex-colega de clube, actualmente no Manchester City. Um caso que incendiou os media ingleses, desde os tablóides aos mais circunspectos (com um coro de indignação a pedir o afastamento do jogador do seu lugar de capitão - pressão a que Fabio Capello já cedeu, manifestações de jogadores do City em apoio do colega que já não vivia com a modelo à data dos alegados factos, invejas mesquinhas pelo ordenado do “mau”, a honra da pátria em perigo, etc.) e chegou, até, à intelectualidade estado-unidense, passando por diversos países europeus.
Quer para quem goste do jogo da bola quer para quem o deteste ou lhe seja indiferente, este artigo é uma verdadeira pedrada no charco e, para mim, fez-me sentir bem por viver no meu país, apesar da porcaria que por ai vai. Afinal, por cá pode ser quase tudo uma grande rasquice mas, parafraseando um dito célebre, sempre é a nossa rasquice e não atinge um nível tão baixo.
Seja o que for quem pensem acerca dele como pessoa, este é o homem que saiu para o campo no último Sábado, possivelmente o pior dia da sua vida, e teve os “tomates” para marcar o golo da vitória.
Esta é a forma como a colunista Carol Midgley termina um curiosíssimo artigo da passada quinta feira sobre o assunto do momento em Inglaterra: um alegado caso entre o capitão do Chelsea e da selecção, John Terry, e uma modelo de roupa interior que tinha sido companheira de um ex-colega de clube, actualmente no Manchester City. Um caso que incendiou os media ingleses, desde os tablóides aos mais circunspectos (com um coro de indignação a pedir o afastamento do jogador do seu lugar de capitão - pressão a que Fabio Capello já cedeu, manifestações de jogadores do City em apoio do colega que já não vivia com a modelo à data dos alegados factos, invejas mesquinhas pelo ordenado do “mau”, a honra da pátria em perigo, etc.) e chegou, até, à intelectualidade estado-unidense, passando por diversos países europeus.
Quer para quem goste do jogo da bola quer para quem o deteste ou lhe seja indiferente, este artigo é uma verdadeira pedrada no charco e, para mim, fez-me sentir bem por viver no meu país, apesar da porcaria que por ai vai. Afinal, por cá pode ser quase tudo uma grande rasquice mas, parafraseando um dito célebre, sempre é a nossa rasquice e não atinge um nível tão baixo.
Vazio
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.
Augusto Frederico Schmidt*
*poeta carioca
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo -
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.
Augusto Frederico Schmidt*
*poeta carioca
domingo, fevereiro 07, 2010
Meu País Desgraçado
Meu país desgraçado!...
e no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
Meu país desgraçado!...
e no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
sábado, fevereiro 06, 2010
GUMES DE NÉVOA
Lágrimas?
Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?
Não, piloto israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
E nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
As belas palavras do Cântico dos Cânticos.
E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
Contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.
Foi para este holocausto que sobreviveste
Ao teu genocídio nos tempos da Nazilândia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?
José Craveirinha
Lágrimas?
Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?
*****
TERRA DE CANAÃNão, piloto israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
E nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
As belas palavras do Cântico dos Cânticos.
E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
Contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.
Foi para este holocausto que sobreviveste
Ao teu genocídio nos tempos da Nazilândia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?
José Craveirinha
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
A Irresponsabilidade da Multidão
A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar «Abaixo!» sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espectáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espectáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue - pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini, in Relatório Sobre os Homens
A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar «Abaixo!» sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.
No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espectáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espectáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue - pelo menos, vê-lo.
Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini, in Relatório Sobre os Homens
Ao Bater da Chuva
A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.
Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.
A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obcecada de protecção!
A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...
E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...
*escritor angolano, falecido a 5 de Fevereiro de 2006
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
A cassandra
Como se não fossem suficientes as parvoíces das agências de notação a que os mercados internacionais dão muita credibilidade, teve de vir o agoirento Joaquin Almunia dizer que a situação de Portugal era igual à da Grécia - prejudicando gravemente o nosso país, já que é o Comissário Europeu para os Assuntos Económicos e Monetários - dando-se, no entanto, ao trabalho de esclarecer que a situação do seu próprio país devia ser analisada separadamente, já que era de menos risco.
Sucede que o insuspeito Paul Krugman escreveu, no dia 2 de Fevereiro, que a verdadeira ameaça para a zona euro não é a Grécia mas a Espanha, coincidindo, assim, com afirmações anteriores de Nouriel Roubini (o economista que previu a crise com a antecedência de 2 anos), segundo o qual é a Espanha que constitui o verdadeiro risco para a euro zona, acrescentando que “se a Grécia se afunda é um problema” mas “se a Espanha se afunda é um desastre”.
É por isso que uns são professores de prestígio, reputados escritores de livros sobre economia e prémios Nobel e outros não passam de burocratas pagos a peso de ouro.
Como se não fossem suficientes as parvoíces das agências de notação a que os mercados internacionais dão muita credibilidade, teve de vir o agoirento Joaquin Almunia dizer que a situação de Portugal era igual à da Grécia - prejudicando gravemente o nosso país, já que é o Comissário Europeu para os Assuntos Económicos e Monetários - dando-se, no entanto, ao trabalho de esclarecer que a situação do seu próprio país devia ser analisada separadamente, já que era de menos risco.
Sucede que o insuspeito Paul Krugman escreveu, no dia 2 de Fevereiro, que a verdadeira ameaça para a zona euro não é a Grécia mas a Espanha, coincidindo, assim, com afirmações anteriores de Nouriel Roubini (o economista que previu a crise com a antecedência de 2 anos), segundo o qual é a Espanha que constitui o verdadeiro risco para a euro zona, acrescentando que “se a Grécia se afunda é um problema” mas “se a Espanha se afunda é um desastre”.
É por isso que uns são professores de prestígio, reputados escritores de livros sobre economia e prémios Nobel e outros não passam de burocratas pagos a peso de ouro.
Passeio
Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.
E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.
Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.
Hilda Hilst*
*poetisa paulista
Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.
E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.
Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.
Hilda Hilst*
*poetisa paulista
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
In memoriam
E de novo a armadilha dos abraços
E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.
Rosa Lobato de Faria
E de novo a armadilha dos abraços
E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.
Rosa Lobato de Faria
terça-feira, fevereiro 02, 2010
O monstro de duas cabeças
O NEGÓCIO está registado em nome de Binyamin Netanyahu. Mas a realidade é diferente.
Netanyahu nunca foi mais do que um vendedor de medicamentos manhoso. Uma daquelas figuras que aparece frequentemente nos filmes do Oeste americanos a vender um elixir que é bom para tudo: para a gripe e para a tuberculose, para os ataques cardíacos e para a loucura intermitente. A principal arma do vendedor é a língua: a sua torrente de palavras constrói castelos no ar, rebenta bolhas cintilantes e silencia todas as dúvidas.
Desde a eleição, há quase um ano, a sua maior (literalmente) proeza foi constituir um gabinete: 30 ministros e uma mão cheia de adjuntos, a maioria dos quais sem quaisquer funções perceptíveis, alguns deles encarregues de ministérios para os quais são os mais incapazes de todos os candidatos possíveis. A partir daí, a sua principal tarefa tem sido aquela em que é perito: a sobrevivência política.
Neste jardim zoológico governamental, a única criatura realmente Importante é o Liebarak – um monstro de duas cabeças que aterroriza todos os outros animais. Esse animal é 50% Lieberman, 50% Barak e 0% humano.
Uri Avnery
Um olhar implacável sobre a política de “Ocupação Eterna” nazi-sionista, racista e anti-semita* do estado de Israel, pela pena de alguém que a conhece muito bem por dentro.
*(Quem apelida de anti-semita todo aquele que ousa criticar as políticas de Israel é bom que saiba que os palestinos são tão semitas como os judeus; assim, a actuação de Israel é duplamente anti-semita, não só porque quer erradicar outro povo semita, mas também porque é a principal causa de ressentimentos contra os seus próprios cidadãos.)
O NEGÓCIO está registado em nome de Binyamin Netanyahu. Mas a realidade é diferente.
Netanyahu nunca foi mais do que um vendedor de medicamentos manhoso. Uma daquelas figuras que aparece frequentemente nos filmes do Oeste americanos a vender um elixir que é bom para tudo: para a gripe e para a tuberculose, para os ataques cardíacos e para a loucura intermitente. A principal arma do vendedor é a língua: a sua torrente de palavras constrói castelos no ar, rebenta bolhas cintilantes e silencia todas as dúvidas.
Desde a eleição, há quase um ano, a sua maior (literalmente) proeza foi constituir um gabinete: 30 ministros e uma mão cheia de adjuntos, a maioria dos quais sem quaisquer funções perceptíveis, alguns deles encarregues de ministérios para os quais são os mais incapazes de todos os candidatos possíveis. A partir daí, a sua principal tarefa tem sido aquela em que é perito: a sobrevivência política.
Neste jardim zoológico governamental, a única criatura realmente Importante é o Liebarak – um monstro de duas cabeças que aterroriza todos os outros animais. Esse animal é 50% Lieberman, 50% Barak e 0% humano.
Uri Avnery
Um olhar implacável sobre a política de “Ocupação Eterna” nazi-sionista, racista e anti-semita* do estado de Israel, pela pena de alguém que a conhece muito bem por dentro.
*(Quem apelida de anti-semita todo aquele que ousa criticar as políticas de Israel é bom que saiba que os palestinos são tão semitas como os judeus; assim, a actuação de Israel é duplamente anti-semita, não só porque quer erradicar outro povo semita, mas também porque é a principal causa de ressentimentos contra os seus próprios cidadãos.)
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
As putas da Avenida
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena
Fernando Assis Pacheco
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena
Fernando Assis Pacheco
Subscrever:
Mensagens (Atom)



