segunda-feira, janeiro 10, 2011

A chuva lenta

Esta água medrosa e triste,
como criança que padece,
antes de tocar a terra,
         desfalece.

Quietos a árvore e o vento,
e no silêncio estupendo,
este fino pranto amargo,
         vertendo!

Todo o céu é um coração
aberto em agro tormento.
Não chove: é um sangrar longo
         e lento.

Dentro das casas, os homens
não sentem esta amargura,
este envio de água triste
         da altura;

este longo e fatigante
descer de água vencida,
por sobre a terra que jaz
         transida.

Em baixando a água inerte,
calada como eu suponho
que sejam os vultos leves
         de um sonho.

Chove... e como chacal lento
a noite espreita na serra.
Que irá surgir na sombra
         da Terra?

Dormireis, quando lá fora
sofrendo, esta água inerte
e letal, irmã da Morte
         se verte?


(poetisa chilena e primeira mulher a ser galardoada com o Nobel da literatura, faleceu em Nova Iorque a 10 de Janeiro de 1957)

2 comentários:

jrd disse...

Um grande poema,dramatico.
A agua tem de ser vida.
Abraço

Sensualidades disse...

lindissimo

Beijos
PAula