sexta-feira, dezembro 03, 2010

Espaços

no espaço o silêncio
de marceau

à luz, escuro
e grávido de som
um gesto

ofício mudo

lúdico
anti-músico
guardando
um pássaro
em cada pulso


(poeta paulista nascido a 3 de Dezembro de 1976)

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Tudo ao léu

Teoria e prática

Há quem diga que teoria é quando se sabe tudo e nada funciona e prática é quando tudo funciona e ninguém sabe o porquê. Nesta acepção, teoria e prática conjugam-se de maneira quase perfeita na actual crise da dívida na União Europeia: nada funciona e ninguém sabe porquê.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

HERZOG
        Sofrer é outro mau hábito.
       (palavras de Ramona em Herzog, de Saul Bellow)

A minha desforra são palavras.
Levanto-me de manhã amarrotado
pelo peso inclemente das mentiras
e vazo no real outro real
das letras que ninguém vislumbrará.
O pássaro que canta é uma palavra,
é uma carta escrita a este, àquele,
que me saiu do lápis da amargura;
tudo se refaria se jamais feita fosse
alguma coisa que a minha mão não desse.
Desforro-me sem gosto. Desforro-me sem gasto,
acorrentado ao que me vem de trás
e ao que virá e que não sei se quero.


(Pedro Mário Alles Tamen nasceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1934)

terça-feira, novembro 30, 2010

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião, 
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


(Fernando Pessoa faleceu há 75 anos)

segunda-feira, novembro 29, 2010

Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.


(Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte a 29 de Novembro de 1946)

domingo, novembro 28, 2010

Marcha acelerada

Fingimento

Iludo o sentido
Da vida em que vivo.
O mundo que sinto
É mundo que minto.

É mundo pensado
Aquém, do outro lado
Da margem do rio
Com águas em fio.

A imagem dos astros,
Das velas, dos mastros,
Das nuvens, das margens
É sombra de imagens.

Perdidas no fundo
Do engano do mundo.
Não quero a certeza
Da minha tristeza.

Deixai-me à vontade
Naquela verdade
Pensada e fingida
Que é logro de vida.

Se minto o que sinto,
De tudo o que minto
Iludo o sentido
Da vida que vivo.


(José Campos de Figueiredo morreu em Coimbra em 28 de Novembro de 1965)

sábado, novembro 27, 2010

Violência de punho de lua

Na noite escura
Rachei uma pedra
Onde encontrei escondida
- vede - esta lua.

Tomem-na, poetas,
Uivem!

José Gomes Ferreira
Cretinos no poder

Este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a.C., verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crónicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo.


(Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Apporelly e pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé, foi um jornalista, escritor e pioneiro no humorismo político brasileiro que faleceu a 27 de Novembro de 1971)

sexta-feira, novembro 26, 2010

Donos…

Eu não sou dono de nada.
Meus filhos
não serão donos de nada.

Eu não sou dono de nada
porque hoje
alguns são donos de tudo.
Meus filhos
não serão donos de nada
porque amanhã
ninguém será dono de nada.
Todos serão donos de tudo.


(Mário Lago nasceu a 26 de Novembro de 1911)
A Fonte

não mudes do pinhal
a fonte
sempre tem
um murmúrio casual
de vigiar quem passa
que vem
de ver o mar, tão servo
do sol, ave de fogo no horizonte


(Mário Cesariny faleceu em 26 de Novembro de 2006)

quinta-feira, novembro 25, 2010

Política de Interesse

Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.

A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.

À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.

Eça de Queiroz, in Distrito de Évora (1867)

Quase 150 anos depois tudo continua na mesma. Apenas os inteligentes deixaram de subir à arena.

(Eça de Queiroz nasceu a 25 de Novembro de 1845)

quarta-feira, novembro 24, 2010

Poema da Terra Adubada

Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.

As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.

António Gedeão, in Linhas de Força

(Rómulo de Carvalho nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906)

terça-feira, novembro 23, 2010

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


(o poeta madeirense completa hoje 80 anos)

segunda-feira, novembro 22, 2010

Despojamento 
 
Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos
e a música  

Bani a inutilidade do discurso  

Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos
brancos
sem talheres 

O banquete será tua presença

Ivo Barroso

(poeta brasileiro)

domingo, novembro 21, 2010

Fim de festa

Pastoreio

Fui pastor de destinos
soltos nas ventanias.

Fui pastor de sonhos,
de abismos e insônias.

Hoje pastoreio as horas,
colho o mel das palavras.

Pastoreio metáforas
na inocência do branco.

Pastoreio murmúrios
diluídos nos ermos

Pastoreio estribilhos
na memória e nas veias

Ovelhas não navegam
as águas de meus olhos.

Ovelhas não ruminam
o itinerário de meu verbo.

Ovelhas não buliram
a sofreguidão de meu rosto.

Hoje sem dardos e cajado
pastoreio a mim mesmo...

Joanyr de Oliveira

(poeta mineiro)

sábado, novembro 20, 2010

Às novas guerras



























Consta que foi vinho com este rótulo que foi servido aos convivas da cimeira. Está tudo a condizer.
Saudade  

Alguma vez soubeste o que é saudade,
que faz da nossa vida uma agonia?
Alguma vez no espaço dum só dia,
sonhaste percorrer a eternidade?  

Perdeste alguma vez a Liberdade?
Sentiste emurchecer tua alegria,
como ao cair da noite murcha o dia,
no derradeiro tom da claridade?...

Se nunca presumiste o que era amor,
despindo as galas e vestindo a dor,
se uma saudade, enfim, não conheceste,

não saias do limite da razão
para atender a voz do coração,
que o maior mal ainda o não sofreste!...


(Marta Mesquita da Câmara faleceu no Porto a 20 de Novembro de 1980)