How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quinta-feira, agosto 07, 2014
A Máquina
Prisioneira
A máquina
acabava o dia a mastigar
e aos poucos
os dentes lhe caíam
perdendo-se
na espuma do ar negro,
ondulante,
da fábrica.
Um desejo
insubmisso
de cercar os
átomos gigantes
vinha encher
um braço
donde surgia
um corpo
lacerado
sangrento!
e donde
surgia um braço
cheio de
sangue novo
que
libertava a máquina!
A sorrir
desdentada
a máquina
adormecia...
(escritor
madeirense nascido faz hoje 115 anos)
quarta-feira, agosto 06, 2014
terça-feira, agosto 05, 2014
Para Pedro
Almodóvar
Que seja com
um machado.
Prefiro uma
lâmina aguda
um simples
martelo
num golpe de
misericórdia.
Com
palavras, não.
Elas ferem
muito mais
penetram
mais ainda
mais fundo.
Nada de
desculpas
de
explicações.
De um só
golpe
certeiro
definitivo.
Se não,
saia em
silêncio.
Apague a
luz.
(escritor
maranhense que hoje faz 74 anos)
segunda-feira, agosto 04, 2014
Canto do
Verbo em busca da forma
Eu presido a
todos os enganos
os do céu os
da terra há tantos anos
que nem o
tempo os lembro
Antes do mar
fui voo
Antes do sal
fui mar e sede antes da água fresca
Antes do
verso eu fui a poesia
Eu sou antes
de Deus e do universo
Estando
antes eu nunca fui ontem
e sendo a
tudo preso nunca fui refém
nem de mim
mesmo porque a minha fome
não tem
distância horizonte não tem nome
Sempre que
me contam sou inumerável
sempre que
me caçam sou invulnerável
Eu nunca
estou no pé e nunca estou no passo
a minha
dimensão é outra sou o compasso cósmico
a que
palpitam todas as galáxias
e a que se
geram flores nos ramos das acácias
Não fui
planeado nem projecto
Não sou
vontade
Nas letras
de prisão lêem-me liberdade
não a minha
a tua a deles ou a de todos
Eu sou a
liberdade do desejo
Do desejo
dos lodos e das aves dos rios
dos homens e
mulheres
de todo o
espaço de todas as coisas
de todos os
seres
Por isso eu
presido a todos os enganos
os do céu os
da terra há tantos anos
que nem o
tempo os lembra
Sou a razão
de todas as derrotas
o coração da
mágoa as mãos do desespero
Eu sempre
estou e permaneço e espero
desde o caos
e canto o refazer do desejo
na sua
liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo
recomeça grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão
sol a sol segundo a segundo
porque
comigo recomeça o mundo
até que tudo
seja o que não vejo
até que o
mundo seja o do desejo
(poeta
moçambicano que hoje faria 70 anos)
domingo, agosto 03, 2014
Testamento
Aberto
Só para ver
curar minhas pernas partidas
Nas dores
eternas
Dos saltos
gorados,
Eu amo a
aparente inconsciência dos loucos,
Embora fique
aos poucos nos meus saltos
Desabridos e
falhados.
Apraz-me, no
espelho, esta face esmagada,
À força de
querer transpor o além
Da minha
porta fechada...
Porém,
Seja o que
for, que seja,
Se uma
CERTEZA alcanço
E uma mulher
me beija.
Que importa
Que eu fique
molemente olhando a minha porta
Aberta,
Ou que eu
parta e a morte me espreite
Num
desfiladeiro?...
E quem virá
chorar e quem virá,
Se a morte
que vier for a de lá
Certeira e
minha...
E merecida
como um sono que se dorme
Após a noite
perdida?...
E que
piedade anda a escrever um frágil,
Na embalagem
dos ossos
Que trago
emprestados...
Que deixarei
ficar ao sol e à chuva
E que serão
limados
No entulho
dos calhaus que também foram rocha?...
Para quê, se
mil vezes provoco
Os tombos do
chegar e do partir?!
- A minha
fragilidade
Foi-me dada
Para me
servir.
(poeta
ansianense falecido faz hoje 75 anos)
sábado, agosto 02, 2014
Fila indiana
Um atrás do
outro, atrás um do outro,
ano após
ano, ano após outros,
minuto após
minuto, século
após
séculos, continuam
(a conduzir
seus madeiros
na perícia
dos próprios dramas)
um atrás do
outro, atrás um do outro,
ano após
ano, ano após outros,
minuto após
minuto, século
após
séculos, e de novo
um atrás do
outro, atrás um do outro,
até a surdez
final do pó.
(poeta
maranhense que hoje faz 79anos)
sexta-feira, agosto 01, 2014
Peso do
Mundo
A poesia não
é, nunca foi
uma
enumeração ou composto
de
exuberância, bondade,
altitude,
nem arado
ou dádiva
sobre chão
prenhe de
mortos.
Nem o
arrependimento
de Deus por
ter criado o homem
com o rosto
da sua memória,
ao lado dos
seus vermes.
Tão-pouco
fôlego dos que amam
abrindo a
porta límpida
do corpo e
chovendo sobre a terra,
ou carregam
como tartarugas
o peso do
mundo.
Nem
reverência por um tigre,
pela leveza
maligna de todas as patas,
pela
sonolência junto à estirpe
aprisionada
também
na dureza de
ser tigre.
É o milagre
de uma arma
total, de
uma só palavra
reduzindo o
átomo à completa inocência.
(poeta
setubalense que hoje faz 81anos)
quinta-feira, julho 31, 2014
Engodo
A poesia não
pode tratar de mim,
nem eu da
poesia.
Estou só, o
poema está só,
o resto é
dos vermes.
Estava à
beira das ruas onde moram as palavras,
livros,
cartas, notícias,
e esperava.
Sempre
esperei.
As palavras,
em formas claras ou escuras,
transformaram-se
em alguém escuro ou mais claro.
Poemas
passam por mim
e
reconheciam-se como coisa.
Via-o e
via-me.
Esta
escravidão não tem fim.
Esquadrões
de poemas procuram os seus poetas.
Vão errando
sem comando pelo grande distrito das palavras
e esperam o
engodo da sua forma
feita,
perfeita, fechada,
concentrada
e
intangível.
(poeta holandês
que hoje faz 81 anos)
Tradução de
Fernando Venâncio
quarta-feira, julho 30, 2014
Os poemas
Os poemas
são pássaros que chegam
não se sabe
de onde e pousam
no livro que
lês.
Quando
fechas o livro, eles alçam vôo
como de um
alçapão.
Eles não têm
pouso
nem porto
alimentam-se
um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas,
então, essas tuas mãos vazias,
no
maravilhado espanto de saberes
que o
alimento deles já estava em ti...
(poeta
gaúcho nascido faz hoje 108 anos)
terça-feira, julho 29, 2014
Tu és
inteiro
Tu és
inteiro
e eu a
fracção de ti
que não é
perfeita.
Desembrulho-me,
rompendo pele
e faixas que
me ocultam,
ofereço-me
num búzio de mar
para que
oiças o leve sopro do meu coração.
Sim, encosta
a concha aos teus sentidos
e sente como
sou quebradiça,
tão
temporariamente menina
que te
espera até o tiquetaque
anunciar a
hora da descoberta.
És completo
e eu…
….pedaços
fragmentados
de um tempo
tão longínquo,
onde mares
não existiam,
apenas a
aridez da mutismo.
E escutas o
som desse búzio
de uma
qualquer praia
perdida no
finito do teu esquecimento.
Renasce a
pele,
reacende a
luz no brilho de papel de seda…
Novamente me
invólucro
à espera de
ser inventada…
sim, porque
tu és inteiro
e eu a
fracção de ti
que não é
perfeita.
(poetisa
portuense que hoje faz 56 anos)
segunda-feira, julho 28, 2014
PROFECIA
Cada gesto
de ódio
cada gesto
de prepotência
cada gesto
para amordaçar a verdade
cada gesto
para amparar a mentira
cada gesto
que suprime outro gesto
cada gesto -
indigesto
‑
voltará implacável como um «boomerang»
e ninguém
escapará a essa lei.
(poeta
lisboeta nascido faz hoje 94 anos)
Afixado em
28/07/2014
domingo, julho 27, 2014
CHUVA
CONGELADA
Reduzo a
cascata a um candelabro, fios
De luz,
ossos descarnados pelo gelo
Que se
refazem nas bandagens de vidro
E, onde o
lago age como nível de bolha,
Guardo
bolsas de ar para que a lontra viva.
Aumento uma
a uma as lâminas de grama
Com brotos,
chuva congelada e sincelos,
Polegar,
dedos que apontam o degelo
Derretem,
entre o lábio e a língua, até o âmago
Enquanto o
vento toca órgão nos ramos.
(poeta
norte-irlandês que hoje faz 75 anos)
Tradução:
Marcelo Tápia
PROMETEU
SUBURBANO
Tenho uma
vontade grande
de sair pelo
mundo sem destino
de ir-me
à-toa,
como uma
folha morta
ao capricho
de todos os tempos,
ao acaso de
todos os caminhos.
Tenho um
desejo imenso
de me largar
pelo mundo
-navio sem
leme nem bússola,
na delícia
de um de-déu-em-déu
ao
deus-dará.
Deus, porem,
me fez trapo
- trapo
humano, já se vê –
e me cingiu
a inércia do trabalho
preso a lama
da terra.
Mas Ele é
bom. E deixa
que minha
cabeça viva entre as estrelas…
(poeta
paulista falecido faz hoje 40 anos)
sábado, julho 26, 2014
Solidão
Vago aroma
de esteva, ao mesmo tempo ardente e virgem,
E este
murmúrio doce da folhagem,
São o falar
do mato, na estiagem,
Segredando
os mistérios da origem.
Calma
profunda, doce, resignada...
A vida não é
mais do que o viver
Da paisagem
nostálgica e pasmada.
A solidão
tem dedos de veludo,
De frementes
afagos delicados.
- Bendita
solidão, que beijas tudo,
Onde andarão
meus sonhos desvairados?!...
Nestes
montados, Que purificação me invade a alma!
Como entra,
em mim, toda a serenidade
Dos
ermitões, orando na paisagem!
Nesta
paisagem,
Calma,
calma, calma,
Como a
Eternidade.
(poeta
portuense nascido a 26 de Julho de 1905)
sexta-feira, julho 25, 2014
o meu riso vai alto
O meu riso
vai alto,
Mais alto
que os chapéus dos cardeais
Mais alto
que a esperança
Os meus
seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos
meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que
sou, sou feliz.
Deus e os
vampiros
Amam-me.
(poetisa
franco-egípcia nascida faz hoje 86 anos)
Tradução de
Mário Cesariny
quinta-feira, julho 24, 2014
quarta-feira, julho 23, 2014
terça-feira, julho 22, 2014
Lisboa:
aventuras
tomei um
expresso
cheguei de foguete
subi num
bonde
desci de um elétrico
pedi
cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar
meias
só vendiam peúgas
fui dar à
descarga
disparei um autoclismo
gritei
"ó cara!"
responderam-me "ó
pá!"
positivamente
as aves que
aqui gorjeiam não gorjeiam como lá
(poeta
paulista nascido faz hoje 88 anos)
segunda-feira, julho 21, 2014
domingo, julho 20, 2014
Árvores
São plátanos
palmeiras castanheiros
jacarandás
amendoeiras e até as
oliveiras
que
quando a
noite cai na infância formam uma
cortina
escura na estrada frente à casa
árvores
apagando os dias que a memória
avidamente
esconde
no corpo do
seu gémeo Penetra inutilmente
na terra
essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do
tempo onde as palmeiras eram
pilares do
corpo nu símbolo de
si mesmo, à
luz
do dia fixo,
já se estende
na húmida
manhã dos castanheiros
Esquecimento
que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante
luz igual à da
memória, do
tempo como ela
filho,
construtor da ausência,
em vão te
invoco Tu
que mudas a
roxa amendoeira
em brancas
flores do jacarandá
entrega a
minha vida às árvores
que foram na
manhã e no crepúsculo
no meio-dia
e na noite, palavra
clara que
traz o dia em si fechado
(poeta
farense que hoje faz 73 anos)
sábado, julho 19, 2014
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