sábado, março 10, 2012

A Jigsaw - The Strangest Friend
Integrantes: João Rui, Jorri, Susana Ribeiro e Marco Silva

Boris Vian faria hoje 92 anos
Alto como o silêncio

A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.


(poetisa são-tomense falecida há 5 anos)
Quem sou?

Queres saber quem eu sou?
Sou um andarilho
Que veste a indumentária do tempo,
Que busca albergue no cintilar das estrelas
E ouve o tilintar de corações apressados.
Sou uma criança
Que se deleita com o rumorejar da fonte,
Que se amamenta no seio da montanha,
Que faz carinho nas madeixas loiras da lua,
Que reclina a cabeça e adormece
No ventre cálido das areias movediças.
Queres mesmo saber quem eu sou?
Sou um pequenino poeta
Que rima, que ama...
Que tem um objetivo maior:
Chegar ao parnaso dos sonhos...


(poeta cearense que hoje faz 59 anos)

sexta-feira, março 09, 2012


Ornete Coleman faz hoje 82 aanos

Lisa Miskovsky faz hoje 37 anos
Surpresa

Vi
minha
casa

Olhei-a
olhando

Olhei
olhando
para mim


(poeta norte-riograndense nascido a 9 de Março de 1911)
Epigrama

Ezequiel, o bêbado, era dependente de álcool
Gabriel era dependente de ópio
Rafael dependente de cocaína
Daniel dependente de dinheiro
Salatiel era dependente de roletas e baralhos
Zorobabel dependente de política e poder
Emanuel era dependente de mulher:

Ezequiel Gabriel Rafael Daniel Salatiel e Zorobatel
morreram um depois do outro:
não deixaram memória nem história
talvez um prontuário olvidado e uma repugnância neutra
na lembrança dos justos.

Emanuel também morreu:
deixou cinco engenhos de cana hipotecados
seis fazendas empenhadas
a fortuna paterna em ruínas
quinze viúvas trinta e oito filhos
uns cadernos de elegias e sonetos
e em sua caligrafia voluptuosa
umas estrofes da memória
uns decassílabos de sua memória:

era belo e macho e forte e bravo e bom e dependente
do heroísmo do amor.

E esse é seu testamento:
um coro de fêmeas na noite do velório
quarenta mulheres de coração partido
uma saudade em todas as alcovas
pungência lágrimas ternura
mais valiosas que os engenhos de cana e as fazendas de gado
- a história
da dependência de Emanuel
cobiçada herança dos rapazes do bairro.


(poeta cearense falecido faz hoje 5 anos)

quinta-feira, março 08, 2012


George Coleman faz hoje 77 anos
Meu o testamento

Meu o testamento
o que possuo na memória de outros
que me transcenderam
e o que me custou a declarar
a quem – cerrados dentes –
tinha horizontes,
ilhas por cartografar
e sendo um dos poucos neste mundo
digno do seu nome,
não lamentarei,
antes lhe calçarei sandálias de ouro,
minhas calças por provar ainda.
Um destino de nunca acabar
dou-lhe por aumento
de uma força que nos una a todos.

Sim – não desistamos!
Sim – não nos magoemos!
Antes lembremos o pronunciamento
com Che Guevara e com mestre Heráclito!
Tudo flui
como num rio outro
e todos os rios cessam no mar.
Os inimigos poderão ser muitos.
Com todos eles estaremos a par.
É no mar de móveis horizontes
que nos juntaremos
a sós com os elementos
água, céu e fogo.

Meu o testamento
a quem o dito, a quem o testemunho,
a quem o transmito,
antes mesmo de iludir a forma
de que me revisto.
O estilo será outro, mas a forma
é imortal
e chama-se alma.
Que ma tomem os que ainda pressinto
terem o íntegro
poder de audácia
revolucionária
por nunca se satisfazerem com o mínimo
neles apenas surto
de começos sempre no plural.

A quem transmito o meu testamento,
cabe, piedoso,
distribuí-lo entre os mais escolhidos,
os que sonharam não serem vencidos,
os que sonharam
voltar um dia ao país natal,
bem-aventurados
de nobre escolha e firme propósito:
Um dia livre
de miseráveis concessões políticas;
um dia ímpar
que nos redima para toda a vida;
um dia igual
ao das minhas-nossas gerações futuras.

O meu desejo:
Que o meu país se encontre de novo.
Que se anuncie Portugal!


(Ruy Cinatti nasceu a 8 de Março de 1915)
A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

António Ramos Rosa, in Volante Verde
As minhas rosas

Uma JUST FOR YOU para a minha mulher

Uma ARISTOCRAT para a minha filhota

Uma GALAXY para as amigas que me visitam

quarta-feira, março 07, 2012


Danilo Caymmi faz hoje 66 anos

Matthew Fisher faz hoje 66 anos

Turíbio Santos faz hoje 69 anos
AS MÃOS

Escrevem, falam
e, às vezes, riem...
Sensíveis, sensuais,
quase poemas.
Só dez dedos de ternura
- duas mãos apenas -
são dez dedos à procura
das tuas mãos pequenas.

Fernando Tavares Rodrigues

(poeta lisboeta nascido a 7 de Março de 1954 e falecido aos 52 anos)

terça-feira, março 06, 2012


Furry Lewis nasceu a 6 de Março de 1893


David Gilmour faz hoje 66 anos
Banana Split

Aos que devoram o mundo
tranquilos, como se comessem
uma banana split;
aos que usam as assembléias
como balcão de negócios,
na esperança de vender
seu estoque de bombas;
aos banqueiros internacionais,
pressurosos em atender
os mendigos de Estado,
em troca de pequenas concessões;
aos que plantam suas máquinas
em terras estrangeiras,
para espremer os frutos,
o solo e as gentes;
àqueles que falam doce
e mandam seus missionários
catequizar os gentios
com hinos de dúbia letra;
aos amantes da ciência,
magos e feiticeiros,
hábeis em curar moléstias
geradas por eles mesmos;
aos que levam nosso ferro
e areias monazíticas
e nos devolvem em troca
o saldo de suas festas;
aos que matam nossa fome
com sacas de feijão podre
e nos afogam a sede
num mar de refrigerantes;
aos que abrem suas asas
sobre nossas cabeças ocas
e nos fazem aliados
contra o inimigo deles;
enfim, a todos aqueles
que usando de artimanhas
suas artes nos ensinam,
nossa gratidão eterna.
E a promessa de que um dia,
tão logo estejamos prontos,
restituiremos em dobro.


(poeta carioca nascido a 6 de Março de 1936)