terça-feira, outubro 30, 2012

ELEGÍA


(En Orihuela, su pueblo y el mío, se
me ha muerto como del rayo Ramón Sijé,
a quien tanto quería.)

Yo quiero ser llorando el hortelano
de la tierra que ocupas y estercolas,
compañero del alma, tan temprano.

Alimentando lluvias, caracolas
y órganos mi dolor sin instrumento.
a las desalentadas amapolas

daré tu corazón por alimento.
Tanto dolor se agrupa en mi costado,
que por doler me duele hasta el aliento.

Un manotazo duro, un golpe helado,
un hachazo invisible y homicida,
un empujón brutal te ha derribado.

No hay extensión más grande que mi herida,
lloro mi desventura y sus conjuntos
y siento más tu muerte que mi vida.

Ando sobre rastrojos de difuntos,
y sin calor de nadie y sin consuelo
voy de mi corazón a mis asuntos.

Temprano levantó la muerte el vuelo,
temprano madrugó la madrugada,
temprano estás rodando por el suelo.

No perdono a la muerte enamorada,
no perdono a la vida desatenta,
no perdono a la tierra ni a la nada.

En mis manos levanto una tormenta
de piedras, rayos y hachas estridentes
sedienta de catástrofes y hambrienta.

Quiero escarbar la tierra con los dientes,
quiero apartar la tierra parte a parte
a dentelladas secas y calientes.

Quiero minar la tierra hasta encontrarte
y besarte la noble calavera
y desamordazarte y regresarte.

Volverás a mi huerto y a mi higuera:
por los altos andamios de las flores
pajareará tu alma colmenera

de angelicales ceras y labores.
Volverás al arrullo de las rejas
de los enamorados labradores.

Alegrarás la sombra de mis cejas,
y tu sangre se irán a cada lado
disputando tu novia y las abejas.

Tu corazón, ya terciopelo ajado,
llama a un campo de almendras espumosas
mi avariciosa voz de enamorado.

A las aladas almas de las rosas
del almendro de nata te requiero,
que tenemos que hablar de muchas cosas,
compañero del alma, compañero.

Miguel Hernandez nasceu a 30 de Outubro de 1910

Outrora

Outrora alguém olhou com os meus olhos
e alguém sentiu também com meus sentidos.
Alguém foi Eu, em sonhos derruídos,
alguém viveu de mim ante os teus olhos.

Por isso se me vejo, me conheço
de me ter visto outrora no meu Eu.
O meu passado é tudo que adormeço,
tudo o que envolvo em mim e me esqueceu.

E as minhas mãos que no teu sonho exaltas,
outrora para Deus as elevei...
Não tocavam em Deus, eram mais altas.

Minha presença é alma que se ausenta
e o meu passado que ante mim deixei,
uma cadeira onde ninguém se senta.


(poeta português nascido faz hoje 121 anos)

domingo, outubro 28, 2012

Zélia Duncan faz hoje 48 anos
Poema: Rafael Alberti
Música e Voz: Juan Manuel Serrat

Rafel Alberti faleceu faz hoje 13 anos
Esse nome

Esse nome, Poesia! Esse nome, esse nome...
Esse rito, esse mito, o chacal das angústias

Essa arma de fogo que repele e que explode,
Que o peito te alimenta e te come e te come!

O deserto a florir. O oceano a sangrar.
Tanta ave a subir das ruínas ardentes.
As pedras removidas. Os Templos abalados.
Os segredos dos deuses no fumo desvelados.

As promessas abertas. Os sacrários abertos.
Decifrados nos mortos insolúveis sinais.

Os retratos da água, quebrados. Mais os selos,
De todos os mistérios. Nos ventos abissais
A puríssima voz dos homens imortais.
E esse nome, Poesia? . .. Esse amante, onde o escondes?

Esse mágico arauto. O sangue do teu corpo.
O labirinto. O guia, da cega caminhada,
O terror, o terror, dos homossexuais,
Que gera e lhes destrói os dias geniais.

E esse nome, Poesia?!... Nas montanhas, nos cais,

As multidões de artistas, velhos adolescentes,
Fitam o arco de oiro. As fluidas espirais,
Do chicote que rasga coerências incoerentes.

Doidas andam nos céus as máquinas e os olhos
Pensamentos sem crânios.
Azuis fosforescências de azuis mediterrâneos.
Um atroz sofrimento aos homens prometido.

Diz seu nome, Poesia! Outeiros e balidos
De cordeiros dormidos lhe auguram a chegada.

Diz-lhe que venha, sem o fel do fim:
- Vem, Irmão, como a água.
Não provoques a chaga,
Nem estrela, nem cometa.

Vem consumado, enfim,
Como um dia virás
Para o último Poeta.

Natércia Freire

(poetisa benaventense nascida a 28 de Outubro de 1920)

sábado, outubro 27, 2012

Vanessa-Mae faz hoje 34 anos
Scott Weiland faz hoje 45 anos
Pastoral

Por ser tão leve o teu passar
Na estrada, à tarde, quando vens
De pôr o gado que não tens,
A pastar…

Por ser tão brando o teu sorrir,
Tão cheio de feliz regresso
Do longo prado, onde apeteço
Contigo ir…

Por ser tão breve o teu querer
Alguém que perto de ti passe
E, porque a tarde cai, te abrace.
Sem nada te dizer…

Por ser tão calmo o teu sonhar
Que já é tempo de não ter
Esse rebanho de pascer,
Mas outro de amamentar…

É que eu me perco no caminho
Do grande sonho sem janelas,
De estar contigo no moinho,
Sem o moleiro nem as velas.


(poeta português falecido faz hoje 63 anos)

sexta-feira, outubro 26, 2012

Milton Nascimento faz hoje 70 anos
poeta namora a morte

Vi a Morte. É simpática.
A fisionomia até não dá desgosto.
Como não envelhece, é uma arisca menina,
bela, mesmo com o véu que ainda usa no rosto.

Mal me viu, apontou para a estepe gelada
em que me apareceu:
- Deita aqui ao meu lado...
Faz frio. Porém deita e eu te aquecerei breve;
Eu te farei ser luz
luz perpétua entre a neve! -

(Mas gelava demais e meu corpo tremeu).

Ela levou-me então para o píncaro esguio
no mais alto rochedo:
- Salta! Salta sem medo em pleno azul, amigo!
Eu te farei brotar duas assas diáfanas;
serás límpido e leve
como as estrelas. -

(Mas era tão noturno o silêncio vazio
que minha ânsia hesitou e enfim retrocedeu).

Mostrou-me finalmente a lagoa do sono.
(É a lagoa remota
e onde a luz se escondeu...)
- Mergulha nesta sombra;
e encontrarás o cofre
e eu te darei a chave
do cofre de ouro das grotas,
que dorme ao fundo das ondas. -

(Mas a água sem tremor,
brônzea,
me estarreceu.)

E respondi-lhe doce e tranqüilo:
- Não, Morte.
Não.
A Vida afinal é tão jovem e tão forte
que, por sadismo até, me atraiu, me prendeu...-

Disse então, já sem véu: - Mas sou eu mesma a Vida! -
e encarei-a sorrindo... e ela correspondeu.


(poeta brasileiro nascido a 26 de Outubro de 1894)

quinta-feira, outubro 25, 2012

Kate Perry faz hoje 28 anos
Jon Anderson faz hoje 68 anos
Sentei-me e escrevi

Estávamos cheios de força a noite passada por esta hora,
as borboletas voavam e os daiquiris gelados descaíam,
Lise estava deitada de costas no chão,
séria e sublime, ouvindo Schubert,
a minha cabeça explodia com uma rima:
foi uma bela noite, uma noite para agradar,
beijei-a na cozinha – êxtases –
e ocultámos o crime sob um manto de ternura.

O tempo está a mudar. Estava frio esta manhã
enquanto me dirigia para o parque, sem expectativas,
centenas de velhos sonetos no meu bolso
para lhe ler caso ela viesse. Mas os pinheiros entretanto
encheram-se de sol e a minha senhora não veio
em jeans azuis e camisola. Sentei-me e escrevi.


(poeta estado-unidense nascido faz hoje 98 anos)

quarta-feira, outubro 24, 2012

Monica faz hoje 32 anos
Gilbert Bécaud nasceu faz hoje 85 anos
Elegia 

Quando a manhã rasgou o coração do poeta
voavam pássaros dos teus ombros
e o tempo era uma laranja azul
rolando nos teus dedos meninos

Quando a manhã rasgou o coração do poeta
colhias no jardim os versos puros
da primeira canção

Quando a tarde chegou ao coração do poeta
com flores breves e conchas
desenhavas
nas horas quase brancas
teu caminho de abelha

Ah mas o sol morreu no coração do poeta
e uma andorinha tristemente vem
com um ramo de vento
pairar a tua ausência


(poeta açoriano nascido faz hoje 76 anos)