domingo, julho 18, 2010

Fiat

Vestir a pele inconsútil da cariátide
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.

Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.

Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.

Gabriel Archanjo de Mendonça*

*poeta brasileiro

sábado, julho 17, 2010

Filhos em série

Desde o primeiro filho, seu Rozendo foi dando nomes a eles sempre começados pela letra N: Nílton, Neusa, Nivaldo, Nilse, Nélson, Nelma...

Um vizinho recém-chegado da zona rural soube dos nomes dos filhos dele e foi lá dizer que ambos tinham algo em comum:

- Meus fio tamém têm os nomes começados por uma letra só. Mas é pela letra A: Tonho, Cida, Belardo, Tamiro, Nésio.


Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sexta-feira, julho 16, 2010

CONSCIÊNCIA

Cada minuto uma questão
Mil fronteiras que venço ou que não venço
Mas nenhuma de mais dura e duradoura combustão:
ser o que penso

quinta-feira, julho 15, 2010

Rascunhos

Esta noite voltei a sonhar com meus lagartos
e as mesmas pedras onde costumam dormitar
em minha Catedral Submersa.

Aqueles mesmos sons de sino e carrilhões
desfilaram pela nave deserta
como procissões extintas
sopradas das cinzas da memória.

Acho que o sol era só deles,
lagartos quase jade,
figuras esculpidas no limo verde-escuro das rochas.

Seus olhos, no entanto, abriam-se para nosso espanto
e para o espanto deles próprios
(lagartos).

Fred Souza Castro*

*poeta brasileiro

quarta-feira, julho 14, 2010

Soneto ao Dicionário

Não faço versos com sentimentos :
São as palavras a matéria-prima.
Pouco importam métrica e rima,
Fundamental é suscitar fonopsia.

A fonética, arcano da fonologia,
Multifaceta as regras da prosódia.
Veja como é fácil fazer poesia
Quando se tem um bom dicionário :

Em lugar de perplexo, escrevo vário.
O leitor entenda como quiser.
Quiçá, fecundo, faça fé.

Pedante, paragógico, paramnésico,
O elóquio elíptico emascara o elo.
Eloqüente um barroco tenho ao pé.

Fred Matos*

*poeta brasileiro

terça-feira, julho 13, 2010

Tipo assim

Tipo assim, as pessoas fazem tipo, entendeu? Não é artificial não, vem de dentro, ou vem de fora, vem da sociedade, dos astros, mas também tem essa coisa inconsciente, entendeu? Ou vem da genética, sei lá.  

Há vários tipos, tipezas, tipões, tipinhos e tipaços.  

Deixa eu te falar - tem gente que faz tipo intelectual e lê o texto meio que com nojo, catando piolho, catando regência verbal incorreta, frase errada, vírgula indevida.  

Tem gente, ao contrário, que faz mais o meu tipo que eu estou fazendo agora, tipo oralidade sem muito compromisso, tipo deixa rolar, é claro que eu prefiro ser tipo assim.  

Agora, tem gente que faz mais tipo conservador atualizado, tipo gente séria que está sempre flagrando falta de ética dos outros, e está sempre denunciando as perversões alheias, e está todo dia de olho na TV e na internet para ver o que a TV e a internet estão mostrando de pervertido. Tipo assim.  

E tem o tipo vale-tudo, o cara ou a cara que não tem repressão, e come de tudo e de todos, ou pelo menos faz tipo assim um discurso do tipo "eu faço tudo e daí?", tipo "eu já vi de tudo" e não topa o tipo outro que fica no pé dele com o topete de quem tudo sabe, de tudo entende, entendeu?  

Tem também o tipo duplo, tipo faz e cala, pensa mas não diz nada, tipo assim, tipo sonso, tipo taca tudo debaixo do tapete, tipo tapa a boca mas depois é fake no orkut, tipo não tem porém tem, tudo bem.  

Por outra parte, o tipo abertura total, alma escancarada, diz o que pensa e o que não pensa, tipo franco, tipo dá a cara para bater, e grita no ponto, e parte para o tapa.  

Tem o tipo que quer chegar ao topo, custe o que custar, mate quem matar, se mata, se mete em tudo, pisa, posa, paga, vende, topa tudo por quase nada...  

Tem o tipo que apronta e pinta o sete.  

Tem o tipo que curte a sorte, aposta em todos os dados.

Tem o tipo que quer viver no mato, comendo tomate e abacate.  

Tem o tipo poeta, alheio ao burocrata, que é tipo assim poeta do carimbo.  

Cada tipo no seu trilho, entendeu?  

Tipos de todos os topes - tu e eu.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, julho 12, 2010

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

sábado, julho 10, 2010

Poeta

Deixa cair todo este orvalho puro
sobre os teus ombros doloridos.

Vê como é suave a terra:
mesmo nos galhos mais bruscos,
olha: há carícias amigas.

Tudo é mais coração, porque és mais coração.

Orvalho... Orvalho... Parece
que em tua vida alguma cousa amadurece.

Deixa cair, deixa rolar teu poema
como um fruto maduro, pelo chão.

Loucura

Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.

Marcel Proust

sexta-feira, julho 09, 2010

Epitáfio

Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

quinta-feira, julho 08, 2010

Capacidade de síntese

Num jornal abertamente anti-monarquia li esta saborosa anedota real: 


Disciplina: Língua e literatura espanhola

Exercício: Composição literária que contenha os seguintes temas:

-          Sexo
-          Monarquía
-          Religião
-          Mistério

Recomendação: Brevidade  concisão.

Resposta de um aluno:

Oh, meu Deus! Foderam a Rainha! Quem terá sido?

quarta-feira, julho 07, 2010

Elegia

A alegria da vida, essa alegria d'oiro
A pouco e pouco em mim vai-se extinguindo, vai...
Melros alegres de bico loiro,
Ó melros negros, cantai, cantai!

Ando lívido, arrasto o pobre corpo exangue,
Que era feito da luz das claras madrugadas...
Rosas vermelhas da cor do sangue,
Rosas abri-vos às gargalhadas!

Limpidez virginal, graça d'Anacreonte,
Mimo, frescura, força, onde é que estais?... não sei!...
Ó águas vivas, águas do monte,
Ó águas puras, correi, correi!

Eu sinto-me prostrado em lânguido desmaio,
E a minha fronte verga exausta para o chão...
Cedros altivos, sem medo ao raio,
Cedros erguei-vos pela amplidão!

Guerra Junqueiro, in Poesias Dispersas
Alma

Na alma da maioria dos homens grunhe ainda, baixo e voraz, o focinho do porco.



terça-feira, julho 06, 2010

Sina

A gente grita, corre, sufoca e morre.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.

Francisco Tribuzi*

*poeta brasileiro

segunda-feira, julho 05, 2010

A eira e a piscina


















No local onde se encontra esta piscina existiu uma eira onde eu brinquei, aos Domingos, até aos 10 anos, na quinta de que os meus pais foram rendeiros explorados durante quase três décadas, pagando anualmente dois carros de milho (cada carro correspondia a 40 rasas e cada rasa a 13 quilos), dois terços da azeitona e dois terços das uvas colhidas, tudo colocado na casa do dono, a mais de uma hora e meia de viagem com o carro de bois, sendo que todas as despesas do ciclo do milho, da apanha da azeitona e do tratamento da vinha, desde a poda até à vindima, eram da conta dos rendeiros.

Depois de sairmos de lá em 1960, o patrão, um “respeitável” chefe das finanças, violonista amador e chefe de quina da Legião Portuguesa, nunca mais encontrou ninguém disponível para uma semi-escravidão para poder alimentar oito filhos e a quinta esteve mais de 30 anos ao completo abandono, até que o seu filho mais novo – um ano mais velho do que eu – conseguiu subsídios da União Europeia para recuperar a casa e transformá-la numa unidade de Turismo de Habitação, que fica a menos de um quilómetro da casa da minha irmã onde estou a redigir esta posta à sombra da parreira.

Ficou um coisa simpática para recordar a infância, embora com o travo amargo da exploração a que a que toda a minha família foi submetida. Podem vir passar cá uns dias, que isto é um sossego.

domingo, julho 04, 2010

Autobiografia

Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de ... 1884 (na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez, aos 5 anos, um célebre ditado: "Cavalo pangaré/Mulher que ... em pé/Gente de Taubaté/ Dominus libera mé".

Concordou.

Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11. Primeiras espinhas aos 15.

Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne.

Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau - apagado. Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Insistiu. Formou-se em Direito, com um simplesmente no 4º ano - merecidíssimo. Foi promotor em Areias, mas não promoveu coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi (que nunca usou no dedo, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4,200 a arroba e feijão a 4.000 o alqueire.

Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários. Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros.

Escreveu umas tantas lorotas que se vendem - Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho. Pretente publicar ainda um romance sensacional que começa por um tiro:

- Pum! E o infame cai redondamente morto...

Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula.

Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenos Aires.

Físico: lindo!


A Novela Semanal, São Paulo, nº 1, 2 de maio 1921

Autobiografia do “pai” do Sítio do Picapau Amarelo retirada daqui

sábado, julho 03, 2010

Labirinto

Agora o corpo fala de pássaros
anunciando a erosão rente à língua
o presságio que rasga o linho
o derrame da semente ao morrer.

Assusta-me o vidro dos olhos
esmagando-se no vértice da linha
a dormência ávida das águas
na rotação da última palavra.

Esta é a nudez intacta da luz
o ar na vibração do corpo
o cheiro agreste e puro da cânfora
o peso dos dedos sob o espanto.

sexta-feira, julho 02, 2010

Um dia branco

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

quinta-feira, julho 01, 2010

Lágrima

A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.

Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.