quinta-feira, dezembro 31, 2009

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Grande nódoa

Embora demasiado conservador para o meu gosto, considerava o Times de Londres um jornal digno de crédito.

No passado dia 16 de Dezembro publicou uma notícia bombástica afirmando que tinha obtido um documento confidencial de uns serviços secretos (não identificados) que mostrava que o Irão estava a trabalhar no teste de uma componente chave final  de uma bomba nuclear, publicando, até, uma tradução para inglês da alegada prova.

De imediato se ouviram as vozes habituais de Israel e dos europeus e estado-unidenses a mando do lóbi nazi-sionista reclamarem o bombardeamento do Irão, inclusive com armas nucleares.

Mas, como se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo, bastaram escassos 11 dias para a CIA concluir que se tratava de uma falsificação. Mais disse a fonte da CIA que os Estados Unidos não têm nada a ver com a falsificação do documento e que Israel é o principal suspeito, embora não se possa pôr de parte o papel da Inglaterra. Gareth Porter, historiador, jornalista de investigação e analista de política externa e militar dos Estados Unidos, revela aqui toda a tramóia.

Afinal, a quem interessa que milhões de iranianos sejam as vítimas da terceira (e seguintes) bomba atómica?

terça-feira, dezembro 29, 2009

Vida

Vivo a minha vida em círculos cada vez maiores
que se estendem sobre as coisas.
Talvez não possa acabar o último,
mas quero tentar.

Rainer Maria Rilke
Exemplo de luta
































Chama-se Hedy Epstein, tem 85 anos, é judia estado-unidense sobrevivente do Holocausto, acha que houve crimes de guerra em Gaza e está em greve de fome no Cairo, juntamente com várias avós, para protestar contra o Egipto por não deixar entrar na Faixa de Gaza a Marcha pela Liberdade de Gaza, na qual participa. Anti-semita, está-se mesmo a ver!

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Acorde noturno

O acorde da noite
mais uma vez tombou
sobre meu corpo migrante,
e, sendo a música a vastidão no instante,
deixei-me sonhar em volta dela.

Ela que me tocou na noite,
na correnteza de músicas estranhas,
como mar revolto entre as sombras dos naufrágios.

E navegamos,
sacrificando o mar, multiplicando as margens,
a infinita música dos presságios,
exilados nessa travessia,
onde somente as estrelas morrem por nós.

Felipe Stefani*

*poeta brasileiro

domingo, dezembro 27, 2009

Holocausto de Gaza - Ano I













À esquerda, crianças judias mortas num campo de concentração. À direita, crianças palestinas assassinadas nos bombardeamentos nazi-sionistas de Gaza, há 1 ano.

sábado, dezembro 26, 2009

Quem pensa na casa

Morar numa casa. Numa casa com asas. Voar lá dentro, para fora. A casa em que você mora, em que você ri e chora, em que você ama e dorme, come e brinca, lê e escreve, pensa e morre. A casa para a qual você corre no fim do dia. Na casa, teto e paredes, escada e jardim, banheiro e cozinha, quintal e copa, sala e quartos, janelas e portas.  

Na casa, você conversa com aqueles que ama e admira. Você faz versos. Você se veste e se despe. Você recepciona e se despede. Na casa, você anda descalço, toma remédio, toma café, troca lâmpada, lava louça, tira soneca, vê TV, xinga político, beija filhos, faz de tudo um pouco.  

Não há casas perfeitas. Em toda casa falta um copo, falta uma linha, um motivo a mais de segurança. Em toda casa há um fantasma, pequeno que seja, num canto, gemendo, assombrando nossa imaginação.  

Quem pensa na casa já está morando ali. Quem pensa na casa leva o pensamento longe demais. A casa voadora atravessa o tempo, bebe do passado, afugenta o presente, pisca um olho para o futuro.  

Minha casa não é esta ou aquela. A casa definitiva não se deve construir no meio da ponte. A vida é ponte que nos leva para além do poente. Mas enquanto estamos a caminho, é bom ter uma casa onde possamos entrar para descansar as pernas.  

A casa possível jamais será a casa ideal. A ideal não tem nada de mau. A casa ideal já existe. Eu é que ainda não recebi as chaves. A casa ideal foi edificada com materiais eternos. A casa ideal flutua divinamente.  


Por enquanto, preciso da casa possível. A imperfeita casa, na qual baratas entrarão. Na qual encontrarei rachaduras. Na qual sentirei por vezes calor excessivo, frio, tédio, medo, solidão, angústia.  

Casa, casinha, casarão. Casa pedindo reforma. Casa vulnerável. Casa aconchegante. Casa que um dia cairá, casa à mercê da podridão, à mercê da maldade humana.  

Estou pensando na casa, cheia de luz, livros, crianças, quadros, cores, sabores, perfumes, palavras, silêncios, verdades.  

A casa também pensa em nós. Está aberta e trancada, vigiada e inocente, na rua movimentada, no beco, necessitada e indiferente, cercada de flores, no meio do deserto, habitada por segredos, cobiçada e desprezada, imagem perdida e reencontrada no horizonte.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sexta-feira, dezembro 25, 2009

NATAL CHIQUE


Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.



Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.



Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.



Vitorino Nemésio

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Poema de Natal






















Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes
A Virgem

A família comia tranquila quando, de repente, a filha de 10 anos comenta tristemente:

- Tenho uma má notícia... Já não sou virgem!

E começa a chorar visivelmente alterada, com as mãos no rosto e um ar de vergonha. Um silêncio sepulcral. E os pais começam a trocar acusações mútuas...

- Tu, sua grande ordinária! – diz o pai dirigindo-se à esposa - isto é por tu seres como és! Por te vestires como puta barata e te arreganhares para o primeiro imbecil que chega cá a casa. Claro, com este exemplo que a menina vê todos os dias... E tu - apontando para a filha de 25 anos - que ficas toda agarradinha no sofá a lamber aquele filho duma vaca do teu namorado que tem ar de maricas. Tudo na frente da menina!

A mãe não aguenta mais e responde, aos gritos:

- Aaaahhhhhhh, é isso? E quem é o imbecil que gasta metade do salário com prostitutas e se despede delas mesmo à porta da nossa casa? Pensas que eu e as meninas somos cegas? E, além disso, que exemplo podes dar se, desde que assinaste esta maldita TV Cabo, passas todos os fins de semana a ver filmes pornográficos de quinta categoria?

Desconsolada e à beira de um colapso, a mãe, com os olhos cheios de lágrimas e voz trémula, pega ternamente na mão da filhinha e pergunta baixinho:

- Como foi que isso aconteceu, filhinha? Fizeram-te mal? Forçaram-te? Bateram-te?

Entre soluços a menina respondeu:

- Não mãe! Aconteceu que a professora tirou-me do presépio! E a virgem, agora, vai ser a Andreia...

quarta-feira, dezembro 23, 2009

DESEJO

A TODOS OS AMIGOS DA BLOGOSFERA







UM FELIZ NATAL!!!



Ainda Copenhaga

















O autor, jornalista e activista ambiental inglês Mark Lynas estava presente, na qualidade de conselheiro do presidente das Maldivas, na restrita reunião à porta fechada que juntou, na última sexta feira à noite, altos representantes de duas dúzias de países, a maioria presidentes ou primeiros ministros, para tentarem salvar a COP15. O artigo por si assinado na versão digital do Guardian revela, em toda a sua crueza, o que motivou o fracasso da cimeira.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Cara de pau


























Que razão levará aquela idosa a vestir sempre a cara de quem odeia tudo e todos à excepção do eucalipto? Será a aridez contagiosa?
Tudo mudo

A vida muda, muda o ano,
o som, as cores... mudam
e eu aqui, inteiramente mudo,
a contemplar essa mudança,
e mudo eu, nessa mudança,
e muda o mundo, e muda a vida.
Tudo muda, tudo mudo.

Paulo Camelo*

*poeta brasileiro (que hoje completa 62 anos)

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Mau, Maria!


Depois de ser mostrar muito preocupado com aquilo a que chamou de inverno demográfico, o homem disse esperar que 2010 fique marcado por frutuosos entendimentos interpartidários na Assembleia da República. Estaria a insinuar que espera muitos jotinhas transpartidários?
Solidão

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem
mais voltar...
isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente
se impõe às vezes, para realinhar os pensamentos...
isto é equilíbrio.

Tampouco é a pausa involuntária que o destino
nos impõe compulsoriamente, para que revejamos a
nossa vida...
isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
isto é circunstância.

Solidão é muito mais que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão, pela nossa Alma!

Fátima Irene Pinto*

*poetisa brasileira

domingo, dezembro 20, 2009

Alta tensão


Parece que há alta tensão entre Belém e S. Bento. Tendo em conta os alegados malefícios para a saúde, esperam-se manifestações ruidosas dos que habitam entre o esfíngico eucalipto e o animal feroz.
Adega do sono

Dividias os gomos da fruta
em aposentos da casa.
A cortina do sumo
leveda o sol levantado.
O zodíaco do molde
supre o gérmen do quarto.
E o bafio estala
a lareira das esferas
na sala de estar
da semente.

Fabrício Carpinejar*

*poeta brasileiro

sábado, dezembro 19, 2009

Toca a zucratrucar

O eucalipto plantado há quase quatro anos em frente à Praça do Império está preocupado com o inverno demográfico. Com o frio que está, toca a zucratrucar à vontade, seja para fazer filhes ou para criar cadilhes. Os mais necessitados podem limar os assessores para entrega de viagra num café da Av. de Roma, com direito a reportagem em directo no pasquim do merceeiro mor.
Fraldiqueiros

(a propósito do manifesto fracasso da COP15 e do 85º aniversário do nascimento do Alexandre O'Neill)

Coitarados!
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento sentimental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.

Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos,
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas.
Têm sempre rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.

Fraldiqueiros. . .
Vai levar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»

O golpe do coitadinho (não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...

Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico! de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma de saxofone
e tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido

Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?

Alexandre O´Neill - Poesias Completas 1951/1981