How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
domingo, setembro 01, 2013
VALSA
Ficámos
finalmente, meu amor
Na praia dos
lençóis, amarrotada
O mal que
venha sempre, é um mar menor
... Sorriso
de vazante na almofada
Se chamo som
das ondas ao rumor
Dos passos
dos vizinhos, pela escada
É porque á
noite, acordo de terror
De me
encontrar sem ti de madrugada
Qual a côr
desta noite e de que medos
São feitas
essas mãos que não me dás
Ó meu
amor... a noite tem segredos
Que dizem
coisas que não sou capaz
(António
Lobo Antunes faz hoje 71 anos)
sábado, agosto 31, 2013
Sérgio Godinho
faz hoje 68 anos
Canção
dedicada à minha companheira que hoje inicia a etapa da reforma após 48 anos de
trabalho (e de descontos para a Segurança Social) na mesma empresa, sem um
único dia de baixa por doença.
O Homem e o
Mar
Homem livre,
o oceano é um espelho fulgente
Que tu
sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro
cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo
sentir, teu coração ardente.
Gostas de te
banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe
beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes,
ao escutar os gritos doloridos,
As queixas
que ele diz em mística linguagem.
Vós sois,
ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem,
ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar,
ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos
guardais, avaros, receosos!
E há séculos
mil, séculos inumeráveis,
Que os dois
vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo
gostais n'uma luta selvagem,
Eternos
lutadores ó irmãos implacáveis!
(Charles
Baudelaire faleceu a 31 de Agosto de
1867)
Tradução de
Delfim Guimarães
sexta-feira, agosto 30, 2013
Um Dos
Capítulos
Ainda te
falta
dizer isto:
que nem tudo
o que veio
chegou por
acaso. Que há
flores que
de ti
dependem,
que foste
tu que
deixaste
algumas
lâmpadas
acesas. Que
há
na brancura
do papel
alguns
sinais de
tinta
indecifráveis.
E
que esse
é apenas
um dos
capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está
escrito.
Albano Martins
(poeta
fundanense)
Poema
dedicado à minha filha, no dia do aniversário
quinta-feira, agosto 29, 2013
Nuvem
Gotas de suor da terra evaporadas
ao calor, e ao soprar das ventanias,
amarguras dos campos condensadas
rumo dos céus, lá nas alturas frias!
Para onde vais, fugindo assim às pressas,
tu que és filha daqui? Não te comove
o aspecto bruto, o horror medonho dessas
regiões em que há seis meses que não chove?
Peregrina, mimosa retirante,
nômade filha do sertão agreste,
pois é fado viver assim errante
quem nasceu nessas bandas do Nordeste?
Reclamam-te esses campos inditosos
a umidade fecunda dos teus beijos
na saudade dos rústicos festejos:
águas de enchentes, roças e outros gozos.
Nuvem - gases do vale, véus da serra -
para onde vais, fugindo assim em bando?
Filha rebelde e pródiga da terra,
quando é que um dia hás de voltar chorando?
O chão, o céu, os pássaros em coro,
rios, açudes, tudo mais enfim,
ressuscita à harmonia do teu choro.
O próprio sol se ameiga ao ver-te assim.
E cala o filho do sertão adusto,
que desde o berço até à campa sofre
a dor que lhe arranquei do peito angusto
e aqui fica gemendo nessa estrofe:
Ai! Para que plantar? Só para a mágoa
de assistir o espetáculo tremendo
de o que plantei aos poucos ir morrendo
à fartura de sol e à mingua d'água?
Nuvem, piedade! Ao menos com o manto
de tuas sombras cobre os sertões nus
para que o sol não queime a terra tanto
e o homem não viva amaldiçoando a luz!...
(poeta paraibano falecido faz hoje 38 anos)
quarta-feira, agosto 28, 2013
Taça
Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou, vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos - uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser;
outros - hóstias ideais dos meus anseios,
e t o d o s cheios, t o d o s cheios
do meu infinito amor . . .
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...
(poeta
sergipano nascido faz hoje 125 anos)
terça-feira, agosto 27, 2013
A Noite
Mas a noite
ventosa, a noite límpida
que a
lembrança somente aflorava, está longe,
é uma
lembrança. Perdura uma calma de espanto,
feita também
ela de folhas e de nada. Desse tempo
mais
distante que as recordações apenas resta
um vago
recordar.
Às vezes volta à luz do dia,
na imóvel
luz dos dias de Verão,
aquele
espanto remoto.
Pela janela
vazia
o menino
olhava a noite nas colinas
frescas e
negras, e espantava-se de as ver assim tão juntas:
vaga e
límpida imobilidade. Entre a folhagem
que
sussurrava na escuridão, apareciam as colinas
onde todas
as coisas do dia, as ladeiras
e as árvores
e os vinhedos, eram nítidas e mortas
e a vida era
outra, de vento, de céu,
e de folhas
e de coisa nenhuma.
Às
vezes regressa
na imóvel
calma do dia a recordação
daquele
viver absorto, na luz assombrada.
(poeta
italiano falecido faz hoje 63 anos)
Tradução de Carlos Leite
segunda-feira, agosto 26, 2013
domingo, agosto 25, 2013
MOTIVOS
Por que a
poeira da estrada já se faz pálida
Há um rumor
clamando urgências.
Por que os
olhos da noite já se tornaram glaucos
Há uma
esteira iluminando ontens.
Por que as
nuvens galopam desenhos do instinto
Há uma foice
ceifando minutos.
Por que o
presto está prestes a partir na aventura
Há grãos
debulhando agoras.
Por que o
desejo alimenta a lentidão
Há um
pandeiro no ritmo de frevo.
Por que a
fala já é rouca no eco das sílabas
Há um
discurso rotulando verbos.
Por que a
carícia se assola no solo da pele
Há uma
partitura sem sons no silêncio da gruta.
Motivos
existem circundando mandalas
Mandá-las
soar as sete notas sem as pausas
Alimentar os
ventos aventureiros
Cantar a
canção de embalo da sesta
Preservar a
sedução no horário do corpo
Soprar
nuvens no céu dos neurônios
Bem assim o
pedido para alongar a música.
(poeta
amazonense falecido faz hoje 4 anos)
sábado, agosto 24, 2013
MEUS OLHOS
Os caminhos
estão fechados
Há uma corda
atando mundos
um cão
fuçando a sombra
um porco na
oquidão
Sou o soco
nas costas do retardado
a órfã de
castigo
o cego que
aleijaram
pra
completar o escuro
Sou a
vampira que dá de mamar
o chiclete
no cabelo da professora
o pirulito
sobre o qual mijaram
Sou a
raquete arrebentada
o omelete
que não deu certo
o homem que
se afogou no Canal da Mancha
Meus olhos
se espalham
sobre a tua
cara
(poeta
paulista que hoje faz 46 anos)
Bem no fundo
No fundo, no
fundo,
bem lá no
fundo,
a gente
gostaria
de ver
nossos problemas
resolvidos
por decreto
a partir
desta data,
aquela mágoa
sem remédio
é
considerada nula
e sobre ela -
silêncio perpétuo
extinto por
lei todo o remorso,
maldito sejas
que olhas pra trás,
lá pra trás
não há nada,
e nada mais
mas
problemas não se resolvem,
problemas
têm família grande,
e aos
domingos
saem todos a
passear
o problema,
sua senhora
e outros
pequenos probleminhas.
(poeta
paranaense nascido faz hoje 69 anos)
sexta-feira, agosto 23, 2013
quinta-feira, agosto 22, 2013
quarta-feira, agosto 21, 2013
O rato e o
anjo
Há um rato
para cada português
Dos jornais
Anjo guardum
pra cada um
Da província
Um rato e um
anjo de guarda
para cada.
Anjo defende
o acto
mau,
a fazer ou a
sofrer.
Rato celebra
contrato?
Qual!
Rato rói,
até na
orelha.
Anjo dói
de outra
maneira.
Mas eis
que,nestes enredos,
há dois a
mais,um a menos.
Cai ao anjo
a pena,
ao rato o
pelame.
Um regressa
ao seu enxame,
o outro à
sua caverna.
E o
português,desanjado,
já se vê
desratizado.
Chora.
(Alexandre
O'Neill faleceu faz hoje 27 anos)
terça-feira, agosto 20, 2013
segunda-feira, agosto 19, 2013
domingo, agosto 18, 2013
sábado, agosto 17, 2013
Dez
mandamentos
Para a
Márcia Pereira
UM
todo mundo
quer ser alguém
ninguém
admite ser algum
DOIS
todo mundo
exige para agora
ninguém
aguenta esperar para depois
TRÊS
todo mundo
fura fila
ninguém cede
a vez
QUATRO
todo mundo
age como um ator
ninguém sabe
que a vida não é teatro
CINCO
todo mundo
sabe gritar: "Eu faço!"
ninguém sabe
sussurrar: "Eu brinco..."
SEIS
todo mundo
engole absurdos
ninguém
desobedece a estúpidas leis
SETE
todos se
creem livres
ninguém sabe
que é marionete
OITO
todos se
julgam complacentes
ninguém
imagina o quanto é afoito
NOVE
todos adoram
o sol
ninguém sabe
quão importante é quando chove
DEZ
todos só
sonham seus próprios sonhos
ninguém vê a
vida por outro viés?
(escritor
carioca que hoje faz 37anos)
sexta-feira, agosto 16, 2013
O neoliberal
(excerto)
o neoliberal
sonha um
mundo higiênico:
um ecúmeno
de ecônomos
de
economistas e atuários
de jogadores
na bolsa
de gerentes
de
supermercado
de capitães
de indústria
e
latifundários de
banqueiros
-
banquiplenos ou
banquirrotos
(que
importa?
dede que
circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo
executivo
de
mega-empresários
duros e
puros
mós sem dó
mais atento
ao lucro
que ao
salário
solitários
(no câncer)
antes que
solidários:
um mundo
onde deus
não jogue
dados
e onde tudo
dure para sempre
e
sempremente nada mude
um
confortável
estável
confiável
mundo
contábil.
(poeta
paulista falecido faz hoje 10 anos)
Na Terra dos
Leprechauns
Vou andar uma semana por um país que há muito
desejava conhecer, mas a poesia e a música vão continuar a frequentar esta
tasca.
quinta-feira, agosto 15, 2013
Urbanização
Tudo o que
vivêramos
um dia
fundiu-se
com o que
estava
a ser
vivido.
Não na
memória
mas no puro
espaço
dos cinco
sentidos.
Havíamos
estado no mundo, raso,
um campo
vazio de tojo seco.
Depois,
alguém
urbanizou o
vazio,
e havia
casas e habitantes
sobre o
tojo. E eu,
que estivera
sempre presente,
vi a dupla
configuração de um campo,
ou a sós em
silêncio
ou narrando
esse meu ver.
(Fiama Hasse
Pais Brandão nasceu faz hoje 85 anos)
quarta-feira, agosto 14, 2013
O Horror de
ser Pobre
Risco c'um
traço
(Um traço
fino, sem azedume)
Todos os que
conheço, eu mesmo incluído.
Para todos
estes não me verão
Nunca mais
Olhar com
azedume.
O horror de
ser pobre!
Muitos
gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as
caras alguns anos depois!
Cheiros de
latrina e papéis de parede podres
Atiravam
abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves
aguadas
Destroem
planos que fazem forte um povo.
Sem água de
banho, solidão e tabaco
Nada há que
exigir.
O desprezo
do público
Arruína o
espinhaço.
O pobre
Nunca está
sozinho. Estão todos sempre
A
espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da
comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o
seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra
enxota-o. O vento
Não o
conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu.
Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada
ajuda
Quem
dinheiro não tem.
(Bertold
Brecht faleceu faz hoje 57 anos)
Tradução de
Paulo Quintela
Toada dos
que não podem amar
Os que não
podem amar
estão
cantando.
A luz é tão
pouca, o ar é tão raro
que ninguém
sabe como eles ainda vivem.
Os que não
podem amar
estão
cantando,
estão
cantando,
e morrendo.
Ninguém ouve
o canto que soluça
por detrás
das grades.
(poeta
mineiro nascido faz hoje 111 anos)
terça-feira, agosto 13, 2013
segunda-feira, agosto 12, 2013
Frustração
Foi bonito
O meu sonho
de amor.
Floriram em
redor
Todos os
campos em pousio.
Um sol de
Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e
promissor.
Só que não
houve frutos
Dessa
primavera.
A vida disse
que era
Tarde
demais.
E que as
paixões tardias
São ironias
Dos deuses
desleais.
(Miguel
Torga nasceu faz hoje 106 anos)
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