sábado, janeiro 06, 2007

Criança para toda a vida Ashley é uma menina que será menina até à morte. Nasceu em Seattle, nos Estados Unidos, de parto normal em 1995. Logo após o nascimento foi-lhe diagnosticada uma doença cerebral de causas desconhecidas e as suas faculdades mentais e motoras nunca se desenvolveram. Ao longo dos anos, neurologistas, geneticistas e outros especialistas realizaram todos os testes tradicionais e experimentais conhecidos, mas não conseguiram ainda determinar uma causa ou fazer um diagnóstico da doença, pelo que a apelidaram de “encefalopatia estática de etiologia desconhecida”. Tem o mesmo nível de desenvolvimento mental desde os três meses de idade e nunca poderá andar, falar ou sentar-se e é alimentada por um tubo. Há três anos começou a mostrar sinais de puberdade precoce, o que aumentou a ansiedade dos pais quanto ao impacto da fertilidade e do rápido crescimento do peso e altura da menina na sua qualidade de vida. Em discussões com os médicos do Hospital Pediátrico de Seattle foi idealizado o tratamento: parar o crescimento físico (uma vez que o mental tinha parado aos 3 meses de idade). Através de cirurgias e da administração de elevadas doses de estrogéneo, em 2004 o crescimento físico foi “congelado” nos 9 anos de idade. Com uma esperança de vida normal, Ashley ficará até ao fim dos seus dias com uma mente de 3 meses de idade, uma altura de 130 cm, em vez dos esperados 168 cm, e com um peso de 34 kg , em vez dos previsíveis 57 kg. Quando a notícia foi conhecida, a reacção foi violenta . Nas salas de conversação ouviram-se comentários de “isto faz lembrar eugenia”, “isto cheira mal” e quejandos. Também organizações que representam deficientes manifestaram o seu “horror”. Os pais dizem que só tomaram essa decisão por amor, que assim poderão ter ao colo a sua “Pillow Angel”, como lhe chamam, tratar bem dela, levá-la em viagem e fazer com que ela tenha uma vida mais digna e confortável, evitando os ferimentos que, se fosse mais pesada, lhe seriam provocados pelo facto de estar quase sempre imóvel. Os pais da Ashley escolheram manter o anonimato. Sabe-se apenas que são profissionais com educação universitária e que residem algures em Washington DC. Mas afixaram num blogue um extenso esclarecimento sobre o seu desejo de parar o crescimento da filha. É claro que para cada inovação médica se levanta uma nova questão ética. E creio que aqui a questão ética é sobre o que mantém esta família unida; é sobre o senso comum e a decência humana; é sobre os pais de uma criança deficiente – que afinal de contas, também têm direito à existência em condições de dignidade – e os limites da sua resistência física e mental. E, para mim, a atitude destes pais foi um enorme acto de amor.

6 comentários:

cãorafeiro disse...

este post é a prova de que este seu blog faz imensa falta na blogosfera.

há que enfrentar estas questões de ética face às possibilidades da tecnologia...

Anónimo disse...

Excelente "post". É preciso pensar e questionar, sempre. Obrigada.

lino disse...

Obrigado, minhas amigas.
Aprendi, na minha juventude, que a máxima de um verdadeiro estado socialista era "de cada um segundo as suas capacidades e para cada um segundo as suas necessidades". É o que vamos tentando fazer, cada um à sua maneira, os que escrevemos sem olhar para o próprio umbigo e sem atitudes mercenárias.

Eurydice disse...

Questão complexa, e, claro, despachada apressadamente pelas mentes bem-pensantes e senhoras da verdade.
Não é fácil ter certezas, mas é muito comovente ver o esforço dos pais não só para cuidar o melhor possível da filha mas também para levarem os outros a perceber os fundamentos da sua opção. Uma enorme coragem!

Anónimo disse...

Evidentemente, para mim, é um acto de amor.

Se a ciência o permite e existe vontade de quem cuida dela, essa vontade deve prevalecer.

Estou das criticas de quem não tem "o trabalho com muito carinho" de cuidar de deficientes ou de idosos dependentes e se dá ao "luxo" de opinar o que os outros devem fazer e que seguramente, quando confrontados, NUNCA o fariam.

Parabéns a esses pais e quem divulga.
ANTONIO

Anónimo disse...

Quando li este texto, não pude deixar de pensar o quanto as pessoas por vezes são tão egoístas. É raro ver-se alguém fazer um verdadeiro acto de amor, pois é inerente à natureza humana pensarmos em nós próprios em primeiro lugar. Será que é dificil perceber o quanto deve ter custado a estes pais a atitude que tomaram? Como deve custar a alguém desligar a maquina a uma pessoa que ama... Mas não consigo conceber maior acto de amor que esse. Pensarmos em primeiro lugar no bem estar de quem amamos, contra todas as nossas forças para as mantermos connosco, só pode constituir a própria definição de AMOR.
E que eugenia? alguma vez a menina iria ter capacidade de se reproduzir? onde está então a escolha deliberada de genes?
E que direitos? talvez o direito a um maior sofrimento... porque apesar das limitações de um recém nascido, a dor é uma sensação primordial!
Muito gostam as pessoas de se queixarem, de contestarem, mas nesta situação, o que faria cada um de nós? Custa-me sequer pensar alguém nesta situção, quanto mais condená-los!
A maior prova de amor...