How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
domingo, agosto 11, 2013
CLÍTORIS
(en toda
inocencia)
Ventana de
la mar para la tempestad y sus olas
Sol de la
almendra para el dardo y sus trompetas
Luna del
crepúsculo para lo lascivo y sus caprichos
Carne del
impudor para el deseo y sus tumultos
Concubina del
pubis para el macho y sus males
Pimentero de
la fusión para la alcoba y sus tigresas
Armonía de
la verticalidad para el carnívoro y sus chupetones
Estampilla
de lefa para el creador y sus alucinaciones
Joya del
orgasmo para flauta y sus dedos
Pleno de existencia
para la intimidad y sus ritos
Taller del
amor para el martirio y sus brasas
Corazón del
espasmo para la eyaculación y la lamida
Flor del
furor para el sádico y sus mordiscos
Molino de
delicias para la pistola y sus tiros
Margarita de
Eros para el libidinoso y sus fervores
Nicho de
enigma para la penetración y sus rayos
Ciprina de
adoración para el tallo y sus carnavales
Botón de
ligue para el príapo y sus caprichos
Rosa de
besos para el adorador y sus puros
Calibistri
de locura para el bullicio y sus dilecciones
Concha de
seducción para lo precioso y sus himeneos
Escudo de
delirio para el ruiseñor y sus caprichos.
Copete de
ardor para la fantasía y sus nudos
Mandolina de
calor para la flecha y sus intrigas
Fresa de
diluvio para el delirium y sus tremens
Nido de
culto para el marqués y sus ataduras
Cajón de
erección para el clavicordio y sus pasiones
Mechón de
embrujo para la daga y sus toques.
Tesoro de
fiebre para el falo y sus quemaduras
Cetro de la
llama para la ceremonia y sus frenesíes.
(Fernando
Arrabal faz hoje 81 anos)
sábado, agosto 10, 2013
sexta-feira, agosto 09, 2013
VÃO-SE
EMBORA
Passageiros
entre palavras fugazes:
carreguem os
vossos nomes e vão-se embora,
Cancelem as
vossas horas do nosso tempo e vão-se embora,
Levem o que
quiserem do azul do mar
E da areia
da memória,
Tirem todas
as fotos que vos apetecer para saberem
O que nunca
saberão:
Como as
pedras da nossa terra
Constroem o
tecto do céu.
Passageiros
entre palavras fugazes:
Vocês têm
espadas, nós o sangue,
Têm o aço e
o fogo, nós a carne,
Têm outro
tanque, nós as pedras,
Têm gases
lacrimogéneos, nós a chuva,
Mas o céu e
o ar
São os
mesmos para todos.
Levem uma
porção do nosso sangue e vão-se embora,
Entrem na
festa, jantem e dancem…
Depois
vão-se embora
Para nós
cuidarmos das rosas dos mártires
E vivermos
como queremos.
Passageiros
entre palavras fugazes:
Como poeira
amarga, passem por onde quiserem, mas
Não passem
entre nós como insectos voadores
Porque temos
guardada a colheita da nossa terra.
Temos trigo
que semeámos e regámos com o orvalho dos nossos corpos
E temos aqui
o que não vos agrada:
Pedras e
pudor.
Se quiserem,
levem o passado ao mercado de antiguidades
E devolvam o
esqueleto à poupa
Numa
travessa de porcelana.
Temos o que
não vos agrada: o futuro
E o que
semeamos na nossa terra.
Passageiros
entre palavras fugazes:
Amontoem as
vossas fantasias numa sepultura abandonada
e vão-se
embora,
Devolvam os
ponteiros do tempo à lei do bezerro de ouro
Ou ao
horário musical do revólver
Porque aqui
temos o que não vos agrada. Vão-se embora.
E temos o
que não vos pertence:
Uma pátria e
um povo exangue,
Um país útil
para o olvido e para a memória.
Passageiros
entre palavras fugazes:
É hora de
vocês se irem embora.
Fiquem onde
quiserem, mas não entre nós.
É hora de se
irem embora
Para
morrerem onde quiserem, mas não entre nós
Porque nós
temos trabalho na nossa terra
E aqui temos
o passado,
A voz
inicial da vida,
E temos o
presente e o futuro,
Aqui temos
esta vida e a outra.
Vão-se
embora da nossa terra,
Da nossa
terra, do nosso mar,
Do nosso
trigo, do nosso sal, das nossas feridas,
De tudo…
vão-se embora
Das
recordações da memória,
Passageiros
entre palavras fugazes.
(poeta
palestino falecido faz hoje 5 anos)
Ao longo da
muralha
Ao longo da
muralha que habitamos
Há palavras
de vida há palavras de morte
Há palavras
imensas, que esperam por nós
E outras
frágeis, que deixaram de esperar
Há palavras
acesas como barcos
E há
palavras homens, palavras que guardam
O seu
segredo e a sua posição
Entre nós e
as palavras, surdamente,
As mãos e as
paredes de Elsenor
E há
palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que
nos sobem ilegíveis à boca
Palavras
diamantes palavras nunca escritas
Palavras
impossíveis de escrever
Por não
termos connosco cordas de violinos
Nem todo o
sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços
dos amantes escrevem muito alto
Muito além
da azul onde oxidados morrem
Palavras
maternais só sombra só soluço
Só espasmos
só amor só solidão desfeita
Entre nós e
as palavras, os emparedados
E entre nós
e as palavras, o nosso dever falar.
(Mário
Cesariny nasceu faz hoje 90 anos)
quinta-feira, agosto 08, 2013
Requiem por
um cão
Cão que
matinalmente farejavas a calçada
as ervas os
calhaus os seixos e os paralelepípedos
os restos de
comida os restos de manhã
a chuva
antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso
farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um
segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado
comprimido e reduzido
debaixo do
rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas
que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza
então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá
cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta
nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que
embalado ou liofilizado?
Eras vivo e
morreste nada mais teus donos
se é que os
tinhas sempre que de ti falavam
falavam no
presente falam no passado agora
Mudou alguma
coisa de um momento para o outro
coisa sem
importância de maior para quem passa
indiferente
até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas
práticas em coisas próximas
Cão que
morreste tão caninamente
cão que morreste
e me fazes pensar parar até
que o
polícia me diz que siga em frente
Que se
passou então? um simples cão que era e já não é
(poeta riomaiorense
falecido faz hoje 35 anos)
Liberdade
Ser livre é
querer ir e ter um rumo
e ir sem
medo,
mesmo que
sejam vãos os passos.
É pensar e
logo
transformar
o fumo
do
pensamento em braços.
É não ter
pão nem vinho,
só ver
portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar
teimosamente do caminho
sonhos de
sol
com fúrias
de raiz.
É estar
atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo
assim,
só de pensar
gritar
gritar
e só de
pensar ir
ir e chegar
ao fim.
(Armindo
Rodrigues faleceu faz hoje20 anos)
quarta-feira, agosto 07, 2013
terça-feira, agosto 06, 2013
Mar Morto
Lívia olha
de sua janela
o mar morto sem Lua.
Aponta a
Madrugada.
Os homens,
que rondavam
a sua porta,
o seu corpo
sem dono,
voltaram
para as suas casas.
Agora tudo é
mistério.
A música
acabou.
Aos poucos
as coisas se animam,
os cenários
se movem,
os homens se
alegram.
A madrugada
rompe
sobre o mar
morto.
(Jorge Amado
faleceu faz hoje 12 anos)
segunda-feira, agosto 05, 2013
Agonia
Sinto que as paredes me oprimem
que os quadros silenciosos
me observam assustados
e que os móveis crescem
na penumbra do quarto
e minhas mãos encolhem
se recolhem inativas
perplexas.
Estou longe de mim mesmo.
Nuvens espessas densas
em debandada
na direção do infinito.
Visto do universo
neste lugar-nenhum
sou cada vez menos
enquanto bilhões de seres
nascem e fenecem
como estrelas luzidias
mas intermitentes.
Estou perdendo peso
enquanto meus cabelos
cada vez mais grisalhos
me abandonam
desprendem-se e flutuam
errantes.
Minhas mãos não encontram
mais nada
abaixo da cintura.
Vou reduzindo de estatura
ao nível do chão
sem qualquer resistência
até desaparecer
pelo ralo da cozinha
ou pela ampulheta
da existência.
Já vou tarde.
(escritor brasileiro que hoje faz 73 anos)
domingo, agosto 04, 2013
Canto do
Verbo em busca da forma
Eu presido a
todos os enganos
os do céu os
da terra há tantos anos
que nem o
tempo os lembra
Antes do mar
fui voo
Antes do sal
fui mar e sede antes da água fresca
Antes do
verso eu fui a poesia
Eu sou antes
de Deus e do universo
Estando
antes eu nunca fui ontem
e sendo a
tudo preso nunca fui refém
nem de mim
mesmo porque a minha fome
não tem
distância horizonte não tem nome
Sempre que
me contam sou inumerável
sempre que
me caçam sou invulnerável
Eu nunca
estou no pé e nunca estou no passo
a minha
dimensão é outra sou o compasso cósmico
a que
palpitam todas as galáxias
e a que se
geram flores nos ramos das acácias
Não fui
planeado nem projecto
Não sou
vontade
Nas letras
de prisão lêem-me liberdade
não a minha
a tua a deles ou a de todos
Eu sou a
liberdade do desejo
Do desejo
dos lodos e das aves dos rios
dos homens e
mulheres
de todo o
espaço de todas as coisas
de todos os
seres
Por isso eu
presido a todos os enganos
os do céu os
da terra há tantos anos
que nem o
tempo os lembra
Sou a razão
de todas as derrotas
o coração da
mágoa as mãos do desespero
Eu sempre
estou e permaneço e espero
desde o caos
e canto o refazer do desejo
na sua
liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo
recomeça grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão
sol a sol segundo a segundo
porque
comigo recomeça o mundo
até que tudo
seja o que não vejo
até que o
mundo seja o do desejo
(poeta
moçambicano que hoje faria 69 anos)
sábado, agosto 03, 2013
Canção do
lago secando
Pela noite
da minha trágica aventura,
Meu
sofrimento é o achado que afago,
Se acordado,
sofrendo,
E se a
dormir, sonhando
Que sou
lago.
Adeus, ó
canas, cá me vou secando!
À míngua de
nascente eu parto evaporado
Sem me ver
partir!
Ainda se os
que passam pudessem beber-me
Sem tornarem
a passar
Pra
maldizer-me...
Ainda se a
menina reclinada à minha beira,
Que tanto e
tanto me seduz ainda,
Viesse
banhar-se
E depois se
afogasse em mim, violada e linda...
Ainda se eu,
Profundo e
vasto e longo,
Pudesse ter
no mapa mancha azul e portos
E ser útil à
navegação...
Finando-me
abriria a justa e verdadeira causa
À minha sede
e à minha direcção.
(poeta
ansianense falecido faz hoje 74 anos)
sexta-feira, agosto 02, 2013
Quem diz que
é pela rainha
Quem diz que
é pela rainha
Nem precisa
de mais nada
Embora seja
ladrão
Pode roubar
à vontade
Todos lhe
apertam a mão
É homem de
sociedade
Acima da
pobre gente
Subiu quem
tem bons padrinhos
De
colarinhos gomados
Perfumando
os ministérios
É dono dos
homens sérios
Ninguém lhe
vai aos costados
(Zeca Afonso
nasceu faz hoje 84 anos)
Geografia
Humana
Há em mim,
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu
assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o
rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando
aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do
espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em
trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em
mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade,
e até no
último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda
virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado
como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei
ainda o início de uma outra liberdade.
(poeta
maranhense que hoje faz 78 anos)
quinta-feira, agosto 01, 2013
Os Loucos
Há vários
tipos de louco.
O
hitleriano, que barafusta.
O solícito,
que dirige o trânsito.
O maníaco
fala-só.
O idiota que
se baba,
explicado
pelo psiquiatra gago.
O legatário
de outros,
o que nos
governa.
O depressivo
que salva
o mundo.
Aqueles que o destroem.
E há sempre
um
(o mais
intratável) que não desiste
e escreve
versos.
Não gosto
destes loucos.
(Torturados
pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta
velha senhora
que ri,
manso, pela rua, de felicidade.
(poeta
setubalense que hoje faz 80 anos)
Intransitivo
A carne anda
cada vez mais fraca
e o silencio
cada vez mais comprometedor
cômicos
somos nós que estamos falando sério
e pobres são
todos, de uma pobreza irremediável
de uma
doença incurável, apesar de todos os esforços
da medicina,
da psicoterapia, da parapsicologia
quando a
única solução seria um sortilégio.
Há políticas
bastantes para não pensarmos em nada
e
condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos
de que somos
livres e vivemos como queremos.
Temos
vontades baratas: um novo par de sapatos
um pouquinho
mais de espaço para alongar as pernas
e se
possível mais tempo pra reclamar da vida.
Ah,
deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um
pouco mais os bichos
inventar
qualquer forma mais pura
do que esta
selvageria civilizada
do que este
progresso cheio de violência
do que esta
racionalidade que não deu certo.
Meu irmão, o
absurdo somos nós.
(Bruna Lombardi
faz hoje 61 anos)
Projecto de Sucessão
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
(poeta lisboeta nascido faz hoje 85 anos)
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