How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quinta-feira, julho 10, 2014
Lua Boa
Quando a lua
sair nós iremos ao campo
esmagar o
capim, passo a passo, bem juntos
como dois
namorados que não gostam de falar
quando a lua
é mais clara e o coração mais limpo.
Nós
mergulharemos na simplicidade,
mão na mão,
sonhando as palavras que ficam,
enquanto os
maricás noivarem,
calma grave
e nupcial, tristeza boa
para a gente
saber que vai morrendo,
para provar
no lábio um gosto que abençoa.
Quanta
doçura virgem de ervas!
Mesmo à
noite os trevais têm cheiro azul de manhã,
e o capim o
capim esmagado
perfuma os
pés que o pisaram, santamente.
(poeta
gaúcho falecido faz hoje 44anos)
quarta-feira, julho 09, 2014
A MÁSCARA DA
NOITE
Sim, essa
tarde conhece todos os meus pensamentos
Todos os
meus segredos e todos os meus patéticos anseios
Sob esse céu
como uma visão azul de incenso
As estrelas
são perfumes passados que me chegam...
Sim! essa
tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama
E eis que é
uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros
Aves, folhas
silenciosas, sons perdidos em cores
Nuvens como
velas abertas para o tempo...
Não sei,
toda essa evocação perdida, toda essa música perdida
É como um
pressentimento de inocência, como um apelo...
Mas para que
buscar se a forma ficou no gesto esvanecida
E se a
poesia ficou dormindo nos braços de outrora...
Como saber
se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
Nesse entorpecimento,
neste filtro mágico de lágrimas?
Orvalho,
orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
Faz-se
surgir diamante dentro do sol!
Lembro-me!...
como se fosse a hora da memória
Outras
tardes, outras janelas, outras criaturas na alma
O olhar abandonado
de um lago e o frêmito de um vento
Seios
crescendo para o poente como salmos...
Oh, a doce
tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero
Vagam
placidamente navios fantásticos de prata
E em grandes
castelos cor de ouro, anjos azuis serenos
Tangem sinos
de cristal que vibram na imensa transparência!
Eu sinto que
essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo
Que o
momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim
mesmo
Oh criação
que estás me vendo, surge e beija-me os olhos
Afaga-me os
cabelos, canta uma canção para eu dormir!
És bem tu,
máscara da noite, com tua carne rósea
Com teus
longos xales campestres e com teus cânticos
És bem tu!
ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas
Em longas
escalas cromáticas fragrantes...
Ah, meu
verso tem palpitações dulcíssimas! - primaveras!
Sonhos
bucólicos nunca sonhados pelo desespero
Visões de
rios plácidos e matas adormecidas
Sobre o
panorama crucificado e monstruoso dos telhados!
Por que
vens, noite? por que não adormeces o teu crepe
Por que não
te esvais - espectro - nesse perfume tenro de rosas?
Deixa que a
tarde envolva eternamente a face dos deuses
Noite,
dolorosa noite, misteriosa noite!
Oh tarde,
máscara da noite, tu és a presciência
Só tu conheces
e acolhes todos os meus pensamentos
O teu céu, a
tua luz, a tua calma
São a
palavra da morte e do sonho em mim!
(Vinícius de
Moraes faleceu faz hoje 34 anos)
terça-feira, julho 08, 2014
Crescem
sonhos luminosos
A mulher
submerge-se no banho
com a mesma
doce espera
com que se
aproxima do leito do amante
e se deixa
fundir lentamente
na água
tépida suave
Agua de
carícia envolvente
que eleva os
seios
e os
balanceia
pontas que
despertam as suas bocas vermelhas
mãos que se
abrem como estrelas do mar
e navegam
pensativas de um lado para o outro
e roçam de
vez em quando as curvas do corpo
A cabeça é
um nenúfar que se move
sobre a
superfície da água
e na
esperança dos olhos
crescem
sonhos luminosos
que nenhum
amante
poderá
jamais cumprir.
(poetisa
sueca nascida na Dinamarca faz hoje 102 anos)
tradução de
Casimiro de Brito
segunda-feira, julho 07, 2014
Canção de
Batalha
Que durmam,
muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram
contemplando a Lua branca e fria...
Levantai-vos,
heróis, e despertai, gigantes!
Já canta
pelo azul sereno a cotovia
E já rasga o
arado as terras fumegantes...
Entra-nos
pelo peito em borbotões joviais
Este sangue
de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que
somos nós? Ferreiros d'arsenais;
E bater, é
bater com alma na bigorna
As estrofes
de bronze, as lanças e os punhais.
Acendei a
fornalha enorme - a Inspiração.
Dai-lhe
lenha - A Verdade, a Justiça, o Direito -
E harmonia e
pureza, e febre, e indignação;
E p'ra que a
labareda irrompa, abri o peito
E atirai ao
braseiro, ardendo, o coração!
Há-de-nos
devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é
como o Sol: o fogo que ele encerra
É quem
espalha a luz nessa amplidão sonora...
Queimemo-nos
a nós, iluminando a Terra!
Somos lava,
e a lava é quem produz a aurora!
(Guerra
Junqueiro faleceu faz hoje 93 anos)
domingo, julho 06, 2014
A Gargantónia
Ah! Terra má
de vesgas alimárias!
Ah! Terra em
que o vômito dá leis!
Ah! Terra de
merdosos bacharéis!
Ah! Terra
vil de encasacados párias!
Ah! Terra de
Assembleias salafrárias!
Ah! Terra de
antropófagos cruéis!
Ah! Terra de
invertidos e coronéis!
Ah! Terra
torpe de osgas parietárias!
Ah! Terra de
trafulhas feitos lordes!
Ah! Terra
dos sem-grão que vão a Fordes!
Ah! Terra
dos talentos de lascar!
Ah! Terra
dos altivos excrementos!
Ah! Terra
dos Albinos vinolentos!
Ah! Terra
onde quem manda é o Salazar
(escritor
bracarense nascido a 6 de Julho de 1902)
sábado, julho 05, 2014
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