How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Viva a vida!
Há 71 anos morria, em prisão domiciliária, Miguel de Unamuno y Jugo, figura cimeira da cultura espanhola do século XX.
Quase três meses antes, tinha desafiado publicamente o general José Millán-Astray, o falangista celebrizado pelo seu grito demente '¡viva la muerte!'.
A todos os meus amigos e amigas, com desejos de um 2008 cheio de tudo de bom, dedico este poema do Miguel, pela voz de José Manuel Castañón:
Denso, Denso
Mira, amigo: cuando libres
al mundo tu pensamiento,
cuida que sea, ante todo,
denso, denso.
Y cuando sueltes la espita
que cierra tu sentimiento,
que en tus cantos éste mane
denso, denso.
Y el vaso en que vino escancies
de tu sentir los anhelos,
de tu pensar los cuidados,
denso, denso.
Mira que es largo el camino
y corto, muy corto, el tiempo:
parar en cada posada
no podemos.
Dinos en pocas palabras,
y sin dejar el sendero,
lo más que decir se pueda,
denso, denso.
Con hebra recia de ritmo,
hebrosos queden tus versos,
sin grasa, con carne prieta,
densos, densos.
Miguel de Unamuno
domingo, dezembro 30, 2007
A Venezuela vista do Reino Unido
Derrota de Chávez no plebiscito traz lições aos bolivarianos.
A derrota por pouca margem de Hugo Chávez no referendo foi resultado de uma grande abstenção dos seus partidários. 44% dos eleitores ficou em casa. Por quê? Primeiro, porque não entenderam ou não aceitaram a necessidade do referendo. As medidas relacionadas com a semana laboral e outras reformas sociais poderiam, facilmente, ser objeto de legislação parlamentar. As questões-chave eram remover as restrições à repetição do mandato do chefe de governo (como na maior parte da Europa) e os passos rumo a um "Estado Socialista". Com respeito a esse último, simplesmente faltou debate e discussão entre o povo simples.
Tariq Ali
Para ler aqui
sábado, dezembro 29, 2007
Disputas laborais insólitas (V)
Tony Price, director geral da WStore UK, uma empresa de Tecnologias da Informação sedeada no Surrey, exigiu que os seus 80 empregados se submetessem a um teste de ADN, após um bocado de pastilha elástica ter ficado pegado às calças de um director. Quando a sua mensagem de correio electrónico para toda a gente assinalando o banimento da pastilha elástica na empresa transpirou para os média, Price insinuou descaradamente que forçaria os empregados a sujeitarem-se a testes num detector de mentiras para encontrar o culpado.
sexta-feira, dezembro 28, 2007
O poema
a Mário Quintana
a Manuel Bandeira
a Fernando Pessoa
Quem és tu?
- Eu?, sou a ânsia de saber quem sou;
o esgar de minha boca
não é meu.
Herdei não sei bem de quem.
- Eu?, vim com a chuva de Stroncio,
sou a Rosa de Hiroshima,
vermelha e fatal.
Quem és tu, afinal?
- Eu?, não tenho face,
uso essa estranha máscara,
mais verdadeira e real
do que minha própria face,
se a tivesse...
Alceu Brito Correa*
*poeta brasileiro
quinta-feira, dezembro 27, 2007
A Venezuela vista do Brasil
As razões de uma derrota e o futuro da Revolução Bolivariana
A elevada abstenção no referendo atingiu sobretudo setores sociais simpáticos a Chávez. Mas, em relação à eleição presidencial de 2006, o aumento dos votos da oposição foi pequeno. Algo ocorreu, portanto, na própria base do presidente.
Marco Aurélio Weissheimer
Artigo a não perder, aqui
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Sabia que...(VII)
No Kentucky, Estados Unidos, é ilegal transportar uma arma escondida com mais de 6 pés de comprimento (1,8288 m)?
Em Miami, Florida, é ilegal andar de mono patim numa esquadra da polícia?
No Lancashire, Reino Unido, não é permito a alguém, depois de mandado parar por um polícia, incitar um cão a ladrar?
Na Inglaterra, os Homens Livres podem levar um rebanho de ovelhas a atravessar a London Bridge sem terem de pagar portagem; e que também estão autorizados a passear gansos em Cheapside?
Na Inglaterra, todos os homens com mais de 14 anos têm de cumprir com duas horas de prática de tiro com arco por dia?
terça-feira, dezembro 25, 2007
NATAL À BEIRA-RIO
É o braço do abeto a bater na vidraça,
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
David Mourão-Ferreira, "Obra Poética". 1948-1988
segunda-feira, dezembro 24, 2007
FALAVAM-ME DE AMOR
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
Natália Correia, in "O Dilúvio e a Pomba", 1979
domingo, dezembro 23, 2007
A Venezuela vista dos Estados Unidos
Os vigilantes da democracia
O governo e a principal mídia nos Estados Unidos tomaram partido ou pelo menos se declararam árbitros no processo interno venezuelano, ao participar, opinar e criticar o referendo sobre a reforma constitucional. Em Novembro apareceram pelo menos 15 editoriais nos periódicos mais importantes, sem contar os que foram publicados no dia do plebiscito, uma série de artigos de opinião e de comentários na mídia norte-americana. O governo de George Bush não escondeu sua participação no debate venezuelano. Especialistas reconhecidos em matéria de transparência, direitos humanos e outros elementos-chave nos processos democráticos, como o ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, puseram à disposição a sua sabedoria.
O aparente consenso editorial e político aqui [nos EUA] foi o de que o referendo representou não só uma tentativa do presidente Hugo Chávez de concentrar o poder, mas também de enfraquecer e até de abolir a democracia na Venezuela.
David Brooks
Para ler aqui
sábado, dezembro 22, 2007
A Venezuela vista do México
Nada de novo na Venezuela
Não deixa de ser curiosa essa aliança tácita de forças aparentemente distintas umas das outras (e até opostas) contra Chávez. No México, vimos esse fenômenos na eleição de 2006, incluindo os ultraesquerdistas e os defensores do voto nulo.
Octávio Rodriguez Araujo, para o La Jornada, do México
Artigo completo, aqui
sexta-feira, dezembro 21, 2007
O Natal da discórdia
Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, diz o velho ditado. E eu tenho procurado não me precipitar e não escrever coisas que me forcem a dar o dito por não dito por escrever a quente e sem me documentar devidamente. Por enquanto, tenho conseguido. Vem isto a propósito de uma grossa polémica que está a ocorrer no Brasil.
O projecto da adutora do Rio São Francisco, no nordeste brasileiro, que se destina a transvazar uma pequena parte daquele rio para zonas onde a água é escassa, é um projecto estruturante do governo de Lula da Silva.
Dom Luís Cappio é um bispo brasileiro titular de uma diocese que já foi grande mas está agora em decadência, que se encontra há duas semanas em greve de fome (já é a segunda vez) contra o projecto, provavelmente até à morte por inanição – até onde disse que estava disposto a ir - considerando que é pouco provável que o governo recue.
Muitas vozes se levantaram em seu apoio, desde o Movimento dos Sem Terra, passando por dois Teólogos da Libertação que muito respeito e de quem divulgo aqui textos com alguma frequência – Leonardo Boff e Frei Betto, até às mais variadas ONG’s que se dizem defensoras do ambiente.
As muitas tomadas de posição que li deixaram-me sempre a impressão de que a bota não batia com a perdigota, porque sempre me soou algo estranha uma confluência de ataques a um governo provindos de pessoas que defendem interesses antagónicos.
Li um primeiro artigo de Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de São Paulo, intitulado O bispo de Barra quer morrer, extremamente crítico da atitude do bispo e pensei cá para comigo: aqui há gato. As violentas críticas de que foi alvo na caixa de comentários do jornal digital em que escreve levaram-no a publicar um segundo artigo, intitulado precisamente O Natal da discórdia, cuja leitura recomendo vivamente, dado tratar-se de uma peça que me parece exemplar em termos de clareza.
Embora se trate de um artigo longo, da sua leitura podem tirar-se vários ensinamentos, o menor dos quais não será, certamente, a vantagem de não escrever sobre aquilo que se não domina, principalmente quando se trata de pessoas que penso que agem de boa fé e que têm, seguramente, milhões de cidadãos que lhes dão ouvidos, sobretudo entre as populações menos letradas, como é o caso dos dois teólogos referidos.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
In memoriam

A Aceitação da Fraude
Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: Se formos enganados durante muito tempo, temos tendência a rejeitar qualquer prova de fraude. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. A fraude apanhou-nos. É demasiado doloroso reconhecer, nem que seja para nós mesmos , que fomos levados à certa. Uma vez que damos a um charlatão poder sobre nós mesmos, quase nunca o recuperamos. Por conseguinte, as velhas fraudes têm tendência a persistir, ao mesmo tempo que surgem outras novas.
Carl Sagan, in "O Mundo Infestado de Demónios"
Declaração de interesses: tenho este livro aqui à mão de semear, mas como o texto está disponível no Citador, foi muito mais simples, ao fim de um dia de trabalho, fazer um copiar/colar em vez de o escrever à média luz.

A Aceitação da Fraude
Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: Se formos enganados durante muito tempo, temos tendência a rejeitar qualquer prova de fraude. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. A fraude apanhou-nos. É demasiado doloroso reconhecer, nem que seja para nós mesmos , que fomos levados à certa. Uma vez que damos a um charlatão poder sobre nós mesmos, quase nunca o recuperamos. Por conseguinte, as velhas fraudes têm tendência a persistir, ao mesmo tempo que surgem outras novas.
Carl Sagan, in "O Mundo Infestado de Demónios"
Declaração de interesses: tenho este livro aqui à mão de semear, mas como o texto está disponível no Citador, foi muito mais simples, ao fim de um dia de trabalho, fazer um copiar/colar em vez de o escrever à média luz.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Divertimento com sinais ortográficos
...
Em aberto, em suspenso
Fica tudo o que digo.
E também o que faço é reticente...
:
Introduzimos, por vezes,
Frases nada agradáveis...
.
Depois de mim maiúscula
Ou espaço em branco
Contra o qual defendo os textos
,
Quando estou mal disposta
(E estou-o muitas vezes...)
Mudo o sentido às frases,
Complico tudo...
!
Não abuses de mim!
?
Serás capaz de responder a tudo o que pergunto?
( )
Quem nos dera bem juntos
Sem grandes apartes metidos entre nós!
^
Dou guarida e afecto
A vogal que procure um tecto.
Alexandre O'Neill*
*no 83º aniversário do nascimento
O Desaparecido
"Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor."
Rubem Braga* - "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969
*no 17º aniversário da sua morte
terça-feira, dezembro 18, 2007
Disputas laborais insólitas (IV)
Wayne Simpson , um vendedor da empresa inglesa EDF Energy, perdeu o sem emprego de vinte e oito mil libras anuais depois de ter enviado a uma cliente uma fotografia sua todo nu, sentado num banho de espuma a beber whisky. Simpson tinha encontrado a cliente do sexo feminino enquanto fazia vendas porta a porta, em Tyneside; conseguiu obter o número de telefone dela e, mais tarde, enviou-lhe a fotografia com uma mensagem a dizer: “queres sair um dia destes para tomar uma bebida?” A mulher não quis e, em vez disso, relatou o caso à empresa e à polícia. Simpson acusou a EDF de falta de sentido de humor. “Eu nem sequer estava a mostrar as minhas partes pudendas”, disse.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
A Venezuela vista da Argentina
Dialéctica de uma derrota
Como explicar a derrota do Sim e até que ponto foi só uma derrota?
Chavez enfrentou uma fenomenal coligação política e social que aglutinava todas as forças da velha ordem, carcomida até às entranhas mas com os seus agentes históricos a travarem uma batalha desesperada para salvá-la. A grande burguesia autóctone, os latifundiários, o capital financeiro, os dirigentes sindicais corruptos, a velha partidocracia, a hierarquia da Igreja Católica, a embaixada norte-americana, obcecada em derrubá-lo, e, a coroar todo este fluxo de descarga, uma confabulação mediática nacional e internacional poucas vezes vista na história, a qual reunia nos seus ataques a Chavez os grandes expoentes da "imprensa livre" da Europa, Estados Unidos e América Latina. O líder bolivariano atraiu contra si todos os espantalhos sociais com os quais deve lidar qualquer governo digno na América Latina e combateu-os quase em solidão e de mãos limpas. O que unificou os conservadores não foi a cláusula da "reeleição permanente" e sim algo muito mais grave: a reforma concedia categoria constitucional ao projecto socialista em gestação, algo totalmente inaceitável. Apesar de tão descomunal disparidade, o resultado eleitoral foi praticamente um empate.
Para muitos venezuelanos a eleição não era importante, o que explica os 44 por cento de abstenção. A grande maioria dos que não compareceram para votar tê-lo-iam feito pelo Sim, o que revela a debilidade do trabalho de construção hegemónica e de consciencialização ideológica dos bolivarianos no seio das classes populares. A redistribuição de bens e serviços é imprescindível, mas não necessariamente cria consciência política emancipadora. Por outro lado, alguns governadores e alcaides chavistas não se empenharam a fundo em favor de uma reforma constitucional que democratizaria, em prejuízo das suas atribuições, a organização política do Estado ao criar novas instituições do poder popular. Além disso, há que levar em conta que após nove anos de gestão qualquer governo sofre um desgaste ou deixa de suscitar o entusiasmo colectivo de antanho. A isto há que acrescentar, além disso, alguns erros cometidos na campanha eleitoral intermitente de um presidente que, pelo seu papel protagónico no cenário mundial, não dispõe de muito tempo para outra coisa.
De qualquer modo, apesar da derrota, Chavez saiu-se muito bem. Suas credenciais democráticas fortaleceram-se notavelmente. A oposição chegou às eleições dizendo que jamais aceitaria um triunfo do Sim. Caso se verificasse, repudiá-lo-iam por ser produto da fraude e poriam em andamento o "Plano B" da Operación Tenaza . Os que se diziam democratas confessavam que só se comportariam como tais no caso de ganhar; senão, a sua resposta seria a sedição. Chavez, em contrapartida, deu-lhes um lição de republicanismo democrático ao aceitar com fidalguia o veredicto das urnas. Imaginemos o que teria acontecido se por essa ínfima diferença houvesse triunfado o Sim. Os porta-vozes da "democracia" teriam incendiado a Venezuela. Apesar da sua derrota, a estatura moral de Chavez e a sua fidelidade aos valores da democracia converte em pigmeus os seus oportunistas adversários, que só respeitam o resultado das urnas quando este os favorece. E, de passagem, deixa numa posição insustentável os senadores brasileiros que, sob o pretexto da débil vocação democrática de Chavez, querem frustrar a entrada da Venezuela no Mercosul.
Atilio Borón*
*Economista e sociólogo. Secretario general do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) até Agosto de 2006. Professor Titular de Teoria Política e Social da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.
domingo, dezembro 16, 2007
Canto dos emigrantes
Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.
De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.
Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.
Alberto da Cunha Melo*
*poeta brasileiro
sábado, dezembro 15, 2007
Bizarrias Judiciais (V)
Em 1980, o Juiz Lord Ormrod, o Juiz Lord Dunn e o Juiz Arnold decidiram , no Tribunal de Apelação do Reino Unido, que uma esposa de Basingstoke que tinha racionado o sexo com o marido a uma vez por semana estava a comportar-se razoavelmente. Lord Hailsham revelou, mais tarde, que a decisão tinha levado a que alguns jornais tentassem entrevistar as esposas de todos os Juízes que intervieram no caso.
***
A um pai de Zhengzhou, na China, foi recusada autorização legal para pôr ao seu filho o nome de @, em homenagem a este carácter do teclado. A autorização foi negada com a base legal de que todos os nomes têm de ser susceptíveis de serem traduzidos para Mandarim.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Os homens que contam

No próximo sábado, dia 15/12, o arquiteto Oscar Niemeyer completa cem anos de idade. Poucas são as pessoas que têm o privilégio de vidas longevas. Minha avó materna morreu com 102 anos. Tantos anos, ela os atribuía a duas coisas: uma colher de mel que ela sorvia quotidianamente ainda em jejum e uma Salve Rainha antes de dormir. A receita tem pelo menos o encantamento da singeleza. Não sei qual é o segredo do arquiteto, mas obviamente não há de ser a receita de minha avó que, de resto, nem eu mesmo a pratico, embora goste muito de mel e de Nossa Senhora.
Mas o centenário de Niemeyer me faz recordar uma entrevista que ele me concedeu há exatos dez anos. Eu havia traduzido do italiano uma obra de arquitetura e o patrocinador da edição me encarregou de ir ao Rio solicitar um prefácio do mais conhecido arquiteto brasileiro. Marcada a audiência por telefone, pensei que ele fosse me conceder cinco minutos. Entreteve-me toda uma tarde e no final ainda mandou seu motorista levar-me a Niterói para conhecer a sua mais nova obra, o Museu de Arte Moderna.
Na minha memória a figura de Oscar Niemeyer é indissociável de um sacerdote, Frei Matheus Rocha OP. Se estivesse vivo, faria 85 anos no próximo mês. O relacionamento de ambos data da década de 60, quando Darcy Ribeiro convidou Frei Matheus, então Provincial dos Dominicanos, para fundar a Faculdade de Teologia da Universidade de Brasília, uma proposta que contava com o decidido apoio do Papa João XXIII. O religioso convidou Niemeyer para projetar o prédio da faculdade, que chegou a ser construído, professores preparados, tudo pronto etc., quando o golpe de estado de 1964 pôs tudo a perder. Frei Matheus foi vice-reitor do Prof. Anísio Teixeira e foi também reitor da UNB entre 1962 e 1963. O fato é que Brasília e a Teologia uniram esses dois personagens e, pelos testemunhos de frei Matheus, embora se dizendo ateu, Niemeyer era um homem de muita fé. Mas era uma fé obscurecida pelas diversas expressões das contradições e miséria humanas e de alguns contra-testemunhos da Igreja. Encontrou no comunismo um ideal de justiça que não viu na Igreja. Em todo caso, através daquele religioso, debateu muito sobre o universo teologal, conheceu as maravilhas do Evangelho, da missão e da pessoa de Jesus Cristo. Mas a vida humana é mesmo um mistério, e até hoje o arquiteto se auto-define ateu e comunista. Nesses casos, quem poderá emitir juízos?
O homem que construiu com suntuosidade a belíssima catedral da capital federal e, muito antes, construiu com simplicidade a igreja de São Francisco no conjunto da Pampulha em Belo Horizonte, deve ter sido tocado de mil modos pela mão poderosa de Nosso Senhor. Tudo isso é motivo para ação de graças nesse centenário.
Levei de presente para o arquiteto o livro de Frei Matheus "Quem é este homem?", uma bela introdução à Cristologia. Niemeyer recebeu a obra, fez uma longa pausa, percorreu em silêncio várias páginas e disse com convicção: "São esses os homens que contam!".
Domingos Zamagna *
* Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo
Texto retirado daqui

No próximo sábado, dia 15/12, o arquiteto Oscar Niemeyer completa cem anos de idade. Poucas são as pessoas que têm o privilégio de vidas longevas. Minha avó materna morreu com 102 anos. Tantos anos, ela os atribuía a duas coisas: uma colher de mel que ela sorvia quotidianamente ainda em jejum e uma Salve Rainha antes de dormir. A receita tem pelo menos o encantamento da singeleza. Não sei qual é o segredo do arquiteto, mas obviamente não há de ser a receita de minha avó que, de resto, nem eu mesmo a pratico, embora goste muito de mel e de Nossa Senhora.
Mas o centenário de Niemeyer me faz recordar uma entrevista que ele me concedeu há exatos dez anos. Eu havia traduzido do italiano uma obra de arquitetura e o patrocinador da edição me encarregou de ir ao Rio solicitar um prefácio do mais conhecido arquiteto brasileiro. Marcada a audiência por telefone, pensei que ele fosse me conceder cinco minutos. Entreteve-me toda uma tarde e no final ainda mandou seu motorista levar-me a Niterói para conhecer a sua mais nova obra, o Museu de Arte Moderna.
Na minha memória a figura de Oscar Niemeyer é indissociável de um sacerdote, Frei Matheus Rocha OP. Se estivesse vivo, faria 85 anos no próximo mês. O relacionamento de ambos data da década de 60, quando Darcy Ribeiro convidou Frei Matheus, então Provincial dos Dominicanos, para fundar a Faculdade de Teologia da Universidade de Brasília, uma proposta que contava com o decidido apoio do Papa João XXIII. O religioso convidou Niemeyer para projetar o prédio da faculdade, que chegou a ser construído, professores preparados, tudo pronto etc., quando o golpe de estado de 1964 pôs tudo a perder. Frei Matheus foi vice-reitor do Prof. Anísio Teixeira e foi também reitor da UNB entre 1962 e 1963. O fato é que Brasília e a Teologia uniram esses dois personagens e, pelos testemunhos de frei Matheus, embora se dizendo ateu, Niemeyer era um homem de muita fé. Mas era uma fé obscurecida pelas diversas expressões das contradições e miséria humanas e de alguns contra-testemunhos da Igreja. Encontrou no comunismo um ideal de justiça que não viu na Igreja. Em todo caso, através daquele religioso, debateu muito sobre o universo teologal, conheceu as maravilhas do Evangelho, da missão e da pessoa de Jesus Cristo. Mas a vida humana é mesmo um mistério, e até hoje o arquiteto se auto-define ateu e comunista. Nesses casos, quem poderá emitir juízos?
O homem que construiu com suntuosidade a belíssima catedral da capital federal e, muito antes, construiu com simplicidade a igreja de São Francisco no conjunto da Pampulha em Belo Horizonte, deve ter sido tocado de mil modos pela mão poderosa de Nosso Senhor. Tudo isso é motivo para ação de graças nesse centenário.
Levei de presente para o arquiteto o livro de Frei Matheus "Quem é este homem?", uma bela introdução à Cristologia. Niemeyer recebeu a obra, fez uma longa pausa, percorreu em silêncio várias páginas e disse com convicção: "São esses os homens que contam!".
Domingos Zamagna *
* Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo
Texto retirado daqui
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado*
*poetisa brasileira contemporânea
(no dia do seu 72º aniversário)
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