How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quinta-feira, abril 18, 2013
O Grande
Momento
A varanda
era batida pelos ventos do mar
As árvores
tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das
lágrimas.
Veleiros
seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se
despedindo,
O tempo
fugia com uma doçura jamais de
novo
experimentada
Mas o grande
momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus
olhos...
(poeta
carioca nascido faz hoje 107 anos)
quarta-feira, abril 17, 2013
terça-feira, abril 16, 2013
A espantosa realidade das cousas
A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter
nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
segunda-feira, abril 15, 2013
MÁSCARA
Passa o
tempo da face
E o prazer
de mostrá-la.
Vem o tempo
do só,
A rua do
desgosto,
O trilho
interminável
Numa estrada
sem casas.
O final do
espetáculo,
A sala
abandonada,
O palco
desmantelado.
Do que foi
uma face
Resta apenas
a máscara,
O retrato, a
verônica,
O fantasma
do espelho,
O espantalho
barbeado,
A face
deslavada,
Mais
sulcada, mais suja,
De beijada,
cuspida,
Amarrotada
Como um
jornal velho.
Máscara
desbotada
De carnavais
passados.
Esta é a
nossa cara
Escaveirada.
Até que a
terra
Com sua
garra
Nos rasgue a
máscara.
(poeta
carioca falecido faz hoje 22 anos)
domingo, abril 14, 2013
O ESPELHO
Embrenhei-me
na selva dos sentidos
à procura de
um espelho
que me
ofertasse paz e poesia
em ninho de
tempo oculto.
Espelho só
meu
sem mancha
ou distorções
puro brunido
ensimesmado,
de ver-me
todo num bater de pálpebra,
a realidade
numa só figura.
Procurei-o
na terra do sem-fim
remota e
noturna
onde tudo o
que há principia.
Procurei-o
nos desvãos das matas,
oculto sob
as pérolas do orvalho
no filete de
água que murmura
antecipando
o reboar do oceano.
Procurei-o
no sol, nas nuvens,
no vôo
errante das aves
na terra
gorda que tudo absorve,
nas teias,
nos ninhos, nas colmeias.
E o espelho
foi surgindo no meu peito
à medida da
angústia e da procura,
espelho
igual aos demais espelhos.
(escritor
paulista falecido faz hoje 7 anos)
sábado, abril 13, 2013
A ÁRVORE DOS
DESEJOS
Recordei-a
como a árvore dos desejos que morreu
E vi-a
subir, inteira, até ao céu,
Deixando um
rasto de tudo o que se cravara
Por cada
carência, uma e outra vez, na têmpera
Da sua casca
e sâmago: moeda, alfinete e prego
Desfraldaram
dela como uma cauda de cometa
Recém-cunhada
e dissolvida. Tive uma visão
De uma
ramada aérea atravessando húmidas nuvens,
De rostos
erguidos, onde a árvore estivera.
(poeta
irlandês que hoje faz 74 anos – Nobel 1995)
(tradução de Rui Carvalho Homem)
sexta-feira, abril 12, 2013
A FLOR DA
CHUVA...
... e a flor
da chuva no capim
tem mais
perfume
abertas bem
abertas estão as mãos
para abraçar
esta manhã sem nuvens
ontem (não
importa já o pôr-do-sol nas buganvílias)
ontem
(murchas estão agora as flores
das coisas
que eram coisas nada mais)
ontem havia
medo até no caminhar das rolas sobre a areia.
A poesia de
hoje é a voz do povo
todo o
mundo o mundo até de algum silêncio
persistente
quer romper
a mancha que da noite inda nos fala.
Oh admirável
sangue a pulsar em cada estrela
o sol é
negro e ilumina
a imensidão
deste perfume
que nos traz
a flor da chuva
o sol é
negro e brilha dos vulcões
de cada
peito independente.
Madrugada de
fevereiro.
Sou
angolano!
(escritor
angolano que hoje faz 77 anos)
quinta-feira, abril 11, 2013
DIZEM
Quando nasci
tinha uma faca na mão.
Dizem: é
poesia.
Mas peguei
na pena, melhor ainda que a faca.
Nasci para
ser homem.
Alguém
soluça uma felicidade apaixonada.
Dizem: é
amor.
Chama-se ao
teu seio, simplicidade das lágrimas!
Só contigo
eu brinco.
Não recordo
nada e também nada esqueço.
Dizem: como
é possível?
O que deixo
cair mantém-se sobre a terra.
Se o não
encontro, tu o encontrarás.
A terra me
aprisiona, o mar me dilacera.
Dizem: um
dia morrerás.
Mas dizem-se
tantas coisas a um homem
que nem
sequer respondo.
(poeta
húngaro nascido faz hoje 108 anos)
Tradução de Egito Gonçalves
quarta-feira, abril 10, 2013
Aninha e
suas pedras
Não te
deixes destruir…
Ajuntando
novas pedras
e
construindo novos poemas.
Recria tua
vida, sempre, sempre.
Remove
pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua
vida mesquinha
um poema.
E viverás no
coração dos jovens
e na memória
das gerações que hão de vir.
Esta fonte é
para uso de todos os sedentos.
Toma a tua
parte.
Vem a estas
páginas
e não
entraves seu uso
aos que têm
sede.
(poetisa
goiana falecida faz hoje 28 anos)
Meu país
desgraçado
Meu país
desgraçado!...
E no entanto
há Sol a cada canto
e não há Mar
tão lindo noutro lado.
Nem há céu
mais alegre do que o nosso,
Nem
pássaros, nem águas…
Meu país
desgraçado!...
Por que
fatal engano?
Que
malévolos crimes
teus
direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça
pendida, mãos caídas,
de olhos sem
fé
- busca,
dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da
miséria se te esconde.
E em nome
dos direitos
que te deram
a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem
dó
com o lume
do teu antigo olhar.
Alevanta-te,
Povo!
Ah!, visses
tu, nos olhos das mulheres,
a calada
censura
que te
reclama filhos mais robustos!
Povo anémico
e triste,
meu Pedro
Sem sem forças, sem haveres!
- olha a
censura muda das mulheres!
Vai-te de
novo ao Mar!
Reganha tuas
barcas, tuas forças
e o direito
de amar e fecundar
as que só
por Amor te não desprezam!
(Sebastião
da Gama nasceu faz hoje 89 anos)
terça-feira, abril 09, 2013
Memória de
Adriano
Nas tuas
mãos tomaste uma guitarra.
Copo de
vinho de alegria sã
Sangria de
suor e de cigarra
que à noite
canta a festa da manhã.
Foste sempre
o cantor que não se agarra
O que à
Terra chamou amante e irmã
Mas também
português que investe e marra
Voz de
alaúde e rosto de maçã.
O teu
coração de oiro veio do Douro
num barco de
vindimas de cantigas
tão generoso
como a liberdade.
Resta de ti
a ilha de um Tesouro
A jóia com
as pedras mais antigas.
Não é
saudade, não! É amizade.
José Carlos Ary dos Santos
segunda-feira, abril 08, 2013
"ABANDONO
VIGIADO"
Ler O'Neill
Aqui na
prisão,
É como
cuspir na careca dum burguês
(Francês,
português ou angolês,
Tanto fez ou
faz...)
Empanturrado
de consideração...
Portanto,
meu rapaz,
Desculpa a
sem cerimónia,
E puxa-me da
cachimónia,
0 sumo de
limão
Do verso que
te apraz...
(poeta
angolano que hoje faria 80 anos)
domingo, abril 07, 2013
Esperança
Esperança:
isto de
sonhar bom para diante
eu fi-lo
perfeitamente,
Para diante
de tudo foi bom
bom de
verdade
bem feito de
sonho
podia
segui-lo como realidade
Esperança:
isto de
sonhar bom para diante
eu sei-o de
cor.
Até reparo
que tenho só esperança
nada mais do
que esperança
pura
esperança
esperança
verdadeira
que engana
e promete
e só
promete.
Esperança:
pobre mãe
louca
que quer pôr
o filho morto de pé?
Esperança
único que eu
tenho
não me
deixes sem nada
promete
engana
engano que
seja
engana
não me
deixes sozinho
esperança.
(Almada
Negreiros nasceu faz hoje 120 anos)
sábado, abril 06, 2013
ENCENAÇÕES E
QUASE VOOS
Uma luz
construída
ilumina
esses
santos,
cada um sem
o halo,
mas pombo
circundante
na cabeça
São quatro
santos no cimo
da igreja,
e cada um
dos pombos escolheu
a face mais
marcada,
os caracóis
de pedra
que fossem
mais macios
Talvez não
sejam santos,
mas
apóstolos, tão de barroco,
e o seu
gosto a vestir:
um excesso
de desvio
quase pecado
Apóstolos ou
santos,
os pombos
circundantes na cabeça
são halos
delicados
que,
julgando-se em céu,
vêem quase
metade da cidade,
a meio: o
rio e os telhados
de casas
Fingindo-se
de mão a abençoar,
são adereço
de um teatro
inteiro:
caos
encenado
ou um perfil
egípcio
E os
caracóis solenes e sombrios
convidam ao
pecado
e
convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez
do olhar:
Eu não
poder,
em pedra,
abrir as
asas
(poetisa
portuguesa)
sexta-feira, abril 05, 2013
Antissoneto
O nosso
drama de portugueses,
O nosso
maior drama entre os maiores
Dos dramas
portugueses,
É este apego
hereditário à Forma:
Ao modo de
dizer, aos pontinhos nos ii,
Às virgulas
certas, às quadras perfeitas,
À
estilística, à estética,à bombástica,
À chave de
ouro do soneto vazio
- Que põe
molezas de escravatura
Por dentro
do que pensamos
Do que
sentimos
Do que
escrevemos
Do que
fazemos
Do que
mentimos.
(poeta
lisboeta nascido faz hoje 106 anos)
quinta-feira, abril 04, 2013
O que faz um
poema ser um poema?
Não é a rima
das palavras no fim da linha
Não é a
forma
Não é a
estrutura
Não é a
solidão
Não é o
espaço
Não é o céu
Não é o amor
Não é a
luminosidade
Não é o
sentimento
Não é a
metrificação
Não é a época
Não é a
intencionalidade
Não é o
desejo
Não é a
temperatura
Não é a
esperança
Não é o
assunto escolhido
Não é a
morte
Não é o
nascimento
Não é a
paisagem
Não é a
relação de palavras
Não é o que
há entre as palavras
Não é o
cronômetro
Não é o...
É o tempo
(poeta
estado-unidense que hoje faz 63 anos)
Tradução:
Marília Garcia
Ir
Reverência
Senhor do
indigesto
do
estarrecido
do
insuportável
Senhor dos
desgarrados
dos
destemidos
dos
desgraçados
Senhor do
diferente
do errado
do incerto
Senhor dos
desertos
Sois o mesmo
da coisa certa
Que me
acerta o peito
Quando me
perco?
Senhor do
esterco!
(escritora
sergipiana que hoje faz 66 anos)
quarta-feira, abril 03, 2013
CANTO DO
AFOGADO
O que fui,
as águas não devolvem.
No sumidouro
me perdi.
Os amigos
procuram um corpo entre as sarças.
Trazem
roupas de banho, redes novas,
escafandros
nos bolsos. Eles não sabem
que o
afogado sonha entre as anêmonas.
O pássaro
entende os caminhos do mar,
o galo da
manhã conhece a estrela,
mas vós,
amigos, ignorais a face
imóvel sob
as águas.
Ó cordeiros
da infância,
no olho do
peixe está a origem.
(poeta
mineiro nascido faz hoje 102 anos)
terça-feira, abril 02, 2013
Domingo
Acordámos
com o céu encostado
no ouvido,
nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a
partir do alto das montanhas.
E aqui
continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois
miúdos que não têm para onde ir.
Estamos
presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes
nem alegres, metidos no roupão
e nos
chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O
mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã.
Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os
dentes com a ponta da navalha.
(poeta
vila-realense que faz hoje 47 anos)
segunda-feira, abril 01, 2013
O Operário
Sobre os
meus ombros
recebo a
carga
e chego à
fábrica.
Com minha
farda,
limpa de
graxa,
eu movimento
o
descompasso
da vossa
estrada.
Agito a
máquina,
registro a
marca
de meu
trabalho.
Sobre os
meus ombros
nada desaba.
Produzo o
tempo,
produzo o
uso
dos meus
comparsas.
Não danço,
embora mexa
meu corpo
que vai e
volta.
Mexo meus
braços,
seguro a
mola
que me
assalta
atrás da
porta
da vossa
tática.
(poeta
paulista nascido faz hoje 80 anos)
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