How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quarta-feira, fevereiro 20, 2013
Amizade
Uma criança
muito suja atira pedras a um cão. O cão
não foge. Esquiva-se e vem até
junto da criança
para lhe lamber o rosto.
Há, depois,
um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a
mãozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão,
pela rua estreita,
em direcção ao sol.
(poeta
albicastrense que hoje faz 77 anos)
O BICHO
HARMONIOSO
Eu gostava
de ter um alto destino de poeta,
Daqueles
cuja tristeza agrava os adolescentes
E as
raparigas que os leem quando eles já são tão leves
que passam a
tarde numa estrela,
A força do
calor na bica de uma fonte
E a noite no
mar ou no risco dos pirilampos.
Assim,
gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstratos
mas vivos;
Rarefeitos
mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado
nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às
ervas grossas da chuva
E
indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!
Ser a vida e
não ter já vida ‑ era um destino.
Depois, dar
a minha Mãe a glória de me ter tido;
A meu Pai,
vendado de terra, um halo da minha luz; e tocar tudo,
Onde eu
houvesse estado, de uma sagração natural; ‑
Não digo
como as Virgens Aparecidas,
Que tornam
imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como
certo orvalho de que me lembro, em pequeno –
Para lá da
janela a luz cortada por chuva,
E uma prima
que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao
fundo.
Tudo isto, e
vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma
mão de mulher pronta a fingir de asa aberta,
E preguiça,
Impressão de
morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir,
vogando, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor
forrado de desgosto,
Como as
estrelas encobertas,
Que, depois
de girar a nuvem, mostram como estão altas:
Tudo isto
seria aquele poeta que não sou,
Feito graça
e memória,
Separado de
mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das
minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser
voraz que se explora e ilumina.
Mas não. Do
canto necessário
Para me
diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o
nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a
soltar senão uma vaga nota,
E a noite
faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No meu
buraco vil de bicho harmonioso.
Deixarei,
estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem
fremente dos meus dedos num pouco de terra
Estranho
fóssil!
(Vitorino
Nemésio faleceu faz hoje 35 anos)
terça-feira, fevereiro 19, 2013
Tempo de
Poesia
Todo o tempo
é de poesia
Desde a
névoa da manhã
à névoa do
outo dia.
Desde a
quentura do ventre
à frigidez
da agonia
Todo o tempo
é de poesia
Entre bombas
que deflagram.
Corolas que
se desdobram.
Corpos que
em sangue soçobram.
Vidas que a
amar se consagram.
Sob a cúpula
sombria
das mãos que
pedem vingança.
Sob o arco
da aliança
da celeste
alegoria.
Todo o tempo
é de poesia.
Desde a
arrumação ao caos
à confusão
da harmonia.
(Rómulo
Vasco da Gama de Carvalho faleceu faz hoje 16 anos)
De Não Ser,
Sendo Constantemente
Não sou o
mesmo de olhar vazio
e palavra
sem conseqüência usada.
Andei
pesando este medo
em
interrogações do que seria o poeta
ante
estruturas que o antecederam,
cercos de
ferro, fechos de ferro, cercos.
No caminho
de minha volta
esqueci
canções, dupliquei memórias,
e aceito
como verdade humana
que o homem
é um caminho ao homem,
processo e
pouso, caminhante e rota.
(poeta
baiano que hoje faz 72 anos)
segunda-feira, fevereiro 18, 2013
As
Iluminações
Desabo em ti
como um bando de pássaros.
E tudo é
amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é
belo como a luz da terra
na divisão
perfeita do equinócio.
Soma do céu
gasto entre dois hangares,
és a altura
de tudo e serpenteias
no fabuloso
chão esponsálício.
Muda-se a
noite em dia porque existes,
feminina e
total entre os meus braços,
como dois
mundos gêmeos num só astro.
(poeta
alagoano nascido faz hoje 91 anos)
domingo, fevereiro 17, 2013
A poesia que
desce ao poeta
Poeta, ser
estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o,
isolado das cores, das formas e das idéias,
Isolado,
nessa crepuscular solidão que o acompanha.
E é então
que vejo descer sobre ele
Uma como
sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia,
a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande
Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som
infinito, vindo de outras esferas,
Que é a
comunicação miraculosa de outros seres
e de outras
regiões.
poeta pernambucano
nascido faz hoje 115 anos
sábado, fevereiro 16, 2013
A Gente
Nunca Está Só
A gente
nunca está só.
Ou se está
com uma saudade
De um sonho
desfeito em pó;
Ou se está
com uma esperança
De nova
felicidade
No coração
que não cansa...
Sempre uma
sombra com a gente,
Constantemente
Uma
sombra... Boa... ou má...
Só é que
nunca se está.
(poeta
pernambucano nascido faz hoje 125 anos)
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
Sabedoria
Enquanto
disputam os doutores gravemente
sobre a
natureza
do bem e do
mal, do erro e da verdade,
do
consciente e do inconsciente;
enquanto
disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o
momento!
Faze da tua
realidade
uma obra de
beleza
Só uma vez
amadurece,
efêmero
imprudente,
o cacho de
uvas que o acaso te oferece...
(poeta
carioca falecido a 15 de Fevereiro de 1935)
quinta-feira, fevereiro 14, 2013
A PAZ
Se eu te
pedisse a paz, o que me darias
pequeno
insecto da memória de quem sou
ninho e
alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do
silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa
dos frutos, o que me darias
respiração
pausada de outro corpo
sob o meu
corpo?
Perdoa-me
ser tão só, e falar-te ainda
do meu
exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz.
Apenas pergunto: o que me darias
em troca se
ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de
olhos verdes? Um campo de batalha
para nele
gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas
uma faca de fogo, intranquila,
no centro do
coração?
Nada te
peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo
de cinza. Falo de mim,
entrego-te o
meu destino. E a morte vivo
só de
perguntar-te: o que me darias
se te
pedisse a paz
e soubesses
de como a quero construída
com as
matérias vivas da liberdade?
(poeta
louletano que hoje faz 75 anos)
quarta-feira, fevereiro 13, 2013
TEMA DE FOGO
E MAR
Só o fogo e
o mar podem olhar-se
sem fim. Nem
sequer o céu com a s suas nuvens.
Só o teu
rosto, só o mar e o fogo.
As chamas, e
as ondas, e os teus olhos.
Serás de
fogo e mar, olhos escuros.
De onda e
chama serás, negros cabelos.
Conhecerás o
desenlace da fogueira.
E saberás o
segredo da espuma.
Coroada de
azul como a onda.
Aguda e
sideral como a chama.
Só o teu
rosto interminavelmente.
Como o fogo
e o mar. Como a morte.
(poeta
colombiano falecido faz hoje 28 anos)
Tradução José Agostinho Batista
terça-feira, fevereiro 12, 2013
segunda-feira, fevereiro 11, 2013
Palavras
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
(poetisa estado-unidense falecida faz hoje 50 anos)
(tradução de Ana
Cristina César)
Afixado em 11/02/2013
domingo, fevereiro 10, 2013
Quadro
Lá vem nho
Cacai da ourela do mar
Acenando a
sua desilusão
De todos os
continentes!
Ele traz o
peito afogado em maresias
E os olhos
cansados da distancia das horas...
Lá vem nho
Cacai
Com a boca
amarga de sal
A boiar o
seu corpo morto
Na calmaria
da tarde!
Nho Cacai
vem alimentar os seus filhos
Com
histórias de sereias...
Com
histórias das farturas das Américas...
Os seus
filhos acreditam nas Américas
E sabem
dormir com fome...
(poeta
cabo-verdiano que hoje faz 78 anos)
sábado, fevereiro 09, 2013
A fera
Das cavernas
do sono das palavras, dentre
os lábios
confortáveis de um poema lido
e já sabido
voltas
para ela -
para a terra
maleável e
amante. Dela
de novo te
aproximas
e de novo a
enlaças firme sobre o lago
do diálogo,
moldas
novo destino
Firme
penetra e cresce a aproximação conjunta
E ocupa um
centro: A morte, a fera
da vida
te lambendo
(poeta
paraense falecido faz hoje 4 anos)
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
Não Choro
A dor não me
pertence.
Vive fora de
mim, na natureza,
livre como a
electricidade.
Carrega os
céus de sombra,
entra nas
plantas,
desfaz as
flores...
Corre nas
veias do ar,
atrai nos
abismos,
curva os
pinheiros...
E em certos
momentos de penumbra
iguala-me à
paisagem,
surge nos
meus olhos
presa a um
pássaro a morrer
no céu
indiferente.
Mas não
choro. Não vale a pena!
A dor não é
humana.
(José Gomes
Ferreira faleceu faz hoje 28 anos)
O Grande
Momento
A varanda
era batida pelos ventos do mar
As árvores
tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das lágrimas.
Veleiros
seguiam para crepúsculos com as
asas
cansadas e brancas se despedindo,
O tempo
fugia com uma doçura jamais de
novo
experimentada.
Mas o grande
momento era quando os meus
olhos
conseguiam
entrar pela
noite fresca dos seus olhos...
(poeta
carioca falecido faz hoje 48 anos)
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
Insônia
As horas
mortas
morrem em
candelabros
de pé
a sala dorme
recostada
em mal
dormidas
noites
a cama deita
na memória
sonhos
que a
deitaram
a mesa geme
o tilintar
de corpos
os copos
bebem
velho sabor
rançoso
os pratos
roçam
doces
canções
ridículas
os doces
roncam
novo saber
agrícola
a casa varre
a solidão
aos gritos
sobe lá fora
a dor
intestinal
do mundo
treme a
descarga
num estertor
de pranto
rola a viola
em tão
plangente
surdo
os grilos
metem
o dedo
na garganta
o galo
crispa
seu silêncio
fundo
a luz
furtiva
como
num delito
fantasmas
cantam
a
ressurreição
da falha
cachorros
lambem
seu pesadelo
aflito
os gatos
rasgam
a comunhão
da carne
(poeta
paulista que hoje faz 70 anos)
terça-feira, fevereiro 05, 2013
Ao Bater da Chuva
A porta
fechada é uma obsessão.
As vozes
caladas em torno de nós,
as pausas
alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a
descontinuidade do tempo interrompido
dentro da
casa que arrombaram ontem,
no coração
da aldeia do Mazozo.
A chuva cai
em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade
é fria.
As mulheres
já choraram tudo
- A Mãe
Gonga comandou o coro.
Esvaem-se
agora em surdina muda,
que agudiza
o bater da chuva.
Os homens
dizem de quando em quando
um nome
obstinado.
Chamava-se
Infeliz
aquele rapaz
que levaram
ontem
do coração
da aldeia.
A chuva
matraqueia ainda e sempre
na porta
fechada como uma obsessão.
Como ela nos
lembra o som odiado
que dia após
dia
nos
sobressalta!
Como ela
recorda o som da metralha,
que dia após
dia
desce o
morro da Calomboloca
e bate
naquela porta fechada,
obcecada de
protecção!
A gente
conhece o som da metralha
quando ela
vem no fim do dia.
Quando ela
vem, silencia a aldeia,
então, em
sobressalto, o povo diz:
- Foram
fuzilados...
E ninguém
sabe do Infeliz,
aquele rapaz
que levaram ontem...
(escritor angolano,
falecido faz hoje 7 anos)
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Bombas...
Bombas limpas, disseram? E tu sorris
E eu também. E já nos vemos mortos
Um verniz sobre o corpo, limpos, estáticos,
Mais mortos do que limpos, exato
Nosso corpo de vidro, rígido
À mercê dos teus atos, homem político.
Bombas limpas sobre a carne antiga.
Vitral esplendente e agudo sobre a tarde.
E nós na tarde repensamos mudos
A limpeza fatal sobre nossas cabeças
E tua sábia eloqüência, homens-hienas
Dirigentes do mundo.
(poetisa paulista falecida faz hoje 9 anos)
domingo, fevereiro 03, 2013
Viajar
Viajar todas
as vezes
que o corpo
precisar
(fabricar a
viagem de alguma substância
da
glândula).
As lágrimas
são uma necessidade,
assim como o
suor:
que a viagem
também
transforme
seu rosto,
regule a
temperatura do corpo.
Depois, ir.
Ir suspenso,
guiado por tudo
que produzir
os verbos
“fazer chegar”.
Muitas
curvas, montanhas,
encontrar
com surpresa “córrego,
atalho”,
tudo levando à mesma viagem
que já deixa
memória,
mas está por
começar?
Viagem por
onde só a família foi,
viagem que
tem animais, portas,
nomes de
lugares.
E a
persistência
enfática:
continuar.
Febre, sede.
Depois,
voltar?
Induzir a
turva reação
de cores
prolongadas, e partir
para outro
caminho,
à solta.
A viagem
repete o viajante,
e ele não
nota.
(poeta carioca
que hoje faz 40 anos)
sábado, fevereiro 02, 2013
Aos poetas
de café
Aqui se
constrói a cidade de sol:
Alegria e
pão,
Em versos
com rima e tudo
E o mais que
nestes falta.
Aqui morrem
os tiranos,
Expulsam-se
os vendilhões,
Contam-se os
trinta dinheiros
Da venda
Dos outros.
Aqui, ó
cavaleiros de um futuro vermelho
Ou branco,
Talhado a
goles de café,
Aqui,
implacáveis e lúcidos, aguardais
A tal carta
de apresentação.
Mas, ai!,
como tarda,
Como tarda a
carta de apresentação...
(poeta
angolano nascido faz hoje 98 anos)
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
MONÓLOGO E
EXPLICAÇÃO
Mas não
puxei atrás a culatra,
não limpei o
óleo do cano,
dizem que a
guerra mata: a minha
desfez-me
logo à chegada.
Não houve
pois cercos, balas
que
demovessem este forçado.
Viram-no à
mesa com grandes livros,
com grandes
copos, grandes mãos aterradas.
Viram-no
mijar à noite nas tábuas
ou nas
poucas ervas meio rapadas.
Olhar os
morros, como se entendesse
o seu torpor
de terra plácida.
Folheando
uns papéis que sobraram
lembra-se
agora de haver muito frio.
Dizem que a
guerra passa: esta minha
passou-me
para os ossos e não sai.
(Fernando Assis
Pacheco nasceu faz hoje 76 anos)
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