terça-feira, maio 18, 2010

Angels 

Concentrating on an angels nest
that had caught my eye only moments
before, barely loud enough to hear
and whispered only to me. In the
depths of reality we lose our dreams.
I lit a smoke yet couldn’t grasp
its meaning. Utter silence followed,
Disrupted only by the increasing thump
of my heartbeat. Out of the life
known to me I went along. 'Till slowly
I regained consciousness and
the angels were gone.

segunda-feira, maio 17, 2010


Anda, vem

Anda, vem... por que te negas,
Carne morena, toda perfume?
Por que te calas,
Por que esmoreces
Boca vermelha, – rosa de lume!
Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos n'um beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer,
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, – meu amor!

E ouve, mancebo alado,
Não entristeças, não penses,
- Sê contente,
Porque nem todo o prazer
Tem pecado...

Anda, vem... dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos;

Tenho saudades da vida!

Tenho sede dos teus beijos!


*(poeta vítima da homofobia)

domingo, maio 16, 2010

Tempus Fugit

O tempo começa
quando nascem certas flores.
O tempo denso de uma noite,
o seu perfume, a sua ardência,
de uma flor que não pode ver o
dia.
O tempo acaba
quando morrem certas flores.
O tempo evanescente de uma
garoa:
o seu afago, a sua frialdade,
de uma flor que não pode ver a
luz.
O tempo é noite, é bruma:
permanência do escuro entre as
estrelas,
uma passagem de arrepio entre
calores.
O tempo começa e o tempo
acaba,
tudo que dizemos sobre flores,
rápidos, efêmeros, doentes;
nossa mirada, uma miragem,
resvala em jardim, de madrugada.

Fernando Rocha Peres*

*poeta brasileiro

sábado, maio 15, 2010

Crise


Martin Wolf, editor e principal analista económico do Financial Times.
O poeta

Porque as flores florem e o flume flui,
e o vento varre a fúria vã das ruas,
eu desenfurno tudo quanto fui
e me corôo com meus sóis e luas.

Porque o vôo das aves é meu vôo,
e a nuvem é alcáçar que não rui,
paro a mó do pensamento onde môo
a vida, e abro no muro que me obstrui

a áurea, ástrea senda, a porta augusta.
Que me importa se a clepsidra corrói
as praças das infâncias em ruínas?

Poemas são meninos e meninas
ao sol do Pai, que tudo reconstrói.
Poeta é flor e flume em terra adusta.

Fernando Mendes Vianna*

*poeta brasileiro

sexta-feira, maio 14, 2010

Ridicularia e pacovice

Se Cavaco Silva seguiu Bento XVI como chefe do Estado do Vaticano, como parece resultar da sua pose de Presidente da República, numa altura em que Bento XVI agia como Papa, teve uma atitude ridícula e desprestigiante, andando como cão atrás do dono face ao representante de um Estado minúsculo que nem sequer integra de pleno direito a ONU e subvertendo o princípio constitucional segundo o qual Portugal é um estado laico. Se o fez na sua condição de cidadão, devia ter-se “despido” do estatuto de Presidente da República e deixado bem claro que era como simples cidadão que agia.

Como se a promiscuidade demonstrada não fosse suficiente, mais uma vez ficou patente a sua pacovice e curteza de vistas ao manifestar, perante as câmaras da televisão, o seu espanto pelo facto der o Papa ter repetido despachadamente o nome dos seus netos.  Goste-se ou não de Ratzinger - e eu não gosto - é reconhecidamente um homem de cultura, coisa que Cavaco Silva não faz a mínima ideia do que seja. E um homem de cultura, mais a mais com o estatuto que o Papa tem, quando decide dar uma audiência a uma família, prestando-se até a deslocar-se a sua casa, tem de o fazer com a adequada cortesia, pelo que necessita de ter conhecimento antecipado do nome das pessoas que vai encontrar. Alguém acredita que os serviços protocolares do Vaticano não tiveram o cuidado de escrever os nomes dos familiares directos do Presidente (filhos, cônjuges e netos) para que Bento XVI pudesse deles ter conhecimento antecipado? Eu não acredito e nem sequer presido a uma sociedade de amigos do tintol, quanto mais a uma República!
ALTA HORA DE LA NOCHE

Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
porque se detendrá la muerte y el reposo.

Tu voz, que es la campana de los cinco sentidos,
serfa el tenue faro buscado por mi niebla.

Cuando sepas que he muerto di sílabas extrañas.
Pronuncia flor, abeja, lágrima, pan, tormenta.

No dejes que tus labios hallen mis once letras.
Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio.

No pronuncies mi nombre cuando sepas que he muerto
desde la oscura tierra vendría por tu voz.

No pronuncies mi nombre, no pronuncies mi nombre,
Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre.

quinta-feira, maio 13, 2010

Assim vamos...

Aterrissage

Um risco nos íngremes
e queda vertical de reticência de sóis.

Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto 

Tropicão, trambolhão
                      salto
                        pulo
                         rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
                        encarola,
                       desenrola 

e de novo
reta como uma bola, 

           rola... 

ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco... 

UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.

quarta-feira, maio 12, 2010

Ser ou não ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

Melhorou um pouco

"Sempre se soube disso, mas hoje podemos constatar de maneira realmente aterradora: a maior das perseguições contra a Igreja não advém de inimigos externos, mas nasce do pecado no seio da Igreja, e a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender, por um lado, o perdão, mas também a justiça. O perdão não substitui a justiça."

Estas palavras de Bento XVI em resposta a uma pergunta que lhe foi feita no voo que o trouxe a Portugal são um forte desmentido às alegações de altos responsáveis do Vaticano de que havia uma campanha orquestrada contra a igreja a propósito da pedofilia e constituem a mais dura crítica interna escutada até agora. Falta passar das palavras aos actos, despadrar,  desbispar e descardealar os culpados e seus encobridores e entregá-los à justiça dos respectivos países.
Expectativa gorada

Afinal, as portas de Lisboa estavam abertas às 6H45, pelo que tive de puxar pelo cabedal durante o dia todo.

terça-feira, maio 11, 2010

Descanso?

Como o presidente da Câmara de Lisboa entregou a chave da cidade a Ratzinger, amanhã não posso entrar na cidade para trabalhar, pelo que também não vou ver o papa com a camisola do Benfica. Vou já telefonar a um representante do patrão para ir sacar o meu dia de ordenado ao patriarcado.
(In)decisão

Enquanto protelamos a vida passa por nós a correr. 
Séneca

Demasiado tarde e com custos grandemente acrescidos para toda a zona euro, nomeadamente para aqueles que se encontram em situação financeira mais crítica, os eternos irresolutos lá tomaram a decisão que poderá, espera-se, evitar o estrondoso fracasso de todo o projecto europeu. A dona de casa deixou-se convencer pelo saltinhos (e pelo espírito santo de orelha vindo do outro lado do Atlântico), mas o seu titubear de nada lhe serviu, já que os eleitores do maior Estado da Alemanha lhe deram uma lição nas urnas, retirando-lhe a maioria na Câmara Alta. Como diz o velho ditado, accepto damno januam claudere!

segunda-feira, maio 10, 2010

O saque e a crise

A brigada do reumático

Mais de trinta e seis anos depois e por entre as aclamações da imprensa do costume uma nova “brigada do reumático” dirigiu-se ao palácio de Belém. Desta vez constituída não por generais caquécticos mas por uma dúzia de economistas, a maioria senis e todos eles com fortes responsabilidades na situação a que chegou o estado das nossas finanças públicas.

De tão faustoso conclave nada saiu de útil, apenas o apoio ao agravamento das condições de vida da classe trabalhadora mas, amanhã e depois, vamos ver alguns deles a baterem com a mão no peito e a correrem pressurosos no encalço do senhor absoluto do Vaticano. Cui pudor non est, orbi dominator! Amém!

domingo, maio 09, 2010

leve sorriso

vi que nevava em galhos nus
sobre eles inclinava-se piedoso um rosto

subi ao silêncio

soava leve o seu sorriso
de criança muda

meu coração a procurar na abóbada das sombras
a sua morada

e havia luz na alegria
que deixei muito próxima
da fonte do bosque
onde bebi a água mais azul

Maria Costa*

*poetisa mafrense

sábado, maio 08, 2010

Maioria

Se toda a humanidade menos um fosse da mesma opinião, e apenas um indivíduo fosse de opinião contrária, a humanidade não teria maior direito de silenciar essa pessoa do que esta o teria, se pudesse, de silenciar a humanidade.

deusas de ruas  

nem bucólicas nem divinas
nem correm o risco de ser jovens
dormem nas ruas

parecem desenhar o frio
e o futuro

com uma mão entrelaçada ao colo
e outra peregrina do vazio

cópias estelares de virgens  

Maria Azenha*

*poetisa coimbrã

sexta-feira, maio 07, 2010

Liderança

Não é tarefa fácil dirigir os homens; empurrá-los, pelo contrário, é muito simples.

O Último Negócio

Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso,
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
- Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
- Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
- Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas
e fui-me embora.

Anoitecia e a sebe do jardim
estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
- Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
- Posso comprar-te com nada.
Desde que fiz este negócio a brincar,
sou livre.

Rabindranath Tagore, in O Coração da Primavera

(Tradução de Manuel Simões)

quinta-feira, maio 06, 2010

Espírito

Esta flor delicada,
De que me vale?
Só lhe devo o mal!

Esta flor delicada
Que não veio do sangue, nem da raça,
É a minha desgraça.

Quando eu nasci beijou-me a luz de um astro
Que se apagou na madrugada...

Ai de mim! E nasceu esta flor delicada.

Fim da 3ª via?

Cartoon: Peter Brookes/The Times

quarta-feira, maio 05, 2010

Filosofia

Hora de comer - comer!
Hora de dormir - dormir!
Hora de vadiar - vadiar!

Hora de trabalhar?
- Pernas pro ar que ninguém é de ferro!


*poeta pernambucano
Sócrates e Passos



terça-feira, maio 04, 2010

Certa vez

Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Eu era um estudante de direito,
Tu eras uma simples normalista:
Podíamos, portanto, meu tesouro,
Fazer, como fizemos, sem desdouro,
Essa loucura que hoje te contrista.

Com que emoção — recordas? — com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.

Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos... Sorriste... E aí, num assomo,
As nossas bocas, sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!


* poeta paulista

segunda-feira, maio 03, 2010

Citações roubadas

Quem é original neste mundo? Quem tem o dom inimitável? Quem é capaz de dormir em paz, com a certeza de não ter copiado a palavra do outro, o pensamento do vizinho, a idéia do colega?  

Desisti dessa pretensão de dizer o que ninguém disse antes. De fazer a abordagem que não deixasse margem à dúvida de que eu (este eu que é meu!) penso por conta própria.  

Bela ilusão achar que vou achar um modo inconfundível de escrever. Bela vaidade de fugir à vaia que todos os plagiadores merecem, em meio a alguns aplausos... Bela pretensão que me provoca essa tensão diária, e que aumenta um pouco minha pobre auto-estima.  

Eu, com boas ou más intenções, não importa, sei perfeitamente o quanto é belo e inútil o meu esforço. O esforço de jamais repetir o que outros já produziram em verso e prosa é um esforço belo e inútil. Inútil e belo.  

No entanto, há um jeito que dê jeito nessa história mais ou menos bem contada. Se não posso ser original, que ao menos aproveite a originalidade alheia, com a consciência (pesada!) de quem sabe que nada vem do nada.  

Por isso eu aviso, e dispenso as aspas e o anticaspa. As citações abaixo foram roubadas, furtadas, arrebatadas de outros escritores, pensadores, de outros autores, de pessoas conhecidas ou anônimas.  

Foram roubadas de vocês, de todos nós:  

Cito, logo existo.  

A ocasião faz a citação.  

Só sei que não sei citar a mim mesmo.

Minha terra tem palmtops onde canta, como nunca, Michael Jackson.  

Citar os outros é pensar por conta alheia, e roubar citações sem dizer quem as inventou... é atuar por conta própria.  

Ler é ingressar num mundo de vitórias e derrotas, no qual os sentimentos mais variados vêm à tona.  

Escrever é lembrar-se... para enfim esquecer.  

Cuidado com o que você diz: as suas mentiras podem se tornar a verdade dos outros.  

A vida em sociedade obriga-nos à informação mútua, ou nos tornaremos uns espiões dos outros.  

A primeira coisa a entender com urgência é que não entendemos tudo.
Citar os outros é não citar a si mesmo, e citar os outros sem revelar autores... é recitar o mesmo.  

Caminhando e citando e perseguindo novas citações.  

Estamos condenados à citação.  

O inferno é a citação dos outros.  

Quem cita por último cita melhor. 


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

domingo, maio 02, 2010

Ser cidadão

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. ..... Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

sábado, maio 01, 2010

Elogio da dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é
                                                           apenas o começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes.
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

 Bertold Brecht

sexta-feira, abril 30, 2010

Falta de Liderança

A liderança é uma poderosa combinação de estratégia e carácter. Mas se tiver de passar sem um, que seja estratégia.

As hesitações da chanceler alemã no que diz respeito ao problema grego mostram que a eurolândia não tem nem estratégia nem carácter para lidar com situações complexas, deixando degradar até quase ao limite do não retorno a situação naquele país e fazendo afundar, também, outros países, como Portugal e Espanha, a que se seguirão a Itália e a Irlanda.

Estivessem à frente dos destinos da zona euro pessoas da craveira de um Delors, de um Miterrand ou de um Kohl, concorde-se muito, pouco ou nada com as suas posições ideológicas, certamente as coisas não teriam chegado a este ponto. Lamentavelmente, temos de continuar a assistir à incapacidade de cada um olhar para lá do seu próprio umbigo.

quinta-feira, abril 29, 2010

Crise Real




























Cartoon: Josetxo Ezcurra
Canção Violeta

Amo o roxo. E vai que fazes?
A luz tamisas de malva
E roxa desponta a alva
Sobre a colcha de lilases.

Roxos alastram os razes.
E tu das-te nua e alva
Lírio roxo numa salva
Sobre a colcha de lilases.

Com suas pestanas pretas
As tuas pálpebras roxas
São duas grandes violetas.

E, por mais gosto da vida,
Depois que a lâmpada afrouxa,
Fez-se a alcova de ametista.

quarta-feira, abril 28, 2010

Um acto de guerra


Da declaração do congressista republicano Ron Paul perante a Câmara dos Representantes, no dia 22 de Abril, acerca da legislação sobre o agravamento das sanções ao Irão.

Horas Mortas

Breve momento após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica
Mas é tão tarde! Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel — rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.


*poeta carioca

terça-feira, abril 27, 2010

Políticos

Existem dois tipos de políticos: os que lutam pela consolidação da distância entre governantes e governados e os que lutam pela superação dessa distância.

Antonio Gramsci

segunda-feira, abril 26, 2010

Pergunta

Será realmente a face do Universo
A face da Medusa,
Esta geral destruição confusa,
Este criar perverso,

Ou será a máscara, álgida e estrelada,
Onde os cometas passam,
Turva de treva, rútila de nada,
E onde olhos se espedaçam?


* poeta carioca

domingo, abril 25, 2010

Cantiga de Abril 

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal

“Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade”

Jorge de Sena


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar! 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura. 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro. 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Essas guerra de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente. 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal. 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena

sábado, abril 24, 2010

Barbarismos


Sendo o Irão propenso a terramotos, com especial incidência na sua capital, onde a cultura está mais ou menos ocidentalizada, o homem pensará, provavelmente, o seguinte: mulheres com a cara e cabelo à mostra, atraem terramotos de magnitude 6 na escala de Richter; se usarem saias pelos joelhos, a intensidade passará a 7; a base dos seios à mostra dará pelo menos 8; se se atreverem a vestir minissaia, a magnitude passará dos 9; e se não vestirem calcinhas, seja por opção seja por não terem dinheiro para as comprar, Teerão será erradicada do mapa.

Só de pensar que na nossa pretensamente evoluída civilização ocidental ainda há quem pense de forma semelhante, dá-me arrepios.

De palavra em palavra

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia

sexta-feira, abril 23, 2010

“Madurezas”

Um “maduro” de West Hartford, no Connecticut, que andava em disputa com uma vizinha, decidiu fazer uma aposta arriscada para a atormentar: colocar um falso anúncio de “sexo em grupo” no sítio da Craigslist, como se o mesmo fosse da autoria da referida vizinha e com a indicação da sua morada. A coisa não correu conforme o esperado e a polícia chegou até ao verdadeiro autor, prendendo-o e obrigando-o a pagar 75.000 dólares para aguardar o julgamento em liberdade. Sendo o homem cozinheiro, é caso para dizer que entornou o caldo e deixou esturrar a massa. É que há brincadeiras que não têm qualquer graça.
AUTO-RETRATO

Entre a espuma e a navalha sou legenda
O espelho neutraliza o ângulo da morte,
a barba estrangulou a metafísica
e o problema do mal é bem remoto.
Aqui sim!
Aqui resistirei à mímica,
ao dicionário e ao laboratório !
- a herança do punhal brilha de novo
- o fantasma de Abel não me intimida.
Vejo a testa crescer
entre espirais de fumo,
o olhar que não vacila,
da ruga a pré-história
e o peito rasgado
pela fúria do poema.

Aqui sim,
aqui iniciarei a espécie nova,
aqui derrotarei o homem-harpa
e pronto estou para a descoberta do sexo.
O pincel dá-me o poder do patriarca,
a navalha redua a timidez e o medo,
o palavrão rola na boca e salva o mundo.


*poeta brasileiro

quinta-feira, abril 22, 2010


Canção Mínima

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

quarta-feira, abril 21, 2010


Um banqueiro é um homem que te empresta o chapéu de chuva quando faz sol e que to tira quando começa a chover.

Bombas...

Bombas limpas, disseram? E tu sorris
E eu também. E já nos vemos mortos
Um verniz sobre o corpo, limpos, estáticos,
Mais mortos do que limpos, exato
Nosso corpo de vidro, rígido
À mercê dos teus atos, homem político.
Bombas limpas sobre a carne antiga.
Vitral esplendente e agudo sobre a tarde.
E nós na tarde repensamos mudos
A limpeza fatal sobre nossas cabeças
E tua sábia eloqüência, homens-hienas

Dirigentes do mundo.

terça-feira, abril 20, 2010

segunda-feira, abril 19, 2010

O exemplo das rosas

Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:
- Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
- Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?

domingo, abril 18, 2010

Apocalipse

As velas estão abertas como luzes.
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.

sábado, abril 17, 2010

A imprensa livre



























Cartoon: Pedro Mendez
Poeminha Triste

Nem chuvas nos campos
nem encantos na vida
nem sonhos em lugar algum.
Dobro as esquinas dessa avenida
e devagar caminho pelos passeios desertos
onde encontro os solitários e viajantes da noite.

Debruço sobre os entulhos de uma construção
minhas palavras que já foram poemas
e enfeitaram os jardins de algum sonhador;
Nada de novo,
nada de falso nem de verdadeiro
as coisas simplesmente passam porque tem que passar;

Pobre é essa noite que já nasceu sem graças
e não inspirou nem uma poesia
e vai morrer sem saudades...

Fernando Mendes Rosendo*

*poeta brasileiro

sexta-feira, abril 16, 2010

Políticos

Eu continuo a ser uma coisa só, apenas uma coisa - um palhaço, o que me coloca em nível bem mais alto que o de qualquer político.

quinta-feira, abril 15, 2010

Ao Tempo

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?


*poeta brasileiro

quarta-feira, abril 14, 2010

Criminosos relapsos












O coronel Lawrence Wilkerson, antigo chefe do pessoal do general Colin Powel enquanto Secretário de Estado no primeiro mandato do Sr. W., declarou recentemente que George W. Bush, Dick Cheney e Donald Rumsfeld encobriram o facto de centenas de inocentes terem sido enviados para a prisão de Guantánamo porque temiam que libertá-los pusesse  em causa o seu esforço para invadir o Iraque bem como a sua mais ampla guerra ao terror. Afirmou, também, que a maioria dos detidos – desde crianças de 12 anos até idosos de 93 – nunca viu um soldado estado-unidense aquando da sua detenção porque muitos foram tansaccionados como mercadoria por afegãos e paquistaneses a 5.000 dólares por cabeça.

Mais uma clara manifestação da “democracia” com que se cose a maioria dos nossos políticos, “fazedores de opinião” e paladinos da “liberdade de imprensa”, sempre atentos, veneradores e obrigados àquele trio de facínoras.

Imagem: Andres Leighton/AP

terça-feira, abril 13, 2010

Moral

Os moralistas são pessoas que coçam onde os outros têm comichão.

Limpeza étnica

Uma nova ordem militar israelita transforma em crime, punível com pena de prisão até 7 anos, o simples facto de alguém viver na Cisjordânia sem autorização.


Assim vão os “direitos humanos” e a “democracia” numa terra ilegalmente ocupada por um estado terrorista com o aval do ocidente. E os terroristas são os outros!

segunda-feira, abril 12, 2010

a mais clara estrela

os olhos vão tão longe

procuram-te no rasgo do espaço
na mais clara estrela

e já na lâmina acesa
do meu sono pergunto:
- onde pousa a voz?

de súbito desliza o branco
iluminado
no secreto sopro

Maria Costa

(poetisa mafrense)
Competência

Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

domingo, abril 11, 2010

Florismundo

Mundo,
imundo
e mudo,
muda!
Muda e,
em muda,
te faz flor.

Fernando José dos Santos Oliveira*

*poeta brasileiro

sábado, abril 10, 2010

Eu Voltarei

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei...

sexta-feira, abril 09, 2010

O Asco da Imprensa

É impossível percorrer uma qualquer gazeta, seja de que dia for, ou de que mês, ou de que ano, sem aí encontrar, em cada linha, os sinais da perversidade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as presunções mais surpreendentes de probidade, de bondade, de caridade, a as afirmações mais descaradas, relativas ao progresso e à civilização.
Qualquer jornal, da primeira linha à última, não passa de um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, impudicícias, torturas, crimes dos príncipes, crimes das nações, crimes dos particulares, uma embriaguez de atrocidade universal.
E é com este repugnante aperitivo que o homem civilizado acompanha a sua refeição de todas as manhãs. Tudo, neste mundo, transpira o crime: o jornal, a muralha e o rosto do homem.
Não compreendo que uma mão pura possa tocar num jornal sem uma convulsão de asco.

Charles Baudelaire, in Diário Íntimo