sexta-feira, março 26, 2010

A VOZ  E O VENTO

com palavras faço a voz
e o vento
de que viajam e são

insistente desejo a lucilar
sobre a pele morna
de girassóis filtrando
teu rosto
seios
paisagem nua de ventre
com palavras a voz do que faço

estes dias infensos
a pendor de gume

quinta-feira, março 25, 2010

Pornografia dispendiosa



















Enquanto os “magos” de Wall Street  se entregavam aos jogos de azar que conduziram à crise económica mundial, vários empregados da SEC que deveriam estar atentos ao que se passava nas bolsas de Nova Iorque dedicavam-se ao “árduo trabalho” de navegar pelos mais variados sítios pornográficos a partir de computadores do Governo. Grandes reguladores!

quarta-feira, março 24, 2010

Arco-Íris

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."

De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.

Bidenismo


Palavras do vice-presidente Joe Biden para Barack Obama, com o microfone aberto, depois de fazer a apresentação do Presidente no início da cerimónia da assinatura da nova Lei dos Cuidados de Saúde. Frase que não é tão invulgar como isso na boca de vice-presidentes dos Estados Unidos.

Se aquele “porreiro, pá” de Sócrates para Barroso deu tanta polémica, imagino o que teria acontecido com um “grande f***, meu!. Foi um acordo do ca***** ”.

terça-feira, março 23, 2010

Catacumbas

Somos argila, noite
onde os dedos se afundam,
hemorragia de espantoso silêncio
nas galerias do corpo.

O resto,
o resto é pura perda
e transitória insônia.

Hélio Pellegrino

segunda-feira, março 22, 2010

Editor de jornal

Um editor de jornal é alguém que separa o joio do trigo - e publica o joio. 

domingo, março 21, 2010

Abstração

busco palavras
no escaninho 
da memória

e o poema 
dorme ao lado 
numa pose 
transitória

sábado, março 20, 2010

Responsabilidade

É fácil se livrar das responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por ter se livrado delas.

Desmandamento

eu tardo
mas falho

ou não falho
ao tardar
em falhar

sexta-feira, março 19, 2010

Freiras rebeldes

Num claro desafio  aos bispos do país, que se opõem  à reforma do sistema de saúde alegando que o dinheiro dos contribuintes estado-unidenses iria financiar abortos, o que é redondamente falso, cerca de 60 freiras líderes de ordens religiosas que representam 59.000 freiras católicas enviaram, na passada quarta-feira, uma carta aos congressistas instando-os  a aprovar a proposta de lei do Senado.


Independentemente da maior ou menor bondade da proposta de lei em causa que, apesar de tudo, irá cobrir mais 32 milhões de pessoas, a carta é uma “pedrada no charco” num país em que a maioria das pessoas religiosas são altamente conservadoras e retrógradas. 

quinta-feira, março 18, 2010

Morrer de sede

Estrangeiro que fui no meu país,
saltei fronteiras a tentar a sorte.
Estrangeiro que sou, perdi o norte,
corri o mundo, não deitei raiz.
É meu rasgado e velho passaporte
a sede antiga, esta cicatriz
queimadura que diz e contradiz
a pátria calcinada até à morte.
Mas torno sempre ao lar: fornalha, frágua,
cinzas e pedras sob cada ponte.
Orvalho, quando o há, é só de mágoa.
E quando exijo ao verde que desponte
e vem Abril abrir-se em olhos d'água,
vou eu morrer de sede ao pé da fonte.

quarta-feira, março 17, 2010

Poesia atrasada

Em 14 de março algumas pessoas comemoraram o Dia Nacional da Poesia. Para mim, dia de jejum e abstinência. Não festejei com um verso sequer, com uma rima sequer. Fiz o mais silencioso silêncio, dediquei minhas melhores horas a estudar a nova ortografia, fingi que não sabia de nada.  

A poesia é um atraso. Poetas sofrem demais. Amam demais. Vêem demais. E depois ficam sonhando com empregos públicos, ou com a possibilidade de darem aulas em faculdade, ou, pior, com a justa remuneração por suas metáforas e aliterações.  

Eu já quis ser poeta. Era um adolescente. Passou. Virei a página sem derramar uma lágrima. Esqueci. Abandonei essa veleidade. Por certo tempo um desejo envergonhado ainda permaneceu guardado por aqui, nas entranhas. Desapareceu definitivamente quando comecei a pagar contas de luz, telefone, aluguel, seguro de vida, faturas e outras loucuras.  

Não convém atrasar o pagamento das contas. As multas, as cartas ameaçadoras, os telefonemas constrangedores recomendam o esforço da pontualidade. Poesia eu posso atrasar à vontade. Nenhuma daquelas antigas musas virá correndo, apavorada, lembrando que chegou o dia. A poesia, por definição, está vencida. Ninguém será punido se não pagar o tributo do verso aos deuses insaciáveis.  

Morrerão de fome os deuses, se dependerem de um soneto meu, de um dístico, de qualquer coisa que cheire a poesia. Os editores que ainda ousam publicar poesia morrerão de fome também. Que aguardem para nunca mais o meu livro de poemas.  

Poesia que se preza é poesia atrasada, póstuma, relegada, vítima da sociedade de consumo, da globalização, da corrupção crônica, da excomunhão compulsória, dos juros, das xenofobias, dos preconceitos mais bizarros.  

Ninguém pede poesia a ninguém. Exceto os que fazem agendas para ganhar dinheiro com a emoção alheia. A poesia está atrasada. Quando chegou, a festa já havia acabado. Quando chegou, não havia ninguém esperando coisa alguma. Poesia vive atrasada porque não anda em dia.  

Nem no seu dia nacional a poesia veio. Onde está a poesia? — ninguém perguntou. A poesia passou a noite em claro, procurando motivos para dormir, acordar cedo, sair para o trabalho, alcançar metas de produtividade, mostrar sua preocupação com a ecologia, com os excluídos.  

Mas não será ela mesma uma excluída? E por opção? Mendiga que se recusa a ser recolhida, reintegrada, recuperada, readaptada?  

O poeta espera a poesia chegar. E ela sempre, sempre belamente atrasada.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

terça-feira, março 16, 2010

Cântico do País Emerso*

Os previdentes e os presidentes tomam de ponta
Os inocentes que têm pressa de voar
Os revoltados fazem de conta fazem de conta...
Os revoltantes fazem as contas de somar.

Embebo-me na solidão como uma esponja
Por becos que me conduzem a hospitais.
O medo é um tenente que faz a ronda
E a ronda abre sepulcros fecha portais;

Os edifícios são malefícios da conjura
Municipal de um desalento e de uma Porta.
Salvo a ranhura para sair o funeral
Não há inquilinos nos edifícios vistos por fora

Que é dos meninos com cataventos na aérea
Arquitetura de gargalhadas em cornucópia?
Almas bovinas acomodadas à matéria
Pastam na erva entre as ruínas da memória,

Homens por dentro abandalhados em unhas sujas
Que desleixaram seu coração num bengaleiro;
Mulheres corujas seriam gregas não fossem as negras
Nódoas deixadas na sua carne pelo dinheiro;

Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa
Passam por mim como alamedas de ciprestes
E a flor de cinza da juventude é uma aresta
Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres

essa ansiedade de mim mesma me virgula
aula de pátria entressonhada. É um crisol.
E, o fruto agreste da linfa ardente que em mim circula
Sabe-me a sol.  Sabe-me a pássaro.  Pássaro ao sol.

Entre mim e a cidade se ateia a perspectiva
De uma angústia florida em narinas frementes. 
Apalpo-me estou viva e o tacto subjectiva-me
a galope num sonho com espuma nos dentes.

E invoco-vos, irmãos, Capitães-Mores do Instinto!
Que me acenais do mar com um lenço cor da aurora
E com a tinta azulada desse aceno me pinto.
O cais é a urgência.  O embarque é agora.


*(pequeno excerto)

segunda-feira, março 15, 2010

O celibato


















Qualidades do bispo - É digna de fé esta palavra: se alguém aspira ao episcopado, deseja um excelente ofício. Mas é necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, ponderado, de bons costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar; que governe bem a própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da igreja de Deus?

Paulo-1ª Carta a Timóteo (Cap.3:1-2,4-5) – Bíblia dos Capuchinhos

Porque é que uma Igreja que dá uma enorme importância a tudo o que Paulo de Tarso escreveu, ao ponto de partes das suas Cartas serem leitura  obrigatória na quase totalidade das missas dominicais em todo o mundo e da passagem sobre o amor da sua carta aos Coríntios ser a leitura e base da homilia em todos os casamentos canónicos, e que até fez de 2008-2009  Ano Paulino, continua a fazer finca pé no celibato obrigatório dos sacerdotes?

No passado dia 10 de Março, Christoph Schonborn, cardeal austríaco arcebispo de Viena, teólogo conservador e unha com carne com Bento XVI, levantou um enorme burburinho em vários sectores conservadores e no Vaticano, ao defender, no magazine da diocese, que o a questão do celibato devia ser reanalisada à luz dos escândalos de pedofilia que têm vindo a público, já que o mesmo pode ser uma das causas das inqualificáveis acções predatórias que têm vindo a ser reveladas.

Christoph Schonborn não é o primeiro a sugerir uma ligação entre o celibato e a pedofilia, pois o teólogo (infelizmente “maldito”) Hans Küng já o tinha feito. Será que agora alguém vai prestar atenção, ou vão limitar-se a negar o óbvio, como já começamos a ouvir?


Cartoon: Peter Brookes/The Times

domingo, março 14, 2010

Candidatos em congresso


Imagem: Mitchell Krog/National Geographic
Variação 
    
Uma eternidade, mesmo se a tivesse nos dedos,
seria pouco para o tempo que a chuva demora
nos teus lábios: quase o tempo de
um pássaro rondar as rosas, e morrer.  
   
Francisco José Viegas,  in "Metade da Vida"

sábado, março 13, 2010

sexta-feira, março 12, 2010

Anjo de outrora

O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.

Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.


*poeta e romancista brasileiro
Preto no branco


Fernanda Câncio, no DN de hoje

Nem sempre concordo com a jornalista, mas hoje estou de acordo e reconheço que quem fala assim não é gago.

quinta-feira, março 11, 2010

Ansiedade

Quero compor um poema
onde fremente
cante a vida
das florestas das águas e dos ventos.

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos
e rasgue nevoeiros - escancarando sóis!

Manuel da Fonseca, in Poemas Dispersos

quarta-feira, março 10, 2010

PECPEC, PEC, PEC...


Cartoon: Josetxo Ezcurra
Paisagem


Entardecer... capim nas costas
do negro reluzente
a caminho do terreiro.
Papagaios cinzentos
explodem na crista das palmeiras
e entrecruzam-se no sonho da minha infância,
na porcelana azulada das ostras.
Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar
com os seus frutos dourados e duros
como pedras oclusas
oscilando no ventre do tornado,
sulcando o céu com o seu penacho
doido.
No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.
E uma figura de linhas agrestes
se apodera do tempo e da palavra.

terça-feira, março 09, 2010

São Rosas

Esta posta era para ser afixada ontem, como é meu hábito, mas o fornecedor da internete não me deixou “assapar” imagens nem visitar nenhum blogue. Aqui ficam as rosas, mesmo com um dia de atraso, pois o que conta é a intenção.












































segunda-feira, março 08, 2010

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, março 07, 2010

Os gandaieiros

Catadores é o termo com que os brasileiros se referem a pessoas que, por falta de alternativas no mercado de trabalho, se dedicam a vasculhar o lixo à procura de coisas que possam valer algum dinheiro. É um tipo de trabalho que muitos olham com desprezo, mas que aqueles que a ele se dedicam vêem, com toda a razão, como uma boa alternativa ao gamanço.

Não quero ser indelicado com membros de uma tal Comissão de Ética e seus convocados apelidando-os de catadores o que, para além dos próprios, poderia ofender os que se dedicam a tão duro ofício. Como a língua portuguesa, para além de muito traiçoeira, é riquíssima, prefiro aplicar-lhes o sinónimo gandaieiros (eu sei que também se aplica aos que andam na vadiagem, o que não é o caso), já que gandaia, na definição do dicionário consultado é, também, o acto de remexer o lixo à procura do que nele se pode aproveitar.

Pelo que me tenho apercebido, há alguns gandaieiros que têm uma maneira muito típica de gandaia já que, em vez de procurarem no meio do lixo aquilo que se pode aproveitar, dedicam o seu tempo a manobras abertamente escatológicas, tentando encontrar merda - que para eles, pelos vistos, vale ouro - com que possam satisfazer os seus instintos coprófagos. Felizmente as televisões ainda não transmitem o cheiro.

sábado, março 06, 2010

História mal contada

Ainda ninguém conseguiu fazer com que eu entendesse como é que Moniz foi despedido da TVI por não conseguir calar a mulher, levou três milhões de euros - mais de 100 anos de trabalho de um quadro médio/superior de uma empresa privada portuguesa - e foi contratado para vice-presidente da Ongoing (accionista da PT e da Impresa, dona da SIC, entre outros activos), empresa envolvida no alegado plano do governo para amordaçar a mulher dele, Moniz, por cento e cinquenta milhões de euros. Afinal, onde está a propalada crise dos média, quando um antigo fura-greves graduado em director geral e uma locutora de continuidade promovida a “jornalista” por via uterina valem tantos milhões?

quinta-feira, março 04, 2010

Vendam!


















Para "azar" nosso, neste momento não temos para vender. No entanto, como a Grécia tem mais de 1.400 ilhas, das quais apenas 227 são habitadas, sempre há a hipótese de vender umas quantas para pagar a sua dívida e ainda pode emprestar-nos algumas para podermos dar como fiança da nossa.
Um sonho (excerto)

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol, esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Eugénio de Castro, in Oaristos

quarta-feira, março 03, 2010

"A depor" na Comissão de Ética

Fotografia: Olaf Kraak/AFP/Getty Images
Bandeira Branca

E a estrela perdeu-se na noite deserta...
Tentar procurá-la, para quê, se era em vão?
Deixaram-me em casa com a porta aberta.
Mas eu bem compreendo que estou em prisão.

Talvez que pensassem mal imaginário
a mágoa duns olhos em rosto bravio.
Mas eu bem me sinto peixe em aquário,
e sei a amargura de sonhá-lo rio.

Mas eu bem compreendo o cruel desalento
dos gestos frustrados, perdidos no ar.
Foi curta a mensagem, findou meu tormento.
E não vale a pena o que está por contar.

terça-feira, março 02, 2010

Ética

A ética é a estética de dentro, escreveu o poeta francês Pierre Reverdy.  A avaliar pelo que se tem passado na dita Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da AR, quer por parte dos ouvidos quer por parte de alguns dos ouvidores, diria que na sociedade nacional não abunda a cultura e a ética não tem estética nem de dentro nem de fora.

segunda-feira, março 01, 2010

Palavras

Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.

Vergílio Ferreira, in Escrever
Vida

Inteira
no sabor
de uma dor.
Verdadeira
na cor
de uma flor.
Exacta em cada momento,
e no instante do movimento
mentida,
- Vida.

Vergílio Ferreira

domingo, fevereiro 28, 2010

Pensamentos

No tempo da ditadura havia algumas dezenas de jornalistas, pessoas de uma estirpe intelectual fora do vulgar e que mantinham a coluna vertebral direita contra ventos e marés, que utilizavam todos os artifícios da língua para fazerem passar a sua mensagem de liberdade.

Nos dias que correm há centenas de auto-intitulados jornalistas, seres invertebrados rastejantes e intelectualmente abaixo de cão, que utilizam as artimanhas mais ignóbeis para conspurcar e caluniar quem não concorda com aqueles a que se vendem por uns patacos.

Ao tempo do jornalismo sério, pago tantas vezes com prisão e tortura, naturalmente prefiro o tempo dos caluniadores acéfalos e impunes, que agora até se reclamam de defensores de uma tal liberdade de expressão pela qual nunca tiveram de lutar; apenas deixei de cheirar a tinta dos jornais transformados em cloacas de galinhas sem tino. Felizmente, o digital ainda não transmite fedores físicos.
Pesquisa

A gaivota determinada mergulha na água
Verde. Há um tempo para o peixe
E um tempo para o pássaro
E dentro e fora do homem
Um tempo eterno de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
Vi espaços claros, bosques, igapós,
O sumidouro de um tempo subterrâneo
(Patético, mesmo às almas menos presentes)
Vi, como se vê de um avião,
Cidades conjugadas pelo sopro do homem,
A estrada amarela, o rio barrento e torturado,
Tudo tempos de homem, vibrações de tempo,  vertigens.

Senti o hálito do tempo doando melancolia
Aos que envelhecem no escuro das boîtes,
Vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo.
Com uma tensão de nervos feridos
E corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
Sentimos o invisível fender do silêncio,
Um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja
Como o sangue.
Os cães discursam nos quintais, e o vento,
Grande cão infeliz,
Investe contra a sombra.

O tempo é audível; também se pode ouvir a eternidade.

sábado, fevereiro 27, 2010

Poncha da paz
















Disse o imperador da Madeira que estava enterrado o machado de guerra com o governo do contenente.  Como nem ele nem Sócrates devem fumar cachimbo, provavelmente vão para o Pico do Areeiro beber a poncha da paz.
Esta situação

E a senhora dos filhos e dos gritos e da malha
não falha nenhum dia chega sempre à mesma hora
Poderás ser feliz: basta mudar de esplanada
mas acredita não resolve nada
a mesma água vem na mesma calha
e é tudo como antes para aquele que chora:
a mudança é fatal até para a face mudada
Já nela havia rugas e era fresca e corada
A cara da senhora? Não. Mas espera, talvez
o que eu disse estivesse já dito de vez
E eu só amanhã me vou ontem embora

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Jogo sujo

Depois das notícias de que o Goldman Sachs e outros bancos ajudaram a mascarar a dívida pública da Grécia, foi agora posta a nu a existência de um esquema que é uma espécie de pescadinha de rabo na boca ou, como disse um especialista alemão, “é como comprar um seguro de incêndio para proteger a casa do vizinho - cria-se um incentivo para queimar a casa”.

Através de contratos conhecidos como credit-default swaps, os bancos e gestores de fundos de cobertura apostam na bancarrota de uma empresa ou, no caso da Grécia, de um país. Se a Grécia falhar o pagamento da dívida, os que possuírem tais derivados ganham (muito) dinheiro.

Tudo começou em Setembro quando uma pouco conhecida empresa londrina, com o apoio do Goldman Sachs, do JP Morgan Chase e de mais um dúzia de outros bancos lançou um índice (iTraxx SovX Western Europe Índex), criando a tal pescadinha de rabo na boca: à medida que os bancos e outras entidades se apressam a investir naquele derivado, o custo de segurar a dívida grega cresce; alarmados por este sinal de baixa do mercado, os investidores em obrigações fogem das obrigações do tesouro gregas, tornando mais difícil a emissão de dívida para o governo se financiar; isso, por sua vez, aumenta a ansiedade e tudo recomeça, numa espiral de afundamento permanente, como é claramente explicado neste artigo. E se a Grécia se afunda, há outros candidatos a seguirem-lhe o exemplo, a começar pelos outros membros do grupo chamado dos PIIGS (um acrónimo insultuoso que joga com o termo inglês “porcos”) do qual fazemos parte, embora pela minha experiência pessoal sejamos muito menos porcos do que outros que se consideram limpinhos.

Entretanto, pressionada pelo criticismo generalizado dos líderes europeus, a Reserva Federal, numa atitude nunca vista, vai analisar o que andam a fazer a este respeito os malabaristas de Wall Street. Espero que a mão não lhe doa.
A candura

Vê tu, disse eu comigo lendo o Poeta,
quanto é rica e feliz a ingenuidade
e quanto é pobre e vã a sapiência.
Onde a idade ensinou a acautelar-nos
decresceu a fortuna e estreita a vida,
e facilmente desditosa e inerte
basta a nuvem sombria para a deter.
E onde a candura virgem não sonhou
conselhos timoratos da experiência,
logo a vida é perene e esparge bênçãos.
quer o céu brilhe no fulgor do sol,
quer tormentosas nuvens o escureçam.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Na corda bamba

Decorre desde as 10 da manhã (hora de Washington) de hoje uma espécie de cimeira entre Democratas e Republicanos, presidida por Obama e televisionada para todos o país, com vista a encontrar uma solução para a prestação de cuidados de saúde, uma das bandeiras da campanha do actual Presidente.

Goste-se ou não de Barack Obama, é necessário reconhecer que é muito o que está em causa, não só para os Estados Unidos mas também para o resto do mundo.

Por um lado, os Estados Unidos já gastam 17% do seu PIB na prestação de cuidados de saúde, o que corresponde a mais do dobro da média dos países desenvolvidos, e continua a ter perto de 50 milhões de cidadãos fora do sistema, aparecendo no 37º lugar na lista da OMS em termos de cobertura dos cidadãos. Na mortalidade infantil, por exemplo, caíram da 12ª posição, em 1960, para a 30ª, em 2005. Se não for encontrada uma solução que aumente drasticamente a eficiência, prestando cuidados de saúde a muitas mais pessoas com custos significativamente reduzidos, poderá estar em causa a bancarrota de centenas ou milhares de empresas (os males da GM e da Chrysler tiveram a sua origem, em grande parte, na incapacidade de fazer face aos custos com cuidados de saúde contratualmente garantidos aos seus empregados) e, em última instância, do próprio país, o que só alguém completamente louco e fanático poderá desejar.

Por outro lado, se Obama não conseguir fazer aprovar legislação significativa neste particular, dificilmente conseguirá fazê-lo noutras áreas fulcrais da governação, desde o emprego à regulação bancária, passando pela energia, pela responsabilidade orçamental ou outras políticas macro económicas. E todos estamos a sentir na pele aquilo a que pode conduzir a desregulação das instituições financeiras.

O economista e colunista britânico Anatole Kaletsky dá-nos, no Times de hoje, uma panorâmica do que pode estar em causa a nível global se a cimeira de hoje falhar. Para ler e meditar.
Sentir

Amor não é paixão
Às vezes vem de lá
Às vezes, não.

Paixão não é amor
Às vezes chega lá
Às vezes, não.

Sexo não é paixão nem amor
Às vezes toca lá
e às vezes, não.


*poetisa, compositora, escritora, jornalista e intérprete brasileira

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

A cavalo no vento 

A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A palavra

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
              investe
                    perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se
A palavra precisa de ternura

Excesso insuportável de palavras inúteis



Pedro Tadeu, no Diário de Notícias de hoje.

Até há poucas semanas nunca tinha ouvido falar de Pedro Tadeu. Continuo a desconhecer em absoluto quem é, a não ser que escreve, esporadicamente, umas crónicas no DN. Mas está carregado de razão, neste país de necrófagos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Perguntas

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros  e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Joaquim Pessoa, in Os dias da Serpente - 1981

(no seu 62º aniversário)

domingo, fevereiro 21, 2010

Manifestações

Houve ontem duas manifestações, separadas por algumas horas, mais de 300 quilómetros de distância e grandes diferenças em número de manifestantes, mas cujos objectivos se distinguiram por uma letrinha apenas: uma, na capital, com a finalidade de discriminar todos aqueles que não vêem o casamento como uma instituição cujo único fim é procriar; a outra, na invicta e convocada expressamente para os média, promovida por jogadores, equipa técnica e dirigentes de um clube de futebol, com vista a descriminar os seus jogadores que se portam dentro do campo e seus anexos como se estivessem a actuar nas noites brancas.

Por mim, não vou à bola nem com uns nem com outros.

sábado, fevereiro 20, 2010

Vómitos

Vómito cor de rosa, chamou-lhe o saudoso Mário Castrim quando o defunto Comércio do Funchal, com pergaminhos na luta contra a ditadura, passou a ser dominado pelos defensores da revolução a todo o vapor, do grande educador da classe operária e companhia, objectivamente postos ao serviço dos homens de monóculo.

Hoje vivemos rodeados de vómitos de muitas cores: o da cor do sol, o expressamente dito, o descaradamente público, o que é entregue pelos CTT com o correio da manhã, o que dura 24 horas, os que trazem escândalos mascarados de notícias, o da uma, o das treze, o das vinte, o da noite, o tele qualquer coisa, o jornal das tantas. Gómitos, golfadas, vomições e nós sem antieméticos.
Ratos

Tem sempre um chato
em cada canto
multiplicando-se
hipócrita
falso santo.

Tem sempre um tonto
em cada sala
multiplicando-se
perdida bala
babando sangue.

Tem sempre um chato
multiplicando-se
como rato tonto

Frederico Barbosa

(no 49º aniversário do autor)

Retirado do seu sítio pessoal

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Jornalismo

O jornalismo é uma catapulta imensa, posta em movimento por ódios mesquinhos.

Honoré de Balzac
DIDÁTICA

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos).

Jose Carlos Capinan

(no seu 69º aniversário)

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Disparates

Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti.

Virgílio Ferreira, in "Escrever"
Quadra

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

António Aleixo

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Ignorância

Ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma.

Giordano Bruno,  teólogo, filósofo, padre e escritor italiano queimado na fogueira da inquisição há 410 anos, no dia 17 de Fevereiro de 1600.
A poesia que desce ao poeta

Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das idéias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha.

E é então que vejo descer sobre ele
Uma como sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia, a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som infinito, vindo de outras esferas,
Que é a comunicação miraculosa de outros seres
e de outras regiões.

Múcio Leão*

*poeta brasileiro

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Carnaval

Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.

Virgílio Ferreira
CHAMA

Um menino
cruzou o meu caminho.
Despido de tudo,
até quase de vida,
restava-lhe, apenas,
no fundo dos olhos,
uma chama pequena,
quase apagada,
de pura inocência.
Dei-lhe um sorriso,
velho e surrado,
de esmola
e fui procurar
a minha chama
perdida...

Luiz Carlos Amorim*

*poeta brasileiro que hoje comemora 57 anos

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Carnaval a dois

Cartoon: Peter Brookes/Times
Meio-dia

Choque de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!

Ronald de Carvalho

domingo, fevereiro 14, 2010

A rotura

Dando o dito por não dito, um candidato a líder da oposição vindo de Bruxelas afirmou que a sua candidatura seria uma rotura com a política socialista que vem a ser seguida nos últimos quinze anos.

Considerando que, nesse período, durante três anos houve dois desgovernos do seu partido, ficámos a saber que considera socialistas as políticas de Barroso e Santana Lopes. Como será mais fácil enfiar um camelo no cu da agulha do que o putativo governo de Rangel fazer algo de diferente, para melhor, daquilo que fizeram os seus comparsas, talvez a apregoada rotura não se refira a uma ruptura com o pensamento dominante mas sim à liderança de um grupo de rotos, quem sabe?!

sábado, fevereiro 13, 2010

Retrato de Catarina Eufémia

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Os necrófagos

Quando me levantei de madrugada pensei falar de necrófagos, não sei bem porquê, talvez pelo cheiro a cadáver que se sente no ar da baixa pombalina. Hienas que riem, urubus e abutres à espreita ou corvos na bandeira da capital nunca me seduziram, apesar de serem animalejos cada vez mais presentes nos vários níveis da sociedade portuguesa. Mas o céu plúmbeo (um comportamento criminoso do sol, em linguagem popular) alterou-me de tal modo o humor que prefiro ficar-me pelo céu muito nublado com aguaceiros frequentes. E se estivesse sozinho em casa, ia ouvir as quatro missas de requiem que tenho numa caixa de cêdês tripla. Como há boa companhia, vai um tinto alentejano para desanuviar a mente.
As marmotas














Uma já saiu da toca a outra espera a sua vez.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

O salva, não salva

Sempre que um Estado-Membro se encontre em dificuldades ou sob ameaça de dificuldades devidas a calamidades naturais ou ocorrências excepcionais que não possa controlar, o Conselho, sob proposta da Comissão, pode, sob certas condições, conceder ajuda financeira da União ao Estado-Membro em questão. O Presidente do Conselho informará o Parlamento Europeu da decisão tomada.

É isto que dispõe o artigo 122 do Tratado de Lisboa e a Grécia alega que os ataques dos especuladores se enquadram nas ocorrências excepcionais que não pode controlar. Por isso não percebo porque é que os líderes da UE andaram este tempo todo a encanar a perna à rã e permitiram os disparates do senhor Almunia – que, em nada contribuindo para minorar os problemas gregos, prejudicaram grandemente Portugal (porque é que os deputados do PS não se manifestaram na votação sobre a Comissão Barroso II ?) - para agora se reunirem a correr para discutir a situação grega. Quanto mais que não se trata de arriscar dinheiro dos contribuintes, como se apressaram a fazer com os bancos. Os próprios gregos lembraram que uma antecipação dos fundos estruturais que estão previstos resolveria o problema, havendo ainda várias outras possibilidades, desde a emissão de euro-obrigações até à compra de títulos do Tesouro grego.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Liberdade, eis a questão

A questão é esta: há liberdade de imprensa em Portugal? É ociosa, a pergunta, para quem, como eu, vem do tempo em que se escrevia baixinho, tão baixinho que perdêramos muitas das palavras, por mudez e falta de uso. Já me não surpreende a desvergonha de alguns daqueles que têm desfilado nas televisões a proclamar que vivemos numa asfixia. Mas indigna-me o silêncio calculado dos que se não erguem a protestar contra a ambiguidade do assunto.

***

Há algo de torpe neste alvoroço. Um ex-ministro, agora protestador grave e atroz, foi, na sombria década cavaquista, controleiro da RTP. E um dos agora acusadores da falta de liberdade era o zeloso varejeiro do noticiário. Não cauciono, de forma alguma, tentativas de domínio da imprensa pelo poder político. Mas não colaboro neste imbróglio, que tem estimulado a perda do sentido das coisas e a adulteração da verdade histórica. A reabilitação de falsos fantasmas apenas serve para se ocultar a medonha dimensão do que ocorreu na década de 80. Os saneamentos, a extinção de títulos, a substituição de direcções de jornais e a remoção de jornalistas incómodos por comissários flutuantes eram o pão nosso de cada dia. Já se esqueceram?

Baptista-Bastos, In Diário de Notícias
Tempos Sombrios

Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.

Bertold Brecht

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Podia-ó-calá-lo???


























É inqualificável a intervenção de Paulo Rangel no PE sobre um alegado plano do Governo para controlar os órgãos de comunicação social. A existir mesmo tal plano - o que carece de ser provado, não bastando as diarreias mentais (e logo pela pena de quem!!!) do órgão oficioso do PSD detido pela Opus Dei e por Isabel dos Santos - a sua discussão e respectivas consequências políticas são um assunto interno do país, não tendo qualquer cabimento ou justificação que políticos portugueses o arrastem para palcos internacionais.

A troglodita atitude de Rangel revela duas coisas: primeiro, que para ele tudo vale na política; e depois, que se comporta no Parlamento Europeu como o marido que desconfia que a mulher lhe põe os cornos e, em lugar de averiguar os factos e discuti-los em casa, vai para o café da esquina fazer queixinhas dela.

Imagem: Karim Sahib/AFP/Getty
refeição

lambe a palavra

pelo canto
da boca
escorre
um verbo líquido

o papel não absorve mais
a tinta
das veias

saliva impaciente
por uma página vazia

Andreia Laimer*

*poetisa gaúcha