How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
sexta-feira, novembro 30, 2007
Abdicação
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa* - Cancioneiro
* no 72º aniversário do seu falecimento
quinta-feira, novembro 29, 2007
Disputas laborais insólitas (II)
Fred Raine foi recompensado com £ 2.300,00 após um tribunal industrial ter reconhecido que o seu antigo empregador, Lee’s Coaches, em Langley Moor, Reino Unido, lhe tinha pago pouco quando ele deixou a companhia devido a doença, em 2005. Nada de extraordinário nesse facto, mas o mesmo não pode ser dito da forma de pagamento escolhida pelo seu ex-patrão, Malcolm Lee. A primeira tranche da indemnização, no montante de mil libras esterlinas, foi paga através de cheque, mas as restantes mil e trezentas libras foram-lhe colocadas à porta de casa numa caixa cheia de moedas, com o peso de 69 quilos e 850 gamas. Raine descreveu o gesto como “inaceitável” e disse que ia consultar o seu advogado.
quarta-feira, novembro 28, 2007
Nasceu há 300 anos

O corpo de Abel encontrado por Adão e Eva - De William Blake
A Poison Tree
I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.
And I watered it in fears,
Night and morning with my tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.
And it grew both day and night,
Till it bore an apple bright.
And my foe beheld it shine.
And he knew that it was mine,
And into my garden stole
When the night had veiled the pole;
In the morning glad I see
My foe outstretched beneath the tree.
William Blake

O corpo de Abel encontrado por Adão e Eva - De William Blake
A Poison Tree
I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.
And I watered it in fears,
Night and morning with my tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.
And it grew both day and night,
Till it bore an apple bright.
And my foe beheld it shine.
And he knew that it was mine,
And into my garden stole
When the night had veiled the pole;
In the morning glad I see
My foe outstretched beneath the tree.
William Blake
A falta de Erico Verissimo
Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.
Carlos Drummond de Andrade*
Homenagem ao amigo Erico Verissimo, falecido em 28 de Novembro de 1975
terça-feira, novembro 27, 2007
Uísque e mulher ranzinza
Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque se não...
- Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.
Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.
Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.
Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.
Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.
Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.
Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.
Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário.
Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca ...
Barão de Itararé
Apparício Torelli, Barão de Itararé, o Brando, (1895/1971), "campeão olímpico da paz", "marechal-almirante e brigadeiro do ar condicionado", "cantor lírico", "andarilho da liberdade", "cientista emérito", "político inquieto", "artista matemático, diplomata, poeta, pintor, romancista e bookmaker", como se definia, era gaúcho e é um dos maiores humoristas de todos os tempos. Dele disse Jorge Amado: "Mais que um pseudônimo, o Barão de Itararé foi um personagem vivo e atuante, uma espécie de Dom Quixote nacional, malandro, generoso, e gozador, a lutar contra as mazelas e os malfeitos".
O Barão de Itararé deixou o nosso convívio em 27 de Novembro de 1971
segunda-feira, novembro 26, 2007
Estação
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça.
Mário Cesariny*
*no primeiro aniversário da sua ausência
Domingo na Praia
Sol de manhã
Galera no cio
Lira do delírio
Lirismo e desvario.
Dialética do Rio
Idílio permitido
Entre Ipanema e Ramos
Todos nós estamos.
Multipli-Cidade!
Cumpli-Cidade!
Sincretismo carnal!
Dos Tupis e Tapuias
Tapioca e paçoca.
Do quilombo d'Angola
Cânhamo e cannabis
Santarém e Bragança
Herança Lusitana.
Lírica do Rio
Larica carioca
Bunda balançando?
Bagunça tropical!
Seios a saçaricar
Pernas a se roçar
Perseguidas a ciscar
Passarinhos atrás de ninhos.
Lúdica paisagem
Mestiça libertinagem
Nem quero saber sua idade.
Quero você por perto
Orgia a céu aberto.
Bocas calam, corpos falam
Falos fluem, periquitas voam.
Musica-lidade!
Multi-cultura-lidade!
Plasti-Cidade!
Simpli-Cidade!
Ricardo Muniz de Ruiz*
*poeta carioca – no dia do seu 51º aniversário
domingo, novembro 25, 2007
Sabia que...(V)
Em Bolder, no Colorado, Estados Unidos, é ilegal matar um pássaro dentro dos limites da cidade e também “ter” animais de estimação – os cidadãos da cidade, legalmente falando, são meros “guarda-costas dos animais de estimação”?
No Vermont, Estados Unidos, as mulheres têm de ter autorização escrita dos maridos para puderem usar dentadura postiça?
Em Londres, é ilegal fazer sinal a um táxi para parar se se tiver a peste?
sábado, novembro 24, 2007
Êxtase
Quando vens para mim, abrindo os braços
Numa carícia lânguida e quebrada,
Sinto o esplendor de cantos de alvorada
Na amorosa fremência dos teus passos.
Partindo os duros e terrestres laços,
A alma tonta, em delírio, alvoroçada,
Sobe dos astros a radiosa escada
Atravessando a curva dos espaços.
Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,
Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto
Dos seios, dentre esses rendados folhos.
Nem um beijo te dou! abstrato e mudo
Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,
Uns rumores de pássaros nos olhos.
Cruz e Sousa*
*poeta barsileiro
sexta-feira, novembro 23, 2007
Disputas laborais insólitas
Sue Storer, uma professora de 48 anos de idade na Escola Secundária de Bedminster Down, em Bristol, Reino Unido, tentou conseguir, junto do Tribunal de Apelação do Trabalho, uma indemnização por perdas e danos no valor de um milhão de libras por discriminação sexual e por ter sido “obrigada” a resignar, alegando que tinha sido forçada a sentar-se numa cadeira que fazia uns ruídos embaraçosos de cada vez que ela se mexia. “Comentava-se regularmente em tom jocoso que a minha cadeira produzia sons semelhantes a peidos* e com muita frequência tive de pedir desculpas, dado que não era eu, era a minha cadeira”, disse. Disse ainda que os seus pedidos de uma nova cadeira tinham sido repetidamente ignorados, enquanto aos seus colegas homens eram dadas elegantes cadeiras tipo executivo. A sua pretensão foi recusada pelo Tribunal.
*(ventosidade sonora expelida pelo ânus, mas com o acordo ortográfico vai ser peido mesmo, ué!)
quinta-feira, novembro 22, 2007
Bizarrias judiciais (III)
Em 2005, Marina Bai, uma astróloga Russa, processou a NASA em cerca de 250 milhões de euros por “interromper o equilíbrio do universo”. Alegou que a sonda espacial Deep Impact da Agência Espacial dos Estados Unidos, a qual se destinava a colidir contra um cometa para recolher material resultante do impacto, para análise, era um “acto terrorista”. Um tribunal de Moscovo considerou que a Rússia tinha jurisdição para analisar a pretensão, mas esta acabou por ser rejeitada.
***
Em 2005, o Tribunal de Apelação do Massachusetts foi chamado a decidir se uma técnica sexual era perigosa. Uma bela manhã, bem cedo, um homem e uma mulher, com uma relação duradoira, estavam entretidos a ter relações sexuais. Durante o acto apaixonado e sem o consentimento do homem, a mulher retorceu-se repentinamente de tal forma que provocou ao homem uma ruptura do pénis, o que requereu uma cirurgia de emergência. O tribunal decidiu que, embora uma conduta sexual “temerária” talvez possa ser objecto de acção judicial, uma conduta “simplesmente negligente” não o era, pelo que encerrou o caso.
quarta-feira, novembro 21, 2007
O Bem Supremo
Muito discutiu a antiguidade em torno do supremo bem. O que é o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar o que é o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc. Cada um põe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. (...) Sumo bem é o bem que vos deleita a ponto de nos polarizar toda a sensibilidade, assim como mal supremo é aquele que vos torna completamente insensível. Eis os dois pólos da natureza humana. Esses dois momentos são curtos. Não existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal são quimeras. Conhecemos a bela fábula de Crântor, que fez comparecer aos jogos olímpicos a Fortuna, a Volúpia, a Saúde e a Virtude.
Fortuna: - O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
Volúpia: - Meu é o pomo, porquanto não se aspira à riqueza senão para ter-me a mim.
Saúde: - Sem mim não há volúpia e a riqueza seria inútil.
Virtude: - Acima da riqueza, da volúpia e da saúde estou eu, que embora com ouro, prazeres e saúde pode haver infelicidade, se não há virtude.
Teve o pomo a Virtude.
A fábula é engenhosa, mas não resolve o problema absurdo do supremo bem. Virtude não é bem, senão dever. Pertence a um plano superior. Nada tem que ver com as sensações dolorosas ou agradáveis. Com cálculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necessário, perseguido, agrilhoado por um tirano voluptuoso aboletado no fausto, o homem virtuoso é infelicíssimo, e o perseguidor insolente que acaricia uma nova amante no seu leito de púrpura, felicíssimo. Podeis dizer ser preferível o sábio perseguido ao perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar o outro. Mas esqueceis-vos de que le sage dans les fers enrage. Se não concordar o sábio, engana-vos: é um charlatão.
Voltaire - in Dicionário Filosófico
Retirado do Citador
terça-feira, novembro 20, 2007
Onde estão os mártires? (II)
Menos de uma mês decorrido sobre a “fantochada” encenada em Roma para a beatificação de 498 padres e freiras espanhóis mortos durante a Guerra Civil Espanhola, todos afectos ao Caudilho, o presidente da Conferência Episcopal Espanhola apresentou, ontem, um pedido de desculpas sem precedentes pelo papel da Igreja Católica naquela Guerra Civil.
Até agora, a Igreja Católica sempre tinha realçado o seu papel de vítima na guerra que, ao fim de quatro anos, acabou com a vitória de Francisco Franco e marcou o início da ditadura fascista em Espanha, que durou até à morte do ditador, em 20 de Novembro de 1975.
Mas ontem, o presidente da Conferência Episcopal afirmou que a Igreja deve pedir perdão por “actos concretos” ocorridos durante o dilacerante período de guerra. “ Em muitas ocasiões temos razões para agradecer a Deus por aquilo que foi feito e pelas pessoas que agiram, mas, provavelmente, noutros momentos... deveríamos pedir perdão e mudar de direcção”, disse à Conferência Episcopal Ricardo Blauez, bispo de Bilbau.
Muitos bispos, na assistência, pareceram ficar estupefactos com o inesperado pedido de desculpas, entre eles António Maria Rouco Varela, bispo de Madrid , antecessor de Ricardo Blauez e reconhecido defensor da “linha dura” no seio da Igreja.
O bispo de Bilbau também enfureceu os conservadores ao elogiar um bispo que é tido como figura chave na transição da Espanha da ditadura para a democracia, nos anos 70. Vicente Enrique y Tarancon – o chamado “Bispo Vermelho”, vituperado por muitos conservadores pelos seus esforços de distanciar a Igreja de Franco após a morte do ditador - foi qualificado por Ricardo Blauez como “um eficiente instrumento de reconciliação”.
É caso para dizer: mais vale tarde do que nunca!
segunda-feira, novembro 19, 2007
Amanhecer
Floresce, na orilha da campina,
esguio ipê
de copa metálica e esterlina.
Das mil corolas,
saem vespas, abelhas e besouros,
polvilhados de ouro,
a enxamear no leste, onde vão pousando
nas piritas que piscam nas ladeiras,
e no riso das acácias amarelas.
Dos charcos frios
sobem a caçá-los redes longas,
lentas e rasgadas de neblina.
Nuvens deslizam, despetaladas,
e altas, altas,
garças brancas planam.
Dançam fadas alvas,
cantam almas aladas,
na taça ampla,
na prata lavada,
na jarra clara da manhã...
João Guimarães Rosa* (in Magma)
*poeta brasileiro, no 40º aniversário do seu falecimento
domingo, novembro 18, 2007
Sabia que...(IV)
No Reino Unido é um acto de traição colar um selo postal com a efígie do(a) monarca de cabeça para baixo?
De acordo com as Tax Avoidance Schemes Regulations de 2006, no Reino Unido é ilegal não dizer ao cobrador de impostos algo que não se quer que ele saiba, embora não seja obrigatório dizer-lhe coisas que não tem importância que ele saiba?
Os barcos da Royal Navy que entram no Porto de Londres têm de dar um barril de rum ao Constable da Torre de Londres?
sábado, novembro 17, 2007
Bizarrias judiciais (II)
Em 2004, um advogado alemão, Dr. Juergen Graefe, representou uma pensionista idosa de St Augustin, perto de Bona, a quem tinha sido enviada uma notificação para pagamento de impostos no montante de 287 milhões de euros, apesar de os rendimentos da senhora serem apenas de 17 mil euros. O Dr. Graefe resolveu o problema com uma simples “carta chapa” enviada às autoridades fiscais, mas a lei Alemã permite-lhe calcular os seus honorários com base no montante da redução de impostos obtida, pelos que os fixou em € 440,234,00, que irão ser pagos pelo estado. Não há provas de que tenha tentado a sua sorte escrevendo uma carta de agradecimento.
***
Em 2005, uma brasileira processou o seu companheiro, culpando-o pelo facto de ela não conseguir atingir o orgasmo. A mulher, de 31 anos de idade, de Jundiai, argumentou, no seu processo, que o companheiro, de 38 anos, acabava habitualmente a relação sexual após ele próprio ter atingido o orgasmo. Após um início promissor, a acção acabou numa espécie de anti-clímax para a senhora, quando as suas pretensões foram rejeitadas pelo Tribunal.
sexta-feira, novembro 16, 2007
...e António Aleixo...
...deixou-nos há 58 anos.
Mote
Morre o rico, dobram sinos;
Morre o pobre, não há dobres...
Que Deus é esse dos padres,
Que não faz caso dos pobres?
António Aleixo
In memoriam
Jose Saramago...
...completa hoje 85 anos.
Eu luminoso não sou
Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.
José Saramago
Longa vida, José!
quinta-feira, novembro 15, 2007
Lugar
La luz agria de tu barrio
me ronda con tus cristales.
Por entre mis manos fluye
el agua añil de la tarde.
El aire queda vencido
en la pared de mi carne.
Las esquinas giran locas
alrededor de mi talle.
Pájaros perdidos cantan
porque mi lengua no hable.
La llama de mis cabellos
negra se tuerce en el aire.
Por el cielo va deshecha
la flor de mis voluntades.
¡Ay, se me corta la vida
en el cristal de esta tarde!.
Joaquín Romero Murube*
*poeta sevilhano
quarta-feira, novembro 14, 2007
Metamorfose
Repara: - a imóvel crisálida
Já se agitou, inquieta,
Cedo, rasgando a mortalha,
Ressurgirá borboleta.
Que misteriosa influência
A metamorfose opera!
Um raio de sol, um sopro!
Ao passar, a vida gera.
Assim minh’alma, inda ontem
Crisálida entorpecida,
Já hoje treme, e amanhã
Voará cheia de vida.
Tu olhaste - e do letargo
Mago influxo me desperta:
Surjo ao amor, surjo à vida
À luz de uma aurora incerta.
Júlio Dinis – 1 de Maio de 1860
(Obras completas - Círculo de Leitores - Dezembro de 1992)
terça-feira, novembro 13, 2007
Sabia que...(III)
No Ohio, Estados Unidos, é contrário à lei estadual embebedar um peixe?
No Alabama, Estados Unidos, é ilegal vendar os olhos de um condutor, quando este for a conduzir um veículo?
No Reino Unido é ilegal morrer nas Casas do Parlamento (Houses of Parliament), mais conhecidas por Palácio de Westminster?
Em São Salvador, os condutores embriagados podem ser punidos com a morte perante um pelotão de fuzilamento?
segunda-feira, novembro 12, 2007
Todas as crianças
"Todas as crianças querem a paz no mundo, mas nem todas são educadas livres da ótica da discriminação, do preconceito, em condições de encarar, como dotados de igual dignidade, brancos, negros, amarelos e indígenas.
Todas as crianças gostam de falar com Deus, mas nem todas aprendem que Deus ama, sem distinção, muçulmanos, judeus, cristãos, adeptos do candomblé, do Santo Daime, e até mesmo quem não crê.
Todas as crianças necessitam brincar, mas nem todos os pais têm condições de evitar que enveredem pela senda do trabalho precoce, do ponto de esmola na esquina, da exploração sexual, das sendas do crime.
Todas as crianças adoram perder tempo com seus amigos e amigas, mas algumas tornam-se adultas antes do tempo, devido à agenda sobrecarregada imposta pela família, com aulas de balé e natação, de idiomas e de música, sem nunca terem se sujado no barro. Ou, empobrecidas, são obrigadas a lutar desde cedo pela sobrevivência.
Todas as crianças são dotadas de incomensurável fantasia, mas muitas não têm sonhos próprios, porque delegaram à TV o direito de imaginar por elas. Assim, crescem saturadas de (des)informações que não processam, vulneráveis em seu código de valores e confusas quanto aos princípios éticos a serem abraçados.
Todas as crianças são generosas, mas nem sempre há quem lhes ensine partilhar o que acumulam nos armários, na lancheira e no coração.
Todas as crianças precisam de muito amor, mas nem todas conhecem quem preste atenção no que falam e fazem, passeie com elas nos fins de semana, evite barganhar o carinho sonegado por presentes e promessas.
Todas as crianças gostam de doces, mas nem todas são educadas para apreciar frutas e verduras, evitando desde cedo preencher com a boca o que lhes falta no coração.
Todas as crianças adoram ouvir histórias, mas nem todas conhecem quem se disponha a contar-lhes o mundo da carochinha ou a ler para elas os textos sagrados.
Todas as crianças imitam adultos que admiram, mas nem todas aprendem a conhecer Jesus e Francisco de Assis, Gandhi e Che Guevara, e crescem empolgadas com o exterminador do passado, do presente e do futuro.
Todas as crianças são sedentas de alegria, mas como esperar que sorriam se os adultos discutem na frente delas ou expressam seu racismo, seu ódio e sua ganância por dinheiro e bens?
Todas as crianças ignoram a morte como ameaça real, e nenhuma delas se propõe a matar o semelhante, a fabricar ou comercializar armas, a bombardear populações civis. Se uma criança rouba, droga-se ou mata é porque o mundo dos adultos condenou-a a ser o reverso de si mesma.
Todas as crianças adoram sonhar, mas se não encontram pelo caminho quem infle os seus sonhos, como um balão que voa rumo à utopia, correm o risco de buscar na química das drogas o que lhes falta em auto-estima.
Todas as crianças são convencidas de que, entregue nas mãos delas, o mundo seria bem melhor, pois nenhuma delas suporta ver o semelhante com fome, na miséria ou vítima de guerras.
Todos nós deveríamos cultivar para sempre a criança que um dia fomos."
Frei Betto
Retirado daqui
Nota: Este é um texto dedicado a todas as crianças, de ambos os sexos. Decidi reproduzi-lo aqui depois de ter lido os insultos que um anónimo me dirigiu na caixa de comentários do blogue da minha amiga bianca castafiore, apenas porque não alinhei nas louvaminhices a uma pseudo defensora de alguns “meninos” portugueses.
domingo, novembro 11, 2007
Bizarrias judiciais
Em 2004, Timothy Dumouchel, de Fond du Lac, Wisconsin, Estados Unidos, processou uma companhia de televisão por fazer com que a mulher engordasse e por transformar os seus filhos em “surfistas de canais mandriões”. Disse: “Eu creio que a razão pela qual fumo e bebo todos os dias e a minha mulher é obesa é porque temos vistos TV diariamente nos últimos quatro anos”. O caso manteve ocupados, durante uns tempos, pelo menos dois dos então 1.058.662 advogados existentes nos Estados Unidos, mas não chegou ao Supremo Tribunal.
****
Em 2007, um tribunal da Índia foi chamado a decidir se um preservativo vibrador é um anticonceptivo ou um brinquedo sexual. Os preservativos contêm um dispositivo em formato de anel que funciona a pilhas e, para evitar dúvidas, é comercializado com a nome de Crezendo. Os oponentes argumentam que é um brinquedo sexual e, como tal, ilegal na Índia, ao passo que a empresa produtora afirma que é um contraceptivo e um meio de promover a saúde pública. O processo ainda decorre.
Nota: Quem estiver interessado, pode procurar no Google e descobrir que em Portugal é vendido com o mesmo nome, em pacotes de 3, pelo menos numa grande superfície.
sábado, novembro 10, 2007
Como um archote
Vem tudo à superfície.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo - tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.
Albano Martins*
*poeta português contemporâneo
sexta-feira, novembro 09, 2007
Sabia que...(II)
Em França é proibido chamar Napoleão a um porco?
Na cidade de Londres é ilegal um táxi transportar cães raivosos ou cadáveres?
A cabeça de qualquer baleia encontrada morta na costa Britânica é, legalmente, propriedade do Rei e, por seu lado, a cauda pertence à Rainha, no caso de ela necessitar dos ossos para o corpete?
Na Indonésia, a punição para a masturbação é a decapitação?
quinta-feira, novembro 08, 2007
Especulação
Todos os dias somos confrontados com novos máximos do preço do petróleo nos mercados de Nova Iorque e Londres, o qual se aproxima perigosamente dos 100 dólares por barril, se é que não os ultrapassou já no momento em que escrevo.
Os motivos apresentados pelos jornalistas e pelos vários “especialistas” ouvidos ou lidos de quando em vez variam desde o aumento da procura por parte da China e da Índia, à insuficiência das reservas dos Estados Unidos, passando pela guerra no Iraque, as sanções ao Irão ou o receio de invasão do Curdistão iraquiano por parte da Turquia, sem esquecer as tempestades no golfo do México.
Mas a verdadeira causa pode ser apenas uma e tem o nome de especulação. Há alguns meses, andava o barril pelos 70 dólares, ouvi uma entrevista de Hugo Chaves a afirmar que 50 dólares seria um preço justo. Agora, o ministro do petróleo da Índia, Sr. M. S. Srinivasan, que não consta que tenha inclinações socialistas, fez uma recomendação pouco ortodoxa e quase blasfema para os ouvidos dos neo-liberais paladinos da economia de mercado sem controlo. Retirar o crude das Bolsas de Mercadorias de Nova Iorque e Londres, eliminando pura e simplesmente os intermediários.
“Não há, neste momento, constrangimento no fornecimento e a procura não está fora de controlo”, disse o Sr. Srinivasan numa entrevista em Nova Deli, acrescentando que a sua comercialização em mercados como o Nymex (New York Mercantile Exchange) está a contribuir “enormemente” para os preços altos. Se o crude fosse eliminado das mercadorias (ou commodities, como dizem os tais especialistas) transaccionadas no Nymex, o mundo “assistiria a uma redução drástica do preço”, referiu ainda.
A recomendação do Sr. Srinivasan está baseada na crença, altamente difundida, de que os investidores estão a inflacionar artificialmente os preços. Bancos, Fundos de Pensões e Hedge Funds investiram, nos últimos anos, rios de dinheiro no comércio do petróleo, apostando num aumento da procura. Embora não haja consenso entre os analistas sobre o aumento do preço que poderá ser imputado a tais investidores, as estimativas variam entre 10 e 30 dólares por barril.
E o Sr. Srinivasan não está sozinho. Vozes tão díspares como Mohammad Alipour-Jeddi, responsável pela análise de mercado da OPEP, e William F. Galvin, secretário de estado no Massachusetts, responsabilizaram os especuladores pelo aumento dos preços. “Existe crude suficiente nos mercados”, disse o Sr. Alipour-Jeddi na segunda-feira. Problemas na refinação e “actividades especulativas” estão a forçar o aumento dos preços, acrescentou.
E assim, enquanto alguns enchem os bolsos em actividades que, mesmo sendo perfeitamente legais, não deixam de ser eticamente condenáveis, a maioria do planeta sufoca com os aumentos dos preços, quer o do petróleo em si quer o de todos os bens cujos preços são enormemente influenciados por aquele.
(Fontes: The New York Times e The Washington Post)
A Nuvem
Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.
A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.
E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,
Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!
Teófilo Dias *
*poeta brasileiro
Do livro Fanfarras (1882)
quarta-feira, novembro 07, 2007
Sabia que...
Há leis mesmo ridículas, em qualquer parte do mundo. Por cá, já houve a célebre proibição de utilizar isqueiro, a menos que fosse “debaixo de telha”, o que levou muito boa alma a andar com um pedaço de telha partida no bolso, para fugir à punição.
Mas, sabia mesmo que:
No Reino Unido, uma mulher grávida pode “aliviar-se” onde muito bem lhe der na gana, inclusive, se assim o solicitar, dentro do capacete de um polícia?
No mesmo Reino Unido, um homem que se veja forçado a urinar em público pode fazê-lo, desde que aponte para a sua roda traseira e mantenha a mão direita sobre o seu veículo?
Na cidade de York é legal assassinar um Escocês dentro dos muros da cidade antiga, mas só se ele for portador de arco e flecha?
Metamorfose
Súbito pássaro
dentro dos muros
caído,
pálido barco
na onda serena
chegado.
Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.
E imensamente
o navegante
mudado.
Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.
Seu lábio leva
um outro nome
mandado.
súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.
Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.
Nunca, jamais
e para sempre
perdido
o eco do corpo
no próprio vento
pregado.
Cecília Meireles*
*poetisa carioca
terça-feira, novembro 06, 2007
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen*
*no 88º aniversário do seu nascimento
segunda-feira, novembro 05, 2007
Viagem
Vida: vagão de um trem
a qualquer hora
a soltar-se pelos trilhos.
Se fendem as trancas
na ferrugem das peças,
nenhuma alavanca detém a carga.
Sigo. Passageira sem estação de rota.
Quando vou, estou indo de volta
como se por mim tudo fosse outra vez
sem ter sido nunca a primeira.
Meu corpo é minha bagagem
arma atenta à cicatriz
que não fecha
e a que se cava
em tua ausência
materializada na cadeira vazia.
Ao meu lado, o passado:
sentença do efêmero,
algema sem trancas.
Sigo como um vagão
desgarrado do comboio,
querendo ainda obedecer
ao freio das alavancas
Aíla Sampaio*
*poetisa brasileira
domingo, novembro 04, 2007
Liberdade
Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.
Carlos Marighella*
São Paulo, Presídio Especial, 1939
*poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.
sábado, novembro 03, 2007
Não me deixes!
Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!
"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"
E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"
E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"
Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"
Gonçalves Dias*
*poeta brasileiro
sexta-feira, novembro 02, 2007
Poeta
Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.
Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou -
Em num, o antigo tempo é nova idade.
Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.
Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.
Teixeira de Pascoaes
quinta-feira, novembro 01, 2007
MAIS UMA VEZ
o menino chora no meio da noite
no meio da praça
no meio do coração.
o menino chupa laranjas e abismos
as bombas caem.
está sozinho no meio do oceano
no meio de cem milhões
no meio do infinito.
o menino desenha navios submersos
enquanto chovem granadas
enquanto mais uma vez
o povo é saqueado.
o menino chora sob um turbilhão
de cavalos em febre
sob um teia de equívocos e fracassos.
estamos no meio da noite barroca
no meio da praça
onde os tiranos engolem o ouro
no meio do coração torturado
por mil punhais envenenados
e um punho de sombra redigindo lei imóveis.
o menino uiva um labirinto
(não há pai nem mãe
nem lembrança de ternura
para consolar o pranto).
o menino uiva uma farpa de cristal
um relâmpago de estrelas podres
o abandono definitivo
(não há luz no quarto
onde o menino chora
sob um fedor de sinfonia
estarrecida).
no meio da fome
no meio da morte
no meio do coração.
Afonso Henriques Neto*
*poeta brasileiro
quarta-feira, outubro 31, 2007
Onde estão os mártires?


O Vaticano decidiu, mais uma vez, encenar uma palhaçada em Roma, ao distribuir, a granel, o certificado de beatitude a 498 frades e freiras, alegados “mártires” da Guerra Civil Espanhola.
Será bom que se saiba que os tais “mártires” foram assassinados porque se puseram ao lado do futuro ditador do país vizinho, Francisco Franco, o Caudillho, contra o governo republicano, legal porque democraticamente eleito.
Como será conveniente não esquecer que nessa guerra foram assasinadas mais de 500.000 pessoas, a maior parte civis e do lado republicano e da legalidade, entre as quais muitas dezenas de milhares de fervorosos católicos. Mas a esses, o Opus Dei, A Conferência Episcopal Espanhola, o Vaticano e o Partido Popular não reconhecem sequer o estatuto de pessoas, quanto mais o de mártires, esses sim, que o foram verdadeiramente por uma causa legítima.
Felizmente o arraial não correu da melhor maneira, dado que os mais entusiastas prometiam uma assistência de um milhão de pessoas e não terão estado na Praça mais de 30.000, contando com muitos tradicionais turistas dos domingos.
Mas, muito melhor do que eu, poderá falar alguém que partilha o mesmo credo e que foi testemunha ocular do que se passou na Guerra Civil. Recomendo, por isso, a leitura da crónica do El Pais com o título que encima esta posta, da autoria do teólogo católico secular espanhol E. Miret Magdalena.
Para o caso de haver dúvidas sobre alguns vocábulos castelhanos, poderão encontrar aqui um Dicionário Multi-Línguas, entra as quais Espanhol-Português.
Será bom que se saiba que os tais “mártires” foram assassinados porque se puseram ao lado do futuro ditador do país vizinho, Francisco Franco, o Caudillho, contra o governo republicano, legal porque democraticamente eleito.
Como será conveniente não esquecer que nessa guerra foram assasinadas mais de 500.000 pessoas, a maior parte civis e do lado republicano e da legalidade, entre as quais muitas dezenas de milhares de fervorosos católicos. Mas a esses, o Opus Dei, A Conferência Episcopal Espanhola, o Vaticano e o Partido Popular não reconhecem sequer o estatuto de pessoas, quanto mais o de mártires, esses sim, que o foram verdadeiramente por uma causa legítima.
Felizmente o arraial não correu da melhor maneira, dado que os mais entusiastas prometiam uma assistência de um milhão de pessoas e não terão estado na Praça mais de 30.000, contando com muitos tradicionais turistas dos domingos.
Mas, muito melhor do que eu, poderá falar alguém que partilha o mesmo credo e que foi testemunha ocular do que se passou na Guerra Civil. Recomendo, por isso, a leitura da crónica do El Pais com o título que encima esta posta, da autoria do teólogo católico secular espanhol E. Miret Magdalena.
Para o caso de haver dúvidas sobre alguns vocábulos castelhanos, poderão encontrar aqui um Dicionário Multi-Línguas, entra as quais Espanhol-Português.
Quadro: Guernica, de Pablo Picasso
terça-feira, outubro 30, 2007
Cenas da vida (ir)real
De segunda a sexta, chova ou faça sol, ao passar de carro à porta da Procuradoria Geral da República, na Rua da Escola Politécnica (a 50 metros do Rato), por volta das 7H00 da manhã, lá está um casal de seniores a montar o seu painel de protesto.
Já tinha lá passado várias vezes a pé, apercebendo-me de que reclamavam justiça para alguma malfeitoria de que tinham sido vítimas. Até que um dia destes indaguei sobre os motivos da sua presença diária ali, há mais de 11 anos (mais de 4.000 dias). E o que ouvi é de estarrecer.
Segundo o Sr. Florindo - assim se chama o cavalheiro - que conta 72 anos de idade, ele veio para Lisboa, fugido à pobreza de Nelas, ainda antes dos dez anos de idade, completando a quarta classe e arranjando logo emprego numa fábrica de vidros ali ao Campo de Santana. Mandou, então, vir ter com ele os seus dois irmãos, ocupando-se do sustento e educação dos dois até que eles conseguissem um lugar ao sol: um é juiz desembargador e outro notário.
Casou com Flora - a senhora que o acompanha no protesto - em Novembro de 1964 e era proprietário de uma pequena fábrica de espelhos em Santiago do Cacém, donde se reformou em 1995.
Um dia, tentaram vender uma das suas propriedades e verificaram, com espanto, que a mesma se encontrava registada em nome de outra pessoa. O que se teria passado?
Diz o Sr. Florindo que tudo começou em 1964, alguns dias depois do casamento, em que ele terá sido dado como morto e a esposa como casada com outro homem, após o que viria, também, a ser dada como morta. Estão ambos “sepultados” no cemitério de Aljustrel.
Tratar-se-ia de uma maquinação diabólica dos seus dois irmãos - um juiz desembargador e um notário, registe-se - para lhe sacarem os documentos, os bens e o dinheiro. Durante bastante tempo havia na parede um enorme cartaz, onde se acusavam os dois da enorme falcatrua. Recordo perfeitamente que tinham o apelido Beja, o mesmo do Sr. Florindo, mas omito os nomes próprios.
E assim, desde o dia 18 de Março de 1996, a casal “morto” e “sepultado” em Aljustrel, protesta ali, junto à Procuradoria, tentando ver apurada a verdade. Já por lá passaram Cunha Rodrigues, Souto de Moura e, agora, Pinto Monteiro, que devem achar “divertida” a atitude do casal. Já foram dados como “maluquinhos” por um psiquiatra do Hospital Miguel Bombarda e medicados com uma dose de drogas - cujo nome exibem e não compraram – que me pareceu suficiente para pôr verdadeiramente maluco um touro de lide. O Sr. Florindo diz que já foi preso mais de 30 vezes e que tentaram interná-los num hospício à força. Recorreram a tudo e mais alguma coisa, desde o Provedor de Justiça ao Presidente da República, do Primeiro Ministro ao Grupo Parlamentar de CDS-PP, da Ordem dos Médicos ao Conselho Superior de Magistratura, da Procuradoria ao Supremo Tribunal de Justiça e ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
Mortos não estão, que eu falei com eles e ainda na passada sexta feira lá surgiram na televisão quando as câmaras filmavam a provedora da Casa Pia a sair da Procuradoria. Maluquinhos também não parecem, mas nunca se sabe. Mas não é difícil apurar a verdade. As suas impressões digitais hão-de constar em qualquer arquivo. Se tinham prédios que lhes foram “roubados”, tem de haver notícia nos registos prediais. Se tiveram problemas com “roubo” de dinheiros e com as pensões de reforma, deve haver informação nos bancos. Com os actuais meios de investigação, é possível saber a quem pertencem as ossadas do túmulo de Aljustrel. Então porque não se apura a verdade? Estão à espera de que o país seja alvo de chacota na arena internacional, se o Tribunal Europeu intervier?
Senhor Procurador Geral da República: deixe-se de tretas hilariantes sobre ruídos no seu telemóvel, pois qualquer leigo sabe que é possível efectuar escutas sem provocar ruídos e cumpra as suas obrigações, seja na questão das escutas ilegais sejam “ressuscitando” legalmente dois cidadãos que todos os dias estão bem vivos à sua porta. E se tiverem razão, que se puna exemplarmente os dois responsáveis, que ocupam cargos destacados na Administração Pública; se, pelo contrário, se tratar mesmo de uma patologia psíquica (uma tal de “folie à deux”, que lhes “diagnosticaram”), então que se propicie ao casal um tratamento adequado.
Assim, é que não!
(fotografia de Jorge Godinho/Correio da Manhã)
De segunda a sexta, chova ou faça sol, ao passar de carro à porta da Procuradoria Geral da República, na Rua da Escola Politécnica (a 50 metros do Rato), por volta das 7H00 da manhã, lá está um casal de seniores a montar o seu painel de protesto.
Já tinha lá passado várias vezes a pé, apercebendo-me de que reclamavam justiça para alguma malfeitoria de que tinham sido vítimas. Até que um dia destes indaguei sobre os motivos da sua presença diária ali, há mais de 11 anos (mais de 4.000 dias). E o que ouvi é de estarrecer.Segundo o Sr. Florindo - assim se chama o cavalheiro - que conta 72 anos de idade, ele veio para Lisboa, fugido à pobreza de Nelas, ainda antes dos dez anos de idade, completando a quarta classe e arranjando logo emprego numa fábrica de vidros ali ao Campo de Santana. Mandou, então, vir ter com ele os seus dois irmãos, ocupando-se do sustento e educação dos dois até que eles conseguissem um lugar ao sol: um é juiz desembargador e outro notário.
Casou com Flora - a senhora que o acompanha no protesto - em Novembro de 1964 e era proprietário de uma pequena fábrica de espelhos em Santiago do Cacém, donde se reformou em 1995.
Um dia, tentaram vender uma das suas propriedades e verificaram, com espanto, que a mesma se encontrava registada em nome de outra pessoa. O que se teria passado?
Diz o Sr. Florindo que tudo começou em 1964, alguns dias depois do casamento, em que ele terá sido dado como morto e a esposa como casada com outro homem, após o que viria, também, a ser dada como morta. Estão ambos “sepultados” no cemitério de Aljustrel.
Tratar-se-ia de uma maquinação diabólica dos seus dois irmãos - um juiz desembargador e um notário, registe-se - para lhe sacarem os documentos, os bens e o dinheiro. Durante bastante tempo havia na parede um enorme cartaz, onde se acusavam os dois da enorme falcatrua. Recordo perfeitamente que tinham o apelido Beja, o mesmo do Sr. Florindo, mas omito os nomes próprios.
E assim, desde o dia 18 de Março de 1996, a casal “morto” e “sepultado” em Aljustrel, protesta ali, junto à Procuradoria, tentando ver apurada a verdade. Já por lá passaram Cunha Rodrigues, Souto de Moura e, agora, Pinto Monteiro, que devem achar “divertida” a atitude do casal. Já foram dados como “maluquinhos” por um psiquiatra do Hospital Miguel Bombarda e medicados com uma dose de drogas - cujo nome exibem e não compraram – que me pareceu suficiente para pôr verdadeiramente maluco um touro de lide. O Sr. Florindo diz que já foi preso mais de 30 vezes e que tentaram interná-los num hospício à força. Recorreram a tudo e mais alguma coisa, desde o Provedor de Justiça ao Presidente da República, do Primeiro Ministro ao Grupo Parlamentar de CDS-PP, da Ordem dos Médicos ao Conselho Superior de Magistratura, da Procuradoria ao Supremo Tribunal de Justiça e ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
Mortos não estão, que eu falei com eles e ainda na passada sexta feira lá surgiram na televisão quando as câmaras filmavam a provedora da Casa Pia a sair da Procuradoria. Maluquinhos também não parecem, mas nunca se sabe. Mas não é difícil apurar a verdade. As suas impressões digitais hão-de constar em qualquer arquivo. Se tinham prédios que lhes foram “roubados”, tem de haver notícia nos registos prediais. Se tiveram problemas com “roubo” de dinheiros e com as pensões de reforma, deve haver informação nos bancos. Com os actuais meios de investigação, é possível saber a quem pertencem as ossadas do túmulo de Aljustrel. Então porque não se apura a verdade? Estão à espera de que o país seja alvo de chacota na arena internacional, se o Tribunal Europeu intervier?
Senhor Procurador Geral da República: deixe-se de tretas hilariantes sobre ruídos no seu telemóvel, pois qualquer leigo sabe que é possível efectuar escutas sem provocar ruídos e cumpra as suas obrigações, seja na questão das escutas ilegais sejam “ressuscitando” legalmente dois cidadãos que todos os dias estão bem vivos à sua porta. E se tiverem razão, que se puna exemplarmente os dois responsáveis, que ocupam cargos destacados na Administração Pública; se, pelo contrário, se tratar mesmo de uma patologia psíquica (uma tal de “folie à deux”, que lhes “diagnosticaram”), então que se propicie ao casal um tratamento adequado.
Assim, é que não!
(fotografia de Jorge Godinho/Correio da Manhã)
segunda-feira, outubro 29, 2007
CAIXA CORAL
Adiei o mundo que no escuro
preparava o bote – coral na caixa
preta do destino
Sem descobrir
o código – cobertor de ruído
sobre o túnel –
acordei diante do trem
em direção ao corpo
preso na ferrugem
Nenhum desvio
salvou-me do som
despedaçado do violino
Adeus dos outros,
feito pão mofado
na mesa posta de um cortiço
Acolheu-me a musa
no lado oposto à vida
com o olhar mortiço
para quem ficou encarando
a minha sorte
Ela escolhe e fisga o coração
de quem não morre
Para o resto – o inconformismo
em mar de inveja repulsivo –
ela tem o olhar que petrifica
Fósseis na mira da Medusa
fogem do Tempo, rosto final
do Medo, que assoma
como surda carruagem
Enquanto somem, a seiva
interminável cobre o sonho
que guardei no bolso
Carne oferecida à eternidade
Nei Duclós*
*poeta brasileiro que celebra hoje o seu 59º aniversário
domingo, outubro 28, 2007
O DNA do racismo
James Watson, o co-descobridor da molécula de DNA e ganhador do Nobel de 1953, pisou na bola. Em Londres para a divulgação de seu novo livro "Avoid Boring People" (evite pessoas chatas ou evite chatear as pessoas), ele deu declarações escandalosamente racistas. Acho que nem o Borat ou qualquer outro comediante querendo troçar do politicamente correto teria ido tão longe.
Em entrevista ao jornal britânico "The Sunday Times", o laureado disse na semana passada que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e que, por isso, era pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [dos negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não", afirmou.
Vale a pena ler na íntegra esta crónica de Hélio Schwartsman , publicada na Follha Online (versão digital da Folha de São Paulo) na passada quinta feira, sobretudo agora, quando o politicamente correcto obrigou o velho Professor a renunciar a todas a suas funções no "Cold Spring Harbor Laboratory", para onde entrou há 40 anos e que tranformou de laborátório desconhecido num dos centros de pesquisa modelo de todo o mundo .
sábado, outubro 27, 2007
Do tempo...
Sou do tempo, seu moço,
que os campos e espaços
eram livres.
Podíamos por eles caminhar
sem receio de abordagens:
“por invasão de propriedade”
“suspeição de má intenção”
ou,
“ter que pagar pedágio”.
Do tempo de liberdade
verdadeira,
sem adjetivações.
Do tempo de subir
e descer livremente ladeiras,
falando aos barrancos piçarrentos.
De banhar nos córregos,
pescar piabas,
e do dormir cedo.
Do tempo
que o próprio tempo
consumiu...
Adriles Ulhoa Filho*
*poeta mineiro
sexta-feira, outubro 26, 2007
A queixa
Quando eu era menino - oh mãe - não te deixava;
Então nunca sem mim conseguiste sair:
Tivestes de ir à rua, e embirrando eu chorava;
e ralhavas: "eu volto" e eu: leva-me! quero ir!
Pois se eras o meu sol.. Tua ausência enoitava,
e a noite era terror... Como à noite sorrir?
Mas ante a minha teimosia infantil justa e brava
fugia-te, sem mim, o ânimo de partir.
Porque naquela vez - na última somente
foste só - sem me ver, num protesto veemente
chorar como em criança ou com maior pesar?
- Mãe! é longe aonde vais? Oh leva-me contigo...
Leva... Quero ir lá longe... ir também ao Jazigo...
E lá foste a sorrir sem querer me levar!
Murilo Araújo*
do livro "Carrilhões" (1917)
*poeta brasileiro
Não Apaguem a Memória

Pediram-me para divulgar esta mensagem:
O núcleo do Porto do movimento "Não Apaguem a Memória!", movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promove os Encontros em Lugares de Memória da Resistência, esperando que as histórias contadas pelos protagonistas das acções de resistência anti-fascista venham enriquecer a nossa memória colectiva do fascismo.
Contando com os testemunhos dos que participaram nas lutas informais e nas actividades promovidas por associações de todo o tipo, como colectividades culturais, entidades cooperativas, organizações de jovens trabalhadores e associações estudantis, o movimento "Não Apaguem a Memória!" convida todos quantos frequentaram os lugares simbólicos dessas acções.
Tendo-se iniciado este ciclo de tertúlias no café "Piolho", apelamos agora à sua participação activa, no próximo sábado, 27 de Outubro, às 15.30h no café CEUTA , local onde se realiza o segundo encontro.
Se resido no Porto ou redondezas, apareça. Acha que a memória está viva? Então veja e oiça este vídeo.
Pediram-me para divulgar esta mensagem:
O núcleo do Porto do movimento "Não Apaguem a Memória!", movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promove os Encontros em Lugares de Memória da Resistência, esperando que as histórias contadas pelos protagonistas das acções de resistência anti-fascista venham enriquecer a nossa memória colectiva do fascismo.
Contando com os testemunhos dos que participaram nas lutas informais e nas actividades promovidas por associações de todo o tipo, como colectividades culturais, entidades cooperativas, organizações de jovens trabalhadores e associações estudantis, o movimento "Não Apaguem a Memória!" convida todos quantos frequentaram os lugares simbólicos dessas acções.
Tendo-se iniciado este ciclo de tertúlias no café "Piolho", apelamos agora à sua participação activa, no próximo sábado, 27 de Outubro, às 15.30h no café CEUTA , local onde se realiza o segundo encontro.
Se resido no Porto ou redondezas, apareça. Acha que a memória está viva? Então veja e oiça este vídeo.
quinta-feira, outubro 25, 2007
Para ler e meditar
"Por que ri a hiena?
A GLÓRIA E A EUFORIA são de rigor. O sorriso aberto e satisfeito. A sensação de vitória vê-se na linguagem do corpo. Sócrates venceu. Portugal venceu. A Europa venceu. Todos e cada país venceram. Como previsto, Barroso, Merkel e Sarkozy venceram. Prodi também. E os gémeos polacos igualmente. Percebo por que tanta gente ri de alegria e prazer. Percebo, mas não compreendo. O monstro acabado de criar não dá motivos para rir. Nem sequer sorrir. Mas o Dr. Frankenstein também sorria.
Depois de ter prometido a ultrapassagem da América nos domínios do crescimento, da ciência, da inovação e do emprego, a “Estratégia de Lisboa” foi um monumental fiasco. Segue-se-lhe o “Tratado de Lisboa”, adornado de ainda mais euforia e de ainda mais ilusões vencedoras. Este desastre de Lisboa não ficará conhecido por aqui se ter decretado uma Europa federal, comandada por franceses e alemães, distante dos povos, alheada dos problemas sociais e políticos do continente e contrária à diversidade secular dos seus povos. Não será isso, pela simples razão de que essa Europa federal nunca terá existência. O desastre de Lisboa ficará na história porque aqui se assinou um tratado que consagrou a não democracia como regime europeu e consolidou a burocracia e a Nomenclatura europeias. Ao fazê-lo, confirmou a caminhada futura para uma ilusão senil, irrealizável e não democrática. Ao tentar construir uma impossibilidade, prepararam a destruição do possível. Ao querer uma União federal, eliminam a hipótese de uma verdadeira Comunidade.
Os povos estão distantes da União e afastados da política. As instituições são fechadas e inacessíveis. A Constituição é ilegível e absurda. Os políticos são execrados pelos cidadãos. Os eleitores perderam a confiança nos seus representantes. Os europeus não conhecem, nem querem conhecer o Parlamento Europeu, uma das maiores inutilidades de que o engenho humano foi capaz. As instituições democráticas nacionais estão a definhar e alguns direitos fundamentais são postos em causa na Inglaterra, em França, na Polónia ou em Portugal. Ao mesmo tempo, as instituições europeias ganham poderes e competências, mas sem povo nem reconhecimento, sem tropas nem magistrados, sem aceitação pública nem experiência. A democracia europeia é uma ficção oca, sem substância, sem sociedade e sem vida. Este hiato, agora reforçado, entre a estratosfera europeia e as realidades nacionais e sociais é perigoso a todos os títulos. A Nomenclatura europeia criou um paraíso artificial e chamou-lhe União.
Sei que há muita gente que persiste em afirmar que tantos dirigentes, tanta inteligência, tanta capacidade diplomática não se podem enganar. Nem nos podem enganar a todos. Mas também sei que a melhor inteligência da Europa, as mais fantásticas capacidades científicas e tecnológicas e a mais ilimitada esperança na paz e no progresso fizeram, em 1914, uma das mais absurdas guerras que a humanidade conheceu. E sei que os alemães, vanguarda cultural, científica e industrial do mundo inteiro, tinham a certeza de que fundavam um império para mil anos e uma raça para a eternidade, e vejam o que fizeram. E também sei que os russos, com recursos ilimitados, com formidáveis elites políticas e intelectuais, quiseram, em tempos, criar uma sociedade sem classes, uma democracia total e um desenvolvimento económico e científico incomparável, e vejam o que fizeram.
Como sei que os americanos, que concentram nas suas mãos mais poder, mais capacidades e mais inteligência do que qualquer outra nação na história, quiseram fundar a democracia no Vietname, há quarenta anos, agora no Iraque, e vejam o que fizeram. No Iraque, muitos erraram. Muitos se enganaram. Muitos enganaram. E muitos mentiram. E eram os mais inteligentes, os mais poderosos, os mais sabedores e os que de mais informação dispunham. Os dispositivos militares e políticos americano e britânico concentram inteligência e capacidades sem rival nem precedentes. Mesmo assim, erraram.
A questão não é, obviamente, de inteligência ou de informação. É de política e de interesses. Não é muito diferente do que se passa com os dirigentes europeus. Eles não estão enganados. Enganam e mentem porque acreditam no que dizem. A Alemanha quer comprar. A França quer mandar. Juntas, pagam o que for preciso. Pagam para liquidar a agricultura e as pescas de outros. Pagam para investir nos outros países, para lhes comprar empresas e lhes fechar outras. Pagam para poder exportar. Pagam para submeter o continente às suas opções, sobretudo energéticas. Pagam para construir uma fortaleza diante das veleidades russas. Pagam para resistir ou domesticar as multinacionais. Pagam finalmente para evitar os referendos, para evitar que os povos se exprimam sobre a Europa que eles querem fazer. Pagam para construir, nas nuvens, uma ficção, a que já chamam a mais importante realização política do século XX. Tal como o Império britânico. Tal como o Terceiro Reich. Tal como o comunismo soviético.
Os europeus de hoje, isto é, os seus dirigentes políticos, com medo dos seus povos e dos seus eleitores, com receio dos americanos, ameaçados pelas multinacionais, apavorados com o terrorismo, aterrorizados pela imigração, impotentes perante o comércio asiático, têm também ao seu serviço uma capacidade intelectual, política e diplomática sem precedentes. Querem uma Europa unida ou os Estados Unidos da Europa. Vejam o que fizeram, uma Nomenclatura. Uma União que é a mais poderosa entidade na Europa actual e é também a menos democrática.
Tal como a euforia foi grande, também a crise agora vencida era enorme. Não havia crise na Europa, nem na maior parte dos seus países. Não havia crises sociais e económicas graves. Não havia democracia ou estabilidade em risco evidente. Não havia diferendos militares. A paz não estava ameaçada. Havia crise, isso sim, entre eles, entre os dirigentes políticos, entre os Estados, entre as Nomenclaturas. Fizeram a crise. Resolveram-na. Entre eles. Sem os europeus. Talvez mesmo contra os europeus."
Artigo de António Barreto, publicado no diário Público em 21 de Outubro de 2007.
Surripiado daqui.
quarta-feira, outubro 24, 2007
A Base da Civilização
A lei do universo baseia-se sobre o concurso destes dois grandes agentes: a luta pela vida e a selecção natural. A luta pela vida é o estado permanente de todos os seres, para os quais a criação é uma eterna batalha. A sorte do conflito decide-a a selecção natural. Como? Fixando na espécie, pela adaptação ao meio, os seres mais fortes, e expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel afirma: «A teoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas sociedades animais, nem os direitos, nem os deveres, nem os bens, nem os gostos dos membros associados podem ser iguais.» Ora o que é que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente o contrário disso: a igualdade dos deveres recíprocos para a mais equitativa distribuição dos bens.
O Direito portanto não só não é uma emanação da lei natural, mas é uma reacção contra essa lei. A natureza é o triunfo brutal decretado ao forte. A sociedade é a protecção consciente assegurada ao fraco. A criação funda a luta pela vida. A sociedade organiza o auxílio pela existência.
Uma civilização é tanto mais adiantada quanto mais ela submete ao seu domínio as fatalidades naturais. E é assim que o homem, de conquista em conquista, chegará um dia, como diz Büchner, ao paraíso futuro, ao paraíso terreal, de onde não veio mas para onde vai, e que não é um dom divino primitivo mas o fruto derradeiro do trabalho humano.
Ramalho Ortigão, in 'As Farpas (1883)'
Retirado do Citador
terça-feira, outubro 23, 2007
Mais nacionalismo xenófobo
O frenesi da cimeira europeia e da aprovação do chamado Tratado Reformador bem como das eleições na Polónia, onde parece que mudaram as moscas – ao que consta mais europeístas, mais neo-liberais e menos xenófobas -, afastou das luzes da ribalta o que se está a passar mesmo no centro da Europa – que não da União Europeia - onde a histórica democracia helvética foi, no domingo, a votos para o governo e parlamento.
Após uma campanha eleitoral marcada por vários conflitos, onde a União Democrática do Centro (UDC) – o partido mais à direita do espectro político – investiu nove milhões de euros, a UDC foi o partido mais votado, com 29% dos sufrágios.
A UDC, liderada por Cristoph Blocher, veio de uma votação de 9,75% em 1975 para um total de 22,5% dos votos em 2003, ultrapassando, agora, as melhores expectativas dadas pelas sondagens, num país onde os partidos tradicionais - o Partido Social Democrata, o Partido Radical (da direita empresarial) e o Partido Democrata Cristão - têm vindo sistematicamente a perder terreno.
A UDC fez uma campanha marcadamente anti-islâmica e racista, brandindo a ideia de que o perigo para a Suiça são a União Europeia e a esquerda e defendendo a tese de que o governo possa “deportar os criminosos”, o que quer dizer que os criminosos são estrangeiros. A imagem da campanha foi a bandeira de fundo vermelho e cruz branca do País, de cujo perímetro três ovelhas brancas tentavam expulsar, à patada, uma ovelha negra e onde pontificavam os dizeres “qualidade Suiça”, “minha casa, nosso país” e “por uma Suiça forte”. O cartaz provocou tal repúdio que até a ONU interpelou o candidato sobre o seu racismo mas o que é certo é que a campanha foi um êxito no sentido de atrair o eleitorado conservador. Nas manifestações de rua da UDC foram claramente identificados por uma foto-reportagem vários militantes conhecidos de grupos neo-nazis.
Embora a Suiça tenho um sistema de governo sui generis, em que o executivo é formado por 7 membros dos quatro partidos mais votados – o que afasta, para já, o domínio absoluto da UDC - talvez seja tempo de as organizações internacionais começarem a olhar o país com “olhos de ver” mais além do que o funcionamento impecável dos relógios e o sigilo bancário.
segunda-feira, outubro 22, 2007
Neurônios e ideologia
Somos todos adultos que pautam suas decisões políticas por considerações racionais, certo? Às vezes, mas devo admitir que fico tentado a responder a essa pergunta com um "quase nunca". Entre os vários "bugs" de nossa programação cerebral, destaca-se aquele que nos faz reagir a determinadas proposições políticas não com a cabeça, como seria desejável, mas com o fígado. É longa a lista de temas que nos levam a um posicionamento visceral: aborto, pena de morte, religião, legalização das drogas, porte de armas, direitos de homossexuais e, mais recentemente, ONU, invasão do Iraque e o governo George W. Bush.
Vale a pena ler na íntegra esta crónica de Hélio Schwartsman , publicada na Follha Online (versão digital da Folha de São Paulo) na passada quinta feira.
domingo, outubro 21, 2007
Como endireitar um esquerdista
Ser de esquerda é, desde que essa classificação surgiu na Revolução Francesa, optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social, inconformar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar aberração a desigualdade social.
Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros.
Ser esquerdista - patologia diagnosticada por Lênin como "doença infantil do comunismo" - é ficar contra o poder burguês até fazer parte dele. O esquerdista é um fundamentalista em causa própria. Encarna todos os esquemas religiosos próprios dos fundamentalistas da fé. Enche a boca de dogmas e venera um líder. Se o líder espirra, ele aplaude; se chora, ele entristece; se muda de opinião, ele rapidinho analisa a conjuntura para tentar demonstrar que na atual correlação de forças...
O esquerdista adora as categorias acadêmicas da esquerda, mas iguala-se ao general Figueiredo num ponto: não suporta cheiro de povo. Para ele, povo é aquele substantivo abstrato que só lhe parece concreto na hora de cabalar votos. Então o esquerdista se acerca dos pobres, não preocupado com a situação deles, e sim com um único intuito: angariar votos para si e/ou sua corriola. Passadas as eleições, adeus trouxas, e até o próximo pleito!
Como o esquerdista não tem princípios, apenas interesses, nada mais fácil do que endireitá-lo. Dê-lhe um bom emprego. Não pode ser trabalho, isso que obriga o comum dos mortais a ganhar o pão com sangue, suor e lágrimas. Tem que ser um desses empregos que pagam bom salário e concedem mais direitos que exigem deveres. Sobretudo se for no poder público. Pode ser também na iniciativa privada. O importante é que o esquerdista se sinta aquinhoado com um significativo aumento de sua renda pessoal.
Isso acontece quando ele é eleito ou nomeado para uma função pública ou assume cargo de chefia numa empresa particular. Imediatamente abaixa a guarda. Nem faz autocrítica. Simplesmente o cheiro do dinheiro, combinado com a função de poder, produz a imbatível alquimia capaz de virar a cabeça do mais retórico dos revolucionários.
Bom salário, função de chefia, mordomias, eis os ingredientes para inebriar o esquerdista em seu itinerário rumo à direita envergonhada - a que age como tal mas não se assume. Logo, o esquerdista muda de amizades e caprichos. Troca a cachaça pelo vinho importado, a cerveja pelo uísque escocês, o apartamento pelo condomínio fechado, as rodas de bar pelas recepções e festas suntuosas.
Se um companheiro dos velhos tempos o procura, ele despista, desconversa, delega o caso à secretária, e à boca pequena se queixa do "chato". Agora todos os seus passos são movidos, com precisão cirúrgica, rumo à escalada do poder. Adora conviver com gente importante, empresários, ricaços, latifundiários. Delicia-se com seus agrados e presentes. Sua maior desgraça seria voltar ao que era, desprovido de afagos e salamaleques, cidadão comum em luta pela sobrevivência.
Adeus ideais, utopias, sonhos! Viva o pragmatismo, a política de resultados, a cooptação, as maracutaias operadas com esperteza (embora ocorram acidentes de percurso. Neste caso, o esquerdista conta com o pronto socorro de seus pares: o silêncio obsequioso, o faz de conta de que nada houve, hoje foi você, amanhã poderei ser eu...).
Lembrei-me dessa caracterização porque, dias atrás, encontrei num evento um antigo companheiro de movimentos populares, cúmplice na luta contra a ditadura. Perguntou se eu ainda mexia com essa "gente da periferia". E pontificou: "Que burrice a sua largar o governo. Lá você poderia fazer muito mais por esse povo."
Tive vontade de rir diante daquele companheiro que, outrora, faria um Che Guevara sentir-se um pequeno-burguês, tamanho o seu aguerrido fervor revolucionário. Contive-me, para não ser indelicado com aquela figura ridícula, cabelos engomados, trajes finos, sapatos de calçar anjos. Apenas respondi: "Tornei-me reacionário, fiel aos meus antigos princípios. E prefiro correr o risco de errar com os pobres do que ter a pretensão de acertar sem eles."
Frei Betto
Retirado daqui
sábado, outubro 20, 2007
Profundidade
Há perigo na goteira
Que inunda o meu silêncio
Há perigo nestas mãos
Que destroem o imenso
E a solidão.
As goteiras caem uma a uma
Em pedaços despedaçam
O momento, até ser gotas
Do silêncio na imensidão.
As mãos agarram o som
Em seus pequenos movimentos.
Adrienne Morelato*
*poetisa brasileira
sexta-feira, outubro 19, 2007
Vinícius, sempre!
Vinícius, se fosse vivo, completaria hoje 94 anos. E eu, seu modesto admirador, que se não fosse português teria outra nacionalidade qualquer, dedico a parte final deste seu soneto aos políticos do meu país que vejo tão contentes por se terem vendido por um "prato de lentilhas". Vinícius, o grande, não gostaria da intimidade deles:
Soneto da intimidade
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio as vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
Vinicius de Moraes
quinta-feira, outubro 18, 2007
A cimeira
A esta hora, entre um croquete e uma laranjada, um pastel de bacalhau e uma coca cola ou caviar e um champanhe francês, tudo pago pelos impostos do Zé, os chefes de Estado ou de Governo da União Europeia devem estar a tagarelar sobre trivialidades (os austríacos que têm medo de que os alemães lhes roubem os estudantes de medicina, os polacos que querem não se sabe bem o quê, os italianos que não querem perder deputados, os búlgaros que querem chamar “evro” ao euro) enquanto se preparam para hipotecar a soberania de cada um dos países.
Em lugar de darem um novo fôlego à Agenda de Lisboa, ambiciosa velhinha de sete anos que pretendia transformar, até 2010, a União Europeia na região económica mais empreendedora, com melhor educação e energeticamente mais eficiente do mundo, preparam-se para aprovar o Tratado de Lisboa, que ligará para sempre os destinos de Estados até agora soberanos à eurocracia reinante.
A União Europeia teve origem numa comunidade de interesses económicos (daí se ter chamado Comunidade Económica Europeia) e devia ser nisso que os esforços dos nossos dirigentes se deviam focar: enfrentar a crescente globalização e tornar a Europa mais competitiva e capaz de fazer face ao poderio dos Estados Unidos e à crescente influência dos chamados BRIC (para os distraídos, Brasil, Rússia, Índia e China).
Mas não. Até agora, os assuntos internos e judiciais eram questões exclusivas de cada Estado soberano, que definia o que era crime ou não, como lidar com os crimes do ponto de vista policial e qual a sentença mais adequada para cada um. Agora, vamos ter uma espécie de jantar de amigos com refeição de preço fixo previamente estipulada, com vinho da casa branco ou tinto, em que nem sequer os “doentes” podem optar por algo diferente.
Há seis anos foi aprovada a Declaração de Laeken, em que os estados membros se comprometiam com mais transparência das instituições, mais democracia e mais subsidiariedade (ou seja, mais poder para cada estado). Agora, somos todos corridos a decisões do Tribunal Europeu de Justiça, que se propõe ficar com mais poderes do que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos, do qual foi retirado a papel químico.
Se a nossa justiça, que tem todas as condições de proximidade, é o que é, com um peso para os poderosos e peso nenhum para o Zé povinho, o que se vislumbra não augura nada de bom. Para já não falar de diplomacia, em que o Sr. de Bruxelas fará os dislates que entender e o nosso MNE, enquanto o houver, só poderá acenar como a cabeça, para cima e para baixo, como os burros.
E vieram os meus avoengos lá do Minho, armados de espadas e lanças, para correrem com a moirama e com os castelhanos. O País com as fronteiras mais antigas do mundo pesa menos do que o Kosovo, a quem reconhecem o direito à independência os mesmos que a negam ao País Basco ou à Catalunha, à Irlanda do Norte ou à Córsega e, agora, a todos os pequenos Estados da UE.
Ao que isto chegou. Depois admirem-se de que o fosso entre o povo e as auto-proclamadas elites seja cada vez maior, quer a nível da política de cada estado, que contará cada vez menos, quer a nível da política da União, que se burocratizará cada vez mais.
quarta-feira, outubro 17, 2007
Grito claro
De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
António Ramos Rosa*
*no dia do seu 83º aniversário
Hipocrisias
A ditadura militar na Birmânia (rebaptizada de Mianmar pela actual junta) dura há 45 anos, sem que a comunidade internacional se tenha incomodado grandemente com o que se passa naquele país do sudoeste asiático, apesar de algumas sanções económicas por parte da União Europeia, do Canadá e dos Estados Unidos.
Até que a recente “Revolução de Açafrão”, assim chamada devido à cor das túnicas dos monges budistas que iniciaram e lideraram os protestos, veio desencadear um coro de críticas sem precedentes e ameaças de novas sanções, quer da União Europeia quer dos Estados Unidos.
Do lado de lá do Atlântico, às palavras do Sr. Bush e da Sra. Rice juntaram-se críticas muito contundentes de alguém que não costuma pronunciar-se publicamente: a Primeira-dama Laura Bush.
Mas, mais uma vez, a comunicação social não fez os trabalhos de casa, isto é, explicar aos iletrados como eu quem sustenta a junta militar. E aí, um nome chama atenção: a petrolífera estado-unidense Chevron, que a Sra. Rice deve conhecer bem, já que foi membro da sua direcção durante 10 longos anos, antes de se tornar conselheira de segurança do Sr. Bush e, depois, sua Secretária de Estado.
Com efeito, a maior riqueza da Birmânia são as reservas de gás natural, controladas pela junta em sociedade com a Chevron, a francesa Total e uma empresa petrolífera tailandesa. As plataformas de gás natural situadas no alto mar enviam o gás para a Tailândia através de um gasoduto que foi construído com mão-de-obra escrava, obrigada à servidão pelo regime militar birmanês.
A sócia inicial do oleoduto, a petrolífera californiana Unocal, foi processada pela EarthRigths International por utilizar mão-de-obra escrava; logo que o processo foi resolvido fora dos tribunais, a Chevron comprou-a. A Total está correntemente a ser processada nos tribunais da França e da Bélgica pelo mesmo motivo.
Escusado será dizer que a Chevron e a Total não foram beliscadas pelas sanções, apesar das repetidas ameaças do seu reforço por parte da União Europeia (com a França à cabeça) e dos Estados Unidos, e que continuam a operar livremente as plataformas e o gasoduto. Enquanto assim for, não há sanções que resultem.
terça-feira, outubro 16, 2007
Memória de Adriano
Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria do suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.
Foste sempre o cantor que não se agarra
o que à terra chamou amante e irmã
mas também português que investe e marra
voz de alaúde e rosto de maçã.
O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generosas como a liberdade.
Resta de ti a ilha dum tesouro
a jóia com as pedras mais antigas
não é saudade, não! É amizade.
Ary dos Santos
segunda-feira, outubro 15, 2007
O caminho para Samarra
Um soldado da antiga Bassora, na Mesopotânia, cheio de medo, foi ao rei e lhe disse: "Meu Senhor, salva-me, ajuda-me a fugir daqui; estava na praça do mercado e encontrei a Morte vestida toda de preto que me mirou com um olhar mortal; empresta-me seu cavalo real para que possa correr depressa para Samarra que fica longe daqui; temo por minha vida se ficar na cidade". O rei fez-lhe a vontade. Mais tarde o rei encontrou a Morte na rua e lhe disse: " O meu soldado estava apavorado; contou-me que te encontrou e que tu o olhavas de forma estranhíssima". "Oh não", respondeu a Morte, "o meu olhar era apenas de estupefação, pois me perguntava como esse homem iria chegar a Samarra que fica tão longe daqui, porque o esperava esta noite lá".
Essa estória é uma parábola da aceleração do crescimento feito à custa da devastação da natureza e da exclusão das grandes maiorias. Ele nos está levando para Samarra. Em outras palavras: temos pouquíssimo tempo à disposição para entender o caos no sistema-Terra e tomar as medidas necessárias antes que ela desencadeie conseqüências irreversíveis. Já sabemos que não podemos mais evitar o aquecimento global, apenas impedir que seja catastrófico. No âmbito dos governos, não se está fazendo nada de realmente significativo que responda à gravidade do desafio. Muitos crêem na capacidade mágica da tecno-ciência: no momento decisivo ela seria capaz de suster os efeitos destrutivos. Mas a coisa não é bem assim. Há danos que uma vez ocorridos produzem um efeito-avalanche.
A natureza no campo físico-químico e mesmo as doenças humanas nos servem de exemplo. Uma vez desencadeada, não se pode mais bloquear uma explosão nuclear. Rompidos os diques de Nova Orleans nos USA, não é mais possível frear a invasão do mar. Na maioria das doenças humanas ocorre a mesma lógica. O abuso de álcool e de fumo, o excesso na alimentação e a vida sedentária começam a princípio produzindo efeitos sem maior significação. Mas o organismo lentamente vai acumulando modificações, primeiramente funcionais, depois orgânicas e, por fim, atingindo certo patamar, surge uma doença não mais reversível.
É o que está ocorrendo com a Terra. A "colônia" humana em relação ao organismo-Terra está se comportando como um grupo de células que, num dado momento, começa a se replicar caoticamente, a invadir os tecidos circundantes, a produzir substâncias tóxicas que acaba por envenenar todo o organismo. Nós fizemos isso, ocupando 83% do planeta.
O sistema econômico e produtivo se desenvolveu já há três séculos sem tomar em conta sua compatibilidade com o sistema ecológico. Hoje nos damos conta de que ecologia e modo industrialista de produção que implica o saque desertificante da natureza são contraditórios. Ou mudamos ou chegaremos à Samarra, onde nos espera algo sinistro.
A Terra como um todo é a fronteira. Ela coloca em crise os atuais modos de produção que sacrificam o capital natural e as formações sociais construídas sobre o consumismo, o desperdício, o mau trato dos rejeitos e a exclusão social. Três problemas básicos nos afligem: a alimentação que inclui a água potável, as fontes de energia e a superpopulação. Para cada um destes problemas não temos soluções globais à vista. E o tempo do relógio corre contra nós. Agora é o momento de crise coletiva que nos obriga a pensar, a madurar e a tomar decisões de vida ou de morte.
Leonardo Boff
Retirado daqui
Um soldado da antiga Bassora, na Mesopotânia, cheio de medo, foi ao rei e lhe disse: "Meu Senhor, salva-me, ajuda-me a fugir daqui; estava na praça do mercado e encontrei a Morte vestida toda de preto que me mirou com um olhar mortal; empresta-me seu cavalo real para que possa correr depressa para Samarra que fica longe daqui; temo por minha vida se ficar na cidade". O rei fez-lhe a vontade. Mais tarde o rei encontrou a Morte na rua e lhe disse: " O meu soldado estava apavorado; contou-me que te encontrou e que tu o olhavas de forma estranhíssima". "Oh não", respondeu a Morte, "o meu olhar era apenas de estupefação, pois me perguntava como esse homem iria chegar a Samarra que fica tão longe daqui, porque o esperava esta noite lá".Essa estória é uma parábola da aceleração do crescimento feito à custa da devastação da natureza e da exclusão das grandes maiorias. Ele nos está levando para Samarra. Em outras palavras: temos pouquíssimo tempo à disposição para entender o caos no sistema-Terra e tomar as medidas necessárias antes que ela desencadeie conseqüências irreversíveis. Já sabemos que não podemos mais evitar o aquecimento global, apenas impedir que seja catastrófico. No âmbito dos governos, não se está fazendo nada de realmente significativo que responda à gravidade do desafio. Muitos crêem na capacidade mágica da tecno-ciência: no momento decisivo ela seria capaz de suster os efeitos destrutivos. Mas a coisa não é bem assim. Há danos que uma vez ocorridos produzem um efeito-avalanche.
A natureza no campo físico-químico e mesmo as doenças humanas nos servem de exemplo. Uma vez desencadeada, não se pode mais bloquear uma explosão nuclear. Rompidos os diques de Nova Orleans nos USA, não é mais possível frear a invasão do mar. Na maioria das doenças humanas ocorre a mesma lógica. O abuso de álcool e de fumo, o excesso na alimentação e a vida sedentária começam a princípio produzindo efeitos sem maior significação. Mas o organismo lentamente vai acumulando modificações, primeiramente funcionais, depois orgânicas e, por fim, atingindo certo patamar, surge uma doença não mais reversível.
É o que está ocorrendo com a Terra. A "colônia" humana em relação ao organismo-Terra está se comportando como um grupo de células que, num dado momento, começa a se replicar caoticamente, a invadir os tecidos circundantes, a produzir substâncias tóxicas que acaba por envenenar todo o organismo. Nós fizemos isso, ocupando 83% do planeta.
O sistema econômico e produtivo se desenvolveu já há três séculos sem tomar em conta sua compatibilidade com o sistema ecológico. Hoje nos damos conta de que ecologia e modo industrialista de produção que implica o saque desertificante da natureza são contraditórios. Ou mudamos ou chegaremos à Samarra, onde nos espera algo sinistro.
A Terra como um todo é a fronteira. Ela coloca em crise os atuais modos de produção que sacrificam o capital natural e as formações sociais construídas sobre o consumismo, o desperdício, o mau trato dos rejeitos e a exclusão social. Três problemas básicos nos afligem: a alimentação que inclui a água potável, as fontes de energia e a superpopulação. Para cada um destes problemas não temos soluções globais à vista. E o tempo do relógio corre contra nós. Agora é o momento de crise coletiva que nos obriga a pensar, a madurar e a tomar decisões de vida ou de morte.
Leonardo Boff
O Apogeu do Cobarde
Havia num partido um homem, que era demasiado medroso e cobarde para, alguma vez, contradizer os seus camaradas: empregavam-no para todos os serviços, exigiam tudo dele, porque ele tinha mais medo da má opinião dos seus camaradas que da morte; era um lamentável espírito fraco. Eles reconheceram isso e fizeram dele, em virtude das circunstâncias mencionadas, um herói e, por fim, até um mártir. Embora o cobarde, interiormente, dissesse sempre não, com os lábios pronunciava sempre sim, mesmo já no cadafalso, ao morrer pelas ideias do seu partido: é que, ao lado dele, estava um dos seus velhos camaradas, que o tiranizava tanto pela palavra e o olhar, que ele sofreu a morte realmente da maneira mais decente e, desde então, é homenageado como mártir e grande personalidade.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
Retirado do Citador
domingo, outubro 14, 2007
O senador imexível
Este texto foi escrito a propósito do escândalo que tem sido protagonizado pelo presidente do Senado brasileiro.
Mas, mutatis mutandis, poderia aplicar-se a muitos políticos da nossa praça, pelo que aqui fica para reflexão:
"Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", indaga Marco Túlio Cícero, referindo-se ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato, urdindo um golpe contra o Senado.
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, põe em sua boca a indignação popular: "Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?"
"Ó tempos, ó costumes!", exclama Cícero movido por sua atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. "Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?"
Jurista, Cícero se esforça para que Catilina admita os seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia."
Se Catilina permanece no Senado, não é apenas a vontade própria que o sustenta, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: "Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?"
Cícero não teme ameaças e expressa o que lhe dita o decoro: "Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (…) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (…) Refiro-me a fatos que dizem respeito, não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós."
Os crimes de Catilina escancaram-se à nação. Seus próprios pares o evitam, como assinala Cícero: "E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembléia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?".
Catilina finge não se dar conta da gravidade da situação. Faz ouvidos moucos, jura inocência, agarra-se doentiamente a seu mandato. "Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam" - brada Cícero -, "eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?".
Cícero não demonstra esperança de que seu libelo seja ouvido: "Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?" E não poupa os políticos que, apesar de tudo, apóiam Catilina: "Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não vêem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que vêem".
Catilina acaba se refugiando na Etrúria e morre em 62 a.C.. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, é assassinado em 43 a.C.
Frei Betto
Retirado daqui
sábado, outubro 13, 2007
Noite morta
Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite . . .
(Não desta noite, mas de outra maior.)
Manuel Bandeira* (Petrópolis, 1921)
*poeta barsileiro
sexta-feira, outubro 12, 2007
Ite Circus Est!
...que é como quem diz, podeis ir embora que o circo acabou!
Dizem que a Igreja Católica decidiu entrar no mundo do futebol, comprando, através da Conferência Episcopal Italiana, uma participação no AC Ancona, um clube da terceira divisão italiana, com o objectivo de injectar no futebol alguma moralidade, considerada “muito necessária”.
“Nós queremos trazer alguma ética de volta ao jogo, o qual tem sofrido uma grave crise em termos de desportivismo”, terá dito Edoardo Menichelli, Arcebispo de Ancona.
Com o rumo que as coisas têm tomado no Vaticano, é muito provável que o canto gregoriano, em latim como deve ser, passe a ser escutado em Ancona e nos vários campos que o clube visitar e que, no termo de cada jogo em casa, os apoiantes passem a ser enviados embora com um sonoro “Ite Circus Est”, proclamado pelo Arcebispo a partir do camarote presidencial.
Para ajudar “à missa”, aqui ficam algumas sugestões:
Por cada golo do clube da casa, a massa associativa cantará, em coro, o aleluia; por cada golo sofrido, o secretário episcopal alternará uma das lamentações de Jeremias.
Quando os adeptos quiseram mandar o treinador embora, cantarão o requiem, seguido do dies irae; se o clube correr o risco de descer de divisão, entoarão o “ofício das trevas”.
No estádio será construída uma capela, onde a equipa de arbitragem irá rezar antes de cada jogo para não fazer disparates. Para que não haja pressões, serão acompanhados pelos jogadores e pelas equipas técnicas de ambos os clubes.
Se o guarda-redes da casa defender uma grande penalidade, terá direito a uma indulgência plenária; se deixar entrar um frango, é automaticamente excomungado, só podendo voltar a actuar depois de se confessar ao Arcebispo. A mesma benesse ou o mesmo castigo serão aplicados ao jogador da casa que marcar um golo decisivo ou falhar uma grande penalidade.
Quem vir um cartão encarnado, vai para o inferno durante duas semanas e se agredir um adversário, serão dois meses; por seu lado, os admoestados com amarelos passarão uma semana no purgatório e outra no limbo.
A equipa de arbitragem que cometer erros grosseiros contra o clube da casa, será exorcizada e impedida de arbitrar durante um ano; mas, se o erro grosseiro for a favor, irá viver no paraíso até ao próximo jogo.
Para os jogadores da casa, o spray milagroso será substituído pela água benta e a embalagem pelo hissope.
Os insultos aos árbitros ou aos jogadores adversários não poderão ultrapassar um “vai-te confessar, malandro” seguido de uma persignação, com a mão direita e com o respeitinho devido.
Por último, se o clube subir de divisão, todos os jogadores e equipa técnica receberão uma indulgência plenária para todo o sempre, a qual só poderá ser revertida se voltarem a descer de divisão ou forem para a concorrência; para a massa associativa, a indulgência plenária terá um prazo de validade de um ano.
Ámen.
Maquinomem
O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.
As hemácias de seu sangue
são redondos algarismos.
Crescem cactos estatísticos
em seus abstratos jardins.
Exato planejamento,
a vida do maquinomem.
Trepidam as engrenagens
no esforço das realizações.
Em seu íntimo ignorado,
há uma estranha prisioneira,
cujos gritos estremecem
a metálica estrutura;
há reflexos flamejantes
de uma luz imponderável
que perturbam a frieza
do blindado maquinomem.
Helena Kolody*
*poetisa brasileira
quinta-feira, outubro 11, 2007
CERTEZA
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que ele estava sempre começando...
A certeza de que era preciso continuar...
A certeza de que seria interrompido antes de terminar....
Fazer da interrupção um caminho novo ...
Fazer da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...
Fernando Sabino*
*poeta brasileiro
quarta-feira, outubro 10, 2007
Os complicadores
Um reputado constitucionalista português diz ser contra o referendo ao Tratado Reformador da União Europeia – um eufemismo para a Constituição Europeia – por se tratar de “textos longos, complexos, prolixos e que versam sobre centenas ou milhares de questões”, acrescentando que “estes documentos não podem deixar de ser longos e complexos”
Ora, com todo o respeito que o Prof. Vital Moreira merece, uma Constituição não tem de ser, forçosamente, um documento longo e complexo.
Nós, os portugueses em particular e os europeus em geral, é que temos o mau hábito de complicar aquilo que poderia ser simples. Já quando, em 1982, foi elaborado o Tratado de Maastricht, fomos confrontados com um documento intragável até para os iniciados, que a grande maioria dos seus apoiantes não deve ter percebido. A mim valeu-me, na altura, o economista António Marta, que creio ocupava o lugar de Secretário de Estado (das Comunidades ou da Integração Europeia, já não me recordo decorridos 15 anos), o qual verteu para português minimamente inteligível uma versão reduzida (mesmo assim com 150 páginas) do documento.
Em termos internacionais, por exemplo, a Constituição dos Estados Unidos tem 7 Artigos que ocupam sete páginas, a que foram acrescentadas 27 Emendas – das quais as 10 primeiras formam A Carta dos Direitos (The Bill of Rights) – que ocupam mais oito páginas. A Constituição Portuguesa tem 296 Artigos que ocupam noventa e uma páginas. E a moribunda Constituição Europeia tem 448 artigos que ocupam mais de duzentas e cinquenta páginas que, com os protocolos anexos, sobem para mais de quatrocentas e cinquenta.
Em termos de palavras, vi escrito que a Constituição dos Estados Unidos tem 4.600 palavras (eu fiz a conversão para documento de texto, incluindo as Emendas, e contei 7.132 palavras), ao passo que a Europeia tem mais de 60.000.
E quanto à clareza do conteúdo, vou ali e já venho. Indo apenas ao preâmbulo, comparemos o dos Estados Unidos :
“Nós, o Povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita, estabelecer a Justiça, assegurar a Tranquilidade interna, prover a defesa comum, promover o Bem-estar geral, e garantir para nós e para os nossos Descendentes os benefícios da Liberdade, estabelecemos e promulgamos esta Constituição para os Estados Unidos da América.”
com o da União Europeia, ou mesmo o de Portugal .
Eu não sou um admirador daquilo que os Estados Unidos representam, o que não me impede de reconhecer o muito que o país, e principalmente o seu povo, tem de bom. E cá deste lado devíamos aproveitar o bom e refutar o mau, mas costumamos fazer exactamente o oposto.
Pela minha parte, não gostaria de ver a minha vida regulada pelo Estado – ou por um conjunto de Estados – até ao mais ínfimo pormenor. Não tenho de beber a mistela a que os ingleses dão o nome de cerveja, comer salsichas quando não gosto, ser impedido de tomar banho todos os dias só porque há europeus que não têm hábitos de banho diário e muitas outras coisas mais. Já chega ter de consumir fruta “de aviário” normalizada, tomates normalizados também “de aviário”, azeite que não presta em embalagens invioláveis, hortaliça embalada com desperdícios lá dentro e “digerir” Directivas e mais Directivas que regulam a minha actividade profissional, para mais apenas disponíveis em letra do tamanho 7, para dar sono durante a leitura e proporcionar a “caça à sanção”. E o Zé a pagar os chorudos ordenados da cambada que está em Bruxelas ou em Estrasburgo.
terça-feira, outubro 09, 2007
Assassinaram o Che
Foi há 40 anos, ia eu a caminho dos meus dezanove.
Do lado de cá do Atlântico, os Fab Four e os Stones destruíam preconceitos e os movimentos estudantis começavam a pressagiar o que viria a ser “o Maio de 68”. Do lado de lá, o movimento hippie estava no seu auge, a contestação à Guerra do Vietname e as lutas pelos direitos cívicos intensificavam-se e o rock psicadélico dos Grateful Dead e Jefferson Airplane dominavam, com Janis Joplin, as ondas. Dos dois lados, Scott McKenzie e o seu “San Francisco (Be Sure to Wear Flowers in Your Hair)" batiam recordes de audições nas rádios.
Numa floresta da Bolívia, um revolucionário romântico, apanhado na véspera com o seu pequeno grupo de guerrilheiros, era barbaramente assassinado no dia 9 de Outubro de 1967, às ordens da CIA e do seu ditador de turno no país, general René Barrientos.
Digam o que disserem os seus detractores, hoje como ontem fieis serventuários do “império”, a figura do médico argentino que trocou a maleta por uma espingarda para tentar pôr fim à miséria na América Latina (e na África, pois esteve um ano no Congo) perdurará na memória dos mais desfavorecidos.


A partir dela, o artista plástico irlandês James Fitzpatrick criou a imagem icónica e mundialmente popular do Che, da qual se diz que é a segunda imagem mais difundida no mundo, a seguir à de Cristo.
Numa carta de despedida aos filhos, o Che deixou uma mensagem em que todos, mesmo aqueles que procuram denegri-lo, deviam meditar:
"Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário"
Foi há 40 anos, ia eu a caminho dos meus dezanove.
Do lado de cá do Atlântico, os Fab Four e os Stones destruíam preconceitos e os movimentos estudantis começavam a pressagiar o que viria a ser “o Maio de 68”. Do lado de lá, o movimento hippie estava no seu auge, a contestação à Guerra do Vietname e as lutas pelos direitos cívicos intensificavam-se e o rock psicadélico dos Grateful Dead e Jefferson Airplane dominavam, com Janis Joplin, as ondas. Dos dois lados, Scott McKenzie e o seu “San Francisco (Be Sure to Wear Flowers in Your Hair)" batiam recordes de audições nas rádios.
Numa floresta da Bolívia, um revolucionário romântico, apanhado na véspera com o seu pequeno grupo de guerrilheiros, era barbaramente assassinado no dia 9 de Outubro de 1967, às ordens da CIA e do seu ditador de turno no país, general René Barrientos.
Digam o que disserem os seus detractores, hoje como ontem fieis serventuários do “império”, a figura do médico argentino que trocou a maleta por uma espingarda para tentar pôr fim à miséria na América Latina (e na África, pois esteve um ano no Congo) perdurará na memória dos mais desfavorecidos.

Esta fotografia, que celebrizou o seu autor Alberto Korda, feita num funeral, em Cuba, em 5 de Março de 1960, e tornada pública apenas sete anos após a sua captação, foi considerada pelo Instituto Maryland de Arte como “a mais famosa fotografia no mundo e símbolo do século XX”.

A partir dela, o artista plástico irlandês James Fitzpatrick criou a imagem icónica e mundialmente popular do Che, da qual se diz que é a segunda imagem mais difundida no mundo, a seguir à de Cristo.
Numa carta de despedida aos filhos, o Che deixou uma mensagem em que todos, mesmo aqueles que procuram denegri-lo, deviam meditar:
"Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário"
segunda-feira, outubro 08, 2007
Língua-mar
A língua em que navego, marinheiro,
na proa das vogais e consoantes,
é a que me chega em ondas incessantes
à praia deste poema aventureiro.
É a língua portuguesa, a que primeiro
transpôs o abismo e as dores velejantes,
no mistério das águas mais distantes,
e que agora me banha por inteiro.
Língua de sol, espuma e maresia,
que a nau dos sonhadores-navegantes
atravessa a caminho dos instantes,
cruzando o Bojador de cada dia.
Ó língua-mar, viajando em todos nós.
No teu sal, singra errante a minha voz.
Adriano Espínola*
*poeta brasileiro
domingo, outubro 07, 2007
Mistifório ou moscambilha?
Alertado por uma alma caridosa, fui sem demora ver o sítio e deparei-me com o seguinte preparo:
* 2 páginas de projecto de não preâmbulo;
* 152 páginas de alterações às alterações previamente alteradas;
* 76 páginas de protocolos protocolares devidamente protocolados;
* 25 páginas de declarações declarativas.
Necessitei de dois dias para reagir pois, neste caso, não se trata da montanha que pariu um rato, mas literalmente de um outeiro que pariu várias cordilheiras.
Resta saber se se trata de um mistifório, resultante da incapacidade dos eurocratas de legislarem em termos compreensíveis ao contribuinte ou de uma moscambilha destinada a comer por parvos mais de quatrocentos milhões de cidadãos.
sábado, outubro 06, 2007
Música
Nas mãos que harpejam, ferem, desmancham
no silêncio noturno o frio teclado
- de onde arrancam as notas, o eco -
escutei o destino, insistente chamado.
Pelas mãos desarmadas de espadas e foices
senti sobre a pele o toque encantado
daquilo que ecoa em calado sussurro.
Ouço as vozes e o que é falado.
Mãos me libertam da cegueira eterna
da massa, do mundo desacordado.
Abraço as sombras de acordes que soam.
Quem fala é a música. Insistente é o chamado.
Adrianne Fontoura*
*poetisa brasileira
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