quinta-feira, janeiro 10, 2013

CUME
  
É a hora da tarde, essa que põe
seu sangue nas montanhas.

E nesta hora alguém está sofrendo;
uma perde, angustiada,
bem neste entardecer o único peito
contra o qual se estreitava.

Há algum coração em que o poente
Mergulha aquele cume ensangüentado.

O vale já sombreia
e se enche de calma.
Mas, lá do fundo, vê que se incendeia
de rubor a montanha.

A esta hora ponho-me a cantar
minha eterna canção atribulada.

Sou eu que estou batendo
o cume de escarlate?

Ponho em meu coração a mão e o sinto
a verter quando bate.


(poetisa chilena e primeira mulher a ser galardoada com o Nobel da literatura, faleceu em Nova Iorque a 10 de Janeiro de 1957)

Tradução de Ruth Sylvia de Miranda Salles

(não gosto da tradução, mas mantive-a por ser de uma edição da Academia Brasileira de Letras)

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Paolo Nutini faz hoje 26 anos
Lara Fabian faz hoje 43 anos
Dave Mathews faz hoje 45 anos
Joan Baez faz hoje 71 anos
FÁBULA DE UM ARQUITETO

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.


(João Cabral de Melo Neto nasceu a 9 de Janeiro de 1920)

terça-feira, janeiro 08, 2013

Teresa Salgueiro faz hoje 44 anos
David Bowie faz hoje 65 anos
O Meu Sonho Habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.


(poeta francês falecido a 8 de Janeiro de 1896)

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Clint Mansell faz hoje 49 anos
Jean-Pierre Rampal nasceu a 7 de Janeiro de 1922
Luís Melodia faz hoje 62 anos
A mágoa é um vício

A mágoa é um vício, a ele volto
pelas madeiras desta casa, as memórias
são mais que os sinais pendurados
ao longo das paredes, não descrevo
o que vejo. O que sinto quase
está no silêncio, deixa de ser tempo
o tempo da noite, nos papéis
há desenhos que o matam, pontos
ganhos, contas de somar, fáceis
artimanhas evitando as palavras. Nada
difere de como ponho a mão na testa,
de como se afasta o sol para trás
dos castanheiros. Tento dizer
que sou como vós, leves amantes
de suaves lazeres, contradigo, desminto,
nada acontece. Para o dia de hoje
um pequeno esboço de tristeza, derrota
de cumprir, tarefa de vencer, antes
da noite os ombros, as rugas, terão
significado preciso. Só o recomeço
será tempo de sorrisos.

Helder Moura Pereira

(poeta setubalense nascido a 7 de Janeiro de 1949)

domingo, janeiro 06, 2013

Alex Turner faz hoje 26 anos
Syd Barrett faria hoje 66 anos
SOPA

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher.
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.


(poeta estado-unidense nascido a 6 de Janeiro de 1878)

Tradução de Alexandre O'Neill

sábado, janeiro 05, 2013

Pauline Vasseur faz hoje 24 anos
Elizabeth Cotten nasceu faz hoje 117 anos. Interpreta uma canção que compôs aos 12.
O Galo

Canto forrado em
carne, e sob as penas,
este carvão que
espreita. E salta em
arco sobre os pulmões
do dia. E bifurca a
manhã com a córnea de
seu bico.


(escritor mineiro nascido faz hoje 88 anos)