sábado, junho 30, 2007

Portento


Portento é o adjectivo que considero justo para qualificar Patrick Wolf, um jovem inglês que completa hoje 24 anos de idade.

Nascido a 30 de Junho de 1983, escreve, compõe, canta e toca um número impressionante de instrumentos: harpa, clavinet, cravo, guitarra, piano, cítara, kantele, órgão, dulcimer dos apalaches, clavicórdio, harmónio, acordeão, teremin, ukulele, viola e violino, são alguns (muitos) deles.

Já com 3 álbuns gravados e vários singles e EP's, vale a pena ouvi-lo ( entre as dezenas disponíveis no You Tube escolhi Accident and Emergency):

Emergency

So come on
Give me the worst and then again
I'm feeling braver than I've ever been
From the skull down to the feet
all of the blood and sweat and meat
and for

Accident Emergency
Terrorist
Catastrophy
Dump this agony and misery
give me
Accident and Emergency

So what happnes when you lose everythin'
You just carry on and with a grin,
Sing!
For all that lovelife has to bring,
And just get yourself back into the ring,
Knock us out,
For

Accident and Emergency,
Terrorists,
Catastrophy,
From this agony and misery,
Hold on for
Accident and Emergency

'Coz if you never lose,
How you gonna know when you've won
And if it's never dark,
How you gonna know the sun,
When it shines,
Got to let it shine,

Accident and Emegency

Bring it out,
The best in me.
DA SOMBRA QUE SOMOS


Da Sombra Que Somos é o segundo livro de poesia de Maria Sofia Magalhães. Com a chancela da portuense Deriva Editores, o livro foi apresentado, ontem, na Livraria Barata, no número 11 da Avenida de Roma, em Lisboa.

Com o compromisso assumido de levar a minha Tita ao aeroporto da Portela pelas 20H00, ainda encontrei tempo para uma breve passagem pela Barata, para saudar a autora e adquirir o meu exemplar autografado. Não deu para esperar pela apresentação “oficial”, aprazada para as 18H30, mas fiz o que me era possível.

A 4 de Julho, no Porto, na Livraria Poetria (Palacete Balsemão à Praça Carlos Alberto), às 21H30, haverá nova apresentação. Para abrir o apetite, aqui fica o poema que deu nome ao livro:

Da sombra que passa
Em momentos de luz
A pele como a taça
Do mel que seduz

Da sombra que somos
Nos dias de mar
Momento em que fomos
Capazes de amar

Da sombra que dou
Quando olhas assim
Para quem te guardou
Nas sobras de mim

Maria Sofia Magalhães

sexta-feira, junho 29, 2007

Sólo tu amor y el agua Sólo tu amor y el agua....Octubre junto al río bañaba los racimos dorados de la tarde, y aquella luna odiosa iba subiendo, clara, ahuyentando las negras violetas de la sombra. Yo iba perdido, náufrago por mares de deseo, cegado por la bruma suave de tu pelo. De tu pelo que ahogaba la voz en mi garganta cuando perdía mi boca en sus horas de niebla. Sólo tu amor y el agua.....El río, dulcemente, callaba sus rumores al pasar por nosotros, y el aire estremecido apenas se atrevía a mover en la orilla las hojas de los álamos. Sólo se oía, dulce como el vuelo de un ángel al rozar con sus alas una estrella dormida, el choque fugitivo que quiere hacerse eterno, de mis labios bebiendo en los tuyos la vida. Lo puro de tus senos me mordía en el pecho con la fragancia tímida de dos lirios silvestres, de dos lirios mecidos por la inocente brisa cuando el verano extiende su ardor por las colinas. La noche se llenaba de olores de membrillo, y mientras en mis manos tu corazón dormía, perdido, acariciante, como un beso lejano, el río suspiraba..... Sólo tu amor y el agua... Pablo García Baena* *Poeta andaluz que celebra hoje 84 anos

quinta-feira, junho 28, 2007

Resiliência e drama ecológico Inegavelmente estamos enfrentando, com o aquecimento global já iniciado, uma situação dramática para o futuro do planeta e da humanidade. Não apenas os grupos ecológicos estão altamente mobilizados mas também grandes empresários e os Estados centrais e periféricos. Vivemos tempos de urgência pois não é impossível que a Terra, repentinamente, entre num estado de caos. Até que ele se transforme em generativo, como ele sempre é, podem ocorrer catástrofes incomensuráveis, atingindo a biosfera e dizimando milhões de seres humanos. Não consideramos esta situação uma tragédia cujo fim seria desastroso, mas uma crise que acrisola, deixa cair o que é agregado e acidental e libera um núcleo de valores, de visões e de práticas alternativas que devem servir de base para um novo ensaio civilizatório. Depende de nós fazermos com que os transtornos climáticos não se transformem em tragédias mas em crises de passagem para um nível melhor na relação ser humano e natureza. É neste contexto que convém trazer à baila o conceito de resiliência, não muito usado entre nós mas com crescente circulação em outros centros de pensamento. O termo possui sua origem na metalurgia e na medicina. Em metalurgia resiliência é a qualidade dos metais recobrarem, sem deformação, seu estado original após sofrerem pesadas pressões. Em medicina do ramo da osteologia é a capacidade dos ossos crescerem corretamente após sofrerem grave fratura. A partir destes campos, o conceito migrou para outras áreas como para a educação, a psicologia, a pedagogia, a ecologia, o gerenciamento de empresas, numa palavra, para todos os fenômenos vivos que implicam flutuações, adaptações, crises e superação de fracassos ou de estresse. Resiliência comporta dois componentes: resistência face às adversidades, capacidade de manter-se inteiro quando submetido a grandes exigências e pressões e em seguida é a capacidade de dar a volta por cima, aprender das derrotas e reconstituir-se, criativamente, ao transformar os aspectos negativos em novas oportunidades e em vantagens. Numa palavra, todos os sistemas complexos adaptativos, em qualquer nível, são sistemas resilientes. Assim como cada pessoa humana e o inteiro sistema-Terra. Os riscos advindos do aquecimento global, da escassez de água potável, do desaparecimento da biodiversidade e da crucificação da Terra que possui um rosto de terceiro-mundo e pende de uma cruz de padecimentos, devem ser encarados menos como fracassos e mais como desafios para mudanças substanciais que enriquecerão nossa vida na única Casa Comum. Resignar-se e nada fazer é a pior das atitudes pois implica renunciar à resiliência e às saídas criativas. Os estudiosos da resiliência nos atestam que para sermos resilientes positivamente precisamos antes de tudo cultivar um vínculo afetivo, no caso, com a Terra: cuidá-la com compreensão, compaixão e amor; aliviar suas dores pelo uso racional e contido de seus recursos, renunciando a toda violência contra seus ecossistemas; o Norte deve praticar uma retirada sustentável no seu afã de consumo para que o Sul possa ter um desenvolvimento sustentável e em harmonia com a comunidade de vida. Importa alimentar otimismo, pois a vida passou por inúmeras devastações e sempre foi resiliente e cresceu em biodiversidade. Decisivo é projetarmos um horizonte utópico que dê sentido às nossas alternativas que irão configurar o novo que nos salvará a todos. Importa manter a saúde num ambiente doentio e assim Gaia será também saudável e benevolente para com todos. Leonardo Boff Publicado no site do autor em 08/06/2007 e aqui afixado com a sua autorização

quarta-feira, junho 27, 2007

Guimarães Rosa


João Guimarães Rosa, nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, a 27 de Junho de 1908, e falecido no Rio de Janeiro, a 19 de Novembro de 1967, foi um médico, escritor e diplomata brasileiro.

A sua obra ficou marcada pela linguagem inovadora, utilizando elementos de linguagem popular e regional, com fortes traços de narrativa falada. A sua grande erudição permitiu-lhe criar inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintácticas, sendo considerado por muitos críticos um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, ao lado de Machado de Assis.

Na verdade, foi um autodidacta que começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando-se no francês quando ainda não tinha 7 anos, como se pode verificar neste trecho da entrevista que deu a uma prima, anos mais tarde:

"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialectos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polaco, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distracção."

Matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais com 16 anos, tendo começado a exercer Medicina aos 22, no mesmo ano em que se casou com Lígia Cabral Penna, de 16 anos, de quem teve duas filhas.

Como diplomata, o seu primeiro cargo no estrangeiro foi o de Cônsul Adjunto do Brasil em Hamburgo, entre 1938 e 1942. Durante a Segunda Guerra Mundial auxiliou muitos judeus a fugirem para o Brasil através da emissão de vistos em número superior ao das cotas legalmente estabelecidas, tenho ganho, nos pós guerra, o reconhecimento do Estado de Israel.

Em 1963 foi eleito, por unanimidade, para a Academia Brasileira das Letras, mas adiou a cerimónia de posse, porque tinha medo de morrer nesse dia. Acabou por tomar posse apenas em 1967 e, por ironia do destino, faleceu 3 dias mais tarde.

Consciência Cósmica

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...

João Guimarães Rosa

(Magma- Editora Nova Fronteira)

terça-feira, junho 26, 2007

A mão da limpeza O branco inventou que o negro Quando não suja na entrada Vai sujar na saída, ê Imagina só Vai sujar na saída, ê Imagina só Que mentira danada, ê Na verdade a mão escrava Passava a vida limpando O que o branco sujava, ê Imagina só O que o branco sujava, ê Imagina só O que o negro penava, ê Mesmo depois de abolida a escravidão Negra é a mão De quem faz a limpeza Lavando a roupa encardida, esfregando o chão Negra é a mão É a mão da pureza Negra é a vida consumida ao pé do fogão Negra é a mão Nos preparando a mesa Limpando as manchas do mundo com água e sabão Negra é a mão De imaculada nobreza Na verdade a mão escrava Passava a vida limpando O que o branco sujava, ê Imagina só O que o branco sujava, ê Imagina só Eta branco sujão Gilberto Gil* *No dia do seu 65º aniversário Cantam Gilberto Gil e Chico Buarque

segunda-feira, junho 25, 2007

You’re So Vain You walked into the party Like you were walking onto a yacht Your hat strategically dipped below one eye Your scarf it was apricot You had one eye in the mirror As you watched yourself gavotte And all the girls dreamed That they'd be your partner They'd be your partner, and.... You're so vain You probably think this song is about you You're so vain I'll bet you think this song is about you Don't you? Don't you? You had me several years ago When I was still quite naive Well you said that we made such a pretty pair And that you would never leave But you gave away the things you loved And one of them was me I had some dreams They were clouds in my coffee Clouds in my coffee and.... You're so vain You probably think this song is about you You're so vain I'll bet you think this song is about you Don't you? Don't you? Well I hear you went up to Saratoga And your horse naturally won Then you flew your Lear jet up to Nova Scotia To see the total eclipse of the sun Well, you're where you should be all of the time And when you're not you're with Some underworld spy Or the wife of a close friend Wife of a close friend, and.... You're so vain You probably think this song is about you You're so vain I'll bet you think this song is about you Don't you? Don't you? Carly Simon*

No dia do 62º aniversário - Clique no nome ou título para ouvir

domingo, junho 24, 2007

Earthly If I'd been destined at birth To lie in the lap of the gods, I'd have been reared by a heavenly wet-nurse On the holy milk of the clouds. I'd be god of a stream or a garden, Keeping watch over graves or the corn, - But no - I'm a man, I don't need immortality: A heavenly fate would be awful. I'm glad no one stitched my lips in a smile, Remote from earth's bile and salt. So off you go, violin of Olympus, I can do without your song. Arseny Tarkovsky* (no centenário do seu nascimento) * Poeta russo e pai do realizador Andrei Tarkovsky

sábado, junho 23, 2007

Acorda, Portugal! Pela sua relevância, transcrevo mais uma reflexão afixada no Diário Aberto do Padre Mário de Macieira da Lixa em 20 do corrente:
A Europa comunitária volta a estar em peso em Portugal, quando, por estes dias, o nosso primeiro-ministro assumir a presidência da União Europeia. Aliás, pode dizer-se que já cá está em peso, uma vez que ele já começou, há semanas, a multiplicar viagens e contactos, como preparação para a presidência. Temo, por isso, que o país fique ainda mais à deriva do que já está, durante os próximos seis meses da presidência portuguesa da União. Por outro lado, não vejo que a presidência nos diga respeito a todos, como povo. Não somos tidos nem achados. Provavelmente, só teremos de pagar a factura. No que respeita a tomar decisões, não existimos. Tratam-nos como coisas. Provavelmente, é assim nos 27 países que constituem a União. Se é, estamos perante um verdadeiro desastre europeu. Os cidadãos europeus, de que tanto se fala com orgulho na voz, não passam duma ficção. Tudo acontece nas nossas costas. Sem nós. Reduzem-nos a meros espectadores. Os executivos, e só eles, correm de um lado para o outro. De avião em avião. Multiplicam encontros e reuniões. Parece que trabalham muito. Que estão muito preocupados com o nosso bem-estar e a nossa felicidade. Mas a verdade é que não querem nada connosco. Somos zeros à esquerda. Numa Europa de executivos e de multinacionais, somos zeros à esquerda. O que é gravíssimo. E já nem protestamos. Parece até que preferimos que as coisas sejam assim. Puxar pela cabeça, ter ideias, avançar sugestões e propostas, elencar problemas, encontrar soluções, assumir novas práticas, desencadear dinâmicas de intervenção, numa palavra, sermos cidadãs, cidadãos europeus no pleno sentido da palavra, não é connosco. Com que facilidade abdicamos das nossas capacidades e renunciamos aos nossos deveres comunitários! Castraram-nos e nós consentimos e ainda votamos a favor de quem assim nos trata. Nem sequer nos damos conta de que uma Europa assim é um tremendo desastre. Os executivos cozinham tudo nas nossas costas e, quando dermos por isso, já estaremos com a corda na garganta. Tudo seria diferente, se nenhum passo importante fosse dado na Europa sem a nossa efectiva participação, sem a efectiva participação das cidadãs, dos cidadãos dos 27 países membros. Não apenas dos executivos. Para cúmulo, ainda mais de uns executivos do que de outros. Porque os executivos dos países mais ricos e mais poderosos pesam mais do que os executivos dos países pobres e pequenos como Portugal. Mostra-me o teu orçamento do país e dir-te-ei quanto vales. E é por isso que, mesmo numa União de países, como a Europeia, os grandes continuarão a comer os pequenos, à semelhança do que sucede com os peixes no oceano. Só que as sociedades e os países e a Europa não são meros oceanos. Mas até parece. Porque os executivos fazem tudo para nos manter à margem de tudo. Deliberações, decisões, é só com eles. Nós somos meros consumidores de eleições, cidadãs, cidadãos sem alma, sem garra, sem projectos comuns. Simplesmente passivos. Atentos e reverentes. Submissos. Não há Europa comunitária, enquanto não houver cidadãs, cidadãos participativos. Nada pode ser decidido nas nossas costas. Se consentimos, uma e outra vez, cometemos uma espécie de suicídio colectivo. Demitimo-nos da dimensão maior que nos cabe como pessoas humanas, como cidadãs, cidadãos. Os executivos agradecem. Porque assim ninguém os atrapalha. E eles podem decidir à vontade. Segundo os interesses das grandes multinacionais. Ao serviço das quais todos eles mais ou menos estão. Não sabiam? Quando não são os cidadãos, elas e eles, que governam os países, os continentes e o mundo, as multinacionais ocupam tudo como um enorme polvo e decidem de acordo com os seus interesses corporativos e egoístas. Os executivos dos diferentes países, entregues a si próprios e uns aos outros, sem os respectivos povos, caem fatalmente sob a alçada dos do Dinheiro e do Poder que nunca se submetem a eleições, nem nunca mostram a cara, porque nunca tiveram cara para mostrar. São máfias. De colarinho branco e de mãos bacteriologicamente limpas – os horrendos crimes de sangue que cometem encomendam-nos sempre aos executivos dos países! – sempre sem rosto. Infelizmente, hoje, nem as Igrejas que estão na Europa comunitária se mostram capazes de agitar estas águas paradas em que nos fazem viver. Basta ver como as conferências episcopais dos diversos países e a própria Conferência Episcopal ao nível do continente continuam a passar ao lado de toda esta problemática. Por exemplo, a Conferência Episcopal Portuguesa está, nestes dias, reunida mais uma vez em Fátima. Pensam que é a Europa e a presidência portuguesa da União Europeia que (pre)ocupa os nossos bispos? Nada disso. O que os (pre)ocupa, nesta altura do ano, é “o ministério do Bispo e a arte de presidir e de comunicar”. Vejam só! E, para isso, ainda estão a ser ajudados por especialistas de diversas áreas, como a liturgia, a comunicação social ou o mundo da cultura. Querem, no dizer do respectivo secretário, o Bispo D. Carlos, “apresentar correctamente a fé”. Mas que Fé, pergunto eu? E, comigo, podem perguntar também os portugueses, elas e eles. Sabem ao menos os bispos portugueses que uma Fé que não for jesuânica, comunhão efectiva com a mesma Fé de Jesus, é sempre fonte de alienação e ópio do povo? Temo bem que eles ainda não saibam, porque se neles actuasse já a mesma Fé de Jesus, outro, muito outro seria o seu comportamento pastoral no país. Muito mais profético, muito mais maiêutico, muito mais socrático, muito mais libertador e transformador da sociedade. Quando acordaremos, como país, como sociedade, como Europa comunitária? Quem nos há-de acordar? Onde estão as sentinelas dos povos que façam soar o alarme? Vamos a caminho do abismo e ninguém nos adverte? Onde estão os intelectuais portugueses e europeus? Já se congregaram e funcionam como um todo, como um só corpo na União Europeia? Já se assumem como intelectuais orgânicos? Ou só cuidam dos seus problemas corporativos, de melhores e mais pingues vencimentos mensais? Já têm consciência de que um intelectual que se preze tem que colocar os interesses dos povos acima dos seus próprios interesses? Ou desconhecem que a quem muito foi dado, muito será pedido? Não sabem que são responsáveis pelos seus povos? Se não sabem e muito menos praticam esta responsabilidade, então são intelectuais vendidos aos executivos e às multinacionais da nossa desgraça. Pode-se muito bem atar-lhes uma pesada mó de moinho ao pescoço e lançá-los ao mar. Para que morram como funcionários dos executivos e ressuscitem como seres humanos, irmãos e irmãs dos seus povos, verdadeiros intelectuais orgânicos, mártires vivos a favor dos seus povos. É por aqui que sempre procurei ir, como padre/presbítero da Igreja do Porto. Quando percebi que a instituição eclesiástica queria que eu fosse um seu funcionário atento e reverente, não me submeti. Também não renunciei. Ocupei os postos que me confiaram, mas sem nunca trair o povo no meio de quem vivia e para quem trabalhava. Acabei sempre a servir o povo, mais do que a instituição. E esta, obviamente, não me perdoou. E desde muito cedo deixou de me confiar novas tarefas. Mas já não conseguiu asfixiar-me, porque eu já não conseguia viver sem povo. É nele que continuo a ter os pés, as raízes. É por ele que respiro. Assim deverão ser todos os intelectuais. E todos os homens, todas as mulheres que adquiriram um pouco mais de saber e de consciência crítica do que a generalidade das populações. Os que não forem assim, desumanizam-se e vendem a sua alma aos executivos. Deixam de ser. Tornam-se uns abortos, em lugar de seres humanos. Como os executivos a quem servem. Acorda, Portugal! Acorda, meu Povo! Não vês que te estão a anestesiar todos os dias, para que tu nunca te apercebas para onde te estão a levar?

sexta-feira, junho 22, 2007

Apelo II No dia 22 de Junho de 1940 foi assinado o Armistício entre a Alemanha e a França, que estabelecia as condições oficiais da ocupação alemã e do qual resultou uma França dividida em duas grandes zonas: a zona ocupada e a chamada zona livre sob a autoridade do regime colaboracionista de Vichy. Na noite dessse mesmo dia, Charles de Gaulle, a partir dos microfones da BBC, dirigiu um segundo Apelo aos cidadãos franceses, este com uma audição muito maior do que o primeiro, já aqui referido:
Appel du 22 juin
22 juin 1940
Le gouvernement français, après avoir demandé l’armistice, connaît maintenant les conditions dictées par l’ennemi. Il résulte de ces conditions que les forces françaises de terre, de mer et de l’air seraient entièrement démobilisées, que nos armes seraient livrées, que le territoire français serait totalement occupé et que le Gouvernement français tomberait sous la dépendance de l’Allemagne et de l’Italie. On peut donc dire que cet armistice serait, non seulement une capitulation, mais encore un asservissement. Or, beaucoup de Français n’acceptent pas la capitulation ni la servitude, pour des raisons qui s’appellent l’honneur, le bon sens, l’intérêt supérieur de la Patrie. Je dis l’honneur ! Car la France s’est engagée à ne déposer les armes que d’accord avec les Alliés. Tant que ses Alliés continuent la guerre, son gouvernement n’a pas le droit de se rendre à l’ennemi. Le Gouvernement polonais, le Gouvernement norvégien, le Gouvernement hollandais, le Gouvernement belge, le Gouvernement luxembourgeois, quoique chassés de leur territoire, ont compris ainsi leur devoir. Je dis le bon sens ! Car il est absurde de considérer la lutte comme perdue. Oui, nous avons subi une grande défaite. Un système militaire mauvais, les fautes commises dans la conduite des opérations, l’esprit d’abandon du Gouvernement pendant ces derniers combats, nous ont fait perdre la bataille de France. Mais il nous reste un vaste Empire, une flotte intacte, beaucoup d’or. Il nous reste des alliés, dont les ressources sont immenses et qui dominent les mers. Il nous reste les gigantesques possibilités de l’industrie américaine. Les mêmes conditions de la guerre qui nous ont fait battre par 5 000 avions et 6 000 chars peuvent nous donner, demain, la victoire par 20 000 chars et 20 000 avions. Je dis l’intérêt supérieur de la Patrie ! Car cette guerre n’est pas une guerre franco-allemande qu’une bataille puisse décider. Cette guerre est une guerre mondiale. Nul ne peut prévoir si les peuples qui sont neutres aujourd’hui le resteront demain, ni si les alliés de l’Allemagne resteront toujours ses alliés. Si les forces de la liberté triomphaient finalement de celles de la servitude, quel serait le destin d’une France qui se serait soumise à l’ennemi ? L’honneur, le bon sens, l’intérêt de la Patrie, commandent à tous les Français libres de continuer le combat, là où ils seront et comme ils pourront. Il est, par conséquent, nécessaire de grouper partout où cela se peut une force française aussi grande que possible. Tout ce qui peut être réuni, en fait d’éléments militaires français et de capacités françaises de production d’armement, doit être organisé partout où il y en a. Moi, Général de Gaulle, j’entreprends ici, en Angleterre, cette tâche nationale. J’invite tous les militaires français des armées de terre, de mer et de l’air, j’invite les ingénieurs et les ouvriers français spécialistes de l’armement qui se trouvent en territoire britannique ou qui pourraient y parvenir, à se réunir a moi. J’invite les chefs et les soldats, les marins, les aviateurs des forces françaises de terre, de mer, de l’air, où qu’ils se trouvent actuellement, à se mettre en rapport avec moi. J’invite tous les Français qui veulent rester libres à m’écouter et à me suivre. Vive la France libre dans l’honneur et dans l’indépendance ! (se preferir, pode ler o Apelo na versão inglesa ou espanhola)

quinta-feira, junho 21, 2007

Father’s Old Blue Cardigan Now it hangs on the back of the kitchen chair where I always sit, as it did on the back of the kitchen chair where he always sat. I put it on whenever I come in, as he did, stamping the snow from his boots. I put it on and sit in the dark. He would not have done this. Coldness comes paring down from the moonbone in the sky. His laws were a secret. But I remember the moment at which I knew he was going mad inside his laws. He was standing at the turn of the driveway when I arrived. He had on the blue cardigan with the buttons done up all the way to the top. Not only because it was a hot July afternoon but the look on his face— as a small child who has been dressed by some aunt early in the morning for a long trip on cold trains and windy platforms will sit very straight at the edge of his seat while the shadows like long fingers over the haystacks that sweep past keep shocking him because he is riding backwards. Anne Carson in Men in the Off Hours.
ESPINOSA Gosto de ver-te, grave e solitário, Sob o fumo de esquálida candeia, Nas mãos a ferramenta de operário, E na cabeça a coruscante idéia. E enquanto o pensamento delineia Uma filosofia, o pão diário A tua mão a labutar granjeia E achas na independência o teu salário. Soem cá fora agitações e lutas, Sibile o bafo aspérrimo do inverno, Tu trabalhas, tu pensas, e executas Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno, A lei comum, e morres, e transmutas O suado labor no prêmio eterno. Machado de Assis
Mr. W. volta a atacar

Que me relevem o vulto enorme das letras brasileiras, Machado de Assis, nascido a 21 de Junho de 1839, e a muito interessante poetisa e ensaísta canadiana, Anne Carson, que hoje celebra 57 anos de idade, mas vou ficar-me pela afixação, daqui a pouco, de um poema de cada um deles.

É que Mr. W. – como jocosamente o trata a colunista da “má língua” do The New York Times, Maureen Dowd – voltou a atacar ontem à tarde.

Numa cerimónia realizada na Casa Branca (imagem ao lado), anunciou o seu novo veto a uma lei que permitiria a utilização de fundos federais na investigação em células estaminais embrionárias. A lei, que tinha sido vetada pela primeira vez o ano passado (quando os Republicanos eram maioritários nas duas Câmaras que a tinham aprovado), contou com o apoio de uma maioria significativa quer na Câmara dos Representantes quer no Senado, mas esse apoio não foi suficiente para ultrapassar o veto presidencial, já que nos Estados Unidos o presidente tem o poder de vetar uma lei quantas vezes entender, a menos que esta seja aprovada por maioria qualificada (creio que de 2/3) nas duas Câmaras.

Na sua mensagem de veto ao Congresso, Mr W. disse que a lei tinha ultrapassado um limite ético. “O Congresso enviou-me legislação que iria forçar os contribuintes Americanos, pela primeira vez na nossa história, a financiar a destruição deliberada de embriões humanos”. Mais uma vez, para aplacar a ira de alguns fanáticos religiosos, fez tábua rasa da opinião da grande maioria dos seus compatriotas, mesmo dos seus votantes.

É preciso ter em conta que a lei não previa tal coisa, pois apenas autorizava a utilização de embriões excedentários das clínicas de fertilização, os quais, de qualquer forma, vão ser destruídos porque já não servem para nada. E que são um conjunto de células – a investigação apenas utiliza embriões com menos de 14 dias – que de humano apenas têm o facto de serem algo pertencente à espécie “homo sapiens”.

Ainda tentou mitigar a desilusão ao falar no incentivo a novos estudos focados na derivação de células estaminais a partir do líquido amniótico, da placenta ou da pele. Só que isso não constitui novidade, pois tal investigação já se faz e não foram anunciados novos investimentos, além de que a maioria dos especialistas, incluindo os membros do seu Conselho de Ética, são unânimes na afirmação de que as células estaminais embrionárias são aquelas que oferecem melhores e mais rápidas possibilidades de aplicação terapêutica.

Os doentes de Parkinson, os diabéticos e tantos outros seres humanos afectados com doenças graves para as quais se poderia encontrar cura lá terão de esperar pelo próximo inquilino da Casa Branca. Sim, porque não tenhamos dúvidas de que nesta e em muitas outras áreas ainda são os Estados Unidos quem “puxa a carroça”.

quarta-feira, junho 20, 2007

Os 10 (novos) mandamentos O Vaticano anda preocupado com as mortes na estrada. Tanto que o Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes divulgou ontem um documento de 58 páginas intitulado Orientações para a Pastoral da Estrada em que uma das quatro partes é dedicada aos Utilizadores da Estrada (as outras são dedicadas à Prostituição de Rua, aos Meninos de Rua e aos Sem Abrigo). Ainda não tive tempo de ler todo o documento, que só encontrei disponível em italiano e inglês, pelo que vou apenas referir-me aos 10 mandamentos para o bom condutor. Na versão oficial inglesa, são assim definidos: I. You shall not kill. II. The road shall be for you a means of communion between people and not of mortal harm. III. Courtesy, uprightness and prudence will help you deal with unforeseen events. IV. Be charitable and help your neighbour in need, especially victims of accidents. V. Cars shall not be for you an expression of power and domination, and an occasion of sin. VI. Charitably convince the young and not so young not to drive when they are not in a fitting condition to do so. VII. Support the families of accident victims. VIII. Bring guilty motorists and their victims together, at the appropriate time, so that they can undergo the liberating experience of forgiveness. IX. On the road, protect the more vulnerable party. X. Feel responsible towards others. Como se pode ver, nada que o bom senso e os Códigos da Estrada não imponham já aos automobilistas, mas que continuarão, sobretudo o V, a ter muitos prevaricadores. Quer na Itália, onde aspirar a ter um Ferrari para demonstrar poder e influência (e impressionar as senhoras) é considerado um direito de nascença para os homens, quer nos vários países onde os gestos insultuosos (principalmente os dois dedos – mindinho e indicador – abertos, na testa), os gritos, as imprecações e a utilização das viaturas para actividades de natureza mais “íntima”são o dia a dia. Parece que agora os padres vão mesmo ter de saber o Código da Estrada, para poderem aplicar aos “pecadores” penitências condicentes com a gravidade das faltas cometidas.

terça-feira, junho 19, 2007

Construção Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contramão atrapalhando o sábado Chico Buarque de Holanda

(clique no título ou no nome do cantautor para ouvir)

Tanto mar


Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.

No 63º do Chico, ouça aqui o Tanto mar

segunda-feira, junho 18, 2007

O Apelo


O Apelo de 18 de Junho é o nome dado ao discurso que o General De Gaulle pronunciou a partir da BBC, em Londres, no dia 18 de Junho de 1940.

Gravado cerca das 18H00, foi difundido nesse dia pelas 22H00 e repetido no dia seguinte por volta das 16H00. Desde esse dia, aquele Apelo radiofónico é considerado dos mais célebres da história da França.

Este discurso foi um Chamamento à resistência do povo francês, após a derrota face à invasão nazi e à capitulação de Pétain, no dia anterior.

Em 2005 o discurso foi foi incluído pela Unesco no Programa Memórias do Mundo, no qual se recolhem, desde 1997, os documentos considerados de interesse universal, a fim de garantir a sua protecção.

Appel du 18 juin

Charles de Gaulle

18 juin 1940

Les chefs qui, depuis de nombreuses années, sont à la tête des armées françaises, ont formé un gouvernement. Ce gouvernement, alléguant la défaite de nos armées, s’est mis en rapport avec l’ennemi pour cesser le combat.

Certes, nous avons été, nous sommes, submergés par la force mécanique, terrestre et aérienne, de l’ennemi.

Infiniment plus que leur nombre, ce sont les chars, les avions, la tactique des Allemands qui nous font reculer. Ce sont les chars, les avions, la tactique des Allemands qui ont surpris nos chefs au point de les amener là où ils en sont aujourd’hui.

Mais le dernier mot est-il dit ? L’espérance doit-elle disparaître ? La défaite est-elle définitive ? Non !

Croyez-moi, moi qui vous parle en connaissance de cause et vous dis que rien n’est perdu pour la France. Les mêmes moyens qui nous ont vaincus peuvent faire venir un jour la victoire.

Car la France n’est pas seule ! Elle n’est pas seule ! Elle n’est pas seule ! Elle a un vaste Empire derrière elle. Elle peut faire bloc avec l’Empire britannique qui tient la mer et continue la lutte. Elle peut, comme l’Angleterre, utiliser sans limites l’immense industrie des États-Unis.

Cette guerre n’est pas limitée au territoire malheureux de notre pays. Cette guerre n’est pas tranchée par la bataille de France. Cette guerre est une guerre mondiale. Toutes les fautes, tous les retards, toutes les souffrances, n’empêchent pas qu’il y a, dans l’univers, tous les moyens nécessaires pour écraser un jour nos ennemis. Foudroyés aujourd’hui par la force mécanique, nous pourrons vaincre dans l’avenir par une force mécanique supérieure. Le destin du monde est là.

Moi, Général de Gaulle, actuellement à Londres, j’invite les officiers et les soldats français qui se trouvent en territoire britannique ou qui viendraient à s’y trouver, avec leurs armes ou sans leurs armes, j’invite les ingénieurs et les ouvriers spécialistes des industries d’armement qui se trouvent en territoire britannique ou qui viendraient à s’y trouver, à se mettre en rapport avec moi.

Quoi qu’il arrive, la flamme de la résistance française ne doit pas s’éteindre et ne s’éteindra pas.

Demain, comme aujourd’hui, je parlerai à la Radio de Londres.
Olhar longe para frente Depois da publicação dos dados atemorizantes do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) que prevêem grandes transtornos no sistema-Terra e no sistema-vida, o Brasil está ganhando mais e mais interesse internacional. Não é para menos: é a potencia mundial das águas, dotado com a maior biodiversidade do mundo, contendo em seu território as maiores florestas húmidas da Terra, com a maior área agricultável de todo o planeta, com climas para todo tipo de produção de alimentos e fibras. E ainda detém abundantíssima biomassa com tecnologia avançada, capaz de apresentar uma alternativa à matriz energética dominante de base fóssil. Diante desta constatação, o país precisa de um olhar de águia, que vê longe para não cair num auto-engano que o fará desperdiçar uma chance histórica única de ocupar um papel importante na configuração de um novo mundo que há de vir. O risco reside na tentação de o Brasil se contentar apenas com um olhar de galinha que vê perto, ao oferecer uma alternativa intrassistêmica de matriz energética para que a atual civilização consumista, perdulária e anti-ecológica possa continuar. Isso suporia a convicção de que ela tenha ainda futuro, possa ganhar mentes e corações para seus ideais e ser benéfica para a humanidade e para a Terra. Ora, exatamente isso ela não é. Sua vigência e prolongamento pode representar, de forma crescente, uma ameaça ao futuro comum dos humanos e do sistema-Gaia. Não que o Brasil deixe de se valer de suas vantagens comparativas naturais e tecnológicas. Ele deve ajudar a enfrentar a crise energética mundial como passo para um patamar mais alto, visando alcançar um novo paradigma de relação com a natureza, de produção e de consumo. Por isso o Brasil deve olhar mais longe, para além das urgências momentâneas e mirar o novo que ele, mais que outros países, é chamado a moldar. Ele precisa de uma inteligência estratégica pós-relatório do IPCC. Pode vigorosamente animar a elaboração de um novo paradigma civilizatório que tenha como eixo articulador a sustentação de toda a vida e não a acumulação de bens materiais e de serviços. O que está em jogo agora é Gaia e a Humanidade. Seu futuro não é mais garantido pela conjunção de energias e fatores que até agora lhes davam sustentabilidade. A humanidade só viverá se fizer um ato político coletivo de querer viver junto com toda a comunidade de vida. Bem dizia a Carta da Terra:"a escolha a fazer é esta: ou formamos uma aliança para cuidar da Terra e uns dos outros ou então arriscamos a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida". Temos fundado temor de que nos estratos estratégicos do Governo falta esta consciência. Vejamos o que consta no atual orçamento: o Ministério do Meio Ambiente tem seus recursos cortados na ordem de 32,7%, passando de 651,2 para 438,5 milhões de reais, menos que o Esporte 643,9 milhões e 13 vezes menos que o Ministério da Defesa que é de 5,82 bilhões de reais. Por que esta diferença? Não temos um inimigo externo potencial. O que temos é o real inimigo global que nos ataca por todos os lados: o aquecimento global e as mudanças climáticas. Devemos contra-atacar em todas as frentes para garantirmos um efeito global. Caso contrário, a arca de Noé afundará, carregando consigo todos os orçamentos para coisas que não são realmente decisivas. Leonardo Boff Publicado no site do autor em 01/06/2007 e aqui afixado com a sua autorização.

domingo, junho 17, 2007

Taj Mahal


Em 17 de Junho de 1631, ao dar à luz o seu décimo quarto filho, no caso uma filha, morreu Arjumand Banu Begum , conhecida como Mumtaz Mahal.

A sua morte, como a de tantos milhões de mulheres que morreram e morrem de parto, não seria recordada se ela não fosse uma das esposas do imperador mongol, Shah Jahan.

Mumtaz Mahal era uma princesa persa que se casou com o imperador mongol em 1612, com a finalidade de garantir a paz entre os povos.

Se bem que não fosse a sua única esposa, Shah Jahan enamorou-se pedidamente por ela, de tal modo que, após a sua morte, dedicou o resto da sua vida à construção do opulento mausoléu que ficou conhecido como o Taj Mahal, no qual trabalharam cerca de 20.000 operários indús e persas durante 20 anos.

sábado, junho 16, 2007

Presídio Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo. Que dizer do pescoço, às vezes mármore, às vezes linho, lago, tronco de árvore, nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...? E o ventre, inconscientemente como o lodo?... E o morno gradeamento dos teus braços? Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: é também água, terra, vento, fogo... É sobretudo sombra à despedida; onda de pedra em cada reencontro; no parque da memória o fugidio Vulto da Primavera em pleno Outono... Nem só de carne é feito este presídio, pois no teu corpo existe o mundo todo! David Mourão-Ferreira (No 11º aniversário do seu falecimento)