terça-feira, janeiro 15, 2013

Howie Day faz hoje 32 anos
Lembrança

Passa um vento morno,
Um vento morno
Na trémula palmeira,
Na neblina prateada.

Envoltos na ténue distância
Morros azuis de mata
Lá ao longe.
Algures um sino suave tange.

No vento ondula como flâmula
Uma saia berrante cor de sangue.

Árvores de fruta pão
Bailando, mãos abertas,
Leques de bananeiras
Oscilando lentamente.

Visão fugidia, retratada
Por inteiro
No livro silencioso da memória.

Lembrança de São Tomé,
Sangué, trémula e prateada...

Saudade de São Tomé...


(poeta matosinhense nascido faz hoje 92 anos)

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Caleb Followill faz hoje 31 anos
Étienne Daho faz hoje 57 anos
Dave Grohl faz hoje 44 anos
A rua

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


(poeta brasileiro falecido a 14 de Janeiro de 1974)

domingo, janeiro 13, 2013

Trevor Rabin faz hoje 59 anos


John Lees faz hoje 66 anos
Com as mãos

Com as mãos projecto os muros
para além da Casa
construo extensões da alma
modelo verbos silêncios
apuro os sentidos na paisagem
para habitar este lugar transitório

com as mãos suspensas na página
observo a harmonia da linhas do mundo
como se meu corpo fosse uma gaivota
voando voando voando na rotação
de um movimento original

retornando às mãos
reencontro as rotas da criação
e recordo com o sabor agudo da língua
a água do mar
nelas mergulho o corpo
e respiro

Gisela Ramos Rosa

(poetisa portuguesa nascida no Maputo a 13/01/1964)

sábado, janeiro 12, 2013

Nando Reis faz hoje 50 anos
Vida Sempre

















Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito

Poema dedicado ao meu irmão, falecido faz hoje 2 anos

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Newton Faulkner faz hoje 32 anos
Geraldo Azevedo faz hoje 64 anos
OFÍCIO DE LADRÃO

depois, disseste que a vida se propagava em transcendente vertigem
e que a seiva ao penetrar os poros do estrume fecundaria a visão
eu perguntava, que dom seria aquele?
o do cego assistindo à projecção dum filme mudo

ambos conhecíamos o sabor do sangue e das açucenas tardias
mas, o tempo atropelou tudo em redor
esquecemos os objectos íntimos e o que estávamos ali a fazer
das palavras restavam os pedúnculos ocos na respiração dum recente
medo

viajávamos sem rumo
abandonei-te à transgressão do voo e do açúcar
e quando regressámos um ao outro
consentiste-me que roubasse aos deuses o silêncio
e a luminosidade do monólogo


(poeta coimbrão que hoje faria 65 anos)