segunda-feira, outubro 19, 2009

O rio Uma gota de chuva A mais, e o ventre grávido Estremeceu, da terra. Através de antigos Sedimentos, rochas Ignoradas, ouro Carvão, ferro e mármore Um fio cristalino Distante milênios Partiu fragilmente Sequioso de espaço Em busca de luz. Um rio nasceu. Vinicius de Moraes

domingo, outubro 18, 2009

Os aleijados às avessas Guiado por uma de suas geniais intuições, Nietzsche escreveu sobre os aleijados às avessas. Aleijados que têm em demasia algum órgão do corpo. Por exemplo, alguém que fosse uma orelha, uma grande e dominante orelha. Esse homem que fosse apêndice de sua própria e imensa orelha, esse homem ouviria demais, preocupado demais com o que se diz. Teria informações auditivas em excesso. Seria vítima de sua maravilhosa audição. Um homem que não passasse de uma grande boca seria outro tipo de aleijado às avessas. Sua capacidade de abocanhar e mastigar lhe traria imensos sofrimentos. Boca por excelência, esse homem passaria o dia engolindo a tudo e a todos. Sua capacidade devoradora seria sua ruína. Pior do que a fome recorrente é o desejo insaciável, por mais que alguém possa consumir. Outro aleijado às avessas: o homem-olho. Aquele olho observador, atentíssimo, absorvendo mais imagens do que a mente humana possa concatenar e compreender. Quanta dor essa visão abrangente ofereceria ao homem-olho! Quantos motivos de medo! E o homem-nariz, então?! Quantos cheiros e aromas perseguiriam essa pobre criatura, "abençoada" pela tremenda capacidade de possuir, ou melhor, de ser nariz. E sendo nariz poderoso, tal homem padeceria horrivelmente. Porque seria, sobretudo, nariz, saberia que nenhuma flor é flor que se cheire, que todo perfume esconde fedor, que todo fedor prenuncia a dor. Todos somos propensos a desenvolver algum tipo de deformação às avessas, hipertrofiando algo de nós, transformando-nos em seres superdotados em um único aspecto, limitados pelo fato de ultrapassarmos os limites. Posso me tornar um homem-mão. E essa tamanha habilidade para pegar, fazer, manipular... será motivo diário para um cansaço indescritível. Ou posso me tornar homem-pescoço, homem-joelho, homem-ventre, homem-ombro - e em todas essas situações, e em todas as demais possibilidades que nos ocorra imaginar, serei prisioneiro de uma melhoria localizada, de uma perfeição fragmentada, de um tudo que é nada. O aleijado às avessas tem, na sua força, a sua fraqueza. Tem, na sua especial competência, a sua maior incompetência. Podemos ir mais longe. O homem-cartão-de-crédito, cujo poder de compra é sua infinita pobreza. O homem-eloqüência, fadado a falar, falar, falar... e falir. O homem-pontualidade... alvo fácil para a morte. O homem-sorte, sem motivos para lutar, sem fracassos a superar. O homem-texto, que escreve mais do que vive, e não adquiriu a sabedoria de colocar o ponto final. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, outubro 17, 2009

Mediadora da Palavra Um rumor irrompe das nocturnas margens. Sombras deslumbrantes. Um fulgor que desnuda e que despoja. Campo de água ágil. Dança Imóvel. Uma cegueira arde Incendiando o tempo. Pátria áspera de delicado alento. Soberano marulhar do inexplorável. Unânime é a pedra. Selvagem a palavra despedaça a língua. Um silêncio central domina e orienta A substancia primária. A palavra inicia. Rapidez da água entre resíduos obscuros. Talvez o diadema. Talvez a obscura dança aérea. O leve poder do fogo, as suas marcas ácidas. Pulsação dos poros. Ardor do silêncio no nocturno centro. Fulgor do desejo. Uma deusa de água espraia-se nas palavras. António Ramos Rosa (no dia do 85º aniversário)

sexta-feira, outubro 16, 2009

Em pratos limpos Em uma matéria exibida no programa Saia Justa (GNT/Globo), a atriz Maitê Proença cometeu uma série de grosserias contra os portugueses. Para o colunista Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, seria algo normal, fruto do preconceito que brasileiros e portugueses sentem uns dos outros. A atriz não expressou, na verdade, um preconceito que nasceu não se sabe de onde, mas sim vários conceitos alimentados pela mídia brasileira. Um processo de permanente negação das origens, de desprezo pelo nosso passado, que sempre quis nos ensinar a odiar ter sido colônia de Portugal e não da Inglaterra. Vale a pena ler o artigo de Rogério Mattos Costa, em que o jornalista desmistifica os preconceitos anti-portugueses da maioria da imprensa brasileira. A própria palavra utilizada para designar os meios de comunicação social (mídia) é um exemplo acabado daquilo que ele afirma. Com efeito, a palavra que empregamos em Portugal para designar o conjunto dos meios de comunicação social é média (os meios), palavra oriunda do latim por via erudita, já que media é o plural de medium (o meio). Os ingleses adoptaram o termo latino, pronunciando-o à sua maneira e os jornalistas brasileiros, por sua vez, culturalmente colonizados pelo grande irmão do norte, importaram a palavra tal como soa (mídia). É por estas, por outras e por muitas mais que eu sou visceralmente contra o (des)acordo ortográfico. Pela minha experiência de um mês por aquelas bandas e pelo testemunho de familiares próximos que por lá andam há bem mais de 50 anos, a imensa maioria do povo brasileiro não vê os portugueses com os olhos dos média de referência daquele imenso país, bem pelo contrário.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Antes que Seja Tarde Amigo, tu que choras uma angústia qualquer e falas de coisas mansas como o luar e paradas como as águas de um lago adormecido, acorda! Deixa de vez as margens do regato solitário onde te miras como se fosses a tua namorada. Abandona o jardim sem flores desse país inventado onde tu és o único habitante. Deixa os desejos sem rumo de barco ao deus-dará e esse ar de renúncia às coisas do mundo. Acorda, amigo, liberta-te dessa paz podre de milagre que existe apenas na tua imaginação. Abre os olhos e olha, abre os braços e luta! Amigo, antes da morte vir nasce de vez para a vida. Manuel da Fonseca

quarta-feira, outubro 14, 2009

Pilotos e cupões de comida Onde se fala de pilotos de carreiras comerciais dos Estados Unidos que levam para casa 405 dólares por semana e têm de arranjar um segundo emprego como professores substitutos ou empregados de café e de colegas seus que recebem tão pouco que se conseguem qualificar para o Programa de Cupões de Comida que o governo federal estabeleceu para prestar assistência a famílias de baixos recursos. Se os pilotos da nossa companhia aérea de bandeira divulgassem as suas declarações de IRS juntamente com os pré-avisos de greve, os cidadãos contribuintes que pagam a factura podiam ficar a saber a quem pedir contas. Ou talvez não...

terça-feira, outubro 13, 2009

Noite morta Noite morta. Junto ao poste de iluminação Os sapos engolem mosquitos. Ninguém passa na estrada. Nem um bêbado. No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras. Sombras de todos os que passaram. Os que ainda vivem e os que já morreram. O córrego chora. A voz da noite . . . (Não desta noite, mas de outra maior.) Manuel Bandeira

segunda-feira, outubro 12, 2009

Fim de Jornada Caminhar ao encontro da noite. Como o camponês regressa ao lar. Após um longo dia de verão. Sem pressa ou cuidado. Na tarde ouro e cinza. Sozinho entre os campos lavrados. E as colinas distantes. Caminhar, ao encontro da noite. Sem pressa ou cuidado. A noite é somente uma pausa de sombra. Entre um dia e outro dia. Helena Kolody* *poetisa brasileira

domingo, outubro 11, 2009

A Força da Ignorância Por que causa a ignorância nos mantém agarrados com tanta força? Primeiro, porque não a repelimos com suficiente energia nem usamos todas as nossas forças para nos libertarmos dela; depois, porque não confiamos o bastante nas lições dos sábios nem as interiorizamos como devíamos, antes tratamos uma tão magna questão de forma leviana. Como pode alguém, aliás, aprender suficientemente a lutar contra os vícios se apenas dedica a esse estudo o tempo que os vícios lhe deixam livre?... Nenhum de nós aprofunda bastante esta matéria; abordamos o assunto pela rama e, como gente extremamente ocupada, achamos que dedicar umas horas à filosofia é mais do que suficiente. E o que mais nos prejudica é a facilidade com que o nosso amor próprio se satisfaz. Se encontramos alguém que nos ache homens de bem, homens esclarecidos e irrepreensíveis, logo nos mostramos de acordo! Nem sequer nos contentamos com louvores comedidos: tudo quanto a adulação despudoradamente nos atribui, nós o assumimos como de pleno direito. Se alguém nos declara os melhores e mais sábios do mundo, nós assentimos, mesmo quando sabemos que esse alguém é useiro e vezeiro na mentira! A nossa auto-complacência vai mesmo tão longe que pretendemos ser louvados em nome de princípios que as nossas acções frontalmente desmentem. A consequência é que ninguém mostra vontade de corrigir o seu carácter, pois cada um se considera a melhor pessoa deste mundo... Séneca, in Cartas a Lucílio

sábado, outubro 10, 2009

Cântico negro "Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí! José Régio

sexta-feira, outubro 09, 2009

Che Guevara por ele próprio
1. "Prefiro morrer de pé a viver de joelhos." 2. "Sejamos realistas e façamos o impossível." 3. "Poderão morrer as pessoas, mas nunca as suas ideias." 4. "Lembrem-se de que o grau mais elevado que pode alcançar a espécie humana é ser revolucionário." 5. "Todos os dias as pessoas arranjam o cabelo; por que não o coração?" 6. "A revolução é algo que se leva na alma, não na boca para viver dela." 7. "Se o presente é de luta, o futuro é nosso." 8. "Sede capazes de sentir, no mais fundo, qualquer injustiça feita contra qualquer um, em qualquer parte do mundo. È a qualidade mais bonita do revolucionário."
Che Guevara Contra ti se ergue a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas A indecisão dos complicados e o primarismo Daqueles que confundem revolução com desforra. De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas Porém Em frente do teu rosto Medita o adolescente à noite no seu quarto Quando procura emergir de um mundo que apodrece. Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, outubro 08, 2009

Golpistas e falcões Enquanto, no seu país, 7 milhões de hondurenhos lutam e morrem, sob a bota dos golpistas, pelo regresso do país à normalidade democrática, falcões saudosos da guerra fria traficam - a peso de ouro – influências em Washington para redireccionar a posição inicial da administração Obama, alegadamente apoiados na sombra pela Secretária de Estado. Cartoon: Umpierrez

quarta-feira, outubro 07, 2009

(dis) Semelhanças Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros George Orwell, em “O triunfo dos porcos” – 1945 – 7º mandamento modificado do Napoleão A lei é igual para todos, mas nem sempre o é na sua aplicação Niccolo Ghedini, advogado de Berlusconi, perante o Tribunal Constitucional - 6/10/2009 Ele (Beslusconi) não é mais “primeiro entre iguais”, mas tem de ser considerado “primeiro acima dos iguais Gaetano Pecorella, idem

terça-feira, outubro 06, 2009

Diálogo filtramos o cansaço em palavras, o sono cai gota-a-gota, a noite escorrega em luz: eu e o poema, num diálogo de equívocos. Elias Paz e Silva* Poeta brasileiro

segunda-feira, outubro 05, 2009

Dança Aflita Dançamos nós A dança dos casais A dança de animais Lagos de vinho Cio Dançamos mais A dança dos aflitos A dança dos malditos Poças de sangue Sina Rodopiei Na dança dos vampiros Até cair exangue Fado Destino Frio Eliane Stoducto* *poetisa carioca

domingo, outubro 04, 2009

Plenitude Deixem-me ser como aquele rio: Nunca o mesmo rio a cada segundo E, ainda assim, água Como todas as águas De todos os rios - É sabedoria pura sua essência intacta Deixem-me ser como os seixos Que rolam em seu leito Com suas formas perfeitas - Mistério guardado No silêncio profundo do tempo Deixem-me ser como as árvores Em suas margens Cujas folhas fingem cair e renascer De tempos em tempos Deixem-me ser como os pássaros Deste cenário Que não precisam disputar o azul do céu Para serem livres Também sou essa paisagem Sei que sou feita de água, pedra, Árvore e pássaro Também eles são feitos de mim Somos todos a página de um mesmo livro No mistério inexplicável do tempo. Eliana Teixeira* *poetisa paulista

sexta-feira, outubro 02, 2009

Disfarces A busca incessante dessa perfeição mutante nada mais importa. A porta é sempre (entre)aberta e quase atinge o céu para aqueles que (ar)riscam o papel. A angústia, filha primogênita da dúvida, é um dos disfarces da busca. Eduardo Pragmácio* *poeta brasileiro

quinta-feira, outubro 01, 2009

Cegueira de Olhos Abertos A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas: e tal era a dos Escribas e Fariseus. Homens com os olhos abertos e cegos. Com olhos abertos, porque, como letrados, liam as Escrituras e entendiam os Profetas; e cegos, porque vendo cumpridas as profecias, não viam nem conheciam o profetizado. (...) Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira ou, falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda, e da terceira espécie. A primeira é de cegos, que vêem e não vêem juntamente; a segunda de cegos que vêem uma coisa por outra; a terceira de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vêem.

Padre António Vieira, in "Sermões

Quem quiser verificar a perfeita actualidade do Padre António Vieira, pode passar os olhos pela inqualificável arenga - inqualificável porque, nem todos juntos, os termos canalha, nojenta, ajavardada, nauseabunda, repugnante, torpe, merdilheira, conspurcante, infecta, engulhosa, asquerosa e merdosa conseguiriam catalogar genuinamente aquela prosa - de VGM publicado ontem no Diário de Notícias. Mas é conveniente estar de estômago vazio, pois a náusea vai ser extrema, pelo menos para 70,1% dos portugueses. O mau perder, o desespero anti-democrático e a baixa linguagem atingem as raias da insanidade. Desengane-se quem pensava que o nível político já tinha batido no fundo. Como é possível, mais de 40 anos depois, um tal bolor salazarento?