segunda-feira, agosto 19, 2013

Terra Seca

Terra seca
terra quieta
de noites
imensas.

(Vento no olival,
vento na serra.)

Terra
velha
do candil
e da pena.
Terra
das fundas cisternas.

Terra
da morte sem olhos
e das flechas.

(Vento dos caminhos.
Brisa nas alamedas.)


(poeta andaluz assassinado faz hoje 77 anos)

domingo, agosto 18, 2013

Régine Chassagne faz hoje 36 anos
ORDEM

A ordem é partir para o outro mundo
Mas por que tenho de deixar as minhas coisas
abandonadas na Gare da vida?


(poeta gaúcho que hoje faz 87 anos)

sábado, agosto 17, 2013

Construção

Um grito pula no ar como foguete.
Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos.
O sol cai sobre as coisas em placa fervendo.
O sorveteiro corta a rua.

E o vento brinca nos bigodes do construtor.


(Carlos Drummond de Andrade faleceu faz hoje 26 anos)
Elba Ramalho faz hoje 62 anos
Dez mandamentos

Para a Márcia Pereira

UM
todo mundo quer ser alguém
ninguém admite ser algum

DOIS
todo mundo exige para agora
ninguém aguenta esperar para depois

TRÊS
todo mundo fura fila
ninguém cede a vez

QUATRO
todo mundo age como um ator
ninguém sabe que a vida não é teatro

CINCO
todo mundo sabe gritar: "Eu faço!"
ninguém sabe sussurrar: "Eu brinco..."

SEIS
todo mundo engole absurdos
ninguém desobedece a estúpidas leis

SETE
todos se creem livres
ninguém sabe que é marionete

OITO
todos se julgam complacentes
ninguém imagina o quanto é afoito

NOVE
todos adoram o sol
ninguém sabe quão importante é quando chove

DEZ
todos só sonham seus próprios sonhos
ninguém vê a vida por outro viés?


(escritor carioca que hoje faz 37anos)

sexta-feira, agosto 16, 2013

O neoliberal (excerto)

o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.


(poeta paulista falecido faz hoje 10 anos)
Vanessa Carlton faz hoje 33 anos
Poeminha Dubitativo

Não,
Eu não tenho medo do fim.
Mas,
E se o mundo terminar
Antes de mim?


(Millôr Fernandes nasceu faz hoje 90 anos)
Na Terra dos Leprechauns

 Vou andar uma semana por um país que há muito desejava conhecer, mas a poesia e a música vão continuar a frequentar esta tasca.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Bernard Fanning faz hoje 44 anos
Urbanização

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.


(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu faz hoje 85 anos)

quarta-feira, agosto 14, 2013

Sarah Brightman faz hoje 53 anos
O Horror de ser Pobre

Risco c'um traço
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes não me verão
Nunca mais
Olhar com azedume.

O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do público
Arruína o espinhaço.
O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.


(Bertold Brecht faleceu faz hoje 57 anos)

Tradução de Paulo Quintela
Toada dos que não podem amar

Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.

Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.


(poeta mineiro nascido faz hoje 111 anos)

terça-feira, agosto 13, 2013

James Morrison faz hoje 29 anos
Pré-história

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.


(poeta mineiro falecido faz hoje 38 anos)

segunda-feira, agosto 12, 2013

Pat Metheny faz hoje 59 anos
Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.


(Miguel Torga nasceu faz hoje 106 anos)
Mark Knopler faz hoje 64 anos
Floresta

De olhos fechados
mergulho em teu ventre.
Perfumes se encontram
no meu rosto. Braços
apanham meus cabelos.

Braços leves, pesados,
amorosos ou rudes,
Braços de cedro
ou espinheiro,
de parasitas
ou cravos selvagens.

No ar e na boca
um gosto de erva
amanhecida. Um gosto
de coisa lavada.
Um ar de chuva
e terra. Um gosto
de mundo amanhecendo.

Oh, enveredar
por esse mundo livre
e ser uma entre as árvores
que formam o volume
do teu rosto.

Enveredar por esse mundo livre.
Conhecer a geografia
do teu peito. Misturar-me
à conversa das folhas
e adivinhar o casamento
secreto das raízes!


(poetisa gaúcha nascida faz hoje 108 anos)

domingo, agosto 11, 2013

Joe Jackson faz hoje 59 anos
CLÍTORIS

(en toda inocencia)

Ventana de la mar para la tempestad y sus olas
Sol de la almendra para el dardo y sus trompetas
Luna del crepúsculo para lo lascivo y sus caprichos
Carne del impudor para el deseo y sus tumultos
Concubina del pubis para el macho y sus males
Pimentero de la fusión para la alcoba y sus tigresas
Armonía de la verticalidad para el carnívoro y sus chupetones
Estampilla de lefa para el creador y sus alucinaciones
Joya del orgasmo para flauta y sus dedos
Pleno de existencia para la intimidad y sus ritos
Taller del amor para el martirio y sus brasas
Corazón del espasmo para la eyaculación y la lamida
Flor del furor para el sádico y sus mordiscos
Molino de delicias para la pistola y sus tiros
Margarita de Eros para el libidinoso y sus fervores
Nicho de enigma para la penetración y sus rayos
Ciprina de adoración para el tallo y sus carnavales
Botón de ligue para el príapo y sus caprichos
Rosa de besos para el adorador y sus puros
Calibistri de locura para el bullicio y sus dilecciones
Concha de seducción para lo precioso y sus himeneos
Escudo de delirio para el ruiseñor y sus caprichos.
Copete de ardor para la fantasía y sus nudos
Mandolina de calor para la flecha y sus intrigas
Fresa de diluvio para el delirium y sus tremens
Nido de culto para el marqués y sus ataduras
Cajón de erección para el clavicordio y sus pasiones
Mechón de embrujo para la daga y sus toques.
Tesoro de fiebre para el falo y sus quemaduras
Cetro de la llama para la ceremonia y sus frenesíes.


(Fernando Arrabal faz hoje 81 anos)

sábado, agosto 10, 2013

História natural

Folhas secas
Caem

Galhos fracos são podados

Com as flores vai junto
o cartão de pêsames


(poeta baiano que hoje faz 62 anos)
Bolor

Os versos
que te digam
a pobreza que somos,
o bolor nas paredes
deste quarto deserto,
o orvalho da amargura
na flor
de cada sonho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.


(Carlos de Oliveira nasceu faz hoje 92 anos)

sexta-feira, agosto 09, 2013

In Memoriam

Quando a terra poluída
tiver sorvido
toda a água dos lagos e das
fontes
hei-de levar o meu fantasma
até ao porto sonoro
onde a esperança cai a pique
sobre o mar dos desejos sem limite

VÃO-SE EMBORA

Passageiros entre palavras fugazes:
carreguem os vossos nomes e vão-se embora,
Cancelem as vossas horas do nosso tempo e vão-se embora,
Levem o que quiserem do azul do mar
E da areia da memória,
Tirem todas as fotos que vos apetecer para saberem
O que nunca saberão:
Como as pedras da nossa terra
Constroem o tecto do céu.

Passageiros entre palavras fugazes:
Vocês têm espadas, nós o sangue,
Têm o aço e o fogo, nós a carne,
Têm outro tanque, nós as pedras,
Têm gases lacrimogéneos, nós a chuva,
Mas o céu e o ar
São os mesmos para todos.
Levem uma porção do nosso sangue e vão-se embora,
Entrem na festa, jantem e dancem…
Depois vão-se embora
Para nós cuidarmos das rosas dos mártires
E vivermos como queremos.

Passageiros entre palavras fugazes:
Como poeira amarga, passem por onde quiserem, mas
Não passem entre nós como insectos voadores
Porque temos guardada a colheita da nossa terra.
Temos trigo que semeámos e regámos com o orvalho dos nossos corpos
E temos aqui o que não vos agrada:
Pedras e pudor.
Se quiserem, levem o passado ao mercado de antiguidades
E devolvam o esqueleto à poupa
Numa travessa de porcelana.
Temos o que não vos agrada: o futuro
E o que semeamos na nossa terra.

Passageiros entre palavras fugazes:
Amontoem as vossas fantasias numa sepultura abandonada
e vão-se embora,
Devolvam os ponteiros do tempo à lei do bezerro de ouro
Ou ao horário musical do revólver
Porque aqui temos o que não vos agrada. Vão-se embora.
E temos o que não vos pertence:
Uma pátria e um povo exangue,
Um país útil para o olvido e para a memória.

Passageiros entre palavras fugazes:
É hora de vocês se irem embora.
Fiquem onde quiserem, mas não entre nós.
É hora de se irem embora
Para morrerem onde quiserem, mas não entre nós
Porque nós temos trabalho na nossa terra
E aqui temos o passado,
A voz inicial da vida,
E temos o presente e o futuro,
Aqui temos esta vida e a outra.
Vão-se embora da nossa terra,
Da nossa terra, do nosso mar,
Do nosso trigo, do nosso sal, das nossas feridas,
De tudo… vão-se embora
Das recordações da memória,
Passageiros entre palavras fugazes.


(poeta palestino falecido faz hoje 5 anos)
Ao longo da muralha

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas, que esperam por nós
E outras frágeis, que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis à boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


(Mário Cesariny nasceu faz hoje 90 anos)

quinta-feira, agosto 08, 2013

Requiem por um cão

Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelepípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? um simples cão que era e já não é


(poeta riomaiorense falecido faz hoje 35 anos)
Liberdade

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.

É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.


(Armindo Rodrigues faleceu faz hoje20 anos)

quarta-feira, agosto 07, 2013

A imagem nevoenta do passado

A vida, ao fim da viagem,
É feita de ausências.
Mas não se deixa de andar,
 Embora o caminho não engane,
Não esconda mistérios.

A saudade fecha as pálpebras
E, mão de pluma,
Abre diante de nós
A imagem nevoenta do passado.


(escritor cearense falecido faz hoje 28 anos)

terça-feira, agosto 06, 2013

Mar  Morto

Lívia olha de sua janela
 o mar morto sem Lua.
Aponta a Madrugada.
Os homens,
que rondavam a sua porta,
o seu corpo sem dono,
voltaram para as suas casas.
Agora tudo é mistério.
A música acabou.
Aos poucos as coisas se animam,
os cenários se movem,
os homens se alegram.
A madrugada rompe
sobre o mar morto.


(Jorge Amado faleceu faz hoje 12 anos)
Pintura

Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.


(poeta fundanense que hoje faz 83 anos)

segunda-feira, agosto 05, 2013

Agonia

Sinto que as paredes me oprimem
que os quadros silenciosos
me observam assustados
e que os móveis crescem
na penumbra do quarto
e minhas mãos encolhem
se recolhem inativas
perplexas.  

Estou longe de mim mesmo.  

Nuvens espessas densas
em debandada
na direção do infinito.  

Visto do universo
neste lugar-nenhum
sou cada vez menos
enquanto bilhões de seres
nascem e fenecem
como estrelas luzidias
mas intermitentes.  

Estou perdendo peso
enquanto meus cabelos
cada vez mais grisalhos
me abandonam
desprendem-se e flutuam
errantes.  

Minhas mãos não encontram
mais nada
abaixo da cintura.  

Vou reduzindo de estatura
ao nível do chão
sem qualquer resistência
até desaparecer
pelo ralo da cozinha
ou pela ampulheta
da existência.  

Já vou tarde.


(escritor brasileiro que hoje faz 73 anos)

domingo, agosto 04, 2013

Canto do Verbo em busca da forma

Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra
Antes do mar fui voo
Antes do sal fui mar e sede antes da água fresca
Antes do verso eu fui a poesia
Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso cósmico
a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projecto
Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo
Do desejo dos lodos e das aves dos rios
dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas
de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra
Sou a razão de todas as derrotas
o coração da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo


(poeta moçambicano que hoje faria 69 anos)

sábado, agosto 03, 2013

Canção do lago secando

Pela noite da minha trágica aventura,
Meu sofrimento é o achado que afago,
Se acordado, sofrendo,
E se a dormir, sonhando
Que sou lago.

Adeus, ó canas, cá me vou secando!
À míngua de nascente eu parto evaporado
Sem me ver partir!

Ainda se os que passam pudessem beber-me
Sem tornarem a passar
Pra maldizer-me...

Ainda se a menina reclinada à minha beira,
Que tanto e tanto me seduz ainda,
Viesse banhar-se
E depois se afogasse em mim, violada e linda...

Ainda se eu,
Profundo e vasto e longo,
Pudesse ter no mapa mancha azul e portos
E ser útil à navegação...

Finando-me abriria a justa e verdadeira causa
À minha sede e à minha direcção.


(poeta ansianense falecido faz hoje 74 anos)

sexta-feira, agosto 02, 2013

Quem diz que é pela rainha

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados


(Zeca Afonso nasceu faz hoje 84 anos)
Geografia Humana

Há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade,
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.


(poeta maranhense que hoje faz 78 anos)

quinta-feira, agosto 01, 2013

Os Loucos

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.


(poeta setubalense que hoje faz 80 anos)
Intransitivo

A carne anda cada vez mais fraca
e o silencio cada vez mais comprometedor
cômicos somos nós que estamos falando sério
e pobres são todos, de uma pobreza irremediável
de uma doença incurável, apesar de todos os esforços
da medicina, da psicoterapia, da parapsicologia
quando a única solução seria um sortilégio.

Há políticas bastantes para não pensarmos em nada
e condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos
de que somos livres e vivemos como queremos.
Temos vontades baratas: um novo par de sapatos
um pouquinho mais de espaço para alongar as pernas
e se possível mais tempo pra reclamar da vida.

Ah, deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um pouco mais os bichos
inventar qualquer forma mais pura
do que esta selvageria civilizada
do que este progresso cheio de violência
do que esta racionalidade que não deu certo.

Meu irmão, o absurdo somos nós.


(Bruna Lombardi faz hoje 61 anos)
Projecto de Sucessão
Para o Mário Henrique  
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


(poeta lisboeta nascido faz hoje 85 anos)