How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quinta-feira, dezembro 20, 2012
Dá-me as
Tuas Mãos
As mãos
foram feitas
para trazer
o futuro,
encurtar a
tristeza, encher
o que fica
das mãos
de ontem -
intervalos
(duros,
fiéis) das palavras,
vocação
urgente
da ternura,
pensamento
entreaberto
até
aos dedos
longos
pelas coisas
fora
pelos anos
dentro.
(poeta
português nascido em Lourenço Marques a 20 de Dezembro de 1927 e falecido em
Espanha em 1975, de acidente de viação)
quarta-feira, dezembro 19, 2012
Outro
Testamento
Quando eu
morrer deitem-me nu à cova
Como uma
libra ou uma raiz,
Dêem a minha
roupa a uma mulher nova
Para o
amante que a não quis.
Façam coisas
bonitas por minha alma:
Espalhem
moedas, rosas, figos.
Dando-me
terra dura e calma,
Cortem as
unhas aos meus amigos.
Quando eu
morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não
quero que me vejam
Assim puro e
conciso entre círios vergados.
As rosas
sim; estão acostumadas
A bem cair
no que desejam:
Sejam as
rosas toleradas.
Mas não me
levem os cravos ásperos e quentes
Que minha
Mulher me trouxe:
Ficam para o
seu cabelo de viúva,
Ali, em vez
da minha mão;
Ali, naquela
cara doce...
Ficam para
irritar a turba
E eu
existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu
morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da
rampa,
Mandem um
coveiro sério
Verificar,
campa por campa
(Mas é
batendo devagarinho
Só três
pancadas em cada tampa,
E um só
coveiro seguro chega),
Se os mortos
têm licor de ausência
(Como nas
pipas de uma adega
Se bate o
tampo, a ver o vinho):
Se os mortos
têm licor de ausência
Para
bebermos de cova a cova,
Naturalmente,
como quem prova
Da lavra da
própria paciência.
Quando eu
morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me
morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando
me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa
de sons com o morador na lua,
Esqueleto
que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte
civil será uma cena de rua;
Palavras,
terras onde moro,
Nunca vos
deixarei.
Mas quando
eu morrer, só por geometria,
Largando a
vertical, ferida do ar,
Façam, à
portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as
mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho,
beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me -
só horizonte - para o mar.
(Vitorino
Nemésio nasceu faz hoje 111 anos)
terça-feira, dezembro 18, 2012
Canto
Tercero
Astronauta,
A mil millas
del mundo que los hombres crearan
Para nunca
conducir,
Algo conoces
de esta tierra
Y algo
olvidas,
Algo conoces
de las aguas,
Y relatas
solitario a tus espacios:
En
Atlántida, cuando se hunde océano
Brillan
oxidadas las máscaras de los esclavos.
Piensa ahora
que te anudas a las tardes
Con el limo
en los ojos.
Piensa, con
un niño en el pómulo celeste:
A la vuelta
está el viento,
El paisaje
deleznable de las nieves.
No temas
nunca el mar
Que también
tiembla.
No juzgues
la carrera del Sol
Coronado por
los zorros.
Suelta tus
manos en los vuelos ajados del alambre:
En la última
esquina del tiempo,
Mendigando
en retorno, condenado,
Hallarás las
mil fases de lo eterno.
(poeta
peruano que hoje faria 71 anos)
segunda-feira, dezembro 17, 2012
Raio de luz
Se a única
realidade é o passado,
onde está a
criança que nasci,
o jovem que
usou meu cérebro para sonhar,
o homem que
fui ontem, hoje de manhã,
há apenas um
segundo?
Só
estiveram, amaram, riram ou choraram,
num pedaço
qualquer do tempo,
mas lá não
estão mais.
E se a
certeza é o futuro,
quem será e
onde estará
o homem, que
serei daqui a instantes,
amanhã de
manhã, até mais não sei quando?
Tal e qual o
menino do passado,
também não
consigo encontrá-lo.
Ambos não
morreram,
mas nenhum
existe.
Somos, na
realidade,
uma
infinidade de seres diferentes,
a cada
avanço milimétrico do tempo,
revelando o
ser confuso,
mágico,
incompreensível,
que somos no
momento.
Na
velocidade incomensurável da luz,
a terra
desloca-se no universo,
atrelada à
galáxia.
E você, que
leu este poema até o fim,
já está a
milhões de quilômetros do princípio,
e não é a
mesma pessoa que alguém viu ou conheceu.
(escritor
gaúcho que hoje faz 77 anos de idade)
domingo, dezembro 16, 2012
sábado, dezembro 15, 2012
PARÂMETRO
Uma tarde
amarela noroeste
modo nosso
de amar lembrando a estrada,
que passa
sempre a leste
de urna
tarde espantada,
de uma tarde
amarela soterrada
numa caixa
de pêssegos, madura,
uma janela
madura de bandeiras abertas
para o mar,
e frias;
encarcerada
pelo verdoengo de pêssegos
e açúcar
cristalizado sobre a polpa
dos verdes
apanhados na chácara. Setembro.
Ah,
setembro, setembro
essa menina
e teus jardins sobre a cabeça
castanha e
cacheada, numa tarde amarela
de vapores
entrando a barra, de sinos
batendo, que
reconheço de outra época,
do espanto
de outras torres, de outra tarde espantada,
que
amarravas no inverno embora outubro:
esse rapaz
que atravessa o corporal de pêssegos
de uma tarde
amarela,
como se
fincasse a cisma de uma lança
no rosto da
palavra genial
(poeta
catarinense nascido faz hoje 90 anos)
sexta-feira, dezembro 14, 2012
Anel de paz
Passei as
portas do frio
Pelas portas
da minha amargura
Para vir
beijar teus lábios
Cidade
reduzida ao nosso quarto
Onde a
absurda maré do mal
Deixa uma
espuma tranquilizante
Anel de paz
só te tenho a ti
Ensinas-me e
volto a saber
O que é um
ser humano e a desistir
De saber se
tenho semelhantes.
(poeta da resistência
francesa nascido faz hoje 117 anos)
Tradução de Maria Gabriela Llansol
quinta-feira, dezembro 13, 2012
quarta-feira, dezembro 12, 2012
Completas
A meu favor tenho o teu olhar
A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando
por mim
perante
juízes terríveis:
a morte, os
amigos, os inimigos.
E aqueles
que me assaltam
à noite na
solidão do quarto
refugiam-se
em fundos sítios dentro de mim
quando de
manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me
com ele, com o teu olhar,
dos demónios
da noite e das aflições do dia,
fala em voz
alta, não deixes que adormeça,
afasta de
mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina
Posta dedicada à minha companheira, com quem casei faz hoje 36
anos
terça-feira, dezembro 11, 2012
Uma criança
interrompida
Esta criança
é uma lâmpada que assustada
se apagou.
Nem mapas nem paisagens já
nada a
espanta; nada a pode já espantar -
o mundo
conhece-o pequeno: é uma prisão
tão apertada
ao corpo que lhe tolhe os desejos
e o riso, os
jogos e a invenção.
O seu poço,
os ecos que nele teriam
brilhando, o
labirinto fragrante dos tecidos,
dos arcos e
das portas casa após casa
são agora
ruínas sobre ruínas, escombros
que já
caiadas salas e quartos foram, ruas
fendidas sob
o céu estéril dos assassinos.
Esta criança
tem nas costas tatuada a origem
que se cola
ao seu futuro, empurrando-a
para lá,
para o destino destinado - de onde vens tu?
- venho de
lá e vou para lá. - Não tem origem
que lhe dê
p'ra muito mais que uma morte
repetida que
cala os lugares e apaga as vozes.
No cinema
que ondula a negro entre o seu crânio
e a abertura
solar dos olhos - é sempre a catástrofe
um desastre
que regressa. Os bárbaros desta vez
vieram
numerosos e diversos mas nem sequer
eram parte
da solução. Não eram parte de nada
apenas iam e
vinham do outro lado deste lado.
É difícil
mas supõe que esta criança terá conhecido
uma glória
um tempo: Andava de bicicleta
numa
paisagem de palha; com os seus se batia
em alta
grita. Apedrejava pássaros, cães e soldados.
Agora só uma
pequena víbora se deita com ela
no sono e no
sonho a morde e a interrompe.
Esta criança
é breve.
(poeta eborense
que hoje faz 67 anos)
segunda-feira, dezembro 10, 2012
Útero
procurando a
tua cabeça: quero acordar-te, devolver-te
ao meu
útero, teu colar planetário,
fazer-te
regressar ao sangue de olhos fechados e incubadoras,
soterrar o
teu nome no meu nome, o teu movimento
no meu
santuário faminto,
a minha
culpa e aguaceiros no teu desejo indeciso de
beleza e
desvios. dar-me-ás o teu azul
para que o
meu vermelho denso o golpeie de ocupação e pele,
para que
duas solidões
se
aconcheguem e tornem uma só. e depois, mais tarde,
numa
meia-noite de existência avulsa, dentro de mim
dirás o
sexo, o sexo
como
arredores de um lugar belo.
Sylvia Beirute
(poetisa
farense que hoje faz 28 anos)
domingo, dezembro 09, 2012
Quero
escrever
Quero
escrever
o borrão
vermelho de
sangue
Quero
escrever o
borrão vermelho de sangue
com as gotas
e coágulos pingando
de dentro
para dentro.
Quero
escrever amarelo-ouro
com raios de
translucidez.
Que não me
entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a
perder.
Jogo tudo na
violência
que sempre
me povoou,
o grito
áspero e agudo e prolongado,
o grito que
eu,
por falso
respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai
o meu berro
me rasgando
as profundas entranhas
de onde
brota o estertor ambicionado.
Quero
abarcar o mundo
com o
terremoto causado pelo grito.
O clímax de
minha vida será a morte.
Quero
escrever noções
sem o uso
abusivo da palavra.
Só me resta
ficar nua:
nada tenho
mais a perder.
(poetisa
brasileira falecida faz hoje 35 anos)
sábado, dezembro 08, 2012
Stoned Immaculate
I'll tell you this…
No eternal reward will forgive us
now
For wasting the dawn.
Back in those days everything was
simpler and more confused.
One summer night, going to the pier,
I ran into two young girls.
The blonde was called Freedom,
The dark one, Enterprise.
We talked and they told me this
story:
Now listen to this...
I'll tell you about Texas radio and
the big beat.
Soft driven, slow and mad
Like some new language.
Reaching your head with the cold, sudden
fury of a divine messenger.
Let me tell you about heartache and
the loss of god.
Wandering, wandering in hopeless
night
Out here in the perimeter there are
no stars,
Out here we is stoned
Immaculate.
(Jim
Morrison nasceu faz hoje 69 anos)
Lágrimas
ocultas
Se me ponho
a cismar em outras eras
Em que ri e
cantei, em que era querida,
Parece-me
que foi noutras esferas,
Parece-me
que foi numa outra vida...
E a minha
triste boca dolorida,
Que dantes
tinha o rir das primaveras,
Esbate as
linhas graves e severas
E cai num
abandono de esquecida!
E fico,
pensativa, olhando o vago...
Toma a
brandura plácida dum lago
O meu rosto
de monja de marfim...
E as
lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as
vê brotar dentro da alma!
Ninguém as
vê cair dentro de mim!
(Florbela
Espanca nasceu a 8 de Dezembro de 1894 e faleceu a 8 de Dezembro de 1930)
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Da Condição
Humana
Todos
sofremos.
O mesmo
ferro oculto
Nos rasga e
nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal
nos queima os olhos vivos.
Em todos
dorme
A humanidade
que nos foi imposta.
Onde nos
encontramos, divergimos.
É por sermos
iguais que nos esquecemos
Que foi do
mesmo sangue,
Que foi do
mesmo ventre que surgimos.
(Ary dos
Santos nasceu faz hoje 75 anos)
quinta-feira, dezembro 06, 2012
Caminhemos Serenos
Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.
De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.
O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.
No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.
(poeta português falecido ontem)
quarta-feira, dezembro 05, 2012
Canção
Em minha sepultura,
ó meu amor, não plantes
Nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
Que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.
Eu não verei as sombras
Quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
O rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
Sem sentir, sem sofrer,
Talvez possa lembrar-me,
Talvez possa esquecer.
(poetisa inglesa nascida a 5 de Dezembro de 1830)
Tradução de Manuel
Bandeira
terça-feira, dezembro 04, 2012
Solidão
A solidão é
como uma chuva.
Ergue-se do
mar ao encontro das noites;
de planícies
distantes e remotas
sobe ao céu,
que sempre a guarda.
E do céu
tomba sobre a cidade.
Cai como
chuva nas horas ambíguas,
quando todas
as vielas se voltam para a manhã
e quando os
corpos, que nada encontraram,
desiludidos
e tristes se separam;
e quando
aqueles que se odeiam
têm de
dormir juntos na mesma cama:
então, a
solidão vai com os rios...
(poeta
alemão nascido a 4 de Dezembro de 1875)
Tradução de Maria João Costa Pereira
segunda-feira, dezembro 03, 2012
SULAMITES
A tua alta
estatura é comparada
Com a
palmeira em lânguido meneio,
E são dois
cachos de uvas o teu seio,
Suspensos da
palmeira, oh Bem-Amada…
Subirei à
palmeira delicada
E colherei
seus frutos sem receio…
E a tua boca
é como um pomo cheio
Duma
essência a mais doce e perfumada…
Tua
garganta, inebriante vinho,
Hei-de a
saborear devagarinho,
Que tu és
para mim e eu para ti…
Ergamo-nos e
vem, de manhãzinha,
A ver se há
já romãs, se há flor na vinha,
E vem dar-me
os teus peitos mesmo ali…
(poeta
altense nascido em 3 de Dezembro de 1871)
domingo, dezembro 02, 2012
Recordar
Lembram
botões eléctricos os meus olhos.
Chego os
dedos a eles e carrego.
Acendem-se
de imagens. Fico cego...
Sinto que as
coisas morrem nos teus olhos.
Há entre mim
e a Noite um reposteiro.
Pressinto-o
no meu ao vê-lo. Ânsia perdida...
Eu próprio
às vezes julgo ser ponteiro
No relógio
que marca minha Vida.
E vejo a
minha infância ser de seda.
Ando com ela
ao colo pela alameda
é um eco de
mim em idas naves...
Cai-me na
cor do Outrora cinza preta.
E sinto o
meu passado na gaveta
Da cómoda a
que alguém perdeu as chaves.
(Alfredo
Guisado faleceu faz hoje 37 anos)
sábado, dezembro 01, 2012
Bato à porta
Bato à porta
de nada ensurdecido e bronco,
forrado a
lama seca ou sarro destes anos
que mais que
tudo me vestiram de tonto,
dos que
limpam os carros com a baba que lhes cai
sobre a
cinza do fato; bato à porta de nada
sem dizer ui
nem ai mas apenas grunhindo
de olho
embaciado sem o cristal da lágrima,
bato à porta
com braços, pernas, boca e dentes,
mas sem
saber no fundo, mas sem saber de caras
se deveras
lhe bato quando lhe bato assim,
no nada
dessa porta, ou ela bate em mim.
(Pedro Tamen
faz hoje 78 anos)
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