How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
terça-feira, setembro 25, 2012
o céu é aquela clareira
o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir
(valter hugo mãe faz hoje 41 anos)
segunda-feira, setembro 24, 2012
Num gesto de
luta
Num gesto de
luta
aproveita o
intervalo.
Espetáculo
verdadeiro
de
verdadeiro entusiasmo.
Um nome.
Um peixe que
sobe,
saltita,
pula e dança.
Dança
trotando
e retorna às
águas do mar.
É o velho e
o mar.
Mãos firmes
na corda da
pescaria
sangra a
firmeza do sonho.
Sonho grande
na grandeza
de um peixe.
Luta
perpassa a hora,
horas
contínuas
de vida e
coragem.
Hemingway
fascinante
no
espetáculo da novela,
da guerra
entre dois,
da vitória e
da vida.
(poeta
goiano que faz hoje 72 anos)
domingo, setembro 23, 2012
Morre lentamente
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um
redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um
sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos
conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má
sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de
iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...
(Pablo Neruda faleceu – ou foi assassinado – faz hoje 39
anos)
sábado, setembro 22, 2012
Génese
Os búzios eram nas trevas
nas trevas brilharam olhos
os olhos rasgaram águas
as águas encheram ventres
os ventres criaram filhos
os filhos comeram terra
a terra deu logo bichas
as bichas pariram bichos
os bichos pejaram ruas
nas ruas nasceram casas
das casas saíram braços
os braços treparam muros
os muros prenderam bocas
as bocas disseram vozes
as vozes gritaram gritos
os gritos tornaram vozes
as vozes passaram muros
dos muros vieram braços
os braços ruíram casas
as casas fizeram ruas
nas ruas havia bichos
os bichos furaram terras
das terras surgiram filhos
os filhos só tinham ventres
os ventres traziam água
a água tapou os olhos
os olhos ficaram trevas
nas trevas cantaram búzios.
(poeta madeirense nascido a 22 de Setembro de 1925)
sexta-feira, setembro 21, 2012
Não dizia nada
Não dizia nada,
aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.
Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele,
Jorros de sonho
Feito carne interrogando as nuvens.
Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio das sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Igual em figura, iguais em amor, iguais em desejo.
Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.
(poeta sevilhano nascido a 21 de Setembro de 1902)
quinta-feira, setembro 20, 2012
quarta-feira, setembro 19, 2012
Nada Fica de
Nada
Nada fica de
nada. Nada somos.
Um pouco ao
sol e ao ar nos atrasamos
Da
irrespirável treva que nos pese
Da humilde
terra imposta,
Cadáveres
adiados que procriam.
Leis feitas,
estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem
cova sua. Se nós, carnes
A que um
íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por
que não elas?
Somos contos
contando contos, nada.
(Ricardo
Reis “nasceu” no Porto há 125 anos)
terça-feira, setembro 18, 2012
Paraíso perdido
Outro, não eu, que desespero, ao cabo
De, em pedrarias de arte e versos de ouro,
Ter dissipado todo o meu tesouro,
Como os florins e as jóias de um nababo;
Outro, não eu, que para o chão desabo
Esquecendo-te as culpas e o desdouro,
E a teus pés de marfim, como o rei mouro
Em torrentes de lágrimas acabo;
Outro conspurca-te a beleza augusta,
Cujo anseio de posse ainda me custa
Como um verme faminto andar de rastros.
E mais deploro este meu sonho falso
Ao recordar que andei no teu encalço
Pelo caminho rútilo dos astros!
(poeta carioca falecido a 18 de Setembro de 1916)
segunda-feira, setembro 17, 2012
Profissão de
fé
Amar o metro
e a música
na
construção do verso,
e a música
do verso
na palavra
incendida.
Buscar e
amar o som
dos hiatos
e, ao fim,
dar
contenção ao ritmo
com que
constróis o verso.
O poema -
esse abismo
sem face -
há de surgir
na forma
clara e exata
das
impressões concretas.
Mas amar
sobretudo
a precisão
do verbo:
pedra
fundamental
de tua
criação.
(poeta
mineiro que hoje faz 65 anos)
Cântico negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos
doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
(José Régio nasceu faz hoje 111 anos)
domingo, setembro 16, 2012
As Usinas
Desce o rio, lento, pesadão, molengo.
Mas, de repente,
se despenha no desespero do despenhadeiro.
É a cachoeira, a acachoar, zoando e retumbando no seio
virgem da floresta virgem.
E, além, são as águas, que se refreiam,
que
se represam,
e é a luta esplêndida de mil cavalos imaginários
nos canos grossos,
nos tubos longos,
pelas turbinas adentro, - em turbilhão.
E, então, lá no alto, à luz do dia, apoteóticamente,
as fábricas gemem,
os teares cantam,
as serras guincham,
- e, à noite, como que num milagre, é a cidadela
toda esplendente de alampadários.
Henrique de Resende
(poeta mineiro falecido a 16 de Setembro de 1973)
sábado, setembro 15, 2012
Canção Quase Sábia
Entre amiga e amada
Esta parede aérea, vidro
De circunstâncias que a gente inventa
E desfaz.
Entre duas praias quase iguais
O coração viaja:
Eu - farol aceso em cada lado -
Sou as duas sendo uma
E assim existo mais.
Descobrimos talvez que o mar
- sendo maior que nós -
não faz tanta diferença
(poetisa gaúcha que hoje faz 74 anos)
sexta-feira, setembro 14, 2012
Em pé
Continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera
continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória
não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura
continuar em pé
quer dizer coragem
ou não ter
onde cair
morto
(poeta uruguaio nascido a 14 de Setembro de 1920)
quinta-feira, setembro 13, 2012
Motivos
Por que a poeira da estrada já se faz pálida
Há um rumor clamando urgências.
Por que os olhos da noite já se tornaram glaucos
Há uma esteira iluminando ontens.
Por que as nuvens galopam desenhos do instinto
Há uma foice ceifando minutos.
Por que o presto está prestes a partir na aventura
Há grãos debulhando agoras.
Por que o desejo alimenta a lentidão
Há um pandeiro no ritmo de frevo.
Por que a fala já é rouca no eco das sílabas
Há um discurso rotulando verbos.
Por que a carícia se assola no solo da pele
Há uma partitura sem sons no silêncio da gruta.
Motivos existem circundando mandalas
Mandá-las soar as sete notas sem as pausas
Alimentar os ventos aventureiros
Cantar a canção de embalo da sesta
Preservar a sedução no horário do corpo
Soprar nuvens no céu dos neurônios
Bem assim o pedido para alongar a música.
(escritor amazonense nascido faz hoje 68 anos)
Poema retirado daqui
Nuvens correndo num rio
Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
(Natália Correia nasceu faz hoje 89 anos)
quarta-feira, setembro 12, 2012
Ser Mulher...
Tudo é mulher!
Um sopro de vida.
Um sorriso.
Um barco sem rumo.
O texto e o contexto.
O nexo e o conexo.
Andar na chuva
Deixando que a água
Molhe a alma e
Caindo dos olhos
Faça a folha brotar
(em nova vida)
À procura do sol,
Assim é a mulher!
Modificando-se a cada segundo.
Adaptando-se conforme a estação,
Florindo, dando frutos,
Caindo como folha seca
no outono da vida,
É a mulher!
Não é fácil ser mulher,
Viver à beira do precipício
Com tantas imposições
Condicionada a sentir,
Carregando na mão
O traçado do contradito,
Os mistérios sem raízes
dos sonhos que não cabem
No seu oceano interior!
Ser mulher é carregar o mundo no ventre,
O coração nos lábios,
A saudade n'alma,
E na metade que o mundo conhece
A grandeza invisível da metade que não se vê!
(poetisa sul-mato-grossense que hoje faz 62 anos)
terça-feira, setembro 11, 2012
Evolução
Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ó, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...
Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...
Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
(Antero de Quental faleceu a 11 de Setembro de 1891)
segunda-feira, setembro 10, 2012
domingo, setembro 09, 2012
Paradoxo
Se encontrares alguém no teu caminho,
Que do teu pranto menoscabe, rindo,
Que te ouvindo gemer, teus ais ouvindo,
Quebre na face o rictus do escarninho;
Se encontrares alguém que, descobrindo
No recesso da tua alma íntimo espinho,
Em vez de dar-te fraternal carinho,
Aprofunde-te a dor que estás sentido;
Não te zangues com ele, não te zangues
O desgraçado riso que lhe vires;
Toca-lhe o peito - poreja sangue;
Toca-o: verás que fementidos modos!
Sonda-o: verás, por tudo que lhe ouvires
Que ele é mais desgraçado que nós todos.
(poeta brasileiro falecido faz hoje 103 anos)
sábado, setembro 08, 2012
O poeta escrevendo
Solidão uma conversa! Eu estou é no meio do mundo.
Do que serve trancar a porta?
Do que serve botar as mãos nos ouvidos?
Do que serve fazer o papel de surdo que não quer ouvir?
Gritos de homens da rua entram, apesar de tudo,
Vozes angustiadas de mulheres perdidas entram, apesar de
tudo.
Uivos de seviciados entram, apesar de tudo.
Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.
Os eunucos estão fazendo flores nas torres de marfim,
Mas eu estou é no meio do mundo.
O rumor das ruas confunde-se ao ritmo do teclado da máquina;
Metralhadoras escrevem poemas no teclado da máquina,
Cavalos estão batendo patas no teclado da máquina.
Gente lutando,
Suando,
Amando, nas cinco partes do mundo.
Quem pode escrever poemas na solidão,
Se portas trancadas nada valem
Se mãos nos ouvidos nada valem,
Se fazer o papel do surdo que não quer ouvir nada vale,
Se os olhos dos moribundos ficam, do alto, iluminando as
páginas,
Se mãos alvas vêm acender o cigarro, devagarinho,
Se o rumor das ruas vem fazer coro ao ritmo do teclado da
máquina?
Solidão uma conversa! Eu estou é no meio do mundo...
(poeta baiano nascido faz hoje 100 anos)
sexta-feira, setembro 07, 2012
O caos antibiótico
aprendi a antever o caos
dentro das coisas
e a medrar nas enfunadas formas
o limite do voo
a síntese da busca
o segredo temporário
e tênue das alturas.
mas eu sei das sombras
que vestem meu remorso
apenas o volume noturno:
um fundo mágico de susto.
eu sou tantos
neste corpo
de unidade vertical.
(poeta goiano que hoje faz 48 anos)
quinta-feira, setembro 06, 2012
Cisne
Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente...
À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente...
Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde... e foi doente!
Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas...
E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!
Por que te amei?
- Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.
Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.
- Talvez viesse de mim.
E da minha poesia...
(poeta portuense nascido faz hoje 108 anos)
quarta-feira, setembro 05, 2012
As mãos tecem o fogo
Como se torna estranha e ilógica
a lição do amor, quando as mãos
se revelam subitamente profundas.
É como se tudo o resto se passasse
envolto em malhas de rotina
e não pela vontade transparente
das coisas mais belas.
É como se o fogo pudesse existir
para lá da chama, sustentando
aquela que é a paixão maior.
É como se esse momento único
perfizesse séculos de ilusão,
insípidos mas precipitados.
Como é versátil o amor de repente,
quando as mãos tecem o fogo
e os corações se incendeiam...
(poeta brigantino que hoje faz 49 anos)
terça-feira, setembro 04, 2012
Cerejas
Brancas
De cerejas
brancas, de estrelas vermelhas de lábios azuis,
Era a tua
voz. Doce, docemente. Inocentemente.
Dizia
palavras, dizia palavras... Alucinações.
Monstros e
promessas. Magia, segredo. Artes do Diabo.
Reflexos
tristes da luz que nos foge, da luz que anda à solta e nos deixa presos.
Ouço a tua
voz chamando, chamando...
Ah! nenhum
de nós somos os culpados!
Docemente
extinta. Inocentemente.
Um círculo
da Lua rodeia teus braços,
Um raio de
Sol te dirige os passos.
É a tua voz!
de menino e moço!
Ah! quanta
ternura tem a tua voz,
Quanto beijo
que jamais fora dado,
Quanta linda
festa que logo interrompida,
Quanto
abraço que desejaste dar ...
Ouço a tua
voz. É som ou desmaio?
É quebranto?
É música? Sai do coração?
Ouço a tua
voz, que respeita e ama,
Como irmão
mais novo a irmão mais velho.
Diz-me que é
inútil. Que essa tua voz
Não é
verdadeira, porque sofrerás...
Embora me
tragas, sem eu saber como,
Alguma
alegria, um pouco de paz!
Queira Deus
que tu, irmão meu, encontres
Alguém que
ao ouvi-la, quando estiveres só,
Te ame e
compreenda, te ouça e adormeça,
Te afirme
que tens um lugar no Mundo ...
(poeta
alvitense nascido faz hoje 92 anos)
segunda-feira, setembro 03, 2012
O nascedor
Por que será
que o Che
tem esse
perigoso costume
de seguir
sempre
renascendo?
Quanto mais
o insultam,
o manipulam
o
tradicionam, mais renasce.
Ele é o mais
renascedor de todos!
Não será
porque o Che
dizia o que
pensava,
e fazia o
que dizia?
Não será por
isso, que segue
sendo tão
extraordinário,
num mundo em
que
as palavras
e os fatos
raramente se
encontram?
E quando se
encontram,
raramente se
saúdam,
porque não
se
reconhecem?
(escritor
uruguaio que hoje faz 72 anos)
domingo, setembro 02, 2012
sábado, setembro 01, 2012
Não
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
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