How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
domingo, maio 20, 2012
A Vagina
É cálida
flor
E trópica
mansamente
De leite
entreaberta às tuas
Mãos
Feltro das
pétalas que por dentro
Tem o felpo
das pálpebras
Da língua a
lentidão
Guelra do
corpo
Pulmão que
não respira
Dobada em
muco
Tecida em
água
Flor
carnívora voraz do próprio
suco
No ventre
entorpecida
Nas pernas
sequestrada.
(Maria
Teresa Horta faz hoje 75 anos)
sábado, maio 19, 2012
Ápice
O raio do
sol da tarde
Que uma
janela perdida
Refletiu
Num instante
indiferente -
Arde,
Numa
lembrança esvaída,
À minha
memória de hoje
Subitamente…
Seu efémero
arrepio
Ziguezagueia,
ondula, foge,
Pela minha
retentiva…
- E não
poder adivinhar
Porque
mistério se me evoca
Esta ideia
fugitiva,
Tão débil
que mal me toca!…
- Ah, não
sei porquê, mas certamente
Aquele raio
cadente
Alguma coisa
foi na minha sorte
Que a sua
projeção atravessou…
Tanto
segredo no destino de uma vida…
É como a ideia
de Norte,
Preconcebida,
Que sempre
me acompanhou…
(Mário de
Sá-Carneiro nasceu faz hoje 122 anos)
sexta-feira, maio 18, 2012
Punhal da
aurora
Ainda escuto
a fala do meu pai,
iluminando o
silêncio de tapeçaria
da nossa
casa de telhado verde.
O rio que
lavava a ruazinha estreita
não vegetava
mágoas.
Ainda escuto
a canção da aurora
que tocava o
homem do realejo
com seus
olhares retos
e o sorriso
de orvalho.
Saudade de
Maria
com seu
olhar umedecido de alvorada.
Muitas
vezes, muitas, percorri a rua
carregando
sonhos nas mãos inocentes,
brincando
com meus irmãos que nesse tempo
eram apenas
anjos de porcelana,
num país sem
memória.
Hoje que
Rominha tem outro nome
e outras as
crianças que ali residem,
a perspectiva
das casas tornou-se paralela.
Deuses
tiranos caminham sobre a lama viva
e os jardins
que sorriam,
como as
janelas, agora são de nuvens.
Como a
infância corre depressa
na terra
grávida do tempo.
Os meus
castelos,
já não são
fantasiados de papoulas,
mas castelos
de vento.
Os meus
sonhos agora já não têm a cor do gerânio
e o sol que
havia no meu olhar
tornou-se
uma saudade ancestral.
Carlos Cunha
(poeta
maranhense nascido faz hoje 79 anos)
quinta-feira, maio 17, 2012
AUTOBIOGRAFIA
Algumas
poucas tabernas, velho armário,
cão de
folhas,
árvores do
escuro ladram,
eu corro
pelas páginas no focinho do cão.
A garrafa. O
gin gira
e fere-me
lábios e aviva o vinho velho.
Velho vidro.
Espalha o espelho (as palavras
no charco do
álcool).
Nunca o
coração bebe,
a árvore
ondulante bebe,
o coração
obscuro vive a violência
do meu ponto
de vista,
mas
habita-me
na confissão
se os cães
da retórica velhos
correm
contra a pele,
quando as
lágrimas os soltam
e as páginas
inesperadamente se derramam.
E o meu
armário fala, fantasma arborescente.
Em vez de um
lírio, as minhas fezes na boca,
a espuma da
copa. Álcool.
É o mar.
Choro
assombrado.
(poeta
espinhense que hoje faz 64 anos)
quarta-feira, maio 16, 2012
Épura
Geometrias,
imaginações destes caminhos
da minha
terra!
Curvas de
trilhas,
triângulos
de asas,
bolas de
cor...
Círculos de
sombras agachadas entre as árvores,
cilindros de
troncos embebidos na luz.
Geometrias,
imaginações destes caminhos
da minha
terra!
Melancolicamente,
nesta alegria geométrica,
pingando
bilhas polidas,
o leque das
bananeiras abana o ar da manhã...
(poeta
carioca nascido faz hoje 119 anos)
terça-feira, maio 15, 2012
segunda-feira, maio 14, 2012
Léguas-quilo
Quantas léguas-quilo
De jornais devoro
Para emitir duas páginas
De um juízo correto?
Quantos meses meço silêncios
Até que ouvidos captem
A melodia ignota
Original
Inédita
De meu eco?
Quantos países perco
Nestes pavimentos
Que me cercam
E encerram?
De quanta criança me privo
Por seus amanhãs mais justos
Menos incertos?
Quanto chumbo de solidão carrego
Solidão que não peço?
Em que conclaves
Não me arrisco
Pensando haver caminhos
Mais retos?
A quanto exílio me vetam
Crendo-se o tirocínio certo?
Como montar meu filme de vida
Sem reprises de minha imaginação
Tridimensional espacial
Hodierna e pregressa?
Juju Campbell Penna
(poeta carioca)
domingo, maio 13, 2012
As
lavadeiras
As
lavadeiras no tanque noturno
Não
responderam ao canto da sibila.
“Lavamos os
mortos,
Lavamos o
tabuleiro das idéias antigas
E os
balaústres para repouso do mar...
Nele
encontramos restos de galeras,
Quem nos
desviará do nosso canto obscuro?
Nele
descobrimos o augusto pudor do vento,
O balanço do
corpo do pirata com argolas,
Nele
promovemos a sede do povo
E excitamos
a nossa própria sede...”
As
lavadeiras no tanque branco
Lavam o
espectro da guerra.
Os braços
das lavadeiras
No abismo
noturno
Vão e vêm.
(poeta
mineiro nascido faz hoje 111 anos)
sábado, maio 12, 2012
É PRECISO UM
PAÍS
Não mais
Alcácer Quibir.
É preciso
voltar a ter uma raiz
um chão para
lavrar
um chão para
florir.
É preciso um
país.
Não mais
navios a partir
para o país
da ausência.
É preciso
voltar ao ponto de partida
é preciso
ficar e descobrir
a pátria
onde foi traída
não só a
independência
mas a vida.
(Manuel
Alegre faz hoje 76 anos)
sexta-feira, maio 11, 2012
O Poeta e a
Nau
Vai errante, no Mar, uma nau sem governo...
O oceano é
chão, o céu azul fundindo em aço...
As velas
mortas... Nem sequer vento galerno
As vem
inchar para dormir no seu regaço!...
Sobre o
antigo convés pesa um velho cansaço,
E ou destino
fatal ou maldição do inferno,
O mastro
grande em vão aponta para o espaço...
- Sobre as
ondas a nau é um cárcere eterno!
Dominando em
redor, lá na gávea mais alta,
Um marujo, a
cantar, fala do Além, e exalta
Um passado
esplendor sobre a nau sepulcral...
“Porque o
vento há-de vir aninhar-se nas velas!”
“Porque a
nau voará, - tocará nas estrelas!...”
- O marujo é
Poeta - e a nau... Portugal!
(poeta
amantina nascido há 123 anos)
quinta-feira, maio 10, 2012
Ontem ao
luar
Ontem, ao
luar, nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste
o que era a dor de uma paixão.
Nada
respondi, calmo assim fiquei
Mas, fitando
o azul do azul do céu
A lua azul
eu te mostrei
Mostrando-a a
ti, dos olhos meus correr senti
Uma nívea
lágrima e, assim, te respondi
Fiquei a
sorrir por ter o prazer
De ver a
lágrima nos olhos a sofrer
A dor da
paixão não tem explicação
Como definir
o que eu só sei sentir
É mister
sofrer para se saber
O que no
peito o coração não quer dizer
Pergunta ao
luar, travesso e tão taful
De noite a
chorar na onda toda azul
Pergunta ao
luar, do mar à canção
Qual o
mistério que há na dor de uma paixão
Se tu
desejas saber o que é o amor
E sentir o
seu calor
O amaríssimo
travor do seu dulçor
Sobe um
monte à beira mar, ao luar
Ouve a onda
sobre a areia a lacrimar
Ouve o
silêncio a falar na solidão
De um calado
coração
A penar, a
derramar os prantos seus
Ouve o choro
perenal
A dor
silente, universal
E a dor
maior que a dor de Deus
Se tu queres
mais
Saber a
fonte dos meus ais
Põe o ouvido
aqui na rósea flor do coração
Ouve a
inquietação da melancória pulsação
Busca saber
qual a razão
Porque ele
vive assim tão triste a suspirar
A palpitar
em desesperação
Na queima de
amar de um insensível coração
Que a
ninguém dirá no peito ingrato em que ele está
Mas que ao
sepulcro fatalmente o levará
Catullo da
Paixão Cearense faleceu faz hoje 49 anos
Música de
Catulo da Paixão Cearense e Pedro de Alcântara na voz de Marisa Monte
Artur Paredes nasceu
faz hoje 113 anos
Composição
de Artur Paredes, acompanhado por Carlos Paredes e Arménio Silva.
quarta-feira, maio 09, 2012
terça-feira, maio 08, 2012
(o vídeo é de um concerto de 1985, ano em que faleceu vítima de acidente
de viação)
O Momento
É do momento incerto
Que se fala
Não movido por horas
Ou por dias
Mas apenas e só
Do abrir e fechar
Das asas e das flores,
Do som, do tom, das cores
De tudo que se move
Neste mundo
E como um círio
Ou súbito relâmpago
Se ilumina e desfaz
Em menos dum segundo.
(poeta flaviense nascido faz hoje 99 anos)
segunda-feira, maio 07, 2012
O Céu e o Ninho
És ao mesmo tempo o céu e o ninho.
Meu belo amigo, aqui no ninho,
o teu amor prende a alma
com mil cores,
cores e músicas.
Chega a manhã,
trazendo na mão a cesta de oiro,
com a grinalda da formosura,
para coroar a terra em silêncio!
Chega a noite pelas veredas não andadas
dos prados solitários,
já abandonados pelos rebanhos!
Traz, na sua bilha de oiro,
a fresca bebida da paz,
recolhida
no mar ocidental do descanso.
Mas onde o céu infinito se abre,
para que a alma possa voar,
reina a branca claridade imaculada.
Ali não há dia nem noite,
nem forma, nem cor,
nem sequer nunca, nunca,
uma palavra!
(Tagore nasceu faz hoje 151 anos)
Tradução de Manuel Simões
domingo, maio 06, 2012
Fingimento
Iludo o
sentido
Da vida em
que vivo.
O mundo que
sinto
É mundo que
minto.
É mundo
pensado
Aquém, do
outro lado
Da margem do
rio
Com águas em
fio.
A imagem dos
astros,
Das velas,
dos mastros,
Das nuvens,
das margens
É sombra de
imagens.
Perdidas no
fundo
Do engano do
mundo.
Não quero a
certeza
Da minha
tristeza.
Deixai-me à
vontade
Naquela
verdade
Pensada e
fingida
Que é logro
de vida.
Se minto o
que sinto,
De tudo o
que minto
Iludo o
sentido
Da vida que
vivo.
(poeta
Coimbrão nascido faz hoje 113 anos)
O centro do
mundo
Não leves
nenhum desespero para casa.
Os que
sofrem hoje
não são os
que sofrerão amanhã.
Os que
imploram hoje
não são os
que implorarão amanhã.
A medida de
todas as coisas
é como a
mulher que chora no centro do mundo.
Chora para
constatar que está viva.
Serve-te de
um copo de leite.
Vê como é
branco.
Constata
como é puro.
Observa como
só até um preciso momento
é útil e
fruível,
Qualquer
pergunta que possas fazer sobre ti
terá sempre
uma única resposta
dentro de
ti.
És como o
leite,
puro e
fruível
até ao
preciso momento em que se ferve
ou azeda.
(poeta
portuense que hoje faz 59 anos)
sábado, maio 05, 2012
“O
Auto-Retrato”
No retrato
que me faço
- traço a
traço -
às vezes me
pinto nuvem,
às vezes me
pinto árvore…
às vezes me
pinto coisas
de que nem
há mais lembrança…
ou coisas
que não existem
mas que um
dia existirão…
e, desta
lida, em que busco
- pouco a
pouco -
minha eterna
semelhança,
no final,
que restará?
Um desenho
de criança…
Corrigido
por um louco!
(poeta
gaúcho falecido faz hoje 18 anos)
sexta-feira, maio 04, 2012
Ode à
Mentira
Crueldades,
prisões, perseguições, injustiças,
como sereis
cruéis, como sereis injustas?
Quem
torturais, quem perseguis,
quem
esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo
vosso gemeria as dores
que
ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso
coração cardíaco constrangem.
Quem de vós
morre, quem de por vós a vida
lhe vai
sendo sugada a cada canto
dos gestos e
palavras, nas esquinas
das ruas e
dos montes e dos mares
da terra que
marcais, matriculais, comprais,
vendeis,
hipotecais, regais a sangue,
esses e os
outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso
amargurado à beira de saber-vos,
vos
contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós
que não a quem matais,
esses e os
outros todos... - como sereis cruéis,
como sereis
injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade,
falsidade, injúria
são tudo
quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração
que apavorado em vós soluça
a raiva
ansiosa de esmagar as pedras
dessa
encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a
vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje,
amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis,
descereis sempre, descereis.
Jorge de Sena
quinta-feira, maio 03, 2012
quarta-feira, maio 02, 2012
terça-feira, maio 01, 2012
Para vós o
meu canto...
Para vós o
meu canto, companheiros da vida!
Vós, que
tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para
quem não existe batalha perdida,
nem
desmedida margura,
nem aridez
nos desertos;
vós, que
modificais um leito dum rio;
- nos dias
difíceis sem literatura,
penso em
vós: e confio;
penso em mim
e confio;
- para vós
os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os
búzios, que falam dos clamores,
das pragas
imensas lançadas ao mar
e da fome
dos pescadores,
- penso em
vós, companheiros,
que trazeis
outros búzios para cantar...
Acuso as
falas e os gestos inúteis;
aponto as
ruas tristes da cidade
a crivo de
bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em
vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis
ruas com outra claridade
e outro
calor no apertar das mãos.
E vou
convosco. - Definido e preciso,
erguido ao
alto como um grito de guerra,
à espera do
Dia de Juízo...
Que o Dia do
Juízo
não é no
céu... é na Terra!
Sidónio
Muralha
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