domingo, julho 18, 2010

Fiat

Vestir a pele inconsútil da cariátide
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.

Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.

Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.

Gabriel Archanjo de Mendonça*

*poeta brasileiro

sábado, julho 17, 2010

Filhos em série

Desde o primeiro filho, seu Rozendo foi dando nomes a eles sempre começados pela letra N: Nílton, Neusa, Nivaldo, Nilse, Nélson, Nelma...

Um vizinho recém-chegado da zona rural soube dos nomes dos filhos dele e foi lá dizer que ambos tinham algo em comum:

- Meus fio tamém têm os nomes começados por uma letra só. Mas é pela letra A: Tonho, Cida, Belardo, Tamiro, Nésio.


Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sexta-feira, julho 16, 2010

CONSCIÊNCIA

Cada minuto uma questão
Mil fronteiras que venço ou que não venço
Mas nenhuma de mais dura e duradoura combustão:
ser o que penso

quinta-feira, julho 15, 2010

Rascunhos

Esta noite voltei a sonhar com meus lagartos
e as mesmas pedras onde costumam dormitar
em minha Catedral Submersa.

Aqueles mesmos sons de sino e carrilhões
desfilaram pela nave deserta
como procissões extintas
sopradas das cinzas da memória.

Acho que o sol era só deles,
lagartos quase jade,
figuras esculpidas no limo verde-escuro das rochas.

Seus olhos, no entanto, abriam-se para nosso espanto
e para o espanto deles próprios
(lagartos).

Fred Souza Castro*

*poeta brasileiro

quarta-feira, julho 14, 2010

Soneto ao Dicionário

Não faço versos com sentimentos :
São as palavras a matéria-prima.
Pouco importam métrica e rima,
Fundamental é suscitar fonopsia.

A fonética, arcano da fonologia,
Multifaceta as regras da prosódia.
Veja como é fácil fazer poesia
Quando se tem um bom dicionário :

Em lugar de perplexo, escrevo vário.
O leitor entenda como quiser.
Quiçá, fecundo, faça fé.

Pedante, paragógico, paramnésico,
O elóquio elíptico emascara o elo.
Eloqüente um barroco tenho ao pé.

Fred Matos*

*poeta brasileiro

terça-feira, julho 13, 2010

Tipo assim

Tipo assim, as pessoas fazem tipo, entendeu? Não é artificial não, vem de dentro, ou vem de fora, vem da sociedade, dos astros, mas também tem essa coisa inconsciente, entendeu? Ou vem da genética, sei lá.  

Há vários tipos, tipezas, tipões, tipinhos e tipaços.  

Deixa eu te falar - tem gente que faz tipo intelectual e lê o texto meio que com nojo, catando piolho, catando regência verbal incorreta, frase errada, vírgula indevida.  

Tem gente, ao contrário, que faz mais o meu tipo que eu estou fazendo agora, tipo oralidade sem muito compromisso, tipo deixa rolar, é claro que eu prefiro ser tipo assim.  

Agora, tem gente que faz mais tipo conservador atualizado, tipo gente séria que está sempre flagrando falta de ética dos outros, e está sempre denunciando as perversões alheias, e está todo dia de olho na TV e na internet para ver o que a TV e a internet estão mostrando de pervertido. Tipo assim.  

E tem o tipo vale-tudo, o cara ou a cara que não tem repressão, e come de tudo e de todos, ou pelo menos faz tipo assim um discurso do tipo "eu faço tudo e daí?", tipo "eu já vi de tudo" e não topa o tipo outro que fica no pé dele com o topete de quem tudo sabe, de tudo entende, entendeu?  

Tem também o tipo duplo, tipo faz e cala, pensa mas não diz nada, tipo assim, tipo sonso, tipo taca tudo debaixo do tapete, tipo tapa a boca mas depois é fake no orkut, tipo não tem porém tem, tudo bem.  

Por outra parte, o tipo abertura total, alma escancarada, diz o que pensa e o que não pensa, tipo franco, tipo dá a cara para bater, e grita no ponto, e parte para o tapa.  

Tem o tipo que quer chegar ao topo, custe o que custar, mate quem matar, se mata, se mete em tudo, pisa, posa, paga, vende, topa tudo por quase nada...  

Tem o tipo que apronta e pinta o sete.  

Tem o tipo que curte a sorte, aposta em todos os dados.

Tem o tipo que quer viver no mato, comendo tomate e abacate.  

Tem o tipo poeta, alheio ao burocrata, que é tipo assim poeta do carimbo.  

Cada tipo no seu trilho, entendeu?  

Tipos de todos os topes - tu e eu.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, julho 12, 2010

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

sábado, julho 10, 2010

Poeta

Deixa cair todo este orvalho puro
sobre os teus ombros doloridos.

Vê como é suave a terra:
mesmo nos galhos mais bruscos,
olha: há carícias amigas.

Tudo é mais coração, porque és mais coração.

Orvalho... Orvalho... Parece
que em tua vida alguma cousa amadurece.

Deixa cair, deixa rolar teu poema
como um fruto maduro, pelo chão.

Loucura

Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.

Marcel Proust

sexta-feira, julho 09, 2010

Epitáfio

Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

quinta-feira, julho 08, 2010

Capacidade de síntese

Num jornal abertamente anti-monarquia li esta saborosa anedota real: 


Disciplina: Língua e literatura espanhola

Exercício: Composição literária que contenha os seguintes temas:

-          Sexo
-          Monarquía
-          Religião
-          Mistério

Recomendação: Brevidade  concisão.

Resposta de um aluno:

Oh, meu Deus! Foderam a Rainha! Quem terá sido?

quarta-feira, julho 07, 2010

Elegia

A alegria da vida, essa alegria d'oiro
A pouco e pouco em mim vai-se extinguindo, vai...
Melros alegres de bico loiro,
Ó melros negros, cantai, cantai!

Ando lívido, arrasto o pobre corpo exangue,
Que era feito da luz das claras madrugadas...
Rosas vermelhas da cor do sangue,
Rosas abri-vos às gargalhadas!

Limpidez virginal, graça d'Anacreonte,
Mimo, frescura, força, onde é que estais?... não sei!...
Ó águas vivas, águas do monte,
Ó águas puras, correi, correi!

Eu sinto-me prostrado em lânguido desmaio,
E a minha fronte verga exausta para o chão...
Cedros altivos, sem medo ao raio,
Cedros erguei-vos pela amplidão!

Guerra Junqueiro, in Poesias Dispersas
Alma

Na alma da maioria dos homens grunhe ainda, baixo e voraz, o focinho do porco.



terça-feira, julho 06, 2010

Sina

A gente grita, corre, sufoca e morre.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.

Francisco Tribuzi*

*poeta brasileiro

segunda-feira, julho 05, 2010

A eira e a piscina


















No local onde se encontra esta piscina existiu uma eira onde eu brinquei, aos Domingos, até aos 10 anos, na quinta de que os meus pais foram rendeiros explorados durante quase três décadas, pagando anualmente dois carros de milho (cada carro correspondia a 40 rasas e cada rasa a 13 quilos), dois terços da azeitona e dois terços das uvas colhidas, tudo colocado na casa do dono, a mais de uma hora e meia de viagem com o carro de bois, sendo que todas as despesas do ciclo do milho, da apanha da azeitona e do tratamento da vinha, desde a poda até à vindima, eram da conta dos rendeiros.

Depois de sairmos de lá em 1960, o patrão, um “respeitável” chefe das finanças, violonista amador e chefe de quina da Legião Portuguesa, nunca mais encontrou ninguém disponível para uma semi-escravidão para poder alimentar oito filhos e a quinta esteve mais de 30 anos ao completo abandono, até que o seu filho mais novo – um ano mais velho do que eu – conseguiu subsídios da União Europeia para recuperar a casa e transformá-la numa unidade de Turismo de Habitação, que fica a menos de um quilómetro da casa da minha irmã onde estou a redigir esta posta à sombra da parreira.

Ficou um coisa simpática para recordar a infância, embora com o travo amargo da exploração a que a que toda a minha família foi submetida. Podem vir passar cá uns dias, que isto é um sossego.

domingo, julho 04, 2010

Autobiografia

Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de ... 1884 (na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez, aos 5 anos, um célebre ditado: "Cavalo pangaré/Mulher que ... em pé/Gente de Taubaté/ Dominus libera mé".

Concordou.

Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11. Primeiras espinhas aos 15.

Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne.

Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau - apagado. Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Insistiu. Formou-se em Direito, com um simplesmente no 4º ano - merecidíssimo. Foi promotor em Areias, mas não promoveu coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi (que nunca usou no dedo, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4,200 a arroba e feijão a 4.000 o alqueire.

Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários. Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros.

Escreveu umas tantas lorotas que se vendem - Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho. Pretente publicar ainda um romance sensacional que começa por um tiro:

- Pum! E o infame cai redondamente morto...

Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula.

Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenos Aires.

Físico: lindo!


A Novela Semanal, São Paulo, nº 1, 2 de maio 1921

Autobiografia do “pai” do Sítio do Picapau Amarelo retirada daqui

sábado, julho 03, 2010

Labirinto

Agora o corpo fala de pássaros
anunciando a erosão rente à língua
o presságio que rasga o linho
o derrame da semente ao morrer.

Assusta-me o vidro dos olhos
esmagando-se no vértice da linha
a dormência ávida das águas
na rotação da última palavra.

Esta é a nudez intacta da luz
o ar na vibração do corpo
o cheiro agreste e puro da cânfora
o peso dos dedos sob o espanto.

sexta-feira, julho 02, 2010

Um dia branco

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

quinta-feira, julho 01, 2010

Lágrima

A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.

Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.

quarta-feira, junho 30, 2010

O Ponto

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Alerta

Pedindo desculpa aos amigos que me visitam, informo de que me vi forçado a activar a moderação de comentários, dado que um caramelo qualquer que é porco e ordinário no seu próprio blogue decidiu vir insultar-me à minha caixa de comentários. Aceito, obviamente, qualquer discordância de pontos de vista, mas não admito insultos soezes, próprios de quem não tem uma pinta de carácter e se alimenta do ódio ao seu semelhante. 

terça-feira, junho 29, 2010

Os Pequenos Varredores

Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...

Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.

De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.

Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.

Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.

E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...

Afonso Schmidt*, in Janelas Abertas

* poeta paulista

segunda-feira, junho 28, 2010

Vestígio 

Ubíquo Mar,
sedento de barcos,
de seixos e seios.
Vesgo olhar de conchas,
tração de maresia.
Mar de algas

ondeando em manchas de ódios,
areando em arpões sonolentos.
(recolhendo-se à espuma)

travesso mar,
de porões encardidos,
golpeando os náufragos
que a ti se lançam.
Mar de ferrugem,
de fuligem,
de ressaca.
Vestígio.

Francisco Perna Filho*

*poeta brasileiro

domingo, junho 27, 2010

FRAGMENTO DE UM CORO

Nós
         os de cinza e tempo
nós os de olhar barrado
nós os de céus ardendo
e ventos desfigurados
nós os de mito e queda
nós os de mãos atadas
ecos
         desdobrando
                            gritos
mudos mantos desdobrados
nós silenciados muros
de desesperos caiados
nós cegos irmãos em luto
por mundos manietados
nós sonâmbulos
                   remotos
nós vagos
só recordados
os estáticos andantes
escuramente pisados
nós os egressos da sede
diuturnamente velada
nós o exílio de nós mesmos
viva lâmpada apagada
nós entre o infinito e o medo
esparsos
            desencontrados
nós frios
de cinza e tempo
em tempo e cinza
                       encerrados


*poeta brasileiro

sábado, junho 26, 2010

De papo para o ar
















Nas próximas três semana vou abancar na minha terra natal, no concelho cuja sede é uma vila que não quer ser cidade. Para descansar e bebericar um verde tinto à saúde dos meus amigos.

sexta-feira, junho 25, 2010

O tempo

O tempo tem tempo de tempo ser,
o tempo tem tempo de tempo dar,
ao tempo da noite que vai, correr,
o tempo do dia que vai chegar.

quinta-feira, junho 24, 2010

Receitas que ninguém me pediu       

Receita para escrever receitas: sentir-se teoricamente preparado para aconselhar alguém a fazer algo que, na prática, não é certo que dê certo...  

Receita para ter pesadelos à noite: ser conivente com o inconveniente, aceitar o inaceitável, tolerar o intolerável.  

Receita eficaz para perder peso rapidamente: trabalhar demais, comer pouco e dormir mal...  

Receita para enlouquecer a si mesmo e aos outros: racionalizar tudo, marcar horário para tudo, prever tudo, controlar tudo, cobrar todas as promessas, corrigir todos os erros, querer escrever receitas com a única intenção de resolver todos os problemas do mundo.  

Receita genial para ser um gênio: ler todos os livros do mundo e esquecer tudo o que se leu.  

Receita para falar em público com desenvoltura, despertando o interesse de todos, comunicando-se de modo oportuno e enfático, provocando risos e lágrimas: falar pouco.  

Receita para ter dinheiro à vontade: não ter vontade de acumular mais dinheiro do que o necessário para viver uma única vida.  

Receita para escapar das seitas que lavam nossos cérebros e roubam nossa liberdade: fundar uma nova seita ainda mais proselitista.  

Receita para ser pontual: comprar um relógio e usá-lo, comprar agenda e consultá-la... e não marcar nenhum encontro com pessoas pontuais.  

Receita para desesperar-se: ser perfeccionista.  

Receita para não adquirir a virtude da humildade: orgulhar-se de ser o mais humilde dentre todos os mortais.  

Receita para ser aceito pelos outros: plantar e colher sem se preocupar quando será (e se boa será) a colheita.  

Receita para cultivar uma biblioteca com mais de 9 mil livros: comprar um livro por dia ao longo de 25 anos.  

Receita para ler mais de 9 mil livros: ler um livro por dia ao longo de 25 anos.  

Receita para viver mais de 100 anos: acostumar-se com a idéia de que um século não é grande coisa.  

Receita para não desanimar após ter experimentado um fracasso: chorar até o amanhecer, enterrar o cadáver de ontem bem enterrado e escovar os dentes.
 
Receita imemorial para tornar a memória infalível: esquecer o que é inútil sem se angustiar com a possibilidade de esquecer o que é imprescindível.  

Receita infalível para ser feliz: não acreditar em receitas infalíveis, e seguir as receitas falíveis com um sorriso nos lábios.  

Receita para educar os filhos: jogar todas as receitas pela janela.  

Receita para ser conciso: ponto final.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quarta-feira, junho 23, 2010

Melancolia

Quem
(diante do sol e dos luares,
do olho no olho do mar e do infinito,
dos equinócios, das guerras
dos decretos,
da floração noturna das estrelas,
das epopéias do progresso, das quimeras
que ardem na lareira do desejo,
da súbita epifania da encantaria
submersa na linguagem-rio)
quem há de perceber em mim
(grão de poeira
na infinitamente azul ampulheta de Deus)
este botão de amor tombando no poema
depois que o abandonaste no meu peito!

terça-feira, junho 22, 2010

Colômbia-mudou a mosca


































Cartoon: Rubén
Lá, ao contrário de cá


Mariano Rajoy, presidente do Partido Popular espanhol

segunda-feira, junho 21, 2010

Cai a semente

Cai a semente
Sem querer mentir ao sol,
naturalmente.

Cai a semente.
Sem poder mentir a si,
maduramente.

sábado, junho 19, 2010

Química

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

José Saramago, in Os Poemas Possíveis

sexta-feira, junho 18, 2010

In memoriam

Uns nascem crianças e morrem crianças;
Outros nascem crianças e morrem homens;
Alguns, poucos, já nascem homens e morrem Homens.
O Zé é um desses poucos.

quinta-feira, junho 17, 2010

Já a luz se apagou

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

quarta-feira, junho 16, 2010

Poema

sem vírgula palavra som
alma e silêncio
só ponto final
perfeição
perversão

perfeito não houve
haverá

desfeito refeito impossível
ele redivive
pela de/mão

asas se partem ver/so reverso
letras traços pontos nada
ícaro sem ar
cinzas
ai
coração.

Francisco Miguel de Moura*

poeta brasileiro
Moço de recados
















Cartoon: Peter Brookes/The Times

terça-feira, junho 15, 2010

Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemitérios - as lajes são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. 

Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

segunda-feira, junho 14, 2010

Não amar

A dor
de não amar
é faca
de serra.
Corta
e dilacera.
Enferrujada,
deixa o tétano
em gotas de indiferença.


*Poeta carioca

domingo, junho 13, 2010

Outro dia

cai na manhã do coração desolado
a toutinegra que longe daqui cantava e
nesse instante
a tristeza do rosto subiu aos lábios
para queimar a morte próxima do corpo e
da terra

mas se a noite vier
cheia de luzes ilegíveis de véus
de relógios parados - ergue as asas
fere o ar que te sufoca e não te mexas
para que eu fique a ver-te estilhaçar
aquilo que penso e já não escrevo - aquilo
que perdeu o nome e se bebe como cicuta
junto ao precipício e à beleza do teu corpo

depois
deixarei o dia avançar com o barco
que levanta voo e traz as más notícias dos jornais
e o cheiro espesso das coisas esquecidas - os óculos
para ver o mar que já não vejo e um dedo incendiado
esboçando na poeira uma janela de ouro
e de vento

sábado, junho 12, 2010

EDITAL

Já estão a funcionar os moinhos da morte,
prontos,
oleados,
com motores novos e peças de reserva.

A instrução militar é muito vagarosa
e é urgente inventar um novo método.
Ainda não há soldados bastantes este verão;
é preciso incorporar mais cedo.

Não é possível perder tempo, ouviram!
Os moinhos da morte estão prestes a iniciar a sua tarefa,
os depósitos de bombas estão repletos,
as rampas de lançamento distribuídas pelos pontos estratégicos.
Tudo está a postos para o próximo dia M.

Os soldados, porém, são ainda insuficientes.

É necessário acabar com os cursos de Botânica,
de Arqueologia, de Belas Artes e Direito Civil.

É preciso queimar os escritos de Malthus,
destruir o método de Ogino-Knaus,
fuzilar um ou outro poeta recalcitrante.

Não ouvem as velas dos moinhos cortando a atmosfera
nos últimos, definitivos, ensaios?
É necessário inventar uma gigantesca correia-sem-fim
que produza diariamente milhares de soldados,
que taylorize o exército e bata os recordes de produção.

Sábios, estudantes, estadistas, pais de família,
homens e mulheres de boa vontade,
onde quer que habitem,
seja qual for o vosso trabalho,
parem de perder tempo, de tomar chá,
de jogar o xadrez, a canasta, a bisca lambida,
parem de ter ócios, ler jornais, fazer ginástica:
atendam este apelo desesperado
dediquem-se à solução deste problema.

As Escolas de Guerra vão diminuir de dois anos o seu curso.
Os moinhos estão prontos.

Não querelem,
não discutam a Arte pela Arte,
não frequentem exposições:
transmitam-nos ideias - nada é desaproveitável.
A mais humilde sugestão,
a mais aparentemente inútil,
pode ser a faísca reveladora do Grande Acontecimento.

Na doença ou na saúde,
na febre delirante, no banho quente,
na praia, no consultório médico,
nas salas de espera, na paragem dos eléctricos,
trabalhem sem descanso,
tentem,
contribuam.

Não leiam livros, não ouçam música,
não pintem - É UMA ORDEM.
trabalhem sem hesitação;
o problema é urgente.

Egito Gonçalves

sexta-feira, junho 11, 2010

A voz do mar

na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o anti-navegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu desde sempre agora nunca mais
cultivo a miração das minhas ilhas.
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar.

Geraldo Carneiro, in Balada do Impostor
Lá como cá



Cartoon: Perter Brookes/The Times

quinta-feira, junho 10, 2010

10 de Junho 

Olhos e carne a beber o verde-rubro
bandeira escancarada à emoção.

Vinho
(será ele o luso símbolo
ou o sangue que ferve e incendeia
este pendão?).

Saudade
mordendo feito bicho
feito tempo, feito chama.

Orgulho
raça amálgama de raças
cravos de abril rasgando a história
língua pátria outra para milhões

Camões
nem é preciso que o digas
nem compêndios, calendários ou cantigas
apenas o sangue a rugir em campanário
rubro lembrete
mais do que nunca hoje é dia
de sentir-se português.

Dalila Teles Veras*

*poetisa madeirense residente em São Paulo

quarta-feira, junho 09, 2010

O Amor aos Sessenta

Dedicado à mulher com quem partilho a minha vida há 34 anos e que celebra hoje o 62º aniversário.

Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.
Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

terça-feira, junho 08, 2010

OBSESSÃO DO MAR OCEANO

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de Outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Mario Quintana -  in O Aprendiz de Feiticeiro
Piratas do Mediterrâneo

segunda-feira, junho 07, 2010

Música

a musa voluptuosa
pede passagem

e lhe damos -
prosa:

qualquer imagem
vale mais

que a floração sentimental de uma
rosa:

gás lacrimogêneo,
luto, melancolia,

estrofe, catástrofe,
catarse:

deposita-se, linear
(limpa e suja como um verso)
pela praia pedregosa da palavra
- esta espuma.


*poeta gaúcho