terça-feira, dezembro 22, 2009

Cara de pau


























Que razão levará aquela idosa a vestir sempre a cara de quem odeia tudo e todos à excepção do eucalipto? Será a aridez contagiosa?
Tudo mudo

A vida muda, muda o ano,
o som, as cores... mudam
e eu aqui, inteiramente mudo,
a contemplar essa mudança,
e mudo eu, nessa mudança,
e muda o mundo, e muda a vida.
Tudo muda, tudo mudo.

Paulo Camelo*

*poeta brasileiro (que hoje completa 62 anos)

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Mau, Maria!


Depois de ser mostrar muito preocupado com aquilo a que chamou de inverno demográfico, o homem disse esperar que 2010 fique marcado por frutuosos entendimentos interpartidários na Assembleia da República. Estaria a insinuar que espera muitos jotinhas transpartidários?
Solidão

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem
mais voltar...
isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente
se impõe às vezes, para realinhar os pensamentos...
isto é equilíbrio.

Tampouco é a pausa involuntária que o destino
nos impõe compulsoriamente, para que revejamos a
nossa vida...
isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
isto é circunstância.

Solidão é muito mais que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão, pela nossa Alma!

Fátima Irene Pinto*

*poetisa brasileira

domingo, dezembro 20, 2009

Alta tensão


Parece que há alta tensão entre Belém e S. Bento. Tendo em conta os alegados malefícios para a saúde, esperam-se manifestações ruidosas dos que habitam entre o esfíngico eucalipto e o animal feroz.
Adega do sono

Dividias os gomos da fruta
em aposentos da casa.
A cortina do sumo
leveda o sol levantado.
O zodíaco do molde
supre o gérmen do quarto.
E o bafio estala
a lareira das esferas
na sala de estar
da semente.

Fabrício Carpinejar*

*poeta brasileiro

sábado, dezembro 19, 2009

Toca a zucratrucar

O eucalipto plantado há quase quatro anos em frente à Praça do Império está preocupado com o inverno demográfico. Com o frio que está, toca a zucratrucar à vontade, seja para fazer filhes ou para criar cadilhes. Os mais necessitados podem limar os assessores para entrega de viagra num café da Av. de Roma, com direito a reportagem em directo no pasquim do merceeiro mor.
Fraldiqueiros

(a propósito do manifesto fracasso da COP15 e do 85º aniversário do nascimento do Alexandre O'Neill)

Coitarados!
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento sentimental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.

Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos,
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas.
Têm sempre rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.

Fraldiqueiros. . .
Vai levar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»

O golpe do coitadinho (não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...

Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico! de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma de saxofone
e tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido

Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?

Alexandre O´Neill - Poesias Completas 1951/1981

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Grande Lisboa - água ensanguentada











 Lê-se e não se acredita: a EPAL, empresa pública que fornece água a Lisboa e a parte dos municípios da respectiva área metropolitana, entre os quais aquele em que moro, estabeleceu um acordo com a nazi-sionista Mekorot, a empresa nacional da água de Israel que se alimenta do sangue do povo palestino, morto à fome e à sede. Acordo celebrado quando à frente da cidade já se encontrava António Costa, figura cimeira do partido do governo da república, que põe na mão de terroristas a segurança dum abastecimento vital para uma significativa parte dos portugueses. E, para cúmulo, o convite partiu de cá.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Ecos de Copenhaga




























A humanidade já não está dividida entre conservadores e liberais, reaccionários e progressistas, embora ambos os lados sejam influenciados pela antigas políticas. Hoje, as linhas de combate são traçadas entre expansionistas e restricionistas; aqueles que acreditam que não devia haver impedimentos e aqueles que acreditam que temos de viver dentro de limites. As ferozes batalhas que temos visto até agora entre verdes e negacionistas das alterações climáticas, os activistas da segurança rodoviária e os monstros da velocidade, os genuínos grupos de base e os impostores patrocinados pelas corporações, são apenas o início. Esta guerra tornar-se-á muito mais feia à medida que as pessoas escoiceiam contra os limites que a decência exige.

Uma útil reflexão do escritor, académico, jornalista e activista George Monbiot nas vésperas do encerramento da cimeira de Copenhaga e quando negacionistas de quadrantes políticos opostos continuam a fechar os olhos ao óbvio. Uns, como Sarah Palin, Rush Limbaugh, Glenn Beck e afins, por ignorância e porque obedecem à voz dos lóbis do petróleo e do carvão. Os outros, não sendo ignorantes, vivem há várias décadas numa cegueira ideológica que os faz confundir ciência com o oportunismo de indivíduos como Al Gore e uma mão cheia de burocratas; afadigam-se, por isso, a defender teses com quase uma década, dando todo o crédito a alguns dos poucos cientistas que negam as alterações climáticas, incluindo quem já não se encontra por cá, e desprezando as dezenas, senão mesmo centenas de milhares que pensam exactamente o contrário, como o demonstra a posição oficial da AAAS, a maior organização mundial de cientistas que, por si só, conta com 10 milhões de membros.

É verdade que a ciência não é de “esquerda” nem de “direita”, pois deve preocupar-se com a procura da verdade. Mas permanecer cego às provas avassaladoras e aproveitar acções criminosas de outrem para tentar negar o óbvio (como tem sido a utilização do chamado Climategate, que apenas revelou que os cientistas são humanos e às vezes erram mas não confirmou qualquer censura de dados como se quis fazer crer) é uma atitude troglodita, reaccionária e típica da extrema direita política.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O pássaro cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar ?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender ;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
"Não quero o teu alpiste !
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti !
Não quero a tua esplêndida gaiola !
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol !
Com que direito à escravidão me obrigas ?
Quero saudar as pompas do arrebol !
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas !
Por que me prendes ? Solta-me covarde !
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar ! voar ! ... "
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão ...

Olavo Bilac

terça-feira, dezembro 15, 2009

A Magia da Poesia

A magia da poesia
é encher a lua vazia,
aproximar o tempo distante,
chorar nos ombros da alegria,
eternizar um mínimo instante.

Fábio Rocha*

*poeta brasileiro

segunda-feira, dezembro 14, 2009

domingo, dezembro 13, 2009

Na contra-mão

Uma prece dolorida no rosto taciturno.
Convenhamos! tudo parece mentira...
Um nó de marinheiro que paira na laringe
engasgando o forte desejo de chorar...
A conjectura de palavras submersas
em tonéis de dores escabrosas... mais uma vez...

Enquanto estiver aqui, andarei na contra-mão.
Amarei a quem não me ama, sorrirei para não morrer.
Serei uma pessoa boa, um paradoxo,
inerte em controvérsias inóspitas.

Enquanto estiver aqui, correrei à frente do tempo...
Sairei em expedições infindáveis,
tentarei ser feliz novamente, mesmo que pela última vez.
Enquanto estiver aqui viverei...

No dorso curvado, um sinal de submissão,
Uma amostra de humildade a mim mesmo;
alucinada tentativa de achar razão...
As veias oculares inflam os olhos,
avermelhando o branco normal, descolando a retina...
As lágrimas?
As lágrimas não caem mais, nada mais escorre pela face.

A sudorese fria pela pressão baixa deixa o corpo mole,
aumenta a depressão e o desejo de fim...
Este talvez seja o grande legado do poeta à loucura
de estar vivo, e, o fardo de se estar...

Fábio Fontes*

*poeta brasileiro

sábado, dezembro 12, 2009

Casamento

















Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado

Posta dedicada à minha companheira, com quem casei faz hoje 33 anos

sexta-feira, dezembro 11, 2009

A perfeição das coisas

O vento - finalmente no fogo do dia - o vento do mundo
neste lugar aberto
escreve a inclinação dos jovens álamos na última colina
contra o céu para sempre novo e antigo.
As mãos do vento escrevem em verso ramos e folhas, pontos e traços,
a sombra da luz; encurvam para a esquerda e em cima
as hastes longas e breves: as vogais aéreas
da paisagem terrestre que teríamos esquecido.
É subitamente que o vês claramente visto
repetindo a imagem do tempo:
é uma caligrafia de acaso.
Mas é uma caligrafia minuciosa nítida;
inquieta e exacta;
ofuscante como a incriada perfeição das coisas.

Numa outra folha ou margem ou luz ou lugar do mundo
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetida vezes sem conta.
As tuas mãos enquanto quase quase danças - embora
apenas andes sobre o imortal chão da casa -
sobem o pano
de algodão, apanham a bainha, colhem asas do escasso mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.

É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do sem nome.

A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar alegria.

Manuel Gusmão, in Teatros do Tempo

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Lá como cá

Un hombre, al pasar frente al Congreso de los Diputados, escucha un tremendo griterío que sale desde la sala:

"Ladrón, mentiroso, comisionista, difamador, chorizo, sinvergüenza, flojo de mierda, imbécil, timador, cabrón, corrupto, vendido, golfo, aprovechado, cara dura, falso, chupón, inútil, pesetero, estafador, vago de mierda, saqueador, gilipollas, bobo, oportunista, embaucador, tramposo, hijo de la gran puta,...........".

El hombre asustado le pregunta al guardia de la entrada:

- Señor, ¿qué pasa dentro?, ¿se están peleando?

- No, responde el guardia, ¡yo creo que están pasando lista!

Nota : pasar lista significa fazer a chamada

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Mas há a Vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector

terça-feira, dezembro 08, 2009

Capitalismo selvagem - contrastes


Enquanto em Kolkata, India, dois trabalhadores descarregam um camião de carvão, sem qualquer protecção contra inalações mortíferas,


























a milhares de quilómetros de distância, Penelope Cruz e Kate Hudson brilham na World Premiere of Nine, no Odeon Leicester Square

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Epígrafe

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pré-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
- expressão da multidão que está comigo.

José Carlos Ary dos Santos

domingo, dezembro 06, 2009

Insegura segurança

Excesso de segurança aumenta a insegurança. E o inseguro crônico é insaciável - quanto mais pensa e inventa modos de se salvar, mais se aproxima do abismo.

É que os seguros todos não asseguram tudo. Sempre há, debaixo da cama, no vão da escada, atrás da porta, na curva da estrada, na rua de cima, na casa ao lado, no fim da linha, virando à direita, virando à esquerda, subindo por aqui, descendo por ali... sempre há perigos à espreita.

O problema é justamente este! Norte, sul, leste, oeste... em todos os cantos há falsos amigos, ameaças, cupins e traças, suspeitos, interesseiros, oportunistas e nazistas, assaltantes, farsantes, ladrões, vilões, espertalhões, psicopatas e piratas!

Quanto mais cadeados, mais assustados ficamos com os especialistas em desencadear nossos segredos.

Quanto mais cofres, mais alarmados ficamos com os arrombadores de nossas riquezas.

Quanto mais engenhosa a senha que nos protege, mais convidativa ela é para os decifradores da nossa intimidade.

Pois aí reside o perigo maior, contra o qual não existe nenhuma defesa.

Quanto mais seguros, mais inseguros, mais vulneráveis, mais temerosos de que a segurança não segure o bastante. E a verdade mais certa é que a segurança sempre deixa uma pequena, ou grande, margem de riscos imprevisíveis.

De tanto querer segurar, prever, prevenir, a insegurança gera novos problemas, novos perigos, novos pavores, novas desconfianças, novas insônias.

O cinto de segurança pode prender o motorista no carro em chamas.

O seguro contra incêndio pode deflagrar para sempre o fogo do medo.

O remédio que previne demais pode provocar novas e incuráveis doenças.

Evitar a dor a qualquer custo pode levar a torturantes torturas.

As chaves e trancas podem me impedir de fugir a tempo.

A segurança sufocante torna o segurado cada vez mais taciturno, obrigando-o a fazer terapia para não se sentir ainda mais inseguro, para não cair na depressão (e cairá!), para não se ver oprimido pelos muros que levantou com tanta ansiedade.

A insegurança providencia novos seguros e os novos seguros produzem novas incertezas, mil e uma invasões.


Não é superstição, nem cisma tola, é filosofia de vida arraigada, que com o tempo chega aos limites da morte.

Seguro contra a vida insegura, esta vida que nos dá rasteiras, que nos apronta surpresas o tempo inteiro.

Seguro contra o mundo imperfeito, contra a sociedade traiçoeira, contra tudo e contra todos!

Gabriel Perissé*

*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, dezembro 05, 2009

Selvajaria















Da janela do apartamento onde me encontro para passar uma semanita, olhando para ocidente, vê-se esta monstruosidade que, há três dezenas de anos dava pelo nome de Albufeira. Depois queixam-se das falésias.

Apostila: espero que a excursão que chegou hoje do outro lado da fronteira dê corda aos calcantes enquanto o diabo esfrega um olho, que nós viemos para cá tentar descansar.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Recordação

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"

(tradução de Maria João Costa Pereira)
LES OISEAUX DÉGUISÉS

Tous ceux qui parlent des merveilles
Leurs fables cachent des sanglots
Et les couleurs de leur oreille
Toujours à des plaintes pareilles
Donnent leurs larmes pour de l'eau

Le peintre assis devant sa toile
A-t-il jamais peint ce qu'il voit
Ce qu'il voit son histoire voile
Et ses ténèbres sont étoiles
Comme chanter change la voix

Ses secrets partout qu'il expose
Ce sont des oiseaux déguisés
Son regard embellit les choses
Et les gens prennent pour des roses
La douleur dont il est brisé

Ma vie au loin mon étrangère
Ce que je fus je l'ai quitté
Et les teintes d'aimer changèrent
Comme roussit dans les fougères
Le songe d'une nuit d'été

Automne automne long automne
Comme le cri du vitrier
De rue en rue et je chantonne
Un air dont lentement s'étonne
Celui qui ne sait plus prier

Louis Aragon

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Honduras - mais um apoiante


Besteira

Eu sempre faço uma besteira enorme:
Fico desperto enquanto o mundo dorme.
E eu hoje fiz outra besteira imensa:
Não pensei nada do que o vulgo pensa-

Affonso Manta*

*poeta brasileiro

(no 6º aniversário do seu falecimento)

terça-feira, dezembro 01, 2009

Estética

Formas coleantes, uma nuca distante
Pano de fundo de uma paisagem patética
Liquidez perfeita e impressões cotidianas
Nas ruas, nos carros, nas mesas.

Caminho só, passo a passo
Mão nos bolsos, cabeça no céu
Sorriso fraco, assobio distante
Intenção lenta no andar, a esperar

Como espero, sem medo e sem pressa
Mensagens sutis de um querer por querer
Mas querer somente o belo, se possível
O sonho e a visão de uma forma estética.

Se não der, volto amanhã e depois
Assobio mais baixo, a cabeça ironiza
As formas que fogem, quase sem ética (sorrio):
Às vezes são uns olhos, uma boca, umas pernas.

Fábio Afonso de Almeida*

*poeta brasileiro

segunda-feira, novembro 30, 2009

Dois Países, destinos opostos





























Nas eleições democráticas do Uruguai ganhou José Mujica, antigo guerrilheiro tupamaro e candidato da progressista Frente Ampla.






















Na farsa golpista das Honduras, apenas reconhecida pelo “grande irmão” do norte e seus homens de mão, aparentemente teve mais votos o conservador Pepe Lobo, num arremedo de eleições com uma abstenção de 70%.
Não

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos

domingo, novembro 29, 2009

CORPO

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.

Everardo Norões*

*poeta brasileiro
Honduras - Eleições golpistas






















Cartoon: Chispa

sábado, novembro 28, 2009

Fingimento

Iludo o sentido
Da vida em que vivo.
O mundo que sinto
É mundo que minto.

É mundo pensado
Aquém, do outro lado
Da margem do rio
Com águas em fio.

A imagem dos astros,
Das velas, dos mastros,
Das nuvens, das margens
É sombra de imagens.

Perdidas no fundo
Do engano do mundo.
Não quero a certeza
Da minha tristeza.

Deixai-me à vontade
Naquela verdade
Pensada e fingida
Que é logro de vida.

Se minto o que sinto,
De tudo o que minto
Iludo o sentido
Da vida que vivo.

José Campos de Figueiredo

quinta-feira, novembro 26, 2009

In memoriam














O homem em eclipse

Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se
a data digam a data
a datazinha faz favor
qual data foi por decreto
que a gente se eclipsou
foi só manobra espertice
um dois três e pronto é noite
que nem a lua apareça
seja de que lado for
Uns seguraram-se logo
eram espertos bem se viu
outros caíram ao mar
com cabeça pernas e tudo
quanto a mim perdi a calma
fiquei desaparafusado
tradição cultura estilo
certeza amigos fatiota
tudo fora do seu sítio
um desaparafuso terrível

Segurem-me camaradas
sinto pernas a boiar
cheiro fantasmas enxofre
estou aqui mas posso voar
o parafuso da língua
vai partido vai saltar
agarrem-me! agarra!
pronto
pari o mais leve que o ar

Mário Cesariny

Pintura: Óleo sobre almofada de tecido - Homenagem a Mário Henrique Leiria

quarta-feira, novembro 25, 2009

Três dias de insultos no parlamento

Senão vejam! Todos os dias aqueles ilustres deputados se dizem uns aos outros: É falso! É mentira! E não se esbofeteiam, não se enviam duas balas! Piedosa inocência!

Cordura evangélica! É um parlamento educado por S. Francisco de Sales!

O ilustre deputado mente!

Ah, minto? Pois bem, apelo...

Cuidam que apela para o espalmado da sua mão direita ou para a elasticidade da sua bengala?

- Não, meus caros senhores, apela - para o País!

Quanta elevação cristã num diploma de deputado! Quando um homem leva em pleno peito, diante de duzentas pessoas que ouvem e de mil que lêem, este rude encontrão: É falso! - e diz com uma terna brandura: Pois bem, apelo para o País! - este homem é um santo! Não entrará decerto nunca no Jockey-Club, de onde a mansidão é excluída, mas entrará no reino do Céu, onde a humildade é glorificada.

É uma escola de humildade este parlamento! Nunca em parte nenhuma, como ali, o insulto foi recebido com tão curvada paciência, o desmentido acolhido com tão sentida resignação! Sublime curso de caridade cristã. E veremos os tempos em que um senhor deputado, esbofeteado em pleno e claro Chiado, dirá modestamente ao agressor, mostrando o seu diploma: - «Sou deputado da nação portuguesa! Apelo para o País! Pode continuar a bater!»

E depois que doçura de expressões! Não vimos ainda há pouco o Sr. Ávila designado no meio de uma questão financeira com estas benévolas qualificações - camaleão, sapo, elefante?! Que autoridade no dizer! que elevação no pensar! Como é instrutivo, como é moral, o ver discursos assim concebidos:

- Não aprovo o projecto do ilustre presidente do Conselho, porque entendo na minha consciência, e digo-o à face do País, que S. Exª é uma verdadeira serpente:

- Mando para a mesa a seguinte moção:

A Câmara, compenetrada de que o sr. ministro da Fazenda é uma lontra, passa à ordem do dia!

Depois o modo carinhoso como a Câmara tomou conta da infeliz palavra insulto!

Aquela pobre palavra, tão comprometedora, que nunca aparecia outrora que não fosse o sinal de um duelo ou de uma policia correccional - o parlamento refez-lhe uma virgindade e um decoro, e ela agora vem, e ninguém se revolta, e o Sr. António Aires tem para ela um bom sorriso.

- O ilustre deputado há três dias não faz senão insultar-me (textual). Três dias!

- O ilustre deputado não me insulte!

- Vou responder a esses insultos!

- Menos insultos!

Ai! o mundo despoetiza-se! As coisas terríveis perdem o colorido da lenda.

O Parlamento vive na idade de ouro. Vive nas idades inocentes em que se colocam as lendas do Paraíso - quando o mal ainda não existia, quando Caím era um bom rapaz, quando os tigres passeavam docemente par a par com os cordeiros, quando ninguém tinha tido o cavalheirismo de inventar a palavra calúnia! - e a palavra mente! não atraía a bofetada! crianças riem do papão. O diabo já não é temido. O insulto já não é aviltante! Não é! A Câmara dos Deputados vive há um mês, tendo no seu seio o insulto, em perpétua ordem do dia - e engorda!

Mas o Sr. António Aires, esse, para que continua a dizer com a sua voz eloquente:

- Amanhã continua a mesma discussão?

A escrupulosa verdade - e S. Exª, sacerdote e católico, está adstrito a observar este regimento da consciência - pede que se declare:

- Amanhã continua a mesma assuada.

Assim o público ficava avisado - e os srs. deputados também! Porque nada deve custar mais a um ilustre deputado, que quer zelar os interesses do seu país, do que ver, numa discussão, exausta a sua colecção de injúrias, findos os seus apontamentos de berros!

Não é quem quer doutor em impropérios! E assim, devidamente prevenido, cada deputado podia formar de véspera uma útil e séria lista de argumentos - consultando o dicionário, o seu aguadeiro, a porta da Alfândega e os fadistas da Praça da Figueira.

Eça de Queiroz - in Uma Campanha Alegre

Passam hoje 164 anos sobre o nascimento de Eça de Queiroz e o texto transcrito tem mais de 138 anos. Mas, se fosse vivo, talvez escrevesse algo de muito similar, provavelmente com adjectivos bem mais contundentes considerando a panóplia de meios de comunicação que hoje existe.

terça-feira, novembro 24, 2009

Sesquicentenário


Frontispício da primeira edição em inglês do livro A Origem das Espécies (On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), de Charles Darwin, publicado há 150 anos.
Ecos

Habitando os cafés
e refletindo as manhãs
com restos da noite,
ambientou-se ao não-ser,
traçou a inexistência,
ficou entre parênteses.
Silente e absorto,
refez os becos
de um dia oco e pesado.
Inquieto,
alimentou-se de acasos:
sorveu as praças,
o cinza das chaminés
e amargurou-se com o lamento
pulverizado dos meninos
da grande cidade.
Chorou a salobra
segunda-feira,
feita de vagidos
e tormentos.
Desse modo,
por muito tempo,
passou a repetir
as noites,
nos olhos avulsos
do esquálido cão,
que cismara em perseguir.
Um dia,
ao tentar recompor sua história,
morreu de esquecimento.

Francisco Perna Filho*

*poeta brasileiro que hoje comemora o 46º aniversário

segunda-feira, novembro 23, 2009

Alfabetizado exemplar

O professor Sílvio era o maior educador do norte goiano. Ou pelo menos pensava que era, depois de ter dado aulas em umas oito escolas rurais nos três municípios em que morou.

Com esse cacife todo, resolveu se candidatar a prefeito. Em cada comício, levava alguns alfabetizados por ele para mostrar resultados do seu trabalho. Candidatos de outros partidos gozavam, dizendo que ele ensinava as pessoas a desenhar o nome e as considerava alfabetizadas.

Contestando seus opositores, o professor Sílvio passou a pedir para alguns dos seus alfabetizados que subissem ao palanque, e fazia perguntas relacionadas à maltratada língua-pátria. A cada resposta, a platéia aplaudia e ele vibrava.

– Tão vendo? Tão vendo? Gente alfabetizada pelo professor Sílvio sabe ler e escrever, sim senhor!

Num desses comícios, subiu ao palanque o pernambucano Gregório, que chegou analfabeto ao norte de Goiás, e foi "desasnado" pelo professor Sílvio. Para mostrar que aprendeu mesmo, mandou que perguntasse o que quisessem, e o próprio professor perguntou:

– O que é sílaba?

Gregório nem vacilou. Com um ar de profunda sabedoria, sapecou:

– Sílbala é uma palavra que a gente gaguleja de uma vez só.

Mouzar Benedito

Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

domingo, novembro 22, 2009

Moinho

Todos os dias me suicido,
invento dores e palavras absurdas,
é a fórmula que escolhi para me multiplicar.
Começo quando começa o dia,
estou eu sempre me recomeçando.
Faço assim porque tenho pressa,
pode ser que eu morra
antes do fim do mundo.
Além do mais,
a noite não espera
e guardo muito cuidado com ela porque,
no seu silêncio extremo,
está a perdição que me alimenta.
Percorro os caminhos como um navio,
desses que carregam fantasmas.
Vou repartindo o tempo,
ora estou na luz,
ora no escuro maior.
É assim a contradição que estabeleço
para que ninguém me encontre
nem tampouco imite o meu sofrer.
Escondo,
dentro de mim,
no peito,
um moinho.
No centro dele sou duro como ferro.

Everaldo Moreira Veras*

*poeta brasileiro

sábado, novembro 21, 2009

Política

Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros.

Voltaire

sexta-feira, novembro 20, 2009

Um Visitante

Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

Eunice Arruda*

*poetisa brasileira

quinta-feira, novembro 19, 2009

Desafio















Recebi um desafio da amiga Sofia que consiste em completar as 5 frases seguintes:

Eu já tive...
Eu nunca...
Eu sei...
Eu quero...

Eu sonho...

Eu já tive o objectivo de ajudar a deixar aos vindouros um país melhor do que aquele que me calhou em sorte. Eu sei que não é fácil e, por vezes, tenho vontade de desistir, mas vou continuar a lutar por isso, porque eu nunca desisti facilmente de lutar por algo que considero ser justo. Eu quero manter acesa esta chama pois, tal como o grande Rómulo de Carvalho, eu acredito que o sonho comanda a vida.

E endosso a brincadeira aos seguintes blogistas e a todos os outros que a quiserem continuar:

O Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

quarta-feira, novembro 18, 2009

As três pessoas       

A gramática pode ser útil para a compreensão da condição humana, se a ultrapassarmos, se soubermos pensar para além das suas regras e classificações, tornando-a inspiradora.  


Quando conjugamos os verbos, conjugamos de acordo com alguns parâmetros. Um deles são as pessoas. A primeira pessoa do singular, a primeira do plural, e a segunda do singular e a do plural, e a terceira do singular e a do plural. 


Viajar na terceira pessoa - ele viajou, eles viajaram, eles conheceram Fortaleza, Paris, Cairo, Roma, Tóquio, eles deram a volta ao mundo. Tais viagens estão distantes de mim, distantes de nós. Podemos ler os relatos, imaginar como foi ou deixou de ser, pouco mais do que isso.  


Viajar na segunda pessoa do singular - tu viajaste, você viajava - inclui o diálogo, as perguntas, os detalhes, as curiosidades, o olho no olho, em que vejo a sua viagem, em que vejo indiretamente o que você viu, o que você viveu em outras paragens.  


Viajar em primeira pessoa - eu viajei, nós viajamos - tocar com os próprios pés outros chãos da mesma terra, ouvir com os próprios ouvidos outros idiomas, outras músicas, cheirar cheiros diferentes com o próprio nariz, este delicado órgão do conhecimento.  


Aprender na terceira pessoa. É belo ver os outros aprendendo, renomados cientistas, sábios de cabelos brancos e olhos serenos, admiráveis pesquisadores.  


Aprender na segunda pessoa pressupõe a relação, conduz ao encontro. Se você aprendeu, talvez eu possa aprender com você. Ou eu mesmo lhe ensinei algo sem saber. Quem sabe aprender aprende de tudo.  


Aprender em primeira pessoa, prazer pessoal, insubstituível. Quando aprendo, eu não me arrependo, e me prendo a novas liberdades, desencadeio cadeados, destravo a alma, desprendo-me de mim mesmo.  


Amar na terceira pessoa - ele ama, eles amaram, eles se amam. Este amor de telenovela, romance de outros personagens, histórias com final feliz ou trágico, amor dos outros, dicionário amoroso que posso apenas consultar.  


Amar na segunda pessoa, amar o outro, amar-te aqui e agora, ou na China, ou em Marte. Amar-te até morrer. Amar-te com engenho e arte.  


Amar na segunda pessoa já é amar em primeira pessoa. Amar no presente, no passado, no futuro. Amar imperativo. Amar em cada artigo. Amar em vocativo. Amar o amor em sua própria morfologia. Amar substantivamente. Amar embora, contudo, quando, porque...  


Amar, enfim, com toda a riqueza das conjunções.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, novembro 16, 2009

A Torpe Sociedade onde Nasci

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
- De ser vítima humilde ou ser algoz...

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom - como não é!

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...

António Aleixo, in Este Livro que Vos Deixo...
Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago, in Os Poemas Possíveis

Feliz aniversário, José!

domingo, novembro 15, 2009

Matar e corromper









Blackwater é um nome sinistro para uma empresa ainda mais sinistra que se dedica a alugar ( principalmente ao Pentágono) mercenários pagos a peso de ouro para matar tudo o que mexe quando não cai lá muito bem que os assassinatos de civis inocentes sejam assacados às forças de guerra regulares.

Menina dos olhos de Bush, Cheney e Rumsfeld, desde 2004 arrecadou uma pequena maquia superior a mil e quinhentos milhões de dólares para proteger diplomatas estado-unidenses e providenciar-lhes transporte aéreo dentro do Iraque. Outras estipêndios insignificantes terão sido recebidos para operações menos prosaicas, como o assassinato a sangue frio de 17 civis em Bagdade, corria o ano de 2007.

Não admira, portanto, que para fazer face às críticas que a chacina provocou dentro dos burocratas iraquianos a soldo do império, o então presidente da empresa, Gary Jackson, tenha decidido autorizar, em Dezembro de 2007, o pagamento de subornos de um milhão de dólares, para que o governo fantoche não levantasse obstáculos à actuação dos seus meninos de coro em território iraquiano.

sábado, novembro 14, 2009

Lavoura Gramatical

Vivo de plantar artigos indefinidos
em frases substantivadas;
suor adverbial, monossilábico sol.

Enxadas verbais mondam palavras,
grãos sintáticos coloram o dia
desta lavra infame.

Ervas metafóricas crescem vorazes
sobre a colheita superlativa.
Hipérboles regam os grelos

desta plantação morfológica.
Eitos absolutos, parônimo canto;
Imensa lavoura gramatical.

Enzo Carlo Barrocco*

*poeta brasileiro

sexta-feira, novembro 13, 2009

Homicida? E os outros?


Este homem com algemas a fazer o gesto de vitória chama-se Yaakov Teitel e é um israelita fundamentalista religioso, sionista e colono na Cisjordânia, que foi acusado, num tribunal de Jerusalém, de homicídio, tentativa de homicídio, fabrico ilegal de armas e incitação à violência.

É difícil entender estas acusações. Num país pária, ilegal, anti-semita e racista, onde a violência, o desrespeito pelos direitos humanos e os assassínios em massa de civis são a norma, em que os dirigentes, avalizados pelo chamado ocidente, não passam de criminosos e onde são produzidas ilegalmente centenas de ogivas nucleares, passou a ser crime matar palestinos a sangue frio? Afinal, o acusado não é, supostamente, dos “nossos” (salvo seja) e os seus alvos não são, também supostamente, dos “deles”? E o Deus dele, que alegadamente estará muito satisfeito, não é o mesmo Deus do Bush, do Blair, do Barroso, do Aznar, do Obama, da Clinton e de outros que tais? E não foi ensinado, desde a mais tenra idade, a ter um ódio de morte a tudo o que é palestino? Ou a acusação é só para atirar mais poeira para os olhos dos incautos?

quarta-feira, novembro 11, 2009

O mosto e as castanhas mal assadas

Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom vinho. Este adágio, um entre as várias dezenas que existem sobre o São Martinho, significa que pelo dia 11 de Novembro se espera que tenha passado o tempo e vindo o frio suficientes para “curtir” o mosto e transformá-lo em vinho.

O que muitas alminhas desconhecem é que beber mosto como quem bebe vinho provoca fortes desarranjos intestinais que fazem os incautos andarem a correr para as casas de banho dias a fio.

Por outro lado, fazer um bom magusto requer sabedoria, pois as castanhas têm de ser mexidas e remexidas com perícia de forma a assarem uniformemente por todos os lados.

Pois parece que os mais altos mandatários da justiça cá do burgo desconheciam estas realidades comezinhas, pois apressaram-se a retirar as castanhas do lume mal a face visível tinha aspecto de assada e atiraram-se ao mosto como borracho ao garrafão. Como resultado, não conseguem descascar a face oculta das castanhas e foram atacados por uma diarreia mental que já dura há vários dias. Com a agravante de as casas de banho se situarem nas redacções dos jornais e nos estúdios das televisões.

terça-feira, novembro 10, 2009

Cogito

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranqüilamente
Todas as horas do fim

Torquato Neto

segunda-feira, novembro 09, 2009

Aqui Está minha Vida

Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles

domingo, novembro 08, 2009

Poema

Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.

Emílio Moura*

*poeta mineiro

sábado, novembro 07, 2009

Alto Alentejo, esse desconhecido













Ver, nas páginas do jornal mais reputado do mundo, a terra de alguém que nos é próximo é algo de incomum, mas foi o que aconteceu por estes dias ao deparar-me com um enorme fotografia de Marvão, vila onde nasceu a minha sogra e na qual a minha mulher passou as férias da sua infância e adolescência, na secção de Viagens do The New York Times, com direitos de chamada à primeira página.

Pela pena do jornalista Robert Goff são desvendados alguns dos segredos do Alto Alentejo, de Marvão a Estremoz, passando por Campo Maior, Alandroal, Crato, Elvas e Évora.

Pena que nem todos os portugueses possam desfrutar da calma das pousadas Flor da Rosa ou Rainha Santa Isabel (eu conheço as duas, mas fui convidado) e dos sabores do restaurante Maria ou São Rosas (neste foi à minha conta).

Fotografia: João Pedro Marnoto para The New York Times

sexta-feira, novembro 06, 2009

Como uma flor vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, novembro 05, 2009

Ninguém

Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.

No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.

O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.

Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?

Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?

Emílio Burlamaqui*

*poeta brasileiro

quarta-feira, novembro 04, 2009

Sábio

O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas.

Claude Lévi-Strauss

O país de uma nota só Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos. nada de nada. Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja, e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados. Algo por onde possa filtrar o pensamento, a ideia que puseram no cárcere. A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu, a carne sumiu, o IPM prendeu, o DOPS torturou, o deputado cedeu, a linha dura vetou, a censura proibiu, o governo entregou, o desemprego cresceu, a carestia aumentou, o Nordeste encolheu, o país resvalou. Tudo dó, tudo dó, tudo dó... E em todo o país repercute o tom de uma nota só... de uma nota só... Carlos Marighella* *poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.

terça-feira, novembro 03, 2009

A Ambição Superada Certo dia uma rica senhora viu, num antiquário, uma cadeira que era uma beleza. Negra, feita de mogno e cedro, custava uma fortuna. Era, porém, tão bela, que a mulher não titubeou - entrou, pagou, levou para casa. A cadeira era tão bonita que os outros móveis, antes tão lindos, começaram a parecer insuportáveis à simpática senhora. (Era simpática). Ela então resolveu vender todos os móveis e comprar outros que pudessem se equiparar à maravilhosa cadeira. E vendeu-os e comprou outros. Mas, então a casa que antes parecia tão bonita, ficou tão bem mobilada que se estabeleceu uma desarmonia flagrante entre casa e móveis. E a senhora começou a achar a casa horrível. E vendeu a casa e comprou uma outra maravilhosa. Mas dentro daquela casa magnífica, mobilada de maneira esplendorosa, a mulher começou, pouco a pouco, a achar seu marido mesquinho. E trocou de marido. Mas mesmo assim não conseguia ser feliz. Pois naquela casa magnífica, com aqueles móveis admiráveis e aquele marido fabuloso, todo mundo começou a achá-la extremamente vulgar. Millôr Fernandes

segunda-feira, novembro 02, 2009

Didática Sobre a Morte
Tudo o que resta, o tempo para a morte que por isso é o espaço ancestral. Todo o tempo que resta - e é para a morte esse que nos falta em esperança. E assim nos restando a morte espera o que somos e em nós se desperdiça. Guardamos os guardados - e a vida. (E a morte nos toma o que guardamos.) Privamos da alegria, em sacrifício, o que vamos dedicar depois à morte em nosso campo de avaros a esse tempo subtraído depois ao desperdício que poderia ser vida se estivéssemos na vida mais lentos para a morte. Álvaro Pacheco* *poeta carioca

domingo, novembro 01, 2009

Visita Fincado nos píncaros majestoso enigma espreita, de perfil Memórias de cordilheiras em meio à ubíqua neurose Incorruptível no secular vício da carniça observa o ciclo da caça Ruídos esganiçados não te assustam Parabólicas captam todas as aparências Excluído do olhar humano Impassível urubu urbano Elizabeth Lorenzotti* *poetisa paulista