segunda-feira, novembro 30, 2009

Não

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos

domingo, novembro 29, 2009

CORPO

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.

Everardo Norões*

*poeta brasileiro
Honduras - Eleições golpistas






















Cartoon: Chispa

sábado, novembro 28, 2009

Fingimento

Iludo o sentido
Da vida em que vivo.
O mundo que sinto
É mundo que minto.

É mundo pensado
Aquém, do outro lado
Da margem do rio
Com águas em fio.

A imagem dos astros,
Das velas, dos mastros,
Das nuvens, das margens
É sombra de imagens.

Perdidas no fundo
Do engano do mundo.
Não quero a certeza
Da minha tristeza.

Deixai-me à vontade
Naquela verdade
Pensada e fingida
Que é logro de vida.

Se minto o que sinto,
De tudo o que minto
Iludo o sentido
Da vida que vivo.

José Campos de Figueiredo

quinta-feira, novembro 26, 2009

In memoriam














O homem em eclipse

Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se
a data digam a data
a datazinha faz favor
qual data foi por decreto
que a gente se eclipsou
foi só manobra espertice
um dois três e pronto é noite
que nem a lua apareça
seja de que lado for
Uns seguraram-se logo
eram espertos bem se viu
outros caíram ao mar
com cabeça pernas e tudo
quanto a mim perdi a calma
fiquei desaparafusado
tradição cultura estilo
certeza amigos fatiota
tudo fora do seu sítio
um desaparafuso terrível

Segurem-me camaradas
sinto pernas a boiar
cheiro fantasmas enxofre
estou aqui mas posso voar
o parafuso da língua
vai partido vai saltar
agarrem-me! agarra!
pronto
pari o mais leve que o ar

Mário Cesariny

Pintura: Óleo sobre almofada de tecido - Homenagem a Mário Henrique Leiria

quarta-feira, novembro 25, 2009

Três dias de insultos no parlamento

Senão vejam! Todos os dias aqueles ilustres deputados se dizem uns aos outros: É falso! É mentira! E não se esbofeteiam, não se enviam duas balas! Piedosa inocência!

Cordura evangélica! É um parlamento educado por S. Francisco de Sales!

O ilustre deputado mente!

Ah, minto? Pois bem, apelo...

Cuidam que apela para o espalmado da sua mão direita ou para a elasticidade da sua bengala?

- Não, meus caros senhores, apela - para o País!

Quanta elevação cristã num diploma de deputado! Quando um homem leva em pleno peito, diante de duzentas pessoas que ouvem e de mil que lêem, este rude encontrão: É falso! - e diz com uma terna brandura: Pois bem, apelo para o País! - este homem é um santo! Não entrará decerto nunca no Jockey-Club, de onde a mansidão é excluída, mas entrará no reino do Céu, onde a humildade é glorificada.

É uma escola de humildade este parlamento! Nunca em parte nenhuma, como ali, o insulto foi recebido com tão curvada paciência, o desmentido acolhido com tão sentida resignação! Sublime curso de caridade cristã. E veremos os tempos em que um senhor deputado, esbofeteado em pleno e claro Chiado, dirá modestamente ao agressor, mostrando o seu diploma: - «Sou deputado da nação portuguesa! Apelo para o País! Pode continuar a bater!»

E depois que doçura de expressões! Não vimos ainda há pouco o Sr. Ávila designado no meio de uma questão financeira com estas benévolas qualificações - camaleão, sapo, elefante?! Que autoridade no dizer! que elevação no pensar! Como é instrutivo, como é moral, o ver discursos assim concebidos:

- Não aprovo o projecto do ilustre presidente do Conselho, porque entendo na minha consciência, e digo-o à face do País, que S. Exª é uma verdadeira serpente:

- Mando para a mesa a seguinte moção:

A Câmara, compenetrada de que o sr. ministro da Fazenda é uma lontra, passa à ordem do dia!

Depois o modo carinhoso como a Câmara tomou conta da infeliz palavra insulto!

Aquela pobre palavra, tão comprometedora, que nunca aparecia outrora que não fosse o sinal de um duelo ou de uma policia correccional - o parlamento refez-lhe uma virgindade e um decoro, e ela agora vem, e ninguém se revolta, e o Sr. António Aires tem para ela um bom sorriso.

- O ilustre deputado há três dias não faz senão insultar-me (textual). Três dias!

- O ilustre deputado não me insulte!

- Vou responder a esses insultos!

- Menos insultos!

Ai! o mundo despoetiza-se! As coisas terríveis perdem o colorido da lenda.

O Parlamento vive na idade de ouro. Vive nas idades inocentes em que se colocam as lendas do Paraíso - quando o mal ainda não existia, quando Caím era um bom rapaz, quando os tigres passeavam docemente par a par com os cordeiros, quando ninguém tinha tido o cavalheirismo de inventar a palavra calúnia! - e a palavra mente! não atraía a bofetada! crianças riem do papão. O diabo já não é temido. O insulto já não é aviltante! Não é! A Câmara dos Deputados vive há um mês, tendo no seu seio o insulto, em perpétua ordem do dia - e engorda!

Mas o Sr. António Aires, esse, para que continua a dizer com a sua voz eloquente:

- Amanhã continua a mesma discussão?

A escrupulosa verdade - e S. Exª, sacerdote e católico, está adstrito a observar este regimento da consciência - pede que se declare:

- Amanhã continua a mesma assuada.

Assim o público ficava avisado - e os srs. deputados também! Porque nada deve custar mais a um ilustre deputado, que quer zelar os interesses do seu país, do que ver, numa discussão, exausta a sua colecção de injúrias, findos os seus apontamentos de berros!

Não é quem quer doutor em impropérios! E assim, devidamente prevenido, cada deputado podia formar de véspera uma útil e séria lista de argumentos - consultando o dicionário, o seu aguadeiro, a porta da Alfândega e os fadistas da Praça da Figueira.

Eça de Queiroz - in Uma Campanha Alegre

Passam hoje 164 anos sobre o nascimento de Eça de Queiroz e o texto transcrito tem mais de 138 anos. Mas, se fosse vivo, talvez escrevesse algo de muito similar, provavelmente com adjectivos bem mais contundentes considerando a panóplia de meios de comunicação que hoje existe.

terça-feira, novembro 24, 2009

Sesquicentenário


Frontispício da primeira edição em inglês do livro A Origem das Espécies (On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), de Charles Darwin, publicado há 150 anos.
Ecos

Habitando os cafés
e refletindo as manhãs
com restos da noite,
ambientou-se ao não-ser,
traçou a inexistência,
ficou entre parênteses.
Silente e absorto,
refez os becos
de um dia oco e pesado.
Inquieto,
alimentou-se de acasos:
sorveu as praças,
o cinza das chaminés
e amargurou-se com o lamento
pulverizado dos meninos
da grande cidade.
Chorou a salobra
segunda-feira,
feita de vagidos
e tormentos.
Desse modo,
por muito tempo,
passou a repetir
as noites,
nos olhos avulsos
do esquálido cão,
que cismara em perseguir.
Um dia,
ao tentar recompor sua história,
morreu de esquecimento.

Francisco Perna Filho*

*poeta brasileiro que hoje comemora o 46º aniversário

segunda-feira, novembro 23, 2009

Alfabetizado exemplar

O professor Sílvio era o maior educador do norte goiano. Ou pelo menos pensava que era, depois de ter dado aulas em umas oito escolas rurais nos três municípios em que morou.

Com esse cacife todo, resolveu se candidatar a prefeito. Em cada comício, levava alguns alfabetizados por ele para mostrar resultados do seu trabalho. Candidatos de outros partidos gozavam, dizendo que ele ensinava as pessoas a desenhar o nome e as considerava alfabetizadas.

Contestando seus opositores, o professor Sílvio passou a pedir para alguns dos seus alfabetizados que subissem ao palanque, e fazia perguntas relacionadas à maltratada língua-pátria. A cada resposta, a platéia aplaudia e ele vibrava.

– Tão vendo? Tão vendo? Gente alfabetizada pelo professor Sílvio sabe ler e escrever, sim senhor!

Num desses comícios, subiu ao palanque o pernambucano Gregório, que chegou analfabeto ao norte de Goiás, e foi "desasnado" pelo professor Sílvio. Para mostrar que aprendeu mesmo, mandou que perguntasse o que quisessem, e o próprio professor perguntou:

– O que é sílaba?

Gregório nem vacilou. Com um ar de profunda sabedoria, sapecou:

– Sílbala é uma palavra que a gente gaguleja de uma vez só.

Mouzar Benedito

Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

domingo, novembro 22, 2009

Moinho

Todos os dias me suicido,
invento dores e palavras absurdas,
é a fórmula que escolhi para me multiplicar.
Começo quando começa o dia,
estou eu sempre me recomeçando.
Faço assim porque tenho pressa,
pode ser que eu morra
antes do fim do mundo.
Além do mais,
a noite não espera
e guardo muito cuidado com ela porque,
no seu silêncio extremo,
está a perdição que me alimenta.
Percorro os caminhos como um navio,
desses que carregam fantasmas.
Vou repartindo o tempo,
ora estou na luz,
ora no escuro maior.
É assim a contradição que estabeleço
para que ninguém me encontre
nem tampouco imite o meu sofrer.
Escondo,
dentro de mim,
no peito,
um moinho.
No centro dele sou duro como ferro.

Everaldo Moreira Veras*

*poeta brasileiro

sábado, novembro 21, 2009

Política

Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros.

Voltaire

sexta-feira, novembro 20, 2009

Um Visitante

Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

Eunice Arruda*

*poetisa brasileira

quinta-feira, novembro 19, 2009

Desafio















Recebi um desafio da amiga Sofia que consiste em completar as 5 frases seguintes:

Eu já tive...
Eu nunca...
Eu sei...
Eu quero...

Eu sonho...

Eu já tive o objectivo de ajudar a deixar aos vindouros um país melhor do que aquele que me calhou em sorte. Eu sei que não é fácil e, por vezes, tenho vontade de desistir, mas vou continuar a lutar por isso, porque eu nunca desisti facilmente de lutar por algo que considero ser justo. Eu quero manter acesa esta chama pois, tal como o grande Rómulo de Carvalho, eu acredito que o sonho comanda a vida.

E endosso a brincadeira aos seguintes blogistas e a todos os outros que a quiserem continuar:

O Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

quarta-feira, novembro 18, 2009

As três pessoas       

A gramática pode ser útil para a compreensão da condição humana, se a ultrapassarmos, se soubermos pensar para além das suas regras e classificações, tornando-a inspiradora.  


Quando conjugamos os verbos, conjugamos de acordo com alguns parâmetros. Um deles são as pessoas. A primeira pessoa do singular, a primeira do plural, e a segunda do singular e a do plural, e a terceira do singular e a do plural. 


Viajar na terceira pessoa - ele viajou, eles viajaram, eles conheceram Fortaleza, Paris, Cairo, Roma, Tóquio, eles deram a volta ao mundo. Tais viagens estão distantes de mim, distantes de nós. Podemos ler os relatos, imaginar como foi ou deixou de ser, pouco mais do que isso.  


Viajar na segunda pessoa do singular - tu viajaste, você viajava - inclui o diálogo, as perguntas, os detalhes, as curiosidades, o olho no olho, em que vejo a sua viagem, em que vejo indiretamente o que você viu, o que você viveu em outras paragens.  


Viajar em primeira pessoa - eu viajei, nós viajamos - tocar com os próprios pés outros chãos da mesma terra, ouvir com os próprios ouvidos outros idiomas, outras músicas, cheirar cheiros diferentes com o próprio nariz, este delicado órgão do conhecimento.  


Aprender na terceira pessoa. É belo ver os outros aprendendo, renomados cientistas, sábios de cabelos brancos e olhos serenos, admiráveis pesquisadores.  


Aprender na segunda pessoa pressupõe a relação, conduz ao encontro. Se você aprendeu, talvez eu possa aprender com você. Ou eu mesmo lhe ensinei algo sem saber. Quem sabe aprender aprende de tudo.  


Aprender em primeira pessoa, prazer pessoal, insubstituível. Quando aprendo, eu não me arrependo, e me prendo a novas liberdades, desencadeio cadeados, destravo a alma, desprendo-me de mim mesmo.  


Amar na terceira pessoa - ele ama, eles amaram, eles se amam. Este amor de telenovela, romance de outros personagens, histórias com final feliz ou trágico, amor dos outros, dicionário amoroso que posso apenas consultar.  


Amar na segunda pessoa, amar o outro, amar-te aqui e agora, ou na China, ou em Marte. Amar-te até morrer. Amar-te com engenho e arte.  


Amar na segunda pessoa já é amar em primeira pessoa. Amar no presente, no passado, no futuro. Amar imperativo. Amar em cada artigo. Amar em vocativo. Amar o amor em sua própria morfologia. Amar substantivamente. Amar embora, contudo, quando, porque...  


Amar, enfim, com toda a riqueza das conjunções.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, novembro 16, 2009

A Torpe Sociedade onde Nasci

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
- De ser vítima humilde ou ser algoz...

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom - como não é!

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...

António Aleixo, in Este Livro que Vos Deixo...
Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago, in Os Poemas Possíveis

Feliz aniversário, José!

domingo, novembro 15, 2009

Matar e corromper









Blackwater é um nome sinistro para uma empresa ainda mais sinistra que se dedica a alugar ( principalmente ao Pentágono) mercenários pagos a peso de ouro para matar tudo o que mexe quando não cai lá muito bem que os assassinatos de civis inocentes sejam assacados às forças de guerra regulares.

Menina dos olhos de Bush, Cheney e Rumsfeld, desde 2004 arrecadou uma pequena maquia superior a mil e quinhentos milhões de dólares para proteger diplomatas estado-unidenses e providenciar-lhes transporte aéreo dentro do Iraque. Outras estipêndios insignificantes terão sido recebidos para operações menos prosaicas, como o assassinato a sangue frio de 17 civis em Bagdade, corria o ano de 2007.

Não admira, portanto, que para fazer face às críticas que a chacina provocou dentro dos burocratas iraquianos a soldo do império, o então presidente da empresa, Gary Jackson, tenha decidido autorizar, em Dezembro de 2007, o pagamento de subornos de um milhão de dólares, para que o governo fantoche não levantasse obstáculos à actuação dos seus meninos de coro em território iraquiano.

sábado, novembro 14, 2009

Lavoura Gramatical

Vivo de plantar artigos indefinidos
em frases substantivadas;
suor adverbial, monossilábico sol.

Enxadas verbais mondam palavras,
grãos sintáticos coloram o dia
desta lavra infame.

Ervas metafóricas crescem vorazes
sobre a colheita superlativa.
Hipérboles regam os grelos

desta plantação morfológica.
Eitos absolutos, parônimo canto;
Imensa lavoura gramatical.

Enzo Carlo Barrocco*

*poeta brasileiro

sexta-feira, novembro 13, 2009

Homicida? E os outros?


Este homem com algemas a fazer o gesto de vitória chama-se Yaakov Teitel e é um israelita fundamentalista religioso, sionista e colono na Cisjordânia, que foi acusado, num tribunal de Jerusalém, de homicídio, tentativa de homicídio, fabrico ilegal de armas e incitação à violência.

É difícil entender estas acusações. Num país pária, ilegal, anti-semita e racista, onde a violência, o desrespeito pelos direitos humanos e os assassínios em massa de civis são a norma, em que os dirigentes, avalizados pelo chamado ocidente, não passam de criminosos e onde são produzidas ilegalmente centenas de ogivas nucleares, passou a ser crime matar palestinos a sangue frio? Afinal, o acusado não é, supostamente, dos “nossos” (salvo seja) e os seus alvos não são, também supostamente, dos “deles”? E o Deus dele, que alegadamente estará muito satisfeito, não é o mesmo Deus do Bush, do Blair, do Barroso, do Aznar, do Obama, da Clinton e de outros que tais? E não foi ensinado, desde a mais tenra idade, a ter um ódio de morte a tudo o que é palestino? Ou a acusação é só para atirar mais poeira para os olhos dos incautos?

quarta-feira, novembro 11, 2009

O mosto e as castanhas mal assadas

Pelo S. Martinho, todo o mosto é bom vinho. Este adágio, um entre as várias dezenas que existem sobre o São Martinho, significa que pelo dia 11 de Novembro se espera que tenha passado o tempo e vindo o frio suficientes para “curtir” o mosto e transformá-lo em vinho.

O que muitas alminhas desconhecem é que beber mosto como quem bebe vinho provoca fortes desarranjos intestinais que fazem os incautos andarem a correr para as casas de banho dias a fio.

Por outro lado, fazer um bom magusto requer sabedoria, pois as castanhas têm de ser mexidas e remexidas com perícia de forma a assarem uniformemente por todos os lados.

Pois parece que os mais altos mandatários da justiça cá do burgo desconheciam estas realidades comezinhas, pois apressaram-se a retirar as castanhas do lume mal a face visível tinha aspecto de assada e atiraram-se ao mosto como borracho ao garrafão. Como resultado, não conseguem descascar a face oculta das castanhas e foram atacados por uma diarreia mental que já dura há vários dias. Com a agravante de as casas de banho se situarem nas redacções dos jornais e nos estúdios das televisões.

terça-feira, novembro 10, 2009

Cogito

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranqüilamente
Todas as horas do fim

Torquato Neto

segunda-feira, novembro 09, 2009

Aqui Está minha Vida

Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles

domingo, novembro 08, 2009

Poema

Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.

Emílio Moura*

*poeta mineiro

sábado, novembro 07, 2009

Alto Alentejo, esse desconhecido













Ver, nas páginas do jornal mais reputado do mundo, a terra de alguém que nos é próximo é algo de incomum, mas foi o que aconteceu por estes dias ao deparar-me com um enorme fotografia de Marvão, vila onde nasceu a minha sogra e na qual a minha mulher passou as férias da sua infância e adolescência, na secção de Viagens do The New York Times, com direitos de chamada à primeira página.

Pela pena do jornalista Robert Goff são desvendados alguns dos segredos do Alto Alentejo, de Marvão a Estremoz, passando por Campo Maior, Alandroal, Crato, Elvas e Évora.

Pena que nem todos os portugueses possam desfrutar da calma das pousadas Flor da Rosa ou Rainha Santa Isabel (eu conheço as duas, mas fui convidado) e dos sabores do restaurante Maria ou São Rosas (neste foi à minha conta).

Fotografia: João Pedro Marnoto para The New York Times

sexta-feira, novembro 06, 2009

Como uma flor vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, novembro 05, 2009

Ninguém

Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.

No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.

O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.

Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?

Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?

Emílio Burlamaqui*

*poeta brasileiro

quarta-feira, novembro 04, 2009

Sábio

O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas.

Claude Lévi-Strauss

O país de uma nota só Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos. nada de nada. Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja, e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados. Algo por onde possa filtrar o pensamento, a ideia que puseram no cárcere. A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu, a carne sumiu, o IPM prendeu, o DOPS torturou, o deputado cedeu, a linha dura vetou, a censura proibiu, o governo entregou, o desemprego cresceu, a carestia aumentou, o Nordeste encolheu, o país resvalou. Tudo dó, tudo dó, tudo dó... E em todo o país repercute o tom de uma nota só... de uma nota só... Carlos Marighella* *poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.

terça-feira, novembro 03, 2009

A Ambição Superada Certo dia uma rica senhora viu, num antiquário, uma cadeira que era uma beleza. Negra, feita de mogno e cedro, custava uma fortuna. Era, porém, tão bela, que a mulher não titubeou - entrou, pagou, levou para casa. A cadeira era tão bonita que os outros móveis, antes tão lindos, começaram a parecer insuportáveis à simpática senhora. (Era simpática). Ela então resolveu vender todos os móveis e comprar outros que pudessem se equiparar à maravilhosa cadeira. E vendeu-os e comprou outros. Mas, então a casa que antes parecia tão bonita, ficou tão bem mobilada que se estabeleceu uma desarmonia flagrante entre casa e móveis. E a senhora começou a achar a casa horrível. E vendeu a casa e comprou uma outra maravilhosa. Mas dentro daquela casa magnífica, mobilada de maneira esplendorosa, a mulher começou, pouco a pouco, a achar seu marido mesquinho. E trocou de marido. Mas mesmo assim não conseguia ser feliz. Pois naquela casa magnífica, com aqueles móveis admiráveis e aquele marido fabuloso, todo mundo começou a achá-la extremamente vulgar. Millôr Fernandes

segunda-feira, novembro 02, 2009

Didática Sobre a Morte
Tudo o que resta, o tempo para a morte que por isso é o espaço ancestral. Todo o tempo que resta - e é para a morte esse que nos falta em esperança. E assim nos restando a morte espera o que somos e em nós se desperdiça. Guardamos os guardados - e a vida. (E a morte nos toma o que guardamos.) Privamos da alegria, em sacrifício, o que vamos dedicar depois à morte em nosso campo de avaros a esse tempo subtraído depois ao desperdício que poderia ser vida se estivéssemos na vida mais lentos para a morte. Álvaro Pacheco* *poeta carioca

domingo, novembro 01, 2009

Visita Fincado nos píncaros majestoso enigma espreita, de perfil Memórias de cordilheiras em meio à ubíqua neurose Incorruptível no secular vício da carniça observa o ciclo da caça Ruídos esganiçados não te assustam Parabólicas captam todas as aparências Excluído do olhar humano Impassível urubu urbano Elizabeth Lorenzotti* *poetisa paulista

sábado, outubro 31, 2009

O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, outubro 30, 2009

Conselhos médicos.... O doutor, depois de ver a história clínica do paciente, pergunta: - Fuma? - Pouco. - Deve deixar. - Bebe? - Pouco. - Deve deixar. - Pratica desporto? - Não. - Pois deveria. - Sexo? - Muito pouco. - Pois deveria fazer muito. Ele vai para casa, conta à sua mulher o que o médico lhe disse e, imediatamente, vai tomar um banho. A mulher, esperançada, enfeita-se, perfuma-se, põe seu melhor baby-doll e fica à espera. Ele sai do banho, começa a vestir-se, a perfumar-se e a mulher, ciosa, pergunta-lhe: - Aonde vais? - Não ouviste o que o médico me disse? - Sim, mas aqui estou eu prontinha para ti. Então ele diz-lhe, cheio de paciência: - Ah, Francisca, lá vens tu de novo com a mania dos remédios caseiros!

quinta-feira, outubro 29, 2009

Braço de Mar O mar é sempre maior e o luar lhe faz a corte não há medida do homem entre a praia e o horizonte O mar já veio antes da onda inventar o tempo É ele quem trai o porto e ascende o pavio da bomba que puxa a noite do poço e corta os pulsos da sombra E mesmo no sol, o mar transa seu jogo de conveniências suas algas postas de molho sua escultura sem cabeça O mar é sempre começo

Nei Duclós

quarta-feira, outubro 28, 2009

Enigma

entre o som o sono o sonho a sombra e a sobra eu me decomponho em escombros em farpas e agulhas escarpas e fagulhas desfeito enfim em fogos de artifício feito estrelas de mim esfinge autoantropofágica que não se decifrou e que a si mesma se devorou Elmar Carvalho* *poeta brasileiro

terça-feira, outubro 27, 2009

Auto-retrato aos 56 anos Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas Casado duas vezes, tem sete filhos Altura 1,75. Sapato nº 41. Colarinho nº 39. Prefere não andar Não gosta de vizinhos Detesta rádio, telefone e campainhas Tem horror às pessoas que falam alto Usa óculos. Meio calvo. Não tem preferência por nenhuma comida Não gosta de frutas nem de doces Indiferente à música Sua leitura predileta: a Bíblia Escreveu “ Caetés” com 34 anos de idade Não dá preferência a nenhum de seus livros publicados Gosta de beber aguardente É ateu. Indiferente à academia Odeia a burguesia. Adora crianças Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antonio de Almeida, Machado de Assis Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz Gosta de palavrões escritos e falados Deseja a morte do capitalismo Escreveu seus livros pela manhã Fuma cigarros “ Selma” (três maços por dia) É inspetor de ensino, trabalha no “ Correio da Manhã” Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo Só tem cinco ternos de roupa, estragados Refaz seus romances várias vezes Esteve preso duas vezes É-lhe indiferente estar preso ou solto Escreve à mão Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano José Lins do Rego e José Olympio Tem poucas dívidas Quando prefeito de uma cidade do interior, Soltava os presos para construírem estradas Espera morrer com 57 anos.

Graciliano Ramos

segunda-feira, outubro 26, 2009

Dinossauro Excelentíssimo

No gabinete, entre o discurso e a caça às palavras é que o Dinossauro cumpria o seu reinado. Escrevia e vigiava, à sombra do retrato oficial que tinha em cima da secretária e sempre guiado pela sua voz dentro dele. Mas se abrisse a porta podia continuar a ouvir-se, desdobrado pelos altifalantes que havia nos corredores a na sala ao lado onde estava a estátua que era ele mesmo em corpo histórico.

Havia um frio de eternidade naquela teia de circuitos, uma aragem de zumbidos metálicos, e o Dinossauro, atrás da secretária dourada, sua varanda, suas patas leoninas, parecia um sonâmbulo pousado num sonho desértico. Não dormia há séculos, dizia-se dele; outros garantiam: repousa vivo à margem da morte, que é a linha de onde se vê mais claro. De quando em quando as nervuras da teia estremeciam, suspendendo uma gota metálica: TINHA CAÍDO UMA PALAVRA.

José Cardoso Pires, excerto de Dinossauro Excelentíssimo.

domingo, outubro 25, 2009

Duas velas

Levo o infortúnio de não ter - como os relógios - horas eternas... Nem a felicidade que têm os faróis de ficar à deriva, indefinidamente... Sou uma Embarcação - atracada - querendo voar com as gaivotas. Elíude Viana* *poetisa brasileira

sábado, outubro 24, 2009

Sem papas na língua

A comunidade internacional está a perder dinheiro e a derramar o seu sangue no Afeganistão para apoiar um governo de criminosos corruptos e misóginos, de acordo com os interesses dos Estados Unidos.

Malalai Joya

Malalai Joya é uma mulher de armas e já foi considerada a mulher mais corajosa do Afeganistão. Refugiada desde os 4 anos de idade em campos do Irão e do Paquistão, regressou ao seu país com 20 anos, sob o regime dos talibãs.

Em 2003, com 25 anos de idade, foi eleita para o Loya Jirga, convocado para ratificar a Constituição do Afeganistão. Em 2005 foi eleita Membro do Parlamento, do qual foi suspensa 2 anos depois com o argumento de que tinha insultado alguns dos seus pares num programa de televisão. Apoiada por intelectuais e parlamentares de todo o mundo, apelou da sua suspensão (o processo ainda segue os seus trâmites), ao mesmo tempo que discursava nos mais diversos locais (incluindo o Parlamento Europeu).

Esta semana deslocou-se a Madrid para receber o prémio o prémio Juan Maria Brandés para a Defesa do Direito de Asilo e Solidariedade com os Refugiados, tendo dado uma entrevista ao jornal Publico (o espanhol, que o de cá não liga a essas coisas), cuja leitura recomendo a quem quiser entender de que lado estão e o que pensam sobre a intervenção da NATO as verdadeiras forças democráticas do Afeganistão. A propósito: o que andam os nossos a fazer por lá?

sexta-feira, outubro 23, 2009

As malhas que o império tece Logo após o ataque terrorista de Pishin, no sudeste do Irão, que matou 42 pessoas, entre as quais 6 altas patentes da Guarda Revolucionária, o Irão acusou a Inglaterra, os Estados Unidos e o Paquistão de darem apoio aos bombistas, acusações essas que se intensificaram depois de a autoria do atentado ter sido reivindicada pela Movimento de Resistência do Povo Iraniano, mais conhecido por Jundallah. Claro que as acusações do Irão foram logo catalogadas pelos média de referência como paranóicas, mas o circunspecto e conservador Times diz que as mesmas podem não ser tão imaginárias como parecem e chama a atenção para um extenso artigo do reputado jornalista estado-unidense Seymor M. Hersh, publicado em 7 de Julho de 2008 no The New Yorker, o magazine da intelectualidade nova-iorquina. Vale a pena ler artigo preparando o campo de batalha para se perceber como, enquanto o candidato democrata prometia o diálogo, os líderes da maioria democrata se mancomunavam com Bush para financiar a desestabilização do Irão e de outros países do Médio Oriente. Afinal, quem é quem no apoio ao terrorismo internacional?

quinta-feira, outubro 22, 2009

Paisagem Na atmosfera violeta A madrugada desbota Uma pirâmide quebra o horizonte Torres espirram do chão ainda escuro Pontes trazem nos pulsos rios bramindo Entre fogos Tudo novo se desencapotando. Oswald de Andrade
Patacoadas Anda por aí um certo senhor, que dirige os destinos da CIP e já esgotou o seu prazo de validade há muito, a dizer cada vez mais palermices. Primeiro, aconselhou o partido mais votado nas legislativas sobre com quem devia e não devia fazer acordos; mais recentemente, veio clamar que devia haver congelamento do salário mínimo (e, por arrastamento, de todos os salários) para 2010 já que, sem inflação, os sindicatos não têm quaisquer bases para reivindicar aumentos salariais; depois, veio pedir um abaixamento dos impostos, esquecendo-se de dizer que queria a eliminação dos escalões mais elevados do IRS e a redução das contribuições das empresas para a Segurança Social; proximamente, virá, certamente, exigir que o tempo gasto pelos trabalhadores para irem à casa de banho seja compensado pelo quíntuplo em trabalho adicional gratuito, a fim de os empresários fazerem face aos custos do papel higiénico (onde o há), da água, da luz e da limpeza (quando é feita). Parece-me que o senhor van Zeller é capaz de ter alguma razão, considerando que em Portugal os pobres estão muito bem quando comparados com os ricos. Pelo menos é isso que diz o relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas recentemente divulgado, que classificou as economias avançadas com base no Coeficiente de Gini, o qual determina o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, significando zero uma absoluta igualdade e 100 uma desigualdade absoluta. Como era expectável, os países escandinavos estão no fundo da tabela, acompanhados do Japão e da República Checa (por enquanto). Portugal ocupa um honroso quinto lugar, apenas atrás de Hong Kong, Singapura, Estado Unidos e Israel, e à frente da Nova Zelândia, Itália, Grã-Bretanha, Austrália, Irlanda e Grécia, para só falar dos 10 mais desiguais (onde não aparecem o Canadá, a França, a Holanda, a Bélgica, a Suíça, a Espanha e o Luxemburgo). Ah grande van Zeller! Vá-se aos malandros dos trabalhadores que ainda chega vivo ao primeiro lugar! Além de que terá uma virgem à sua espera no paraíso por cada trabalhador ou pensionista pobre que por cá deixar. Com o seu ar, não sei o que irá fazer com mais de dois milhões de virgens, mas isso será problema seu.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Soneto das nuvens e da brisa Os pássaros nostálgicos... Errantes mágicos do crepúsculo, soprando das longas asas trêmulas o brando vento da tarde; e logo, em céus cambiantes, alvos blocos de pluma vão distantes e efêmeras imagens modelando: sereias e hipocampos, entre o bando de carneiros, e rosas, e elefantes, cães e estrelas, dragões, ou aguçadas torres, na superfície roseoviva por onde voga, acesa, a caravela e as longas asas captam, retesadas, a poesia da tarde, fugitiva, mas eterna no instante em que foi bela. Waldemar Lopes* *poeta pernambucano

terça-feira, outubro 20, 2009

Laboratório O cego insone ouve o ressoar do rio sob o silêncio dos ventos e inventa um verso invisível. O aleijado viaja além de terras e mares e diante da via láctea acolhe a estrela cadente que o incandesce. O matemático enfrenta o indecifrável teorema e descobre a chave do poema. O poeta lapida silêncios em chamas e ao provocar a fissão de uma voz unitonal faz explodir a flor da palavra e desvenda o enigma. Mas a razão, volátil e fugaz, volta ao estado de pedra. O homem das cavernas retoma a busca da fórmula perdida. Alexandre Marino* *poeta mineiro

segunda-feira, outubro 19, 2009

O rio Uma gota de chuva A mais, e o ventre grávido Estremeceu, da terra. Através de antigos Sedimentos, rochas Ignoradas, ouro Carvão, ferro e mármore Um fio cristalino Distante milênios Partiu fragilmente Sequioso de espaço Em busca de luz. Um rio nasceu. Vinicius de Moraes

domingo, outubro 18, 2009

Os aleijados às avessas Guiado por uma de suas geniais intuições, Nietzsche escreveu sobre os aleijados às avessas. Aleijados que têm em demasia algum órgão do corpo. Por exemplo, alguém que fosse uma orelha, uma grande e dominante orelha. Esse homem que fosse apêndice de sua própria e imensa orelha, esse homem ouviria demais, preocupado demais com o que se diz. Teria informações auditivas em excesso. Seria vítima de sua maravilhosa audição. Um homem que não passasse de uma grande boca seria outro tipo de aleijado às avessas. Sua capacidade de abocanhar e mastigar lhe traria imensos sofrimentos. Boca por excelência, esse homem passaria o dia engolindo a tudo e a todos. Sua capacidade devoradora seria sua ruína. Pior do que a fome recorrente é o desejo insaciável, por mais que alguém possa consumir. Outro aleijado às avessas: o homem-olho. Aquele olho observador, atentíssimo, absorvendo mais imagens do que a mente humana possa concatenar e compreender. Quanta dor essa visão abrangente ofereceria ao homem-olho! Quantos motivos de medo! E o homem-nariz, então?! Quantos cheiros e aromas perseguiriam essa pobre criatura, "abençoada" pela tremenda capacidade de possuir, ou melhor, de ser nariz. E sendo nariz poderoso, tal homem padeceria horrivelmente. Porque seria, sobretudo, nariz, saberia que nenhuma flor é flor que se cheire, que todo perfume esconde fedor, que todo fedor prenuncia a dor. Todos somos propensos a desenvolver algum tipo de deformação às avessas, hipertrofiando algo de nós, transformando-nos em seres superdotados em um único aspecto, limitados pelo fato de ultrapassarmos os limites. Posso me tornar um homem-mão. E essa tamanha habilidade para pegar, fazer, manipular... será motivo diário para um cansaço indescritível. Ou posso me tornar homem-pescoço, homem-joelho, homem-ventre, homem-ombro - e em todas essas situações, e em todas as demais possibilidades que nos ocorra imaginar, serei prisioneiro de uma melhoria localizada, de uma perfeição fragmentada, de um tudo que é nada. O aleijado às avessas tem, na sua força, a sua fraqueza. Tem, na sua especial competência, a sua maior incompetência. Podemos ir mais longe. O homem-cartão-de-crédito, cujo poder de compra é sua infinita pobreza. O homem-eloqüência, fadado a falar, falar, falar... e falir. O homem-pontualidade... alvo fácil para a morte. O homem-sorte, sem motivos para lutar, sem fracassos a superar. O homem-texto, que escreve mais do que vive, e não adquiriu a sabedoria de colocar o ponto final. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, outubro 17, 2009

Mediadora da Palavra Um rumor irrompe das nocturnas margens. Sombras deslumbrantes. Um fulgor que desnuda e que despoja. Campo de água ágil. Dança Imóvel. Uma cegueira arde Incendiando o tempo. Pátria áspera de delicado alento. Soberano marulhar do inexplorável. Unânime é a pedra. Selvagem a palavra despedaça a língua. Um silêncio central domina e orienta A substancia primária. A palavra inicia. Rapidez da água entre resíduos obscuros. Talvez o diadema. Talvez a obscura dança aérea. O leve poder do fogo, as suas marcas ácidas. Pulsação dos poros. Ardor do silêncio no nocturno centro. Fulgor do desejo. Uma deusa de água espraia-se nas palavras. António Ramos Rosa (no dia do 85º aniversário)

sexta-feira, outubro 16, 2009

Em pratos limpos Em uma matéria exibida no programa Saia Justa (GNT/Globo), a atriz Maitê Proença cometeu uma série de grosserias contra os portugueses. Para o colunista Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, seria algo normal, fruto do preconceito que brasileiros e portugueses sentem uns dos outros. A atriz não expressou, na verdade, um preconceito que nasceu não se sabe de onde, mas sim vários conceitos alimentados pela mídia brasileira. Um processo de permanente negação das origens, de desprezo pelo nosso passado, que sempre quis nos ensinar a odiar ter sido colônia de Portugal e não da Inglaterra. Vale a pena ler o artigo de Rogério Mattos Costa, em que o jornalista desmistifica os preconceitos anti-portugueses da maioria da imprensa brasileira. A própria palavra utilizada para designar os meios de comunicação social (mídia) é um exemplo acabado daquilo que ele afirma. Com efeito, a palavra que empregamos em Portugal para designar o conjunto dos meios de comunicação social é média (os meios), palavra oriunda do latim por via erudita, já que media é o plural de medium (o meio). Os ingleses adoptaram o termo latino, pronunciando-o à sua maneira e os jornalistas brasileiros, por sua vez, culturalmente colonizados pelo grande irmão do norte, importaram a palavra tal como soa (mídia). É por estas, por outras e por muitas mais que eu sou visceralmente contra o (des)acordo ortográfico. Pela minha experiência de um mês por aquelas bandas e pelo testemunho de familiares próximos que por lá andam há bem mais de 50 anos, a imensa maioria do povo brasileiro não vê os portugueses com os olhos dos média de referência daquele imenso país, bem pelo contrário.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Antes que Seja Tarde Amigo, tu que choras uma angústia qualquer e falas de coisas mansas como o luar e paradas como as águas de um lago adormecido, acorda! Deixa de vez as margens do regato solitário onde te miras como se fosses a tua namorada. Abandona o jardim sem flores desse país inventado onde tu és o único habitante. Deixa os desejos sem rumo de barco ao deus-dará e esse ar de renúncia às coisas do mundo. Acorda, amigo, liberta-te dessa paz podre de milagre que existe apenas na tua imaginação. Abre os olhos e olha, abre os braços e luta! Amigo, antes da morte vir nasce de vez para a vida. Manuel da Fonseca

quarta-feira, outubro 14, 2009

Pilotos e cupões de comida Onde se fala de pilotos de carreiras comerciais dos Estados Unidos que levam para casa 405 dólares por semana e têm de arranjar um segundo emprego como professores substitutos ou empregados de café e de colegas seus que recebem tão pouco que se conseguem qualificar para o Programa de Cupões de Comida que o governo federal estabeleceu para prestar assistência a famílias de baixos recursos. Se os pilotos da nossa companhia aérea de bandeira divulgassem as suas declarações de IRS juntamente com os pré-avisos de greve, os cidadãos contribuintes que pagam a factura podiam ficar a saber a quem pedir contas. Ou talvez não...

terça-feira, outubro 13, 2009

Noite morta Noite morta. Junto ao poste de iluminação Os sapos engolem mosquitos. Ninguém passa na estrada. Nem um bêbado. No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras. Sombras de todos os que passaram. Os que ainda vivem e os que já morreram. O córrego chora. A voz da noite . . . (Não desta noite, mas de outra maior.) Manuel Bandeira

segunda-feira, outubro 12, 2009

Fim de Jornada Caminhar ao encontro da noite. Como o camponês regressa ao lar. Após um longo dia de verão. Sem pressa ou cuidado. Na tarde ouro e cinza. Sozinho entre os campos lavrados. E as colinas distantes. Caminhar, ao encontro da noite. Sem pressa ou cuidado. A noite é somente uma pausa de sombra. Entre um dia e outro dia. Helena Kolody* *poetisa brasileira

domingo, outubro 11, 2009

A Força da Ignorância Por que causa a ignorância nos mantém agarrados com tanta força? Primeiro, porque não a repelimos com suficiente energia nem usamos todas as nossas forças para nos libertarmos dela; depois, porque não confiamos o bastante nas lições dos sábios nem as interiorizamos como devíamos, antes tratamos uma tão magna questão de forma leviana. Como pode alguém, aliás, aprender suficientemente a lutar contra os vícios se apenas dedica a esse estudo o tempo que os vícios lhe deixam livre?... Nenhum de nós aprofunda bastante esta matéria; abordamos o assunto pela rama e, como gente extremamente ocupada, achamos que dedicar umas horas à filosofia é mais do que suficiente. E o que mais nos prejudica é a facilidade com que o nosso amor próprio se satisfaz. Se encontramos alguém que nos ache homens de bem, homens esclarecidos e irrepreensíveis, logo nos mostramos de acordo! Nem sequer nos contentamos com louvores comedidos: tudo quanto a adulação despudoradamente nos atribui, nós o assumimos como de pleno direito. Se alguém nos declara os melhores e mais sábios do mundo, nós assentimos, mesmo quando sabemos que esse alguém é useiro e vezeiro na mentira! A nossa auto-complacência vai mesmo tão longe que pretendemos ser louvados em nome de princípios que as nossas acções frontalmente desmentem. A consequência é que ninguém mostra vontade de corrigir o seu carácter, pois cada um se considera a melhor pessoa deste mundo... Séneca, in Cartas a Lucílio

sábado, outubro 10, 2009

Cântico negro "Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí! José Régio

sexta-feira, outubro 09, 2009

Che Guevara por ele próprio
1. "Prefiro morrer de pé a viver de joelhos." 2. "Sejamos realistas e façamos o impossível." 3. "Poderão morrer as pessoas, mas nunca as suas ideias." 4. "Lembrem-se de que o grau mais elevado que pode alcançar a espécie humana é ser revolucionário." 5. "Todos os dias as pessoas arranjam o cabelo; por que não o coração?" 6. "A revolução é algo que se leva na alma, não na boca para viver dela." 7. "Se o presente é de luta, o futuro é nosso." 8. "Sede capazes de sentir, no mais fundo, qualquer injustiça feita contra qualquer um, em qualquer parte do mundo. È a qualidade mais bonita do revolucionário."
Che Guevara Contra ti se ergue a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas A indecisão dos complicados e o primarismo Daqueles que confundem revolução com desforra. De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas Porém Em frente do teu rosto Medita o adolescente à noite no seu quarto Quando procura emergir de um mundo que apodrece. Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, outubro 08, 2009

Golpistas e falcões Enquanto, no seu país, 7 milhões de hondurenhos lutam e morrem, sob a bota dos golpistas, pelo regresso do país à normalidade democrática, falcões saudosos da guerra fria traficam - a peso de ouro – influências em Washington para redireccionar a posição inicial da administração Obama, alegadamente apoiados na sombra pela Secretária de Estado. Cartoon: Umpierrez

quarta-feira, outubro 07, 2009

(dis) Semelhanças Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros George Orwell, em “O triunfo dos porcos” – 1945 – 7º mandamento modificado do Napoleão A lei é igual para todos, mas nem sempre o é na sua aplicação Niccolo Ghedini, advogado de Berlusconi, perante o Tribunal Constitucional - 6/10/2009 Ele (Beslusconi) não é mais “primeiro entre iguais”, mas tem de ser considerado “primeiro acima dos iguais” Gaetano Pecorella, idem

terça-feira, outubro 06, 2009

Diálogo filtramos o cansaço em palavras, o sono cai gota-a-gota, a noite escorrega em luz: eu e o poema, num diálogo de equívocos. Elias Paz e Silva* Poeta brasileiro

segunda-feira, outubro 05, 2009

Dança Aflita Dançamos nós A dança dos casais A dança de animais Lagos de vinho Cio Dançamos mais A dança dos aflitos A dança dos malditos Poças de sangue Sina Rodopiei Na dança dos vampiros Até cair exangue Fado Destino Frio Eliane Stoducto* *poetisa carioca

domingo, outubro 04, 2009

Plenitude Deixem-me ser como aquele rio: Nunca o mesmo rio a cada segundo E, ainda assim, água Como todas as águas De todos os rios - É sabedoria pura sua essência intacta Deixem-me ser como os seixos Que rolam em seu leito Com suas formas perfeitas - Mistério guardado No silêncio profundo do tempo Deixem-me ser como as árvores Em suas margens Cujas folhas fingem cair e renascer De tempos em tempos Deixem-me ser como os pássaros Deste cenário Que não precisam disputar o azul do céu Para serem livres Também sou essa paisagem Sei que sou feita de água, pedra, Árvore e pássaro Também eles são feitos de mim Somos todos a página de um mesmo livro No mistério inexplicável do tempo. Eliana Teixeira* *poetisa paulista

sexta-feira, outubro 02, 2009

Disfarces A busca incessante dessa perfeição mutante nada mais importa. A porta é sempre (entre)aberta e quase atinge o céu para aqueles que (ar)riscam o papel. A angústia, filha primogênita da dúvida, é um dos disfarces da busca. Eduardo Pragmácio* *poeta brasileiro

quinta-feira, outubro 01, 2009

Cegueira de Olhos Abertos A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas: e tal era a dos Escribas e Fariseus. Homens com os olhos abertos e cegos. Com olhos abertos, porque, como letrados, liam as Escrituras e entendiam os Profetas; e cegos, porque vendo cumpridas as profecias, não viam nem conheciam o profetizado. (...) Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira ou, falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda, e da terceira espécie. A primeira é de cegos, que vêem e não vêem juntamente; a segunda de cegos que vêem uma coisa por outra; a terceira de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vêem.

Padre António Vieira, in "Sermões”

Quem quiser verificar a perfeita actualidade do Padre António Vieira, pode passar os olhos pela inqualificável arenga - inqualificável porque, nem todos juntos, os termos canalha, nojenta, ajavardada, nauseabunda, repugnante, torpe, merdilheira, conspurcante, infecta, engulhosa, asquerosa e merdosa conseguiriam catalogar genuinamente aquela prosa - de VGM publicado ontem no Diário de Notícias. Mas é conveniente estar de estômago vazio, pois a náusea vai ser extrema, pelo menos para 70,1% dos portugueses. O mau perder, o desespero anti-democrático e a baixa linguagem atingem as raias da insanidade. Desengane-se quem pensava que o nível político já tinha batido no fundo. Como é possível, mais de 40 anos depois, um tal bolor salazarento?