How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
segunda-feira, novembro 24, 2008
Poema do futuro
Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.
No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.
Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.
António Gedeão
domingo, novembro 23, 2008
Não me leia assim
Não me leia com a pestana que eu não sou Mario Quintana.
Não me leia de joelhos que eu não sou Paulo Coelho.
Não me leia ensimesmado que eu não sou o Saramago.
Não me leia com teimosice que eu não sou Clarice.
Não me leia a fuzilar que eu não sou Ferreira Gular.
Não me leia como duende que eu não sou Murilo Mendes.
Não me leia de cima que eu não sou Jorge de Lima.
Não me leia com aspereza que eu não sou Cristóvão Tezza.
Não me leia de retrós que eu não sou Amós Oz.
Não me leia acurado que eu não sou Adélia Prado.
Não me leia do abacateiro que eu não sou João Ubaldo Ribeiro.
Não me leia com cara de sueco que eu não sou Umberto Eco.
Não me leia na biblioteca que eu não sou Rubem Fonseca.
Não me leia como rabino que eu não sou Fernando Sabino.
Não me leia respondão que eu não sou Ignácio de Loyola Brandão.
Não me leia furioso, ou furiosa, que eu não sou Guimarães Rosa.
Não me leia fumando cigarro que eu não sou Manoel de Barros.
Não me leia na cadeira que eu não sou Manuel Bandeira.
Não me leia na separata que eu não sou o Mario Prata.
Não me leia na Bahia que eu não sou Moacyr Scliar.
Não me leia em Praga que eu não sou Rubem Braga.
Não me leia na gráfica que eu não sou Kafka.
Não me leia com ares de estudo que eu não sou Câmara Cascudo.
Não me leia em celibato que eu não sou Monteiro Lobato.
Não me leia fazendo pose que eu não sou Alfredo Bosi.
Não me leia a arquejar que eu não sou Fabrício Carpinejar.
Não me leia tão quieto que eu não sou João Cabral de Melo Neto.
Não me leia bebendo uísque que eu não sou Paulo Leminski.
Não me leia mais... que eu não sou Vinicius de Moraes.
Não me leia como se eu não fosse eu... ou Casimiro de Abreu.
Não me leia agora que eu já vou embora.
Não me leia rindo que eu já estou indo.
Não me leia correndo que eu não sou referendo.
Não me leia pedindo justiça que eu não sou dobradiça.
Não me leia hoje antes que eu fuja.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
sábado, novembro 22, 2008
sexta-feira, novembro 21, 2008
“Basta!”
“Seven years of waiting for our legal system to give them an answer to their legal question is enough”.
Foi com as palavras acima citadas, que não constam da sentença “oficial”, que o juiz Richard J. Leon, do Tribunal Federal, em Washington, ordenou ontem a libertação imediata de 5 argelinos detidos em Guantánamo desde Janeiro de 2002.
Conservador, nomeado por George W. Bush, o juiz Leon fez uma enérgica acusação às decisões de detenção da administração Bush e deu um inquestionável testemunho da importância de permitir aos juízes federais avaliar as provas secretas do governo utilizadas para justificar as detenções, o que constitui um enorme revés para o Mr. W.
E não se ficou por aqui, o juiz. Numa outra atitude extraordinária, instou o Departamento de Justiça a não recorrer da sua sentença, porque “sete anos à espera...é suficiente”.
quinta-feira, novembro 20, 2008
A negritude e a liberdade
Enquanto o mundo inteiro comemora a chegada do primeiro negro ao posto de presidente dos Estados Unidos e muitos refletem sobre as conseqüências disso para a América do Norte e para o mundo, o Brasil recorda a figura de Zumbi, líder negro do Quilombo dos Palmares, assassinado no dia 20 de novembro de 1697. Ele teve a sua cabeça exposta em um poste, numa praça do Recife, para que ninguém mais ousasse liderar um quilombo ou pretendesse ajudar os escravos a serem livres. Ao invés de pôr fim às lutas pela liberdade, a morte de Zumbi, ao contrário, suscitou da parte de muitos escravos a consciência de que não poderiam deixar que a morte desse grande chefe fosse inútil. A memória do seu martírio se tornou incentivo para que negros, índios e brancos se unissem em torno de um projeto de igualdade humana e de um Estado cujas raças e etnias pudessem ser cidadãs de pleno direito. Até hoje, esta democracia racial plena não é um direito adquirido. No Brasil, as pessoas de raça negra ainda têm menos condições de acesso à educação, ao trabalho remunerado e à plena cidadania. E não só isso. José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, afirma: "A cor negra da pele de homens e mulheres, assim como sua raça e cultura próprias, foram motivos de crueldade humana e de barbárie que mancharam e continuam manchando a dignidade da humanidade"
A reflexão é de Marcelo Barros, monge beneditino e escritor brasileiro, e pode ser lida no jornal online Adital, onde também se encontram outros artigos de opinião sobre Zumbi dos Palmares, como Valeu Zumbi!, da jornalista Elaine Tavares, ou Zumbi dos Palmares liderou a 1ª experiência democrática do Brasil, de Ismar C. de Souza, militante do movimento negro e jornalista free lancer.
quarta-feira, novembro 19, 2008
Disse, está dito!
“Quando não se está em democracia é outra conversa, EU digo como é que é e faz-se”; “E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia”.
Foi isto o que eu ouvi MFL dizer, com a maior das calmas, entre outras barbaridades, e até me ia engasgando com a sopa.
Não se tratou de palavras ditas “no calor da luta política”, como concedeu Marcelo, apoiante incondicional deste abencerragem. Foram lidas (pelo menos tinha papéis na estante) na calma de um pós almoço na Câmara do Comércio Luso-Americana e, a menos que tenha decidido seguir na peugada do seu ídolo ajardinado, sabia muito bem o que dizia.
Também não foi uma afirmação “irónica”, como veio defender o vassalo Guedes. Para além de não haver qualquer ironia na afirmação, também não a havia na voz.
Ainda menos acredito que “não pode ter querido dizer aquilo que disse”, ao contrário do que defendeu o seu antigo adversário Coelho, o Passos. Quando se lê algo que se escreveu (e, de tão mau, teve de ser escrito por ela), não há lugar para equívocos.
MFL é mesmo assim, uma espécie de múmia cristalizada no tempo da outra senhora, uma pretensa economista que da economia tem a percepção de um contabilista (com o devido respeito para com estes últimos, que têm uma profissão importante na sociedade). A mensagem dela não passa, porque não pode passar algo que inexiste, mesmo que toda a comunicação social fosse sua lacaia, longe vá o agoiro.
MFL não deixou de ter condições de liderar o maior partido da oposição pelo que ontem afirmou; ela nunca teve condições de liderar o que quer que fosse, talvez com a excepção de umas folhas do Balanço e de Ganhos e Perdas. Perdem todos o que acreditam na democracia, mesmo numa democracia burguesa com as falhas que a nossa tem tido; e o Sócrates também ganha, pois bem pode descansar de uma oposição que se opõe a si própria.
terça-feira, novembro 18, 2008
Light my fire
O cara chega ao escritório cantarolando um clássico do The Doors - mas isso é uma provocação, por favor, não faz! Ela, que sempre adorou o Jim Morrison com aquele timbre poderoso de contrabaixo e um embalo meio jazzístico. Aquele jeito malvado num rosto de menino.
Quando a amiga lhe disse ao telefone “o Jim tá morto, morreu de overdose, na banheira”, tirou o jeans preto do armário, fez voto de silêncio, e pelo resto do mês desfilou seu luto. Até pra morrer o filho da mãe inventa um estilo. Afinal, não é o que importa? Ter estilo?
Ela era tão nova. E boba. Bobinha. Na cabeceira da cama, onde deveria impor-se um crucifixo de conter a libido mal domada das mocinhas, vigiava o ídolo. Tinha noites em que o roqueiro voltava do além via pôster fazendo-a despertar inteira.
Bom, quando o monumento entra embalando a voz “vem bebê acender o meu fogo”, numa onda tipo não sei de nada, ela se faz tocha de incendiar caminhos - vem por aqui, por aqui - ou um interruptor capaz de ativar milhões de watts em testosterona.
Aí, fica difícil... Vai concentrar no trabalho, vai, uma falação medonha, quanta miudeza boa pra se guardar num armarinho. E ela ali - mulher, teu nome é paciência - num esforço capricorniano mantém a pose profissional o quanto pode. Transbordando The Doors por entre frestas e aberturas.
Algumas vezes, o que temos de melhor é a memória. A loira lembrou de coisas no momento em que despachava assuntos. O sabor retornando à rosa boca. A boca que se impôs. Absoluta. No sexo absoluto dele. E enquanto a cabeça era empurrada repetidas vezes sufocando-a em direção ao todo, suas narinas se dilatavam num esforço de guardar-lhe o almíscar.
Lembrou tantas bobagens ao encará-lo de frente... Deliciosamente burra durante o expediente.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
O cara chega ao escritório cantarolando um clássico do The Doors - mas isso é uma provocação, por favor, não faz! Ela, que sempre adorou o Jim Morrison com aquele timbre poderoso de contrabaixo e um embalo meio jazzístico. Aquele jeito malvado num rosto de menino.
Quando a amiga lhe disse ao telefone “o Jim tá morto, morreu de overdose, na banheira”, tirou o jeans preto do armário, fez voto de silêncio, e pelo resto do mês desfilou seu luto. Até pra morrer o filho da mãe inventa um estilo. Afinal, não é o que importa? Ter estilo?
Ela era tão nova. E boba. Bobinha. Na cabeceira da cama, onde deveria impor-se um crucifixo de conter a libido mal domada das mocinhas, vigiava o ídolo. Tinha noites em que o roqueiro voltava do além via pôster fazendo-a despertar inteira.
Bom, quando o monumento entra embalando a voz “vem bebê acender o meu fogo”, numa onda tipo não sei de nada, ela se faz tocha de incendiar caminhos - vem por aqui, por aqui - ou um interruptor capaz de ativar milhões de watts em testosterona.
Aí, fica difícil... Vai concentrar no trabalho, vai, uma falação medonha, quanta miudeza boa pra se guardar num armarinho. E ela ali - mulher, teu nome é paciência - num esforço capricorniano mantém a pose profissional o quanto pode. Transbordando The Doors por entre frestas e aberturas.
Algumas vezes, o que temos de melhor é a memória. A loira lembrou de coisas no momento em que despachava assuntos. O sabor retornando à rosa boca. A boca que se impôs. Absoluta. No sexo absoluto dele. E enquanto a cabeça era empurrada repetidas vezes sufocando-a em direção ao todo, suas narinas se dilatavam num esforço de guardar-lhe o almíscar.
Lembrou tantas bobagens ao encará-lo de frente... Deliciosamente burra durante o expediente.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
segunda-feira, novembro 17, 2008
domingo, novembro 16, 2008
Biografias
Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel. Esta convicção de que tudo quanto dizemos e fazemos ao longo do tempo, mesmo parecendo desprovido de significado e importância, é, e não pode impedir-se de o ser, expressão biográfica, levou-me a sugerir um dia, com mais seriedade do que à primeira vista possa parecer, que todos os seres humanos deveriam deixar relatadas por escrito as suas vidas, e que esses milhares de milhões de volumes, quando começassem a não caber na Terra, seriam levados para a Lua. Isto significaria que a grande, a enorme, a gigantesca, a desmesurada, a imensa biblioteca do existir humano teria de ser dividida, primeiro, em duas partes, e logo, com o decorrer do tempo, em três, em quatro, ou mesmo em nove, na suposição de que nos oito restantes planetas do sistema solar, houvesse condições de ambiente tão benévolas que respeitassem a fragilidade do papel. Imagino que os relatos daquelas muitas vidas que, por serem simples e modestas, coubessem em apenas meia dúzia de folhas, ou ainda menos, seriam despachados para Plutão, o mais distante dos filhos do Sol, aonde de certeza raramente quereriam viajar os investigadores.
Decerto se levantariam problemas e dúvidas na hora de estabelecer e definir os critérios de composição das ditas “biobliotecas”. Seria indiscutível, por exemplo, que obras como os diários de Amiel, de Kafka ou de Virginia Woolf, a biografia de Samuel Johnson, a autobiografia de Cellini, as memórias de Casanova ou as confissões de Rousseau, a par de tantas outras de importância humana e literária semelhante, deveriam permanecer no planeta onde haviam sido escritas para que fossem testemunho da passagem por este mundo de homens e mulheres que, pelas boas ou más razões do que tinham vivido, deixaram um sinal, uma presença, uma influência que, tendo perdurado até hoje, continuarão a deixar marcadas as gerações vindouras. Os problemas surgiriam quando sobre a escolha do que deveria ficar ou enviar ao espaço exterior começassem a reflectir-se as inevitáveis valorações subjectivas, os preconceitos, os medos, os rancores antigos ou recentes, os perdões impossíveis, as justificações tardias, tudo o que na vida é assombração, desespero e agonia, enfim, a natureza humana. Creio que, afinal, o melhor será deixar as coisas como estão. Como a maior parte da melhores ideias, também esta minha é impraticável. Paciência.
José Saramago
Publicado em O Caderno de Saramago
Felizes 86 anos, José!
sábado, novembro 15, 2008
sexta-feira, novembro 14, 2008
Ser Independente da Opinião Pública
Ser independente da opinião pública é a primeira condição formal para realizar qualquer coisa grandiosa ou racional, tanto na vida como na ciência. Com o tempo, este feito será seguramente reconhecido pela opinião pública, que na altura conveniente o transformará em mais um dos seus preconceitos.
Georg Hegel, in 'Filosofia do Direito'
quinta-feira, novembro 13, 2008
Os Convencidos da Vida
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.
Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"
Retirado do Citador
quarta-feira, novembro 12, 2008
Os Deuses de Hoje
(Segundo soneto)
É preciso que a música aparente
no vaso harmonizado pelo oleiro
seja perfeitamente consistente
com o gesto interior, seu companheiro
e fazedor. O vaso encerra o cheiro
e os ritmos da terra e da semente
porque antes de ser forma foi primeiro
humildade de barro paciente.
Deus, que concebe o cântaro e o separa
da argila lentamente, foi fazendo
do meu aprendizado o Seu compêndio
de opacidades cada vez mais claras,
e com silêncios sempre mais esplêndidos
foi limando, aguçando o que escutara.
Bruno Tolentino
terça-feira, novembro 11, 2008
As letras do riso
Li há muito tempo, não sei onde, que podemos rir em diferentes letras.
Quem ri em A ri o riso solto, franco, generoso, como se cantasse em dia de sol, de peito aberto, braços abertos, coração aberto, gargalhada aberta. Riso em A pode virar riso em K, kakakaka! Ou em H aspirado, hahahahaha! Gargalhar com a garganta e com a alma.
Outro tipo de riso é o riso em E. Malicioso riso, um tanto triste, porque é riso de quem ri da humanidade, esquecendo-se, o gozador, que todos à humanidade pertencemos. Riso meio cínico, se é que existe meio cinismo. Riso de quem pensa que tem tudo e por isso ri de quem nada tem. Riso em tom menor, riso que ri da dor alheia, mas é sintoma de outra dor, oculta dor.
O riso em I é riso ingênuo, tímido, fino riso de quem tem medo de rir. Riso talvez bobo, envergonhado riso, riso que ri à toa, sem muita graça, ri para mostrar que sabe rir. Riso com receio de ser ilícito, riso implícito, riso solícito, bondoso, bondoso até demais. Sub-riso. Sorrisinho. Riso escondido de si mesmo, riso preso, riso que até parece choro magoado.
Há aqueles que riem em O, riso de Papai Noel, riso gordo, riso corajoso, orgulhoso da arte de rir, riso poderoso, abastoso, copioso, incopiável. Riso redondo, que vai rolando e se desenrolando como tapete a convidar para a festa sem fim, para o mundo melhor, para a alegria sincera. Riso bonachão, luminoso, afetuoso, amoroso, caloroso, riso que entrega uma rosa para a criança doente, riso delicioso como um doce.
O riso em U, hipócrita riso, misantropo riso, inescrupuloso riso. Riso do mal. Riso sádico. Riso irresponsável. Riso que humilha, tortura, machuca, tritura. Riso azedo que ri da amargura alheia. Riso que não ouve, não fala, não responde. Riso rude, ruim, sem rosto.
Mas existe riso para além das vogais. Podemos rir em diversas consoantes.
Rir em X. Riso enigmático, boca fechada, olhos faiscando.
Rir em L. Riso lateral, prometendo não se sabe o quê.
Rir em S. Riso sinuoso, melífluo riso, só uns poucos entendem sua mensagem.
Rir em V. Riso da vitória, que pode ser riso em W, se forem duas pessoas rindo de mãos dadas.
Risos vários. É preciso alfabetizar-se para entender o humor de cada um.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
segunda-feira, novembro 10, 2008
Cogito
Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível
Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora
Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim
Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranqüilamente
Todas as horas do fim
Torquato Neto*
*poeta brasileiro
domingo, novembro 09, 2008
O caminhoneiro boémio
Um caminhoneiro alegre era o Tonhão. Levava sempre na cabina do seu Fenemê um violão, que dedilhava todas as noites acompanhando a cantoria dos companheiros nos postos de gasolina das estradas onde pernoitavam.
Na Rio-Bahia, na Fernão Dias, nas estradas goianas ou do sul, todo mundo conhecia o Tonhão, gostava dele e achava bom quando coincidia de passar a noite no mesmo posto de gasolina. Iam para o bar, a cerveja corria solta (“só à noite”, aconselhava ele, “nada de beber antes de dirigir”) e a música também. Boleros e sambas-canções enchiam o ar com músicas que quase sempre falavam de amor ou de saudade.
Mas, quando chegava em casa, numa cidade pequena do interior de São Paulo, logo depois de matar a saudade da família, Tonhão ficava doido para viajar de novo, seu romantismo parece que terminava.
O problema era a falta de vida noturna que era obrigado a ter, quando estava em casa. Na sua cidade, nove horas da noite já não tinha ninguém na rua. Só alguns “boêmios”. E ele gostava da vida de boemia de verdade, de ficar até tarde bebendo cerveja, tocando seu violão e cantando.
Os seus amigos gostavam quando ele chegava, mas logo a mulher começava a lhe falar para não chegar tarde em casa. Aquelas coisas de sempre. Ele ia para um bar, se embalava na música e na cerveja, e nunca chegava antes da meia-noite em casa. Aí, era aquela briga!
Um fim de tarde, fazia uma semana que tinha chegado de viagem e esperava carga para viajar de novo, antes do jantar a mulher já foi lhe avisando:
- Se for para chegar de madrugada em casa hoje, não precisa nem voltar. Pode ir embora.
E o Tonhão saiu só para dar uma voltinha à noite, com intenção de tomar um arzinho e voltar. Mas, no bar da praça, encontrou o Zico, que ele considerava “o melhor cantor das músicas do Nelson Gonçalves”.
Topou acompanhar o Zico “só numa música”. E tomou um copinho de cerveja. Aí veio mais uma música, mais uma cerveja... Quando viu era quase uma hora da manhã.
Foi embora preocupado e, à uma hora em ponto, entrou em casa devagarzinho, silencioso para não acordar a mulher. Tirou a roupa e entrou com cuidado debaixo das cobertas, ao lado da esposa e dormiu. Cedinho, sentiu um chacoalhão. Abriu os olhos, era a mulher furiosa:
- Que hora você chegou essa noite, hem?
- Dez horas – disse, sabendo que normalmente a essa hora a mulher já devia estar dormindo.
- Mentiroso! Pensa que eu não vi? Quando você entrou, o relógio da igreja estava batendo uma hora! Uma hora, viu?
- Uai, o que é que você queria? Que ele batesse no zero também?
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sábado, novembro 08, 2008
Os 12 trabalhos de W.
Como é pouco crível que alguém esteja disposto a esportular várias dezenas de euros para ouvir barbaridades, é muito improvável que o Mr. W. venha a ter algum sucesso como conferencista.
Mas o ainda inquilino da Casa Branca não tem de se preocupar a procurar trabalho, já que o jornalista do The Guardian Tim Dowling, com o refinado humor que lhe é peculiar, já elaborou uma lista de vários empregos, adequados ao gosto por desafios do “talentoso” sujeito.
Embora restrita, a proposta abrange uma dúzia de cargos, desde líder da Coreia do Norte a estrela do musical W, passando por ministro do interior do Irão ou por melhor amigo de Paris Hilton.
Como é pouco crível que alguém esteja disposto a esportular várias dezenas de euros para ouvir barbaridades, é muito improvável que o Mr. W. venha a ter algum sucesso como conferencista.
Mas o ainda inquilino da Casa Branca não tem de se preocupar a procurar trabalho, já que o jornalista do The Guardian Tim Dowling, com o refinado humor que lhe é peculiar, já elaborou uma lista de vários empregos, adequados ao gosto por desafios do “talentoso” sujeito.
Embora restrita, a proposta abrange uma dúzia de cargos, desde líder da Coreia do Norte a estrela do musical W, passando por ministro do interior do Irão ou por melhor amigo de Paris Hilton.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meireles*
*poetisa brasileira
quinta-feira, novembro 06, 2008
Sacode as nuvens
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner
quarta-feira, novembro 05, 2008
Esperança
A vitória de Obama, por margem esmagadora em número de votos do Colégio Eleitoral e por margem bem confortável em termos de percentagem, representou a derrota da politica mais rasteira, violenta e hipócrita.
Seria utópico pensar que tudo mudou de repente, já que a evolução das mentalidades demora gerações e o povo dos Estados Unidos, como qualquer povo, não passou a ser sábio da noite para o dia e a ideologia continua bem viva.
Mas, se o novo Presidente do país mais poderoso do mundo conseguir que, a pouco e pouco, os Estados Unidos:
*Deixem de portar-se como donos do mundo e olhem para os outros países em pé de igualdade;
*Deixem de interferir na vida dos povos, em qualquer parte do mundo e sobretudo na América Latina, para que cada povo tome o rumo que melhor se adaptar aos seus anseios, em liberdade e em paz;
*Levantem o bloqueio a Cuba;
*Saiam tão cedo quanto possível dos lodaçais do Iraque e do Afeganistão;
*Resolvam diplomaticamente o problema do Irão;
*Convençam o aliado israelita de que a única forma de viver em paz é partilhar a terra com os palestinos;
*Reconheçam que a Rússia tem justas pretensões a desempenhar um papel relevante no mundo e que deve ser um parceiro, não um inimigo;
*Passem a respeitar os direitos humanos, que tanto apregoam, em todas as partes do globo e não apenas onde lhes dá jeito;
*Se submetam ao TPI;
*Comecem a prestar atenção às alterações climáticas;
*Encarem de frente a crise financeira mundial, começando por punir exemplarmente os predadores de Wall Street;
*E se tornem num país socialmente mais equilibrado, com garantias de acesso à educação e à saúde para todos os cidadãos....
...terá valido a pena ter concretizado um sonho de 40 anos.
A vitória de Obama, por margem esmagadora em número de votos do Colégio Eleitoral e por margem bem confortável em termos de percentagem, representou a derrota da politica mais rasteira, violenta e hipócrita.
Seria utópico pensar que tudo mudou de repente, já que a evolução das mentalidades demora gerações e o povo dos Estados Unidos, como qualquer povo, não passou a ser sábio da noite para o dia e a ideologia continua bem viva.
Mas, se o novo Presidente do país mais poderoso do mundo conseguir que, a pouco e pouco, os Estados Unidos:
*Deixem de portar-se como donos do mundo e olhem para os outros países em pé de igualdade;
*Deixem de interferir na vida dos povos, em qualquer parte do mundo e sobretudo na América Latina, para que cada povo tome o rumo que melhor se adaptar aos seus anseios, em liberdade e em paz;
*Levantem o bloqueio a Cuba;
*Saiam tão cedo quanto possível dos lodaçais do Iraque e do Afeganistão;
*Resolvam diplomaticamente o problema do Irão;
*Convençam o aliado israelita de que a única forma de viver em paz é partilhar a terra com os palestinos;
*Reconheçam que a Rússia tem justas pretensões a desempenhar um papel relevante no mundo e que deve ser um parceiro, não um inimigo;
*Passem a respeitar os direitos humanos, que tanto apregoam, em todas as partes do globo e não apenas onde lhes dá jeito;
*Se submetam ao TPI;
*Comecem a prestar atenção às alterações climáticas;
*Encarem de frente a crise financeira mundial, começando por punir exemplarmente os predadores de Wall Street;
*E se tornem num país socialmente mais equilibrado, com garantias de acesso à educação e à saúde para todos os cidadãos....
...terá valido a pena ter concretizado um sonho de 40 anos.
terça-feira, novembro 04, 2008
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Carlos Marighella*
*poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.
segunda-feira, novembro 03, 2008
Palavra
Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra
Bernardo Almeida*
*poeta brasileiro
domingo, novembro 02, 2008
E se insistir?
Dona Odualda recebeu um dinheirinho de herança e resolveu comprar uma casa no interior de Goiás, onde poderia criar com todo o cuidado suas duas jóias, Odarcy e Oderly, mocinhas de corpo bem feito, rostos bonitos e muita sensualidade esparramada pelo corpo inteiro. Viúva, com as duas filhas moças, ela não pôde escolher muito, comprou a primeira casa que lhe apareceu por preço razoável. Só tinha um detalhe: era a principal casa de prostituição da cidade.
Muitos fregueses das antigas moradoras apareciam todas as noites na casa da dona Odualda, a fim de dar uma trepadinha.
Um dia, apareceu na porta da casa uma plaquinha escrita com letras tortas:
“Casa de família.
Não insista.”
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sábado, novembro 01, 2008
Dedicatória
Leões passeiam sua juba imponente
à frente de teu esquálido esqueleto.
És um pedinte que tem fome,
sarnento fraldiqueiro, um cão sem nome?
Serás um homem? Um caniço pensante?
Um bípede sem penas, ou um rinoceronte apenas?
Sofres de angústia existencial ou medo, simplesmente?
És um obreiro do transcendental
ou só um inocente?
Benedicto Ferri de Barros*
*poeta brasileiro
sexta-feira, outubro 31, 2008
Para ler e ouvir, sempre!
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de Outubro de 1902.
Por mero acaso, deparei-me com este retrato falado, por ele próprio. Para mim, valeu mesmo a pena ouvir.
quinta-feira, outubro 30, 2008
Íncubo
Escorou-se na janela aberta para a rua e sentiu um calafrio esquisito percorrer-lhe a espinha. Estava escuro? Sim, todas as luzes estavam apagadas. Ela amava perambular em silêncio na escuridão da casa. Tatear o contorno dos móveis antigos, as linhas do próprio corpo... sim, ela amava despir-se diante das brumas da madrugada e da memória.
Contemplar as estrelas. Tão raro poder vê-las. As luzes da cidade ofuscam o encanto da noite assim como o mistério dos olhos. Diante da janela que emoldurava rubis e diamantes estelares afastou as pernas, alongou o pescoço, os braços, um para cada lado... também era uma estrela de cinco pontas pulsando na noite morna.
De repente, emerge da própria companhia para um sobressalto. Não tem coragem de voltar o olhar quando a porta do quarto bate. É o vento, faz o sinal da cruz. Na praia já havia passado por algo do tipo, benze-se outra vez, algo que tentava esquecer, quando interrompera aquela discussão e, descendo do mezanino, fora dormir na sala. Acomodou-se no sofazinho, de costas para a escada. A luz amarelada da varanda penetrando pelas frestas do telhado sem lambri. Com o rosto voltado para a parede abraçou a almofada e, pondo uma das quatro pontas entre os joelhos, cobriu sua nudez com uma manta cheirando a armário. Aconchegara-se na própria mágoa para esquecer os insultos que ouvira. Mas, na fronteira entre a vigília e o sono, ali, onde confundimos os mundos, percebeu alguém em pé, quase encostado no sofá, ao seu lado.
Mesmo sem olhar, sentiu a energia de um homem. Seria o seu? Arrependido das grosserias lhe beijaria as faces, os olhos vermelhos do choro sufocado, “me perdoa, gringa”, ela iria ouvir reconfortada e fariam as pazes e depois amor. Mas não houve palavra. Nem gesto. Alguém permanecia ali, imóvel, espiando seu corpo.
E então, agora, a mesma impressão de estar sendo vigiada. Quando a porta do quarto bate, de morno, o ar fica gelado. Os pelos da nuca retesados conectam sua lembrança com o resto do episódio da praia quando, agarrada ao escapulário encarou um estranho, metido num capote preto até o chão, lá em cima um chapéu de abas enormes a ocultar, nas trevas, rosto e intenção. Pareceu-lhe ouvir seu respirar: lento e profundo como quando se está no domínio da situação. Pareceu-lhe mais, pareceu-lhe intensamente úmido e ainda mais salobro o ar.
A criatura tem algo nas mãos... uma pedra? Vai esmagar minha cabeça! Ao amanhecer estarei morta e o mundo nem vai ligar, no máximo uma notinha no jornal local “veranista é trucidada dormindo”, mas eu não estou dormindo, não estou, JOHNNY!, pensou ter gritado. E vai ver que gritou, de fato. Pois o grito dado ou pensado libertou-a do quebranto. FLASH SOBRE DUAS GARRAS VERDES, VISCOSAS, NAS PONTAS DO QUE SERIAM DEDOS, VENTOSAS, NÃO ESTOU DORMINDO, POR DEUS, AQUILO TRAZ UMA GAIOLA INFESTADA DE RATOS, AMARRADA NA CINTURA... OU... DO UMBIGO FAZ PARTE E FLUTUA!
Não quer lembrar o verão! Sai da janela, rápido, tateando até a cama; protege-se entre ursinhos de pelúcia, negações e travesseiros. Só que ele a espreita de novo e, a qualquer momento, sem qualquer ruído pode arrancar-lhe o lençol, seu esconderijo de pano. Sob as abas do chapéu, lá em cima, Johnny, a gente se salva no afeto ou na saliva densa de sede e fome?
Então, a criatura retirou de dentro da gaiola o maior deles. O mais peludo. Com seu rabo de chicote. Seu guincho de porco na degola. Retirou aquele rato bem do fundo e, lentamente, intimamente, levantando a manta com cheiro de armário forçou o bicho várias vezes até abrir caminho.
Foi quando a noite partiu-se ao meio. Com gemidos de quem sucumbe ao diabo, ou dele se liberta. Por espasmos da garganta ou da vagina.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
“He's Not One of Us”
As John McCain's chances seem weakened or dead,
Republican rallies become mobs instead.
They have no civility left-not a shred.
They curse at Obama, their faces bright red:
"A traitor!" "A terrorist!" "Off with his head!"
"He's not one of us," Sarah Palin has said.
Lucky him.
Calvin Trillin
Publicado no The Nation
quarta-feira, outubro 29, 2008
O RIO NÃO MORRE
“También se muere el mar” (Garcia Lorca)
“Aquele rio era um cão sem plumas” (João Cabral de Melo Neto)
Não se mata um rio
como não se enterra
um morro
Como a fogueira
não se põe no bolso
Como um leão
não pede socorro
Um rio terminal
é a soma da baba
do rebanho
viscoso no que tem
de sono
aéreo no que tem
de sonho
O mar recebe o rio
feito de escombros
O mar pode morrer
(Netuno exangue)
Não por obra do rio
que guarda o sopro
Envenenado talvez,
mas nunca morto
Um rio sobrevive
sem suas vertentes
Um rio pode seguir
sem ser corrente
Um rio não é a escama
de nenhum peixe
Ele será sempre o rio
da minha infância
O Uruguai antes
do saque
touro frente à lua
surra de gigante
Nesse rio sem fim
mora meu povo
Cobre de minuano ao frio
Charrua de invencível
lança
Não se mata um rio
O sol não cabe
numa estante
A eternidade acampou
e faz a ronda
Nei Duclós*
*poeta brasileiro que hoje celebra 60 anos
O Homem Público N. 1
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
Ana Cristina Cesar*
*no 25º aniversário da sua morte, aos 31 anos de idade.
terça-feira, outubro 28, 2008
Peço desculpas
Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, de economias familiares, o capital de seus empreendimentos.
Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.
Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos - os economistas neoliberais - saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés.
Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade. Reduzi todos os valores ao casino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços.
Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização. Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me.
Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante.
Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.
Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezanove anos. Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período. Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação. Para contê-la, o governo subiu os juros... e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.
Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou. Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro. Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.
Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado! Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores. Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e precisarão repensar suas políticas econômicas.
Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.
Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência. Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim.
Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.
Frei Betto*
*escritor e teólogo da libertação brasileiro
Publicado originalmente no Adital
segunda-feira, outubro 27, 2008
FRATERNIDADE
Há quem venha como eu por estranhos caminhos
Há quem voe como eu por estranhos espaços
Há quem ande nas asas do vento
e quem suba mais alto
que o vôo mais alto
dos pássaros.
Repartir-se mais simples que o pão
dar-se lhano qual água
estendidas mãos magras tocar como quem colhe
um fruto
há quem saiba.
Nos descantos
da morte
acalanto
há quem cante.
Há quem vague como eu. Por desertos
navegue.
Quem se perca
por poucas doçuras. Desatinos
quem faça.
As amarras da terra, talvez, há quem parta.
Todo tédio do mundo
há quem desça até o fundo.
Há quem traga
também, como eu,
enterrado nos ossos
este humano cansaço.
Bernadette Lyra
domingo, outubro 26, 2008
Dinossauro Excelentíssimo
Houve velórios nos outeiros, altares à volta do retrato do Imperador. Discursos também, e muitos. Versos de despedida, lágrimas de sobreaviso. Os jornais anunciavam em letras de caixão alto que para grandes povos, grandes desastres.
Longe, em Cu de Judas, os camponeses excursionistas sabiam que iam ser chamados ao funeral e punham um olho no calendário, outro nas sementeiras, interrogando-se se viria em má altura. Nas repartições públicas suspirava-se fundo: desgraça por desgraça, ao menos que a morte calhasse em tal dia assim e assim para haver ponte de fim de semana. Os comerciantes inquietavam-se: feriados de luto nunca beneficiavam senão os da capital. Os presos sonhavam com amnistias e as beatas com embaixadas de estrangeiros em missas de grande pompa.
José Cardoso Pires, excerto de Dinossauro Excelentíssimo.
sábado, outubro 25, 2008
Irmão
carruagens alucinantes
de heroísmos rebeldes e sadios
heroísmos emprestados à vingança cobarde
de sermos Irmãos.
ouviste? Irmãos!
vidros partidos
pés
escoriações
pés
vidros partidos
plantas de
pés
rasgadas
por detalhados e pequenos pedaços de
vidros partidos
cheios de esquinas
lanças
facas afiadas
de corte ancestral.
ouviste? Irmão
os pés sangram a tua ausência desconhecida
os pés sangram todas as vitórias
todos os heroísmos rebeldes
cobardes
de vingança embebida
cujo suco não partilhámos...
ouviste? Irmão
os pés sangram por ti...
Álvaro Seiça Neves*
*poeta aveirense que hoje completa 25 anos
sexta-feira, outubro 24, 2008
Tarde piou!
Tendo estado à frente da Reserva Federal durante 18 anos, o outrora “sábio” Alan Greenspan reconheceu ontem, perante o Congresso, que cometeu um erro ao confiar que os livres mercados se podiam auto-regular e que tinha falhado ao não prever o poder auto-destrutivo da desenfreada política de crédito hipotecário.
Embora nunca seja tarde para reconhecer um erro, há erros e erros. E o do celebrado “maestro” provocou danos que dezenas de milhões já sentiram e muitas centenas de milhões mais ainda vão sofrer. Mais um “ídolo” com pés de barro. Será que estes “monstros sagrados” conseguirão dormir descansados sobre a miséria de incontáveis seres humanos?
quinta-feira, outubro 23, 2008
Dardos
Já tinha sido distinguido, há dias, pelo amigo dos bonstempos hein?! com o prémio dardos e agora veio nova distinção do outro lado do Atlântico, pela mão da helen e do seu videversos, pelo que, como mandam as normas, aqui deixo a minha escolha, um tudo nada influenciada pela tentativa de não repetição:
Inflorescências
Grilinha
Jardim de luz
Sorumbático
Crítica: Blog
O tempo das cerejas
As bodas de Fígaro
Coisas de vidas
O vento contra a cara
Anacruzes
Blue Velvet
Esquerda Republicana
Bloco de notas
Ana de Amsterdam
Insónia
Façam o favor de continuar a acertar no alvo!
Já tinha sido distinguido, há dias, pelo amigo dos bonstempos hein?! com o prémio dardos e agora veio nova distinção do outro lado do Atlântico, pela mão da helen e do seu videversos, pelo que, como mandam as normas, aqui deixo a minha escolha, um tudo nada influenciada pela tentativa de não repetição:
Inflorescências
Grilinha
Jardim de luz
Sorumbático
Crítica: Blog
O tempo das cerejas
As bodas de Fígaro
Coisas de vidas
O vento contra a cara
Anacruzes
Blue Velvet
Esquerda Republicana
Bloco de notas
Ana de Amsterdam
Insónia
Façam o favor de continuar a acertar no alvo!
quarta-feira, outubro 22, 2008
Memórias
Anteontem fui ao psiquiatra, pois está na moda. Aliás, foi um psiquiatra quem resolveu o grande problema de minha vida: fugiu com minha noiva...
Depois de mil blá-blá-blás, ele disse que eu era um pouco complexado (frase realmente inédita de um psiquiatra) pois que me preocupava muito com mulher bonita (o que, cá entre nós, é sempre melhor do que ser complexado por preocupar-se com mulher feia...), concluindo, que eu acabaria ficando louco. E quase fiquei mesmo quando vi a conta: Quinhentos contos! Doutor, - disse eu – vim aqui para resolver os meus problemas, não os seus...
Na verdade meu grande complexo é o de sentir que os meus lindos e coloridos complexos preocupam mais aos outros que a mim próprio.
Sou pequenininho, feio e narigudo, mas, apesar disto, nunca tive reclamações. Tenho um metro e sessenta e quatro vírgula três (o vírgula três é importante. Afinal é o meu record!) Mas para a minha namorada digo que sou da estatura mediana, ao que ela insiste em dizer medi anã... Mas isto é relativo. No Japão por exemplo, quando me apresentei, uma japonesinha falou para outra: - Quem é aquele loiro alto, lá na porta?
A grande massa (feminina entende-se. Pois muito homem junto, no máximo dá torcida de futebol ou alistamento militar) insiste em dizer que se eu tivesse mais 20 cm e mais 20 milhões, seria o homem ideal. Ora, se eu tivesse mais 20 milhões, não precisaria dos 20 cm, claro!
Sou compositor por motivação. Fiz para as minhas namoradas, uma modinha de amor, cada vez que alguma me traía. Num total de 645 composições. Muita gente acha graça, mas o importante não é ser traído. O importante é que a mulher da gente seja bela. Pois é sempre melhor dividir um prato de morangos com os amigos que comer sozinho uma prato de merda...
Muitos leitores podem escandalizar-se com a palavra merda. Mas não vejo porquê. AFINAL A SITUAÇÃO DO PAÍS NÃO ESTÁ OUTRA COISA... Há dez anos atrás a palavra provocava grande impacto. De aí então o Brasil foi evoluindo... evoluindo...
Segundo a Medicina, sei que vou morrer louco (já fiz até meu epitáfio: Juca Chaves – nasceu como um covarde puxado por ferros e morreu como um herói, no campo de batalha, nos braços da mulher amada). Então, resolvi deixar algumas memórias (agora na internet, uma maravilha) como algumas dívidas também.
Juca Chaves
(Compositor, músico e humorista brasileiro que hoje celebra 70 anos)
terça-feira, outubro 21, 2008
Imagens interiores
Mistério das imagens interiores.
Imersas nestes mares de abandono
as sementes de fogo geram flores:
rosas de pó nas lâminas do Outono.
Transfigurada, a fria luz de sono
vela de cinza a face dos pastores,
e os súditos do tempo, e os reis sem trono,
sob o mudo legado de outras dores.
Na áspera latitude um rio corre
branco de eternidade. As nebulosas
vão-se formando, enquanto o sonho morre.
Há pássaros absortos na obcecada
cisma da solidão; e mãos ansiosas
abrem portas de sombra para o nada.
Waldemar Lopes*
*poeta pernambucano
segunda-feira, outubro 20, 2008
Discriminação
Os estrangeiros que sejam portadores do vírus da SIDA (ainda) não podem entrar nos Estados Unidos, o que coloca o país “exportador” da democracia e dos direitos humanos na interessante companhia da Arábia Saudita, da Líbia e do Sudão.
A proibição surgiu no fim dos anos oitenta, no meio da histeria e falta de informação que rodeou o aparecimento do HIV/SIDA. E, apesar de, pouco tempo depois, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) ter reconhecido que o vírus não se transmitia através de contactos sociais, o medo irracional levou a que o Congresso transformasse a proibição em lei.
Como consequência, refugiados, investigadores e estudantes seropositivos têm sido proibidos de entrar nos Estados Unidos, o que levou a que, durante 15 anos, não se realizasse no país nenhuma conferência científica importante sobre HIV/SIDA. Acresce que mesmo os estrangeiros que têm autorização de residência, se contraírem o vírus vêm ser-lhes automaticamente negado qualquer pedido de cidadania. Ainda há pouco tempo li um artigo de um escritor inglês, residente legalmente nos Estados Unidos há mais de 20 anos, que diz não conseguir obter a cidadania apesar de ser um dramaturgo muito representado porque, entretanto, contraiu o vírus.
No fim de Julho, O Congresso acabou com a proibição para os estrangeiros seropositivos que queiram visitar os Estados Unidos ou emigrar para lá, mas tudo continua na mesma pois o HHS ainda não teve tempo de (ou não quis) rever as regras.
Assim vai o país das liberdades no final de 2008.
domingo, outubro 19, 2008
O rio
Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.
Vinicius de Moraes
sábado, outubro 18, 2008
O picheleiro
“Quem anda à chuva, molha-se” e “apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo”, são ditados portugueses que assentam como uma luva ao candidato republicano à presidência dos Estados Unidos e ao novo herói da direita estado-unidense, um tal “Joe the Plumber”.
Samuel Joe Wurzelbacher era, até há uma semana, um modesto operário funileiro que vive nos arredores de Toledo, no Ohio mas, no passado fim de semana, interpelou Barack Obama durante uma visita para se queixar das propostas do candidato democrata sobre impostos, perguntando-lhe se acreditava no sonho americano e afirmando que estava consternado com a perspectiva de ter de pagar impostos mais elevados como dono de um pequeno negócio.
Com a cobertura mediática que rodeia a campanha, o Joe tornou-se uma estrela dos republicanos, de tal forma que McCain o citou vezes sem conta (houve quem contabilizasse pelo menos duas dúzias de referências) no último debate entre candidatos, mais parecendo que o Joe the Plumber tinha substituído Palin na corrida à vice-presidência.
Mas, segundo outro velho ditado, “não há bela sem senão” e a nova estrela passou a ser alvo de um escrutínio cerrado que veio revelar algumas coisas interessantes. Afinal, Joe nunca teve uma licença de picheleiro, a qual é obrigatória para exercer a profissão em Toledo e nos municípios vizinhos, não pertence à Associação dos Picheleiros Unidos local, nunca completou um curso de aprendizagem e não pertence ao sindicato dos picheleiros, que apoia Obama. Além disso, de acordo com especialistas em impostos, não é provável que, quer os seus impostos pessoais quer os do negócio onde trabalha, vejam os seus impostos aumentar, antes pelo contrário. Como Joe trabalha com o dono de uma pichelaria que apenas tem os dois como empregados, mesmo que o rendimento do negócio, após despesas, fosse dividido pelos dois, ambos veriam os seus impostos baixar.
Pelos vistos, a expressão de McCain na fotografia acima é mais provocada pelo mentir do que pelo coxear. É que o picheleiro saiu-lhe pior do que o José e a Maria ao Portas.
sexta-feira, outubro 17, 2008
Um mundo
É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.
António Ramos Rosa - in Acordes
(no dia do 84º aniversário)
quinta-feira, outubro 16, 2008
A tempestade de gelo e outras histórias
Onde se fala do horror dos islandeses por terem passado, da noite para o dia, de país rico a país falido, num conjunto de acontecimentos digno de um novo romance Kafkiano; da agitação dos londrinos com o desastre do outro lado do Atlântico, que lhes traz de volta a recordação dos bombardeamentos da II Guerra Mundial e que já consumiu parte das suas reformas; do espanto dos irlandeses, que se interrogam sobre o que aconteceu ao Tigre Celta e sobre se o sua riqueza alguma vez existiu; e da calma com que os alemães encaram a tempestade que vai varrendo as economias, um pouco por todo o lado.
Cá no rectângulo, a avaliar pelas reacções ao OE, tudo vai bem...
quarta-feira, outubro 15, 2008
terça-feira, outubro 14, 2008
Falta de ética e prepotência


Uma investigação conduzida por uma Comissão de Inquérito (dominada pelos republicanos) do Senado e da Câmara dos Representantes do Estado do Alasca, cujos resultados foram divulgados na sexta feira, dia 10, considerou que a governadora Sarah Palin infringiu a ética governativa do Estado, abusando do seu poder de governadora para levar a cabo uma vingança pessoal contra o ex-cunhado que se tinha divorciado da irmã num disputado processo judicial. Quando foi eleita para o cargo, a governadora tentou que o comissário da polícia estadual despedisse o ex-cunhado, um elemento da policia montada do Alasca. Como o comissário não se curvou à sua vontade, foi demitido. O inquérito, que alguns republicanos tinham tentado bloquear (o que o Supremo Tribunal do Alasca recusou), concluiu que a Governadora, para além da sua própria pressão junto do comissário, autorizou abusivamente o seu marido a usar recursos estaduais, tais como o gabinete da Governadora e os seus recursos, incluindo o acesso a vários empregados estaduais (num total de 7) para conseguir a demissão do ex-cunhado, num claro processo de vingança pessoal. De realçar que a Governadora, depois de se ter comprometido a colaborar no inquérito, quebrou a sua promessa após ter sido escolhida como candidata à vice-presidência. Depois do incitamento ao ódio racial contra Obama e de ter levado turbas ululantes a gritar “traidor”, “mentiroso”, “terrorista”, “matem-no” e “cortem-lhe a cabeça”, mais uma “flor” no ramalhete de uma sacripanta fundamentalista e pseudo-defensora da moral e dos bons costumes. Cáspite!
segunda-feira, outubro 13, 2008
Auto-retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Manuel Bandeira
domingo, outubro 12, 2008
Transuniversal
As constelações do Zodíaco
estarão no roteiro das viagens.
Iremos a Aldebarã,
afrontando as aspas de ouro
de Tauro.
Na balança estelar de Libra,
buscará equilíbrio
nosso lastro de sonho.
Áries e Capricórnio
darão marradas de luz
nas cosmonaves.
As setas de Sagitário
transpassarão os atrevidos invasores.
A precisão objetiva da viagem
perturbará os presságios dos signos.
Iremos a Aldebarã.
Helena Kolody*
*poetisa brasileira
sábado, outubro 11, 2008
Existem católicos e católicos
Divulgou-se recentemente o atual número de católicos no mundo: algo em torno de 1,13 bilhão, o que corresponde a cerca de 17% da população mundial. Sabemos, contudo, que há católicos e católicos. Arrisco a classificação de pelo menos quatro tipos.
Primeiramente, o famoso católico não-praticante. Milhões de pessoas batizadas, sem grande contato com a religião. Não têm vida sacramental estável, não são contra nem a favor das regras do jogo, porque as desconhecem. Católicos para quem as epístolas foram as irmãs dos apóstolos... Não-praticante do catolicismo, este católico pratica um pouco de tudo, e vai levando. Sua vulnerabilidade espiritual pode levá-lo a aderir a qualquer coisa, até mesmo a movimentos católicos...
Temos o não-católico praticante. Aquele que pratica a caridade sem saber que é virtude teologal. Que acredita em Deus sem saber que no Deus Uno e Trino acredita. Atira onde não vê e acerta onde não espera: tem na esperança outra virtude oculta. O não-católico pode seguir outras religiões, pode considerar-se adversário do catolicismo. Talvez seja até melhor, para ele, não saber que é canonizável. Está a salvo da vaidade de querer ser santo. A prática longe da instituição, longe da Igreja, mas perto de Deus.
O praticante não-católico é uma aberração interessante. Missa diária, terço diário, confissão semanal, mortificação, Bíblia, conhecimentos teológicos, apologética, liturgia, proselitismo, mas esquecimento do essencial. É capaz de humilhar o irmão, achando que recebeu do Pai autorização para tanto. Beija a mão do papa... e depois abraça o demônio. Despreza o não-praticante, o agnóstico, e fica imaginando como pode Deus ser tão descuidado, deixando hereges e ateus soltos por aí.
E há o católico por um triz, desconfiado de sua própria catolicidade. Pratica o que manda a consciência, mantendo um olho no padre e outro na missa. Procura ser menos papa do que o Papa. Basta um. Quer separar o joio do trigo, mesmo que digam ser tudo trigo. Quer descobrir o trigo no meio do joio, mesmo que digam ser tudo joio. Os sacramentos o alimentam, mas está sempre com fome. Reza sabendo que Deus sabe mais.
Não sei como o Vaticano vai lidar com esses e outros tipos de católicos. Os números escondem a realidade. Cristo disse: "Sou o caminho". Mas não se tratava de uma rodovia. O caminho no meio do deserto não tem muretas nem semáforos.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
sexta-feira, outubro 10, 2008
HOMEM SÓ
Além da janela, os ramos verdes
e um resto de tarde se apagando.
Mulheres de branco, os rostos parados e frios,
passam.
Algumas colhem flores friamente,
como se não colhessem flores,
Homens tristes e abandonados descem do alto da rua.
Vem do trabalho que ficou lá no fim da cidade,
e trazem para suas mulheres suor, pão quente e amor.
Sempre há amor nos homens quando as tardes findam.
E sempre haverá mulheres de branco apanhando flores,
quando as tardes findam.
Há amor também no homem só
que está por trás da janela
e se embala numa rede azul.
Um azul que vai e vem e que arranca do homem
uma canção que se apaga com a tarde
e que vai enchendo de noite
o entardecer do quarto.
Berilo Wanderley*
*poeta brasileiro
quinta-feira, outubro 09, 2008
Executado há 41 anos
Os olhos de sombra olham mas não vêem
As bocas de fogo falam mas não dizem
Outubro traz um luto sem remédio
Com seus pássaros em círculo dentro das crateras
Sua chuva de cinzas sobre as sílabas da América.
Manuel Alegre (in Che – Caminho 1997)
quarta-feira, outubro 08, 2008
apPAlLINg
Esta mulher é aterradora, tenebrosa e perigosa, muito perigosa.
Aterradora porque, com o ar mais seráfico e beatífico deste mundo, comporta-se como uma autêntica rainha da desinformação, espalhando, com falsa simplicidade, mentiras que conseguem convencer e levar ao delírio turbas ululantes. Ao acusar, repetidamente, Obama de andar a confraternizar com um terrorista, citando um artigo do The New York Times e tirando conclusões que a leitura do referido artigo desmente, ainda aproveita a oportunidade para um autêntico ataque racista ao afirmar que “este não é um homem que vê a América da mesma forma que vós e eu vemos a América”.
Tenebrosa porque não olha a meios para atingir os seus fins, pisando amigos e inimigos como o comprova a sua carreira política e, quando os atinge, não hesita em levar a cabo a mais crua vingança. E nem tampouco teve engulhos em utilizar o seu bebé com Sindroma de Down para encobrir a gravidez da filha mais velha durante a sua consagração na convenção republicana!
Muito perigosa porque, considerando a idade de John McCain, tem grandes possibilidades de vir a assumir o poder total sobre o maior arsenal militar do mundo. A sua ignorância, o seu populismo estudado, a sua capacidade de dissimulação e a sua superficialidade, aliados à sua crença na verdade literal da Bíblia, Livro do Apocalipse incluído, constituem uma seriíssima ameaça ao futuro da humanidade. Afinal de contas, se decidir que a vontade de Deus é carregar no botão das armas nucleares, fá-lo-á convicta de que ela e os “bons” vão para o “paraíso”, ao passo que os "maus" irão para o “inferno”. Não soa a nada familiar?
Esta mulher é aterradora, tenebrosa e perigosa, muito perigosa.
Aterradora porque, com o ar mais seráfico e beatífico deste mundo, comporta-se como uma autêntica rainha da desinformação, espalhando, com falsa simplicidade, mentiras que conseguem convencer e levar ao delírio turbas ululantes. Ao acusar, repetidamente, Obama de andar a confraternizar com um terrorista, citando um artigo do The New York Times e tirando conclusões que a leitura do referido artigo desmente, ainda aproveita a oportunidade para um autêntico ataque racista ao afirmar que “este não é um homem que vê a América da mesma forma que vós e eu vemos a América”.
Tenebrosa porque não olha a meios para atingir os seus fins, pisando amigos e inimigos como o comprova a sua carreira política e, quando os atinge, não hesita em levar a cabo a mais crua vingança. E nem tampouco teve engulhos em utilizar o seu bebé com Sindroma de Down para encobrir a gravidez da filha mais velha durante a sua consagração na convenção republicana!
Muito perigosa porque, considerando a idade de John McCain, tem grandes possibilidades de vir a assumir o poder total sobre o maior arsenal militar do mundo. A sua ignorância, o seu populismo estudado, a sua capacidade de dissimulação e a sua superficialidade, aliados à sua crença na verdade literal da Bíblia, Livro do Apocalipse incluído, constituem uma seriíssima ameaça ao futuro da humanidade. Afinal de contas, se decidir que a vontade de Deus é carregar no botão das armas nucleares, fá-lo-á convicta de que ela e os “bons” vão para o “paraíso”, ao passo que os "maus" irão para o “inferno”. Não soa a nada familiar?
terça-feira, outubro 07, 2008
SÓ
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alva
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demónio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe
segunda-feira, outubro 06, 2008
Galinha de Cabidela
André em seu cubículo. Amontoando bituca na xícara. O bico de luz pendurado na ponta do fio como uma flor seca. O ar empestado de roupa usada a corromper-lhe o olfato. Precisa largar dos vícios, sair um pouco, dizia a mãe no mínimo uma vez por dia batendo na porta a resmungar não sei o que mais.
André num puxadinho dos fundos, adestrando a manada dos pensamentos no computador. A luz do monitor reflete um acinzentado de ectoplasma – seda japonesa, poemas de Rimbaud e muita tesão/ no momento deixo assim a decisão/guardo um pouco mais meu arco-íris e, rápido/ passo a chave no porão.
Ao perceber a pobreza das rimas teve vontade de torcer-lhe o pescoço. Um suspiro de inveja das letras do Renato Russo enquanto deletava o poema. Torcer o pescoço daquela safada, aquele pescocinho que tanto cobrira de beijos. Na curva da orelha o interruptor do desejo. Quantas vezes quis mergulhar no seu rabo e pronto, mas estava sempre atento aos prelúdios de Vanessa - diz como! - a criatividade masculina posta à prova para tornar mais prazerosas as brincadeiras de tortura - diz quando! - é verdade que se fartava, mas com todo carinho do mundo e agora... Aquela vagabunda! Pois, agora, iria sangrar seu gogó do mesmo jeito que a mãe fazia.
Espiou pela fresta da memória e viu-se agarrado à ponta do avental, lá em cima a boca materna tensa no dever de desnucar galinha. Depois, duas mãos com cheiro de pena e de titica dando um jeito em seu topete descomposto de poeira e estripulia, o sol fazendo brilhar o visgo vermelho escuro colhido na bacia, a vida se esvaindo ao compassado do estrebucho da franguinha. Cabidela. Quando guri, não lhe parecia cruel o prato. Pelo contrário. Ao terminá-lo, lambia.
Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Dependendo da causa, sacrifícios valem a pena. Deu um tempo na Legião e vazou pra rua. Em cada canto pode-se comprar um pouco de inspiração. A manha é ir fundo. De plantão no postinho da esquina, o mensageiro da coragem. Acomodou algumas gramas no bolso esquerdo do jeans, o que não tinha furo. Pensou na mãe doente ao subir de dois em dois os degraus do prédio da frente. Em cada casa sempre tem alguém de cama.
O ouvido de André colado na porta. - Você fica tão, tão pilhado...Caraca, que nariz enorme seu lobo - Vanessa ria, ria alto, a vadia. Os olhos esbugalhados de André na fechadura. Ela no troço do vizinho e o vizinho no teco. Ela. A galinha.
Tanta desenvoltura só quando se ama. O que entra pelas pupilas, arde feito lava incandescente. Com dois golpes certeiros risca a cena do mapa. Estátuas e cofres e paredes pintadas. Será que todo sangue fica preto à luz da lua? Depois, vai pela Venâncio até o amanhecer do dia. Quando perversidades dão lugar à moda nas vitrines.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
domingo, outubro 05, 2008
Um poema simples
Amanhece. Debruçada
à janela ,vejo o movimento
dos pescadores.
Há contagiante energia.
A monotonia, se passa,
não encontra onde estacionar.
Por alguns minutos,
sonho pertencer
a tão vibrante universo.
Integro-me, desatando os nós
que me prendiam
à opacidade dos meus dias.
Belvedere Bruno*
*poetisa brasileira
sábado, outubro 04, 2008
O boi do Orfeu
Como sempre fazia, Jocelínio foi cobrar o aluguel de uma casa justamente na hora em que o inquilino não estava lá. Mas a Carmesinda, esposa dele, estava. E era o que interessava. Há meses ele só ia cobrar o aluguel no horário de trabalho do Agenor, aceitava o cafezinho que e Carmesinda fazia na hora para ele e tentava algumas intimidades maiores. Ela não topava, ele saía doidão de lá.
Pois, dessa vez, ela estava bem mais acessível. Conversa vai, conversa vem, em vez do café, ela ofereceu um licorzinho de jabuticaba, tomou um cálice junto e, para resumir, pouco tempo depois estavam na cama, peladinhos da silva.
Mas, justamente nesse dia, o pedreiro Agenor resolveu parar o trabalho mais cedo, não estava com saco para ficar rebocando paredes. Foi para casa, com intenção de ficar à toa o resto da tarde. Entrou quieto, não viu a mulher na sala, nem na cozinha, foi para o quarto de casal, de onde vinham alguns ruídos, e deu de cara com aquela cena.
Se já tinha raiva de Jocelínio por ter que lhe pagar um aluguel que achava injusto, ali tinha mais um motivo para dar-lhe uma surra. E deu. Encheu o Jocelínio de porretadas, deixando sobrar algumas para a Carmesinda. Apesar dos ferimentos doloridos, a grande preocupação do Jocelínio era outra, aquela do “que é que eu vou dizer lá em casa”.
- Dita, olha só o que aquele maldito boi do Orfeu fez comigo – inventou para a esposa. – Eu vinha vindo da roça e ele me pegou de jeito. Desgraçado, eu ainda mato aquele boi...
Ela fingiu que acreditou. Mas, desse dia em diante ninguém se lembra mais do nome do Jocelínio, pois ele só é conhecido pelo apelido, boi do Orfeu.
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sexta-feira, outubro 03, 2008
700.000.000.000 de dólares
Setecentos mil milhões de dólares é um balúrdio de massa. Um sete seguido de onze zeros!
Se eu fosse cidadão estado-unidense, a esta hora estava pior do que estragado pois, à segunda tentativa e numa jogada que conseguiu inverter a habitual ordem das aprovações (é usual votar primeiro a Câmara dos Representes e só depois o Senado), o Mr. W. conseguiu levar os Representantes a aprovar o plano Paulson que tinham recusado na segunda feira e que representa a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos.
Como cidadão português sem quaisquer responsabilidades políticas, considero que, para já, os contribuintes estado-unidenses já comeram as favas todas e as perspectivas de aí vir uma abada para nós comermos ficaram substancialmente reduzidas.
Como diria o outro, é a vida!
Mas, mesmo assim, não vejo motivos para festejar. É que o cónego Sarkozy pretende fazer o mesmo na EU.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Luta pela sobrevivência
Tim Downing é um escritor e jornalista com reputação de ter um requintado sentido de humor e a sua coluna de hoje, no Guardian, é uma prova disso.
No meio da crise financeira que domina a cena internacional e a campanha presidencial dos Estados Unidos, analisa a intrigante luta pela sobrevivência entre dois velhos adversários: o urso polar e a candidata à vice-presidência pelos republicanos, Sarah Palin.
Utilizando uma fina análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças), percorre as várias componentes da luta, desde o habitat até à maior ameaça à sobrevivência, passando pelo estado de conservação, pelo arsenal predatório, pelo impacto nas mudanças climáticas e pelos maiores apoiantes de cada um dos oponentes.
Para saborear com gosto, aqui.
Tim Downing é um escritor e jornalista com reputação de ter um requintado sentido de humor e a sua coluna de hoje, no Guardian, é uma prova disso.
No meio da crise financeira que domina a cena internacional e a campanha presidencial dos Estados Unidos, analisa a intrigante luta pela sobrevivência entre dois velhos adversários: o urso polar e a candidata à vice-presidência pelos republicanos, Sarah Palin.
Utilizando uma fina análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças), percorre as várias componentes da luta, desde o habitat até à maior ameaça à sobrevivência, passando pelo estado de conservação, pelo arsenal predatório, pelo impacto nas mudanças climáticas e pelos maiores apoiantes de cada um dos oponentes.
Para saborear com gosto, aqui.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Mas o que é a escola?
A escola não é ilha isolada no oceano social. Não é lugar para guardar crianças, ou reformá-las, embora possa ajudar, orientar e até alimentar. A escola não é paraíso. Nem inferno. A escola não está aí por acaso. A escola salvará a sociedade se a sociedade salvar a escola.
Os professores na escola não são mágicos, não são heróis (embora heroísmo não falte a muitos deles), não são gênios (muito menos da lâmpada), não são mercenários, não são santos, não são famosos, não são poucos, não são suficientes, não são muitos, não são o que pensamos que são.
Os professores são pessoas cuja profissão é ajudar na humanização de outras pessoas, os alunos. Cabe aos professores avaliarem os alunos. Avaliação não é punição. Não é acusação. Não é vingança. Não é fatalismo. Não é perseguição. Não é condescendência.
Cabe aos pais acompanharem os filhos. Conversar com os filhos sobre a escola. Conversar com a escola sobre os filhos. Conversarem pai e mãe entre si sobre a escola que os filhos freqüentam.
Cabe aos alunos entenderem a escola. Cuidarem dela. Defendê-la. A escola não é ponto de tráfico de drogas. A escola não é a sede do tédio. Não é apenas lugar de encontro. Mas o que é a escola mesmo?
A escola não é uma idéia vaga. Não é um lugar onde há ou não há vagas. Não é vagão de trem onde entramos e do qual saímos quando chega à próxima estação.
A escola não é a sua quadra de esportes, não é um conjunto de salas de aula, não são suas paredes (sujas ou limpas), janelas (abertas ou fechadas), portas (com cadeados ou não), armários (vazios ou cheios), escadas (perigosas ou seguras), computadores (novos ou obsoletos), bibliotecas (reais ou fictícias). A escola não é o que vemos.
A escola não é arquivo morto. A escola não é cabide de empregos. Não é moeda de troca política. Não é campo de batalha. Não é um curso de idiomas. Não é empresa competitiva. A escola não é clube, não é feira, não é igreja, não é partido.
A escola, o que é? Sabe a escola nos dizer o que ela é? Alguém sabe?
A escola é um problema insolúvel.
A escola é uma probabilidade.
A escola é uma experiência.
A escola é uma esperança.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
terça-feira, setembro 30, 2008
(Con)junções
A gente se gosta
A gente se goza
A gente se encanta
A gente se espanta
A gente se beija, se cheira, se junta
A gente se entende.
A gente se ama?
na cama no carro no banheiro no sofá
A gente se deita, se cai, se levanta
A gente se briga, discute, se irrita
A gente se escreve, a gente se amansa
se toca, se alisa
A gente se brisa
A gente se chove
A gente se cobre, se ouro, se prata
(a gente se lua ingrata)
- vomita besteiras, escreve asneiras e pede desculpas -
A gente se lua de novo
E se perde,
de novo,
no imenso encantamento manso.
Beatriz Galvão*
*poetisa brasileira
segunda-feira, setembro 29, 2008
Confissões de uma viúva moça
Há dois anos tomei uma resolução singular: fui residir em Petrópolis em pleno mês de Junho. Esta resolução abriu largo campo às conjecturas. Tu mesma nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o espírito a adivinhar e figuraste mil razões, cada qual mais absurda.
A estas cartas, em que a tua solicitude traía a um tempo dois sentimentos, a afeição da amiga e a curiosidade de mulher, a essas cartas não respondi e nem podia responder. Não era oportuno abrir-te o meu coração nem desfiar-te a série de motivos que me arredou da Corte, onde as óperas do teatro Lírico, as tuas partidas e os serões familiares do primo Barros deviam distrair-me da recente viuvez.
Esta circunstância de viuvez recente acreditavam muitos que fosse o único motivo da minha fuga. Era a versão menos equívoca. Deixei-a passar como todas as outras e conservei-me em Petrópolis.
No centenário do falecimento de Machado de Assis, para saborear o seu gostoso conto Confissões de uma viúva moça.
domingo, setembro 28, 2008
sábado, setembro 27, 2008
O retrato nas paredes
As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
Barros Pinho*
*poeta brasileiro
sexta-feira, setembro 26, 2008
Faz bem....faz mal...
Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!
Luís Fernando Veríssimo*
*no dia do 72º aniversário do autor
quinta-feira, setembro 25, 2008
Mãos
No deserto da insônia
a mão, triste, me acena
nua de anéis e luvas.
Dedos gesto de adeus
anunciam o abandono
da matéria efêmera.
Dos campos do sono
a mesma mão me chama
cintilante de estrelas.
Tento alçar-me da cama
no encalço do convite
mas a carne me amarra.
E enquanto o corpo dura
fico entre a dor da perda
e o desejo do encontro.
Astrid Cabral*
*poetisa brasileira
quarta-feira, setembro 24, 2008
Vocação de rédea
Deu um passo ágil e certeiro feito um bote, se não ficaria para trás. Foi a última a entrar no elevador. Cheio que nem compota. Foi a única a ficar de costas para a porta que, ao fechar, mergulhou-a ainda mais naquele caldo de ruídos e odores. O constrangimento da proximidade imposta disfarçada em olhares que passeiam pela ventilação no teto, pelas luzinhas dos botões que marcam os andares - térreo, por favor.
Restava encarar o compacto grupo de frente. Vibra um celular. Parece uma cigarra aprisionada no bolso de alguém. É do homem que está com a gravata rubra, o cara alto com a gravata impecavelmente disposta sobre o peito. Vibra, de novo. Ele se espreme, pede licença - ela, pois não -, dá um passo a frente, tira o aparelho do bolso, atende.
A distância, antes de um palmo e meio, fica nenhuma. O homem fala, ele fala discretamente, é verdade, mas não tira os olhos de mim, será? Claro, ele está falando com alguém e me encarando, mesmo sem eu devolver o olhar posso sentir, igual à avidez dos operários da construção civil que estendem um tapete de frases toscas enquanto se vai passando. Depende das oscilações hormonais, essas coisas arrepiam a alma ou a pele da gente.
O homem da gravata rubra exposta sobre o tórax, distinto como diria minha avó, ali sussurrando com a boca encostada no aparelho “... a gente pode...” uma pausa mínima potencializa a próxima fala “...te pego depois ...” e foi dizendo outras coisas que não deu pra escutar bem... Nisso, uma bolinha de rimel colou minha pestana de cima na pestana de baixo fazendo-as grudar feito as asas de uma borboleta molhada. Com os dedos em pinça, rápido, pus a pálpebra no lugar, mas ao tentar voltar a mão - desculpa aí, gente, licença -, ao tentar relaxar o cotovelo, cadê espaço? os tornozelos buscando novos pontos de equilíbrio sobre o salto dez que acabou virando, e a mão? a mão teve que firmar-se e fez isso no tecido. Suave. Vermelho. Nele. Por vergonha ou desejo repentino quase me desfaço. Uma fisgada no peito enquanto a saliva desce meio areia na garganta. De repente, meus sonhos recorrentes de ser folha e voar entre os edifícios espionando performances que a madrugada esconde, atravessa que nem espada na mente.
O homem sorriu e pôs o aparelho de volta no bolso interno do casaco. Com os dedos foi subindo da ponta mais alargada da gravata até o pescoço e ficou ali brincando com o nó, o exibido, com aquela gravata descarada, bem na minha frente, gostando de ser tocada, então é isso, um pano desses nasceu pra ser rédea, é isso o que ele quer, uma ou duas voltas bem firmes nas minhas mãos, prontas pra doma. Pois ela ergueu o queixo, decidida, e sustentou aquele olhar de baio.
Desceu na sobreloja. De dois em dois degraus ganhou a rua. Oxigênio. Ao chegar em casa alisou a careca do marido, seu cão doméstico de unhas mal cortadas e patas mal acostumadas sobre a mesinha do centro. Uma coleção de latas de skol decorando o ambiente ao som do futebol.
Tomou um valium e deitou quietinha, só esperando que lhe invadisse o torpor de folha perdida. Mas, naquela noite, sobrevoando a cidade num grande tapete púrpura, mergulhou ao encontro do crepúsculo que incendiava o Cais. Nos galpões do Porto, espremia-se uma multidão, alheia às chamas vertidas do cálice de Tanat que somente ela provara. Aterrissou, então, na Caldas Júnior, enrolada no tapete púrpura para arderem juntos no fogo que consumia os quartos do Grande Hotel.
Pela manhã, rompeu o casulo de edredon. Renascida, feito borboleta.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
terça-feira, setembro 23, 2008
Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser uma ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.
Pablo Neruda
segunda-feira, setembro 22, 2008
Vida madrasta
A palavra "madrasta" vem do latim vulgar matrasta. Tem a ver com "mãe" (mater), mas no sentido de "mulher do pai", mãe que não é mãe, mulher que se tornou mãe "postiça" na ausência da mãe verdadeira.
A madrasta existia quando a mãe da criança falecia. A madrasta surgia na vida de um órfão como segunda mãe. O mesmo com relação ao padrasto.
Hoje, dado o número de separações conjugais, existem muitos órfãos com mães e pais vivos. A nova esposa é chamada de madrasta de maneira pouco apropriada. Outro expediente é chamar a madrasta de "tia", o padrasto de "tio", o que nada ajuda.
Antigos provérbios pintam a imagem perversa: "Madrasta e enteada sempre andam em batalha", "madrasta, diabo arrasta", "madrasta, o nome lhe basta". Quando alguém quer se queixar da vida diz que a vida lhe foi madrasta. E existirá também a morte madrasta? No caso de padrasto, há um provérbio interessante: "Mais vale pai ruim do que bom padrasto".
A noção é tão forte que virou adjetivo masculino, ampliando a idéia original: "mercado madrasto", "mundo madrasto", "futuro madrasto".
Nas histórias que contamos aos nossos filhos, a madrasta é malvada, irascível, vingativa. A mulher má por definição, a gargalhada sádica ressoando nos ouvidos, a vontade de perseguir. As madrastas cruéis fazem dos contos infantis verdadeiras histórias de terror.
A madrasta da Branca de Neve inveja a beleza da menina. Decide assassiná-la. A megera, para cúmulo do azar, é feiticeira e não tem um pingo de compaixão. Quando manda o caçador matar a menina no meio da floresta, exige que lhe traga como prova do trabalho realizado os pulmões e o fígado da vítima. Sua idéia é cozinhá-los e comê-los!
A madrasta da Cinderela explora a força de trabalho da pobre enteada e não lhe permite conhecer novas oportunidades. Para completar o quadro, a madrasta tem duas filhas que humilham sistematicamente a Gata Borralheira. É preciso que outra figura, a madrinha, venha em auxílio com os poderes mágicos do amor. Madrinha também substitui a mãe ausente, mas é substituta do bem.
Seria grande injustiça apresentar a madrasta como vilã de todas as histórias. Não é certamente um papel fácil. Requer generosidade. Generosidade significa gerar. Gerar um vínculo que não existia antes. Criar com a criança, com o jovem, com a jovem, uma relação de respeito... Para começar.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
domingo, setembro 21, 2008
Medo de caminhão
A mula do Zeca era muito boa mesmo, mas tinha uma coisa: não podia ver caminhão que empacava, tinha um baita medo de caminhão.
Numa viagem de Santa Rita a Ventania, Zeca ia tranqüilo em sua mula, num caminho de cavalos e carros de bois. Numa certa altura ela empacou, Zeca correu a espora na sua virilha e nada, não saía do lugar. Zeca se irritou:
- Que é isso... você só empaca quando vê caminhão e não tem caminhão nenhum nessa pastaria! Vamos lá – passava a espora na mula e ela nem se mexia, ficava bufando, de orelhas retesadas.
E o Zeca conta o que tinha acontecido:
- Apeei pra ver o que era, andei um pouco pelo caminho e vi um pedaço de jornal velho lá na frente. Peguei o jornal e descobri o que que era: a mula tinha visto lá de longe – vista boa danada! – uma fotografia dum caminhão no jornal! Ela só atravessou aquele pedaço depois que eu tirei o isqueiro do bolso e queimei o jornal!
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sábado, setembro 20, 2008
Do Tempo
No flanco das rochas
a marca de carneiros
emancipados
O giro das cirandas
travando a liberdade das esferas
E na eclosão das uvas, mães do vinho
a saudação telúrica dos pâmpanos
As aranhas tecendo mandalas
os relógios registrando ausências
enquanto a mariposa adeja sem rumo
tentando frustrar a arrogância dos ventos
num incontido descaso do amanhã
Cumprem-se as sentenças do Universo
e o Tempo se traja de compromissos.
Aymar Mendonça*
*poeta brasileiro
sexta-feira, setembro 19, 2008
A realidade da ilha
A costa estava debruada de palmeiras. Subiam erectas ou inclinadas, ou reclinadas contra a luz, e adejavam no ar a sua coma verde a uma altura de trinta metros. O terreno a seus pés era um talude coberto de uma ervagem áspera, retalhado a toda a largura pelas vicissitudes de troncos derrubados de mistura com cocos sorvados e rebentões de palmeira. Por trás de tudo isto havia a escuridão própria da floresta e a mancha branca da clareira. Rafael quedou-se, com uma das mãos apoiada num tronco pardo, e franziu mais uma vez os olhos contra a água rebrilhante. Lá fora, talvez a uma milha de distância, salseiros de espuma babujavam uma ilha de coral, e mais além o vasto mar era de um azul-ferrete. Dentro do arco irregular de coral, a lagoa era ainda como um lago das montanhas - azul de todos os matizes, verde-sombreado e púrpura. A praia entre o terraço de palmeiras e a água era uma fina aduela, aparentemente interminável, pois à esquerda de Rafael, as perspectivas do palmar, da praia e da água reduziam-se a um ponto de infinidade; e sempre, quase visível, havia o calor.
Saltou do terraço. A areia era grossa sob os sapatos pretos e o calor vergastou-o. Deu-se conta do peso da roupa: num sacão, vigorosamente, descalçou os sapatos e arrancou as peúgas com a liga de elástico num só movimento. Em seguida subiu para o terraço, despiu a camisa e quedou-se no meio dos cocos em forma de caveira, com as sombras verdes das palmeiras e da floresta a deslizarem-lhe sobre a pele. Desapertou a fivela do cinto em feitio de serpente, tirou as calças e as cuecas e ficou ali, nu, a mirar a praia e a água faiscantes.
Era já um rapazinho espigadote, doze anos e alguns meses, para ter perdido o estômago proeminente da infância, mas não tinha ainda a idade suficiente para a adolescência o ter tornado desajeitado. Poderia ver-se agora que talvez viesse a ser um pugilista, a julgar pela arca do peito e a largura dos ombros, mas havia uma suavidade na linha dos lábios e nos olhos que não prenunciava o demónio. Acariciava brandamente o tronco da palmeira e, forçado por fim a acreditar na realidade da ilha, tornou a rir deliciado e fez o pino. Pôs-se agilmente de pé, correu ao longo do areal, ajoelhou-se e atirou duplos punhados de areia contra o peito. Depois sentou-se e ficou a olhar para a água com os olhos brilhantes e exaltados.
William Golding
In “O Deus das Moscas” - Colecção Mil Folhas - 2002
quarta-feira, setembro 17, 2008
Contemplação de Apolo
Que sou eu para a poesia?
Um ser oblíquo
a contemplar o cais,
sem nunca ter partido?
Uma voz rouca
que já não canta;
que já não grita
contra a insensatez
de uma existência louca?
Um semideus;
que se consome;
que se consuma
a cada verso;
em cada verso;
sem o menor sentido?
Que sou eu para a Poesia;
senão este ruflar de asas
incendido nas palavras?
João Carlos Taveira*
*poeta brasileiro
No dia do seu 61º aniversário
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