How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quinta-feira, maio 01, 2008
O Nosso Mundo é Este ...
O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.
Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.
Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…
Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…
Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.
Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…
O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.
E se soubessem, dariam flor?
Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.
O nosso mundo é este….
( Mas há-de ser outro.)
José Gomes Ferreira
quarta-feira, abril 30, 2008
O Dólar Lama

Nunca tive muita simpatia pelos políticos chineses. Apesar de, como grande parte da juventude da minha geração, ter comprado e lido o famoso “livro vermelho” do Mao, nunca senti qualquer atracção pelo maoísmo nem pelos maoístas e pelas suas “revoluções a todo o vapor”, considero que a chamada “revolução cultural” – que de revolução só teve o nome – constituiu um período negro da história da China, com as suas dezenas de milhares de mortos e uma espécie de genocídio cultural e, para mim, a política chinesa actual reúne o pior de dois sistemas: um socialismo completamente abastardado na sua essência e o capitalismo mais selvagem.
Deixei, há muito, de ter qualquer tipo de reverência pelo Dalai Lama, pela sua obra escrita e pelo que ele representa. Não compreendo como é que se pode atribuir qualquer credibilidade a alguém que, enquanto exerceu o poder político, tratava mais de 90% do seu povo como uma mera mercadoria livremente transaccionável pelos detentores da riqueza. Também não percebo como se pôde atribuir o Nobel da Paz a um urubu com penas de pavão, mas como o mesmo prémio foi atribuído a um facínora como Henry Kissinger já tenho de considerar tudo normal, até um “porco a andar de bicicleta” ou um elefante a “saltitar levemente de nenúfar em nenúfar”.
Faz parte do conhecimento comum que, no Tibete, os “monges” têm travado, ao longo do tempo, ferozes batalhas pelo poder, atitude que não tem paralelo noutros países de similar cultura no sudeste asiático. Considerar como “lutadores pela liberdade” um bando de assassinos que pilhou e queimou centenas de estabelecimentos apenas porque pertenciam a pacatos cidadãos chineses, dos quais várias dezenas foram barbaramente chacinados pelo "hediondo crime" de serem chineses, equivale a considerar como “lutador pela liberdade” um Pinochet ou um Videla. Cada qual fica com os heróis que merece.
Não sei se o Tibete tem razões históricas para reclamar a sua independência ou não. Mas, mesmo aceitando que as tenha, apoiar o regresso ao poder teocrático do Dalai Lama seria o mesmo que pugnar pelo regresso da Europa ao tempo dos Estados Pontifícios, com as leis cívicas de cada país a serem substituídas pelo Direito Canónico e os Tribunais pela Inquisição.
Por tudo isso e mais algumas coisas, tenho evitado referir-me à questão do Tibete. Mas, no meio do alarido ao redor da tocha olímpica, acho que anda muita gente a querer fazer lavagens ao cérebro, em exercícios descarados de hipocrisia e de uma ainda mais descarada manipulação. Aqui está um exemplo claro do que tem sido o comportamento da maioria dos órgãos de comunicação ocidentais, mas há dezenas de outros, se nos dermos ao trabalho de procurar.
Como refere Simon Barnes na sua coluna do Times do passado dia 11, “talvez os ocidentais pensem que há qualquer coisa de errado com as pessoas chinesas em si mesmas”. Se for assim, acho mesmo que “perdemos o fio à meada”.

Nunca tive muita simpatia pelos políticos chineses. Apesar de, como grande parte da juventude da minha geração, ter comprado e lido o famoso “livro vermelho” do Mao, nunca senti qualquer atracção pelo maoísmo nem pelos maoístas e pelas suas “revoluções a todo o vapor”, considero que a chamada “revolução cultural” – que de revolução só teve o nome – constituiu um período negro da história da China, com as suas dezenas de milhares de mortos e uma espécie de genocídio cultural e, para mim, a política chinesa actual reúne o pior de dois sistemas: um socialismo completamente abastardado na sua essência e o capitalismo mais selvagem.
Deixei, há muito, de ter qualquer tipo de reverência pelo Dalai Lama, pela sua obra escrita e pelo que ele representa. Não compreendo como é que se pode atribuir qualquer credibilidade a alguém que, enquanto exerceu o poder político, tratava mais de 90% do seu povo como uma mera mercadoria livremente transaccionável pelos detentores da riqueza. Também não percebo como se pôde atribuir o Nobel da Paz a um urubu com penas de pavão, mas como o mesmo prémio foi atribuído a um facínora como Henry Kissinger já tenho de considerar tudo normal, até um “porco a andar de bicicleta” ou um elefante a “saltitar levemente de nenúfar em nenúfar”.
Faz parte do conhecimento comum que, no Tibete, os “monges” têm travado, ao longo do tempo, ferozes batalhas pelo poder, atitude que não tem paralelo noutros países de similar cultura no sudeste asiático. Considerar como “lutadores pela liberdade” um bando de assassinos que pilhou e queimou centenas de estabelecimentos apenas porque pertenciam a pacatos cidadãos chineses, dos quais várias dezenas foram barbaramente chacinados pelo "hediondo crime" de serem chineses, equivale a considerar como “lutador pela liberdade” um Pinochet ou um Videla. Cada qual fica com os heróis que merece.
Não sei se o Tibete tem razões históricas para reclamar a sua independência ou não. Mas, mesmo aceitando que as tenha, apoiar o regresso ao poder teocrático do Dalai Lama seria o mesmo que pugnar pelo regresso da Europa ao tempo dos Estados Pontifícios, com as leis cívicas de cada país a serem substituídas pelo Direito Canónico e os Tribunais pela Inquisição.
Por tudo isso e mais algumas coisas, tenho evitado referir-me à questão do Tibete. Mas, no meio do alarido ao redor da tocha olímpica, acho que anda muita gente a querer fazer lavagens ao cérebro, em exercícios descarados de hipocrisia e de uma ainda mais descarada manipulação. Aqui está um exemplo claro do que tem sido o comportamento da maioria dos órgãos de comunicação ocidentais, mas há dezenas de outros, se nos dermos ao trabalho de procurar.
Como refere Simon Barnes na sua coluna do Times do passado dia 11, “talvez os ocidentais pensem que há qualquer coisa de errado com as pessoas chinesas em si mesmas”. Se for assim, acho mesmo que “perdemos o fio à meada”.
terça-feira, abril 29, 2008
A opção militar

Guerra com a Síria? Paz com a Síria?
Uma grande operação militar contra o Hamas e a Faixa de Gaza? Um cessar fogo com o Hamas?
Os nossos meios de comunicação discutem estas questões de uma forma desapaixonada, como se fossem opções equivalentes. Como uma pessoa num salão de exposições a escolher entre dois carros. Este é bom e este também é bom. Então, qual se deve comprar?
E ninguém grita: a guerra é o cúmulo da estupidez!
A análise é do jornalista e activista israelita Uri Avnery e pode ser lida no original em inglês ou, para quem preferir, numa tradução para castelhano.

Guerra com a Síria? Paz com a Síria?
Uma grande operação militar contra o Hamas e a Faixa de Gaza? Um cessar fogo com o Hamas?
Os nossos meios de comunicação discutem estas questões de uma forma desapaixonada, como se fossem opções equivalentes. Como uma pessoa num salão de exposições a escolher entre dois carros. Este é bom e este também é bom. Então, qual se deve comprar?
E ninguém grita: a guerra é o cúmulo da estupidez!
A análise é do jornalista e activista israelita Uri Avnery e pode ser lida no original em inglês ou, para quem preferir, numa tradução para castelhano.
segunda-feira, abril 28, 2008
Prevenção e Segurança no Trabalho


Hoje é o Dia Mundial da Segurança e da Saúde no Trabalho, criado por Resolução da OIT (Organização Internacional do Trabalho) de 1996; este ano, entre nós, é celebrado como o Dia Nacional de Prevenção e Segurança no Trabalho.
Apesar das medidas que têm sido tomadas em muitos países do mundo, os acidentes de trabalho e os novos casos de doenças profissionais não param de aumentar, estimando-se que ocorram anualmente, em todo o mundo, 270 milhões de acidentes de trabalho (não mortais) e 160 milhões de novos casos de doenças profissionais.
É imperioso que todos - entidades empregadoras e trabalhadores - tomem consciência da dimensão do problema e assumam uma atitude e um comportamento adequados de PREVENÇÃO e SEGURANÇA, com vista à minimização permanente dos riscos nos locais de trabalho.
O uso de capacetes protectores em várias actividades de risco, desde as minas à construção civil, de meios de segurança por parte de quem tem de subir a andaimes, telhados ou terraços, de óculos adequados para quem trabalha em ambientes propícios a danos oculares (soldadores, rebarbadores, etc.), de máscaras por parte de quem trabalha com produtos que emanam gases, fumos ou poeiras prejudiciais à saúde (pintores de automóveis ou outros, cortadores de relva, varredores de chãos, recolectores de lixo e outros), de ventilação eficaz, de protectores para os ouvidos em situações de ruído assinalável, de luvas e calçado próprio, são tudo medidas que podem fazer diminuir a “factura” dos Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais.
Todos nós, mesmo aqueles que trabalham em profissões de menor risco, podemos contribuir com o nosso esforço para um mundo mais são, adoptando posturas corporais correctas, eliminando ruídos desnecessários, mantendo limpos os locais de trabalho e os espaços públicos que utilizamos (não esquecendo que os donos de animais domésticos são obrigados por lei a apanhar os excrementos dos seus bichinhos, o que a grande maioria não faz).
Devemos, também, ter sempre presente que o Seguro de Acidentes de Trabalho é obrigatório e que, embora não restitua um membro amputado ou dilacerado, pagas as despesas dos tratamentos, proporciona a reabilitação até onde ela for possível e garante pensões de reforma. Se todos, ao adjudicarmos uma obra no nosso condomínio ou na nossa residência, exigirmos a exibição de uma apólice válida, já estaremos a dar um grande passo em frente.


Hoje é o Dia Mundial da Segurança e da Saúde no Trabalho, criado por Resolução da OIT (Organização Internacional do Trabalho) de 1996; este ano, entre nós, é celebrado como o Dia Nacional de Prevenção e Segurança no Trabalho.
Apesar das medidas que têm sido tomadas em muitos países do mundo, os acidentes de trabalho e os novos casos de doenças profissionais não param de aumentar, estimando-se que ocorram anualmente, em todo o mundo, 270 milhões de acidentes de trabalho (não mortais) e 160 milhões de novos casos de doenças profissionais.
É imperioso que todos - entidades empregadoras e trabalhadores - tomem consciência da dimensão do problema e assumam uma atitude e um comportamento adequados de PREVENÇÃO e SEGURANÇA, com vista à minimização permanente dos riscos nos locais de trabalho.
O uso de capacetes protectores em várias actividades de risco, desde as minas à construção civil, de meios de segurança por parte de quem tem de subir a andaimes, telhados ou terraços, de óculos adequados para quem trabalha em ambientes propícios a danos oculares (soldadores, rebarbadores, etc.), de máscaras por parte de quem trabalha com produtos que emanam gases, fumos ou poeiras prejudiciais à saúde (pintores de automóveis ou outros, cortadores de relva, varredores de chãos, recolectores de lixo e outros), de ventilação eficaz, de protectores para os ouvidos em situações de ruído assinalável, de luvas e calçado próprio, são tudo medidas que podem fazer diminuir a “factura” dos Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais.
Todos nós, mesmo aqueles que trabalham em profissões de menor risco, podemos contribuir com o nosso esforço para um mundo mais são, adoptando posturas corporais correctas, eliminando ruídos desnecessários, mantendo limpos os locais de trabalho e os espaços públicos que utilizamos (não esquecendo que os donos de animais domésticos são obrigados por lei a apanhar os excrementos dos seus bichinhos, o que a grande maioria não faz).
Devemos, também, ter sempre presente que o Seguro de Acidentes de Trabalho é obrigatório e que, embora não restitua um membro amputado ou dilacerado, pagas as despesas dos tratamentos, proporciona a reabilitação até onde ela for possível e garante pensões de reforma. Se todos, ao adjudicarmos uma obra no nosso condomínio ou na nossa residência, exigirmos a exibição de uma apólice válida, já estaremos a dar um grande passo em frente.
domingo, abril 27, 2008
Pequena fábula imoral
Era uma vez nos Estados Unidos, país da abundância, onde bondosos filantropos acorreram em auxílio dos pobres (não demasiado, mas bastante pobres, ainda assim), para lhes oferecer ajuda para comprarem uma casa. Esses benfeitores emprestavam dinheiro, quase sem contrapartidas, àqueles que o não tinham. Os pobres apenas teriam que reembolsá-lo em suaves prestações, da forma e no momento em que pudessem, ao mesmo tempo que desfrutavam, de imediato, da sua nova casa e do seu jardinzinho, recompensa inesperada após uma longa via de trabalho.
Mas tudo era demasiado bonito para ser verdade! E o generoso doador não era mais do que um gatuno.
Esta fábula moderna, da autoria do jornalista francês Denis Sieffert, pode ser lida na íntegra, aqui.
sábado, abril 26, 2008
Pergunta
Será realmente a face do universo
a face da Medusa,
esta geral destruição confusa,
este criar perverso,
ou será a máscara, álgida e estrelada,
onde os cometas passam,
turva de treva, rútila de nada,
e onde olhos se espedaçam?
Alexei Bueno
Feliz 45º aniversário, Alexei!
sexta-feira, abril 25, 2008
O Futuro
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
José Carlos Ary dos Santos
quinta-feira, abril 24, 2008
Não (me) importo
Não me importo de aceitar o desafio
Não me importo de não saber que fazer
Não me importo se me sai ao arrepio
Não me importo se me fizer entender
Não me importo pois tenho amigos de Abril
Não me importo dos cadáveres adiados
Não me importo somos não sei quantos mil
Não me importo de ter milhões de aliados
Não me importo de passar a amigos meus
Sejam crentes ou agnósticos ou ateus…
Jardim de Luz
CANTIGUEIRO
Coisa de Vidas
O VENTO CONTRA A CARA
ATREVER(ME)OUTRA VEZ
Corpos sob Ocupação
Carne, carnal, corpos… Corpos humanos. Corpos masculinos, corpos femininos… corpos ocupados, carne ocupada, conhecimento carnal da Ocupação.
O Corpo, a Conduta, o Veículo…
Bombardeia, arresta, detém, encarcera, acorrenta: constringe o espaço. Depois, dirige o teu ataque pessoal contra o “outro”, essa “besta vivente” - espanca, açoita, golpeia, fustiga, fere, queima, rasga, esmaga, sodomiza, viola, mija-lhe, defeca em cima dele, dispara, mata: o Corpo.
O corpo. O ponto Central. Carne da carne. Escava no pus da Carne…
Testemunho lancinante da poetisa e sobrevivente iraquiana Layla Anwar, para ler no seu blogue An Arab Woman Blues - Reflections in a sealed bottle.... Este e todos os outros.
quarta-feira, abril 23, 2008
Requiem por um povo desprezado
Por uma daquelas coincidências em que a história não é fértil, William Shakespeare nasceu e faleceu no mesmo dia do mesmo mês.
Com efeito, quando nasceu em 23 de Abril de 1564, vigorava em todo o mundo ocidental o calendário juliano; como o calendário gregoriano foi promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582, apenas alguns países católicos o adoptaram de imediato, enquanto a Grã-Bretanha e outros países protestantes começaram a utilizá-lo só no século XVIII. A Grã-Bretanha adoptou-o em 1752, pelo que o grande escritor faleceu em 23 de Abril de 1616, segundo o calendário então em vigor no seu país.
Também por uma coincidência, mas desta vez uma daquelas em que os nossos políticos são useiros e vezeiros, o dia 23 de Abril de 2008 ficará na história cá do burgo como o dia do desprezo pela capacidade intelectual de todo um povo, inapto para entender os meandros de uma Constituição morta e ressuscitada com outro nome. E não venham dizer-me que a nossa Constituição também não foi referendada (e não podia sê-lo, pois é ela que consagra o estatuto do referendo), pois quem podia e quis votar em 1975 (e foram muitos mais do que actualmente é hábito), fizeram-no exclusivamente para escolher quem iria elaborar e aprovar a Constituição.
Ser ou não ser respeitado, ser ou não ser ouvido, ser ou não ser um povo livre, ser ou não ser..., eis a questão:
Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre em espírito viver
Sofrendo os golpes e as frechadas da afrontosa sorte
Ou armas tomar contra um mar de penas.
Dar-lhes um fim: morrer, dormir...
Só isso e, por tal sono, dizer que acabaram
Penas do coração e os milhões de choques naturais
Herdados com a carne? Será final
A desejar ardentemente... Morrer, dormir;
Dormir, sonhar talvez... Mas há um contra,
Pois nesse mortal sonho outros podem vir,
Libertos já do mortal abraço da vida...
Deve ser um intervalo... É o respeito
Que de tal longa vida faz calamidade
Pois quem pode suportar do tempo azorrague e chufas,
Os erros do tirano, ultrajes do orgulho,
As angústias de amor desprezado, a lei tardia,
A insolência das repartições e o coice destinado
Pelos inúteis aos meritórios pacientes?
Para quê se pode aquietar-se, acomodar-se,
Com um simples punhal? Quem suportará,
Suando e resmungando, vida de fadigas
Senão quem teme o horror de qualquer coisa após a morte,
País desconhecido, a descobrir, cujas fronteiras
Não há quem volte a atravessar e nos intriga
E nos faz continuar a suportar os nossos males
Em vez de fugir para outros que desconhecemos?...
Assim a todos nos faz covardes nossa consciência,
Assim o grito natural do ânimo mais resoluto
Se afoga na pálida sombra do pensar
E as empresas de mor peso e alto fim,
Tal vendo mudam o seu rumo errando
E nada conseguindo! Sossega agora...
Ofélia gentil! Ninfa, em tuas orações
Sejam sempre lembrados meus pecados.
(Hamlet - tradução de José Blanc de Portugal, Editorial Presença, 3ª. ed., 1997)*
*Pedido “emprestado” aqui
terça-feira, abril 22, 2008
A arma decisiva da elite dominante


“…Só há duas formas possíveis de evitarmos ter um mundo de 10 mil milhões de pessoas. Ou a actual taxa de natalidade desce rapidamente, ou a actual taxa de mortalidade tem de subir. Não há outra forma. Há, claro, muitas maneiras de subir as taxas de mortalidade. Numa era termonuclear, a guerra pode consegui-lo de forma rápida e decisiva. A fome e as doenças são a tradicional forma da natureza regular o crescimento populacional, e nenhuma delas desapareceu de cena… Em termos simples: o crescimento excessivo da população é o maior obstáculo ao avanço económico e social das sociedades em vias de desenvolvimento.” - Discurso de Robert McNamara, perante o Clube de Roma, 2 de Outubro de 1979
“A sobrepopulação e o rápido crescimento demográfico do México são, hoje em dia, uma das maiores ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. A não ser que a fronteira EUA-México seja selada, ficaremos com mexicanos até ao pescoço para os quais não arranjamos empregos.” - Robert McNamara, na época, presidente do Banco Mundial, 19 de Março de 1982
As propostas genocidas veladas de McNamara foram feitas há trinta anos, dando eco ao medo das ‘grandes massas’ por parte de ricos e privilegiados quando ‘sobrepopulação’ era o tema de que se falava. Por isso não mudou muita coisa, pois não? Estamos mais uma vez a ouvir as mesmas mensagens serem difundidas pelas elites dominantes e pelos seus profissionais da persuasão, os 'spin doctors'. Os prantos de medo de McNamara de estar cheio de mexicanos até ao pescoço são comparáveis ao que se passa na Europa, só que agora são africanos.
A análise de William Bowles, que pode ser lida no original ou em tradução portuguesa de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
“A sobrepopulação e o rápido crescimento demográfico do México são, hoje em dia, uma das maiores ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. A não ser que a fronteira EUA-México seja selada, ficaremos com mexicanos até ao pescoço para os quais não arranjamos empregos.” - Robert McNamara, na época, presidente do Banco Mundial, 19 de Março de 1982
As propostas genocidas veladas de McNamara foram feitas há trinta anos, dando eco ao medo das ‘grandes massas’ por parte de ricos e privilegiados quando ‘sobrepopulação’ era o tema de que se falava. Por isso não mudou muita coisa, pois não? Estamos mais uma vez a ouvir as mesmas mensagens serem difundidas pelas elites dominantes e pelos seus profissionais da persuasão, os 'spin doctors'. Os prantos de medo de McNamara de estar cheio de mexicanos até ao pescoço são comparáveis ao que se passa na Europa, só que agora são africanos.
A análise de William Bowles, que pode ser lida no original ou em tradução portuguesa de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
segunda-feira, abril 21, 2008
Serviços não confiáveis – reclamação
Hartford, 12 de Fevereiro de 1891.
Caros senhores,
Haverá dia em que os senhores me farão atingir as raias da irritação graças à maldita e cabeçuda forma de interromper o fornecimento do seu maldito gás sem qualquer aviso aos malditos usuários. Por um triz, a metade dos moradores desta casa não se asfixiou várias vezes na cama e a outra metade não explodiu devido a esse idiota (para não dizer criminoso) hábito dos senhores.
Hoje, isso ocorreu mais uma vez. Os senhores não têm um telefone?
Seu,
S. L. Clemens (Mark Twain)
Alcoólicas
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas - I)
Hilda Hilst*
*Poetisa brasileira
domingo, abril 20, 2008
Quem é o relativista moral?
ou
A cruz e a espada

Eu sou guiado por Deus para uma missão. Deus dir-me-ia : “George, vai e combate aqueles terroristas no Afeganistão”. E eu fui. E depois Deus dir-me-ia: “George, vai e acaba com a tirania no Iraque”. E eu fui.
Bush em Sharm el-Sheikh, Agosto de 2003
Eu acredito que Deus fala através de mim. Sem isso, eu não poderia fazer o meu trabalho.
Bush na visita à comunidade Amish de Lancarter Coury, Pensilvânia, 9 de Julho de 2004
Eu penso que é importante que as pessoas entendam que uma cultura de vida é no nosso interesse nacional.
Bush em entrevista televiviva à EWTN, 12 de Abril de 2008
Nós damo-vos as boas vindas com as antigas palavras recomendadas por Santo Agostinho: Pax tecum.
Bush nas boas vindas a Bento XVI, 15 de Abril de 2008
Num mundo onde alguns invocam o nome de Deus para justificar actos de terrorismo, assassínio e ódio, nós precisamos da vossa mensagem de que Deus é amos.
Idem, ibidem
Num mundo em que alguns já não acreditam que podemos distinguir entre certo e errado, nós precisamos da vossa mensagem para rejeitar esta ditadura do relativismo.
Bush na Casa Branca, no 81º aniversário do Papa, 16 de Abril de 2008
A busca da América pela liberdade tem sido guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida social e política estão intimamente ligados a uma ordem moral baseada na autoridade de Deus, o Criador.
Bento XVI na Casa Branca, 16 de Abril de 2008
Deve ser por isso que os Founding Fathers estabeleceram a separação entre a religião e o estado.
lino no the sound of silence, 20 de Abril de 2008
ou
A cruz e a espada

Eu sou guiado por Deus para uma missão. Deus dir-me-ia : “George, vai e combate aqueles terroristas no Afeganistão”. E eu fui. E depois Deus dir-me-ia: “George, vai e acaba com a tirania no Iraque”. E eu fui.
Bush em Sharm el-Sheikh, Agosto de 2003
Eu acredito que Deus fala através de mim. Sem isso, eu não poderia fazer o meu trabalho.
Bush na visita à comunidade Amish de Lancarter Coury, Pensilvânia, 9 de Julho de 2004
Eu penso que é importante que as pessoas entendam que uma cultura de vida é no nosso interesse nacional.
Bush em entrevista televiviva à EWTN, 12 de Abril de 2008
Nós damo-vos as boas vindas com as antigas palavras recomendadas por Santo Agostinho: Pax tecum.
Bush nas boas vindas a Bento XVI, 15 de Abril de 2008
Num mundo onde alguns invocam o nome de Deus para justificar actos de terrorismo, assassínio e ódio, nós precisamos da vossa mensagem de que Deus é amos.
Idem, ibidem
Num mundo em que alguns já não acreditam que podemos distinguir entre certo e errado, nós precisamos da vossa mensagem para rejeitar esta ditadura do relativismo.
Bush na Casa Branca, no 81º aniversário do Papa, 16 de Abril de 2008
A busca da América pela liberdade tem sido guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida social e política estão intimamente ligados a uma ordem moral baseada na autoridade de Deus, o Criador.
Bento XVI na Casa Branca, 16 de Abril de 2008
Deve ser por isso que os Founding Fathers estabeleceram a separação entre a religião e o estado.
lino no the sound of silence, 20 de Abril de 2008
sábado, abril 19, 2008
O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira
sexta-feira, abril 18, 2008
Ingenuidades...
Pensava eu, na minha ingenuidade quase sexagenária, que as farmacêuticas (pelo menos as grandes) estavam sujeitas a um código deontológico bastante sólido, considerando o risco que os seus produtos representam para a saúde.
Imaginava eu, na minha candura martirizada por décadas de atentados à minha boa fé, que a FDA, apesar das frequentes queixas de falta de meios, exercia um controlo eficaz sobre os produtores de medicamentos da, até ver, maior potência económica mundial.
Estava eu convencido, pois, de que um medicamento produzido por uma multinacional estado-unidense ou, ao menos, sob a sua supervisão técnica, era relativamente seguro, ou pelo menos mais seguro, do que os produzidos por um qualquer laboratório da África do Sul, da China ou da Índia.
Estava, mas é mais prudente deixar de estar.
Primeiro foi a reputação da Lilly que andou pelas ruas da amargura, com a denúncia de que o Prozac, também conhecido como “pílula da felicidade”, não tinha mais efeitos benéficos do que um vulgar placebo.
Agora é a integridade da Merck que é posta em causa. Esta multinacional farmacêutica é produtora de vários medicamentos líderes de vendas, entre os quais o Vioxx, medicamento largamente utilizado para aliviar as dores da artrite devido a ser inofensivo para o estômago do doente, que teve de retirar do mercado em 2004, após o aparecimento de provas que o ligavam a ataques cardíacos. No último Outono, a Merck acordou pagar o montante de quatro mil e oitocentos e cinquenta milhões de dólares para pôr termo a dezenas de milhares de processos intentados por antigos pacientes ou pelas suas famílias.
A edição de anteontem do JAMA (The Journal of the American Medical Association), um jornal médico líder, publicou um estudo, liderado por dois especialistas que foram peritos da acusação em vários processos relacionados com o Vioxx, no qual se revela que a Merck redigiu dezenas de estudos de pesquisa para este medicamento, conseguindo depois obter o reconhecimento e a assinatura de médicos prestigiados antes de os relatórios serem publicados.
O artigo, baseado em documentos vindos a lume durante os processos e aos quais os dois especialistas tiveram livre acesso como peritos, fornece um detalhado panorama da prática de “escrita fantasma” nos artigos de investigação médica que depois são publicados em jornais académicos. A “escrita fantasma” (ghostwriting em inglês), consiste em alguém, sem credenciais científicas adequadas, elaborar o rascunho de um artigo de investigação, o qual depois é subscrito por especialistas que pouco ou nenhum contributo deram para o mesmo. No caso das farmacêuticas, os “redactores fantasma” são empregados das empresas.
Parece que a prática está bastante disseminada no meio farmacêutico, o que, para além de provocar sérios danos à credibilidade da investigação científica como um todo, coloca em causa a vida de centenas de milhões de doentes em todo o mundo, o que é muito mais grave. Embora alguns dos tais médicos prestigiados já tenham vindo dizer que as afirmações são falsas, esperemos que a verdade seja devidamente apurada e, se for caso disso, os responsáveis sejam exemplarmente punidos. A justiça estado-unidense é algo complexa mas, em situações semelhantes, não costuma brincar em serviço. Basta ver os anos de prisão a que foram condenados os responsáveis pela falência da Enron.
Informação mais pormenorizada pode ser lida aqui, onde também se encontra a ligação para o estudo publicado no JAMA.
O Colocador de Pronomes
Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.
Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática.
E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática.
Mártir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização.
Vale a pena despender alguns minutos para ler na íntegra este saboroso texto de Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo, entre muitas outras coisa boas.
quinta-feira, abril 17, 2008
Massacre de Eldorado dos Carajás
Foi no dia 17 de Abril de 1996 que a Polícia Militar do Estado do Pará assassinou 19 camponeses do Movimento dos Sem Terra, no município de Eldorado dos Carajás, no sul do Estado do Pará, no Brasil.
A partir de então, o dia 17 de Abril de cada ano converteu-se numa jornada mundial de luta camponesa. A propósito da jornada deste ano, Marina dos Santos, 33 anos, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, organização a que se juntou quando tinha apenas 15 anos, ao integrar-se, com o seu pai, num acampamento do MST, deu uma entrevista exclusiva ao jornal digital Adital, que pode ser lida na íntegra aqui.
quarta-feira, abril 16, 2008
O que (não) é o jantar?
Alguns especialistas vinham há muito tempo a chamar a atenção para o problema, mas os poderosos apelidaram-nos de fanáticos, encolheram os ombros e assobiaram para o lado.
O contínuo aumento do preço dos cereais já tinha provocado uma greve em Itália por causa do preço da pasta, motins no México contra o aumento do preço do milho, base da tortilha, o prato tradicional dos mais pobres e protestos em vários países - Guiné, Mauritânia, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iémen, entre outros - mas a União Europeia e os Estados Unidos continuaram a subsidiar alegremente as culturas destinadas aos biocombustíveis, enquanto em países em desenvolvimento se assistia à destruição da floresta para culturas intensivas de soja, palma oleaginosa ou cana de açúcar, todas destinadas à produção de combustíveis.
Na última semana de Março tinha sido o alarme mundial por causa do aumento exponencial do preço do arroz, com grandes produtores (Vietname, Índia, Egipto, Cambodja) a limitarem ou interromperem as suas exportações com vista a salvaguardarem algumas reservas para os seus cidadãos.
Depois surgiram os motins em vários países, quer por causa dos cereais quer por causa dos óleos alimentares, da Indonésia ao Egipto, passando pelo Haiti, onde se verificaram várias mortes e houve notícia de pessoas que apenas tinham para comer biscoitos feitos de terra e óleo alimentar. A China decretou o congelamento dos preços dos óleos de cozinhar, dos cereais, da carne, do leite e dos ovos, e a presidente das Filipinas deu ordens aos investigadores governamentais para localizarem os açambarcadores, a fim de serem punidos.
Este fim de semana foi a reunião dos ministros das finanças dos países ricos, com os dirigentes do Banco Mundial e do FMI a acordarem para a dura realidade que é a fome que grassa por todo o mundo e põe ainda mais em risco o desenvolvimento físico e intelectual de centenas de milhões de crianças.
Ontem, sessenta países, apoiados pelo Banco Mundial e pela maioria das agências da ONU, apelaram a mudanças radicais na agricultura mundial para evitar uma crescente escassez de comida em algumas regiões, a escalada dos preços e o aumento dos problemas ambientais. O Banco Mundial estima que pelo menos 33 países estão actualmente em risco de desestabilização política e de conflitos internos devido à inflação do preço da comida.
No fim do século passado considerava-se que, se nada fosse feito, seria inevitável uma guerra global por causa da água: que se saiba, ninguém se incomodou muito com isso, talvez porque os decisores, nessa altura, já não andarão por cá. Confrontados com uma grave crise financeira a nível mundial, serão os dirigentes capazes de fazer face a uma crise muito mais grave, que é a fome de quase metade da humanidade?
Nota: o título desta posta não pretende fazer humor negro. Cá em casa, na sequência do acidente sofrido pela minha companheira em Agosto passado e dando cumprimento a anteriores recomendações médicas, o jantar passou a ser sopa, um copo de tinto e fruta.
Para já, apenas por opção porque, felizmente, ainda faço parte da metade da humanidade que pode ter várias refeições quentes por dia.
O contínuo aumento do preço dos cereais já tinha provocado uma greve em Itália por causa do preço da pasta, motins no México contra o aumento do preço do milho, base da tortilha, o prato tradicional dos mais pobres e protestos em vários países - Guiné, Mauritânia, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iémen, entre outros - mas a União Europeia e os Estados Unidos continuaram a subsidiar alegremente as culturas destinadas aos biocombustíveis, enquanto em países em desenvolvimento se assistia à destruição da floresta para culturas intensivas de soja, palma oleaginosa ou cana de açúcar, todas destinadas à produção de combustíveis.
Na última semana de Março tinha sido o alarme mundial por causa do aumento exponencial do preço do arroz, com grandes produtores (Vietname, Índia, Egipto, Cambodja) a limitarem ou interromperem as suas exportações com vista a salvaguardarem algumas reservas para os seus cidadãos.
Depois surgiram os motins em vários países, quer por causa dos cereais quer por causa dos óleos alimentares, da Indonésia ao Egipto, passando pelo Haiti, onde se verificaram várias mortes e houve notícia de pessoas que apenas tinham para comer biscoitos feitos de terra e óleo alimentar. A China decretou o congelamento dos preços dos óleos de cozinhar, dos cereais, da carne, do leite e dos ovos, e a presidente das Filipinas deu ordens aos investigadores governamentais para localizarem os açambarcadores, a fim de serem punidos.
Este fim de semana foi a reunião dos ministros das finanças dos países ricos, com os dirigentes do Banco Mundial e do FMI a acordarem para a dura realidade que é a fome que grassa por todo o mundo e põe ainda mais em risco o desenvolvimento físico e intelectual de centenas de milhões de crianças.
Ontem, sessenta países, apoiados pelo Banco Mundial e pela maioria das agências da ONU, apelaram a mudanças radicais na agricultura mundial para evitar uma crescente escassez de comida em algumas regiões, a escalada dos preços e o aumento dos problemas ambientais. O Banco Mundial estima que pelo menos 33 países estão actualmente em risco de desestabilização política e de conflitos internos devido à inflação do preço da comida.
No fim do século passado considerava-se que, se nada fosse feito, seria inevitável uma guerra global por causa da água: que se saiba, ninguém se incomodou muito com isso, talvez porque os decisores, nessa altura, já não andarão por cá. Confrontados com uma grave crise financeira a nível mundial, serão os dirigentes capazes de fazer face a uma crise muito mais grave, que é a fome de quase metade da humanidade?
Nota: o título desta posta não pretende fazer humor negro. Cá em casa, na sequência do acidente sofrido pela minha companheira em Agosto passado e dando cumprimento a anteriores recomendações médicas, o jantar passou a ser sopa, um copo de tinto e fruta.
Para já, apenas por opção porque, felizmente, ainda faço parte da metade da humanidade que pode ter várias refeições quentes por dia.
terça-feira, abril 15, 2008
Twilight Zone / Taxi Driver
Isto aconteceu depois do carro ter sido oficialmente confiscado ao seu dono pelas forças de segurança israelitas, que o transferiram para a custódia de uma base militar. Isto passou-se depois de soldados israelitas terem disparado, sem qualquer motivo, contra a viatura, quando os membros de uma família palestina - incluindo um bebé de três meses - viajavam no seu interior, de regresso de um encontro familiar.
Esta é mais uma cena arrepiante da vida quotidiana nos territórios ocupados, contada por Gideon Levy, jornalista israelita e antigo porta-voz de Shimon Peres, nas páginas do diário Haaretz. Para quem preferir, tem aqui uma tradução para castelhano.
segunda-feira, abril 14, 2008
Dinheiro, poder e sexo
É velha como a história conhecida da espécie humana a relação entre dinheiro, poder e sexo.
Com efeito, já na fase primitiva dos nossos antepassados recoletores e caçadores, os homens competiam entre si para ver quem recolhia a maior quantidade de “dinheiro” da altura (frutos e presas) para assim terem mais influência e melhor conquistarem as mulheres da tribo.
Em fases civilizacionais mais avançadas, a posse de mais meios de troca (dinheiro ou mercadorias, incluindo os escravos e os servos da gleba) e, portanto, de mais riqueza, conduzia iniludivelmente a mais poder e ao desfrute de mais sexo. E na sociedade contemporânea, tal realidade mantêm-se.
Recentemente, um estudo científico publicado no jornal, sujeito a revisão por pares, NeuroReport (acesso limitado a assinantes), no passado dia 26 de Março, concluiu que o sexo e o risco financeiro estão ligados à mesma área cerebral.
Com efeito, imagens de ressonância magnética cerebrais revelaram que, quando a homens jovens eram mostradas imagens eróticas, eles eram mais propensos a fazer especulações financeiras mais ousadas do que quando lhes eram mostradas imagens aterradoras – como cobras – ou neutrais – como, por exemplo, um agrafador, e que as imagens excitantes iluminavam a mesma parte do cérebro que brilha quando se assumem riscos financeiros – o nucleus accumbens, que se situa próximo da base do cérebro e que tem um papel central naquilo que cada um sente como prazer.
O estudo, conduzido por Camelia Kuhnen, professora de finanças na Northwestern University, em conjunto com o psicólogo de Stanford, Brian Knutson, e outros cientistas, foi realizado na Stanford University e envolveu 15 jovens heterossexuais do sexo masculino que fizeram mais de 50 apostas cada um durante as ressonâncias magnéticas. O facto de apenas terem sido observados homens ter-se-á devido a uma maior dificuldade em encontrar imagens eróticas que “entusiasmassem” tantas mulheres heterossexuais diferentes como acontece com os homens heterossexuais.
Apesar da amostra algo reduzida, o estudo veio confirmar resultados anteriores.
De qualquer modo, não deixa de ter piada imaginar que o Sílvio Berlusconi terá construído o seu império ao ver filmes pornográficos da Cicciolina, que o grande especulador George Soros terá feito fortuna a acompanhar as aventuras eróticas de Martina Navratilova com Judy Nelson, ou que Warren Buffet terá acumulado a sua imensa fortuna olhando para as fotografias ousadas de Marilyn Monroe. Já os novos bilionários do Google, do YouTube, do MySpace ou do Facebook, provavelmente tiveram as suas brilhantes ideias a verem e reverem o cruzar de pernas da Sharon Stone em Instinto Fatal.
Dos portugueses, mais vale não fazer palpites. O único que ouso fazer é sobre o Berardo que, muito provavelmente, comprou em primeiro lugar as telas mais ousadas da sua colecção com os primeiros trocados, enriquecendo, depois, a olhar para elas.
domingo, abril 13, 2008
O Significado das Palavras
Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.
Samuel Beckett, in 'Textos para Nada'
Retirado daqui
sábado, abril 12, 2008
O Empolar dos Conflitos
A maior parte dos conflitos são forjados, baseados em falsas suspeições ou exageram coisas sem importância. Umas vezes, a ira vem até nós, outras somos nós que vamos ao seu encontro. Nunca devemos invocar a ira e, mesmo quando ela surge, devemos afastá-la. Ninguém diz para si mesmo: «Já fiz ou poderei vir a fazer o que me está agora a causar ira»; ninguém tem em conta a intenção do autor, mas apenas o acto em si. Ora, é o autor que se deve ter em conta: teve ele intenção de fazer o que fez ou fê-lo sem querer, foi coagido ou estava enganado, seguiu o ódio ou procurou lucrar com o seu acto, fê-lo por sua conta ou prestou um serviço a alguém? A idade de quem errou e a sua situação devem ser ponderadas, para que saibamos se devemos suportar e perdoar a sua ofensa com benevolência ou com humildade.
Coloquemo-nos no lugar daquele que nos suscita ira: então, percebemos que o que nos torna iracundos é uma má avaliação de nós mesmos e não queremos sofrer algo que nós próprios queremos fazer. Ninguém faz uma pausa: ora, a pausa é o maior remédio para a ira, ela permite que o fervor inicial diminua e que a névoa que obscurece a mente se dissipe ou se torne menos densa. Alguns impulsos que te agitavam por uma hora, não direi por um dia, desaparecerão totalmente; se sentirmos que este recurso não sortiu efeito, isso prova, pelo menos, que já estamos a obedecer à razão e não à ira. Cada vez que quiseres conhecer alguma coisa, confia-a ao tempo: é difícil discernir algo que esteja em movimento.
Séneca, in 'Da Ira'
Retirado daqui
sexta-feira, abril 11, 2008
“Camisinhas” da Amazónia
Vinte anos após o a assassinato de Chico Mendes, Xapuri, a cidade do estado Do Acre, bem no coração da Amazónia, que viu o Chico nascer, crescer, lutar e morrer à mão de fazendeiros, voltou a ser notícia, desta vez por razões bem melhores.
Embora “fazer amor” possa não parecer a forma mais óbvia de salvar a maior floresta tropical do planeta – e de combater a ameaça da SIDA, de acordo com o governo brasileiro pode ser uma arma efectiva na batalha para silenciar as motoserras na Amazónia.
Na tarde da passada segunda feira, 7 de Abril e Dia Mundial da Saúde, a ministra do ambiente, Marina Silva, acompanhada de representantes do Ministério da Saúde, do Governador do Estado, de Senadores e de todo um rol de individualidades e activistas, inaugurou a fábrica Natex, num investimento de cerca 31 milhões de reais, para uma fábrica de preservativos de látex de seringueiras nativas de Xapuri.
O facto de o método de extracção do látex ser manual permitirá o desenvolvimento sustentável da floresta, gerando 150 empregos directos e envolvendo cerca a 550 famílias da Reserva Extrativista Chico Mendes, a quem proporcionará um rendimento mensal superior a 400 reais (acima do salário mínimo do Brasil).
Além da protecção da floresta tropical, o governo espera que a fábrica, com capacidade de produção de 100 milhões de unidades por ano, reduza a dependência do Brasil relativamente aos preservativos importados da Ásia, já que em 2007 houve uma distribuição gratuita de 120 milhões de unidades como parte de uma intensa campanha para diminuir as taxas de infecção com o vírus da SIDA.
É caso para dizer: sexo seguro, Amazónia com futuro!
quinta-feira, abril 10, 2008
Amai-vos...
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.
Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,
mas deixai
cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.
Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.
E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.
Gibran Kahlil Gibran
quarta-feira, abril 09, 2008
9 de Abril
Há cinco anos, muitos de nós acordámos para ver a estátua de Saddam Hussein, em Bagdade, a ser derrubada. Os média devoraram essa imagem. Segundo afirmou George Bush, foi um feito comparável à queda do muro de Berlim. O Iraque era livre, escreveram ou disseram a maior parte dos especialistas. Os Estados Unidos tinham demonstrando que os seus detractores estavam errados. Bagdade tinha caído com uma perda irrisória de vidas estado-unidenses. Um Iraque democrático acabava de aparecer no horizonte.
O que viram não era real. A estátua de Saddam no foi demolida pelos iraquianos. O evento foi organizado e bem ensaiado pelos militares dos Estados Unidos.
A análise é de Malcom Lagauche, escritor e jornalista estado-unidense.
terça-feira, abril 08, 2008
In Memoriam

(Imagem: Pablo Picasso - A morte do toureiro- 1933)

(Imagem: Pablo Picasso - A morte do toureiro- 1933)
Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte.
Não, a pintura não é feita para decorar os apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.
Pablo Picasso*
*no 35º aniversário da sua morte
Não, a pintura não é feita para decorar os apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.
Pablo Picasso*
*no 35º aniversário da sua morte
segunda-feira, abril 07, 2008
E se simplificássemos tudo isto?
Quais são exactamente as regras que regem o direito à secessão e, em geral, àquilo que se chama de auto-determinação? Alguns dizem-nos que estão um pouco confusos. E, na verdade, a acreditarmos nos grandes meios de comunicação...
Na Ásia, os Tibetanos têm o direito. Mas não os Iraquianos nem os Afegãos.
No Médio Oriente, os Israelitas têm o direito. Mas não os Palestinos nem os Curdos.
Na África, os generais mafiosos do Congo Oriental têm o direito. Mas não o Sahara Ocidental.
Na América Latina, as províncias ricas (e de direita) da Bolívia e da Venezuela têm o direito. Mas já não o têm os índios do Chile, do México, etc...
Nos Balcãs, os Albaneses do Kosovo têm o direito. Mas não os Sérvios do Kosovo nem os da Bósnia.
Na Europa ocidental, os Flamengos teriam o direito, mas não os Irlandeses do Norte ou os Bascos.
Complicado, na verdade. E se simplificássemos tudo isto? Apenas teriam direito à auto-determinação aqueles que estão “connosco”. Os outros, não.
E, já que estamos com a mão na massa, substituamos, também, a palavra “democrata” por “connosco” e a palavra “terrorista" por “contra nós”.
Aí está! A política, quando se quer, é simples.
Texto original de Michel Collon
Tradução minha
domingo, abril 06, 2008
Encruzilhada
Pode haver
um ponto de partida.
Um epicentro de onde
soe
alguma palavra exata.
Como o encaixe
de duas bocas.
Se via de passagem
ou gozo de fuga
por derrocadas, desertos, que
acolha e multiplique
saídas, estiagens,
emergências.
Hora de partir. Pura
fantasia. Um corpo
que empurra o vento,
que ilumina a luz,
amarrota o mar, coberto de
pó. Que
possa dobrar,
passo a passo,
o risco do caminho.
Ronald Polito*
*poeta mineiro
sábado, abril 05, 2008
Vestígios
Estranha pulsão, esta:
derramar no caderno porções de alma.
A mão, captando sinais invisíveis.
Lenta, no formigueiro em marcha.
Absolutamente só,
enquanto todos perseguem a sagrada hora do trabalho
e dos compromissos bancários.
E depois, palavras escondidas em oculto caderno,
papel rasgado, para que delas não sobrem
vestígios.
Ana Cecília de Souza Bastos*
*poetisa brasileira
sexta-feira, abril 04, 2008
EU TENHO UM SONHO
No processo de conquista do nosso legítimo lugar, nós não devemos ser culpados de acções iníquas. Não vamos procurar satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo da chávena da amargura e do ódio. Nós temos constantemente de conduzir a nossa luta num patamar elevado de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que o nosso protesto criativo degenere em violência física. E uma vez e outra nós temos de subir às majestosas alturas de contrapor à força física a força da alma. A nova e maravilhosa combatividade que se tem entranhado na comunidade Negra não deve levar-nos a uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, já que muitos dos nossos irmãos brancos, como se comprova pela presença deles aqui hoje, já compreenderam que o destino deles está ligado ao nosso destino. E já perceberam que a sua liberdade está inextrincavelmente ligada à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar sozinhos.
No dia em que se cumprem 40 sobre o assassinato de Martin Luther King e quando passam quase 45 anos sobre o seu discurso I Have a Dream (do qual retirei o trecho acima), pronunciado no dia 28 de Agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., como parte da Marcha de Washington pelo Emprego e pela Liberdade e que constituiu um momento decisivo na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis, discurso esse feito em frente a uma plateia de mais de duzentas mil pessoas que apoiavam a causa e que é considerado um dos maiores na história e foi eleito o melhor discurso estado-unidense do século XX numa pesquisa feita no ano de 1999, que bom seria que o governo dos Estados Unidos o lesse, nem que fosse uma só vez, com a atenção suficiente para entender a sua mensagem.
quinta-feira, abril 03, 2008
"Havaianas"


14 anos e alguns milhares de milhões de euros depois, o Grande Colisor de Hádrons, construído no Conselho Europeu para Pesquisa Nuclear e com data de inauguração prevista inicialmente para Novembro de 2007, parece que estará pronto para começar a operar no verão deste ano com vista a recriar as condições e energias verificadas um bilionésimo de segundo após o Big Bang, com todas as consequências que daí poderão advir em termos de conhecimento.
De positrões, electrões, protões, câmaras de vácuo, acelerações de partículas, teoria das cordas, teoria dos campos e outras coisas do género não percebo mais do que o cidadão leigo medianamente informado, mas tenho, habitualmente, uma boa dose de confiança nos especialistas do ramo que, todos juntos, devem saber razoavelmente aquilo que andam a fazer. E no CERN já fizeram muitas coisas úteis, entre as quais a criação da World Wide Web.
Mas há sempre uns “maduros” apostados em colocar umas areias na engrenagem, e estes parece que calçam "havaianas". Walter Wagner - residente no Havai e que terá estudado física e feito investigação de raios cósmicos em Berkeley - e Luis Sancho - que se intitula investigador em “teoria do tempo” e reside em Espanha, estão convencidos de que a actividade do LHC talvez possa provocar um buraco negro que engolirá a Terra e, possivelmente, todo o Universo.
Portanto, não estiveram com meias medidas e, literalmente, pediram a um Juiz para Salvar o Mundo, metendo um processo no Tribunal Federal de Honolulu com vista a impedir o CERN de operar o acelerador até que apresente um relatório sobre a segurança e a avaliação ambiental. Claro que há vários relatórios elaborados, mas os queixosos ainda não estão convencidos, pelo que o “programa segue no próximo dia 16 de Junho”, no meio do Pacífico.
De positrões, electrões, protões, câmaras de vácuo, acelerações de partículas, teoria das cordas, teoria dos campos e outras coisas do género não percebo mais do que o cidadão leigo medianamente informado, mas tenho, habitualmente, uma boa dose de confiança nos especialistas do ramo que, todos juntos, devem saber razoavelmente aquilo que andam a fazer. E no CERN já fizeram muitas coisas úteis, entre as quais a criação da World Wide Web.
Mas há sempre uns “maduros” apostados em colocar umas areias na engrenagem, e estes parece que calçam "havaianas". Walter Wagner - residente no Havai e que terá estudado física e feito investigação de raios cósmicos em Berkeley - e Luis Sancho - que se intitula investigador em “teoria do tempo” e reside em Espanha, estão convencidos de que a actividade do LHC talvez possa provocar um buraco negro que engolirá a Terra e, possivelmente, todo o Universo.
Portanto, não estiveram com meias medidas e, literalmente, pediram a um Juiz para Salvar o Mundo, metendo um processo no Tribunal Federal de Honolulu com vista a impedir o CERN de operar o acelerador até que apresente um relatório sobre a segurança e a avaliação ambiental. Claro que há vários relatórios elaborados, mas os queixosos ainda não estão convencidos, pelo que o “programa segue no próximo dia 16 de Junho”, no meio do Pacífico.
quarta-feira, abril 02, 2008
Dos ventos
Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.
Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.
Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.
Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu
Álvaro Pacheco*
*poeta brasileiro
terça-feira, abril 01, 2008
A Nostalgia da Europa
Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar.
Mas, a quê e a quem? Qual é o domínio onde se realizaram valores supremos susceptíveis de unir a Europa? As conquistas técnicas? O mercado? A política com o ideal de democracia, com o princípio da tolerância? Mas, essa tolerância, que já não protege nenhuma criação rica nem nenhum pensamento forte, não se tornará oca e inútil? Ou então, será que podemos entender a demissão da cultura como uma espécie de libertação à qual nos devemos abandonar com euforia? Não sei. A única coisa que julgo saber é que a cultura já cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado.
Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.
Milan Kundera, in "A Arte do Romance"
segunda-feira, março 31, 2008
Se eles o dizem...
Nunca fui muito propenso a embarcar em teorias da conspiração, mas há mais de 6 anos abri uma excepção para os ataques do 11 de Setembro.
Em 11 de Setembro de 2001 encontrava-me de férias no norte do país e dirigi-me a um café próximo, após o almoço. Quando lá cheguei, a televisão transmitia imagens do primeiro impacto numa da Torres Gémeas, chegadas, creio, através da CNN.
Minutos depois chegou a minha mulher, já se avistava o segundo avião a dirigir-se para as Torres. Perguntou-me o que se passava e respondi-lhe: a CIA acaba de organizar um ataque às Torres Gémeas para o Bush culpar o Bin Laden e ficar na história.
Desde então, multiplicaram-se as teorias da conspiração, algumas sem grande credibilidade, outras merecedoras de atenção.
Por exemplo, o ex-presidente italiano Francisco Cossiga, reconhecido internacionalmente como de pessoa de uma honestidade a toda a prova, declarou: Bin Laden “confessa” ser o autor do ataque de 11 de Setembro às duas torres de Nova Iorque, quando, na verdade, os estados Unidos e a Europa sabem perfeitamente que esse atentado desastroso foi planificado e executado pela CIA e a Mossad, com o objectivo de acusar de terrorismo os países árabes e assim justificar os ataques contra o Iraque e o Afeganistão (Corriere della Será, 30-11-2007).
Também Giulietto Chiesa, jornalista italiano e deputado no Parlamento Europeu, apelidou de “fantasia ridícula e insustentável” a versão da Casa Branca (http://www.zerofilm.info/), sublinhando que os que punham objecções, mesmo as mais tímidas, à versão oficial, “eram tratados como loucos, dementes ou perigosos aliados desses terroristas islâmicos”.
Mais recentemente, a actriz Marion Cottillard, vencedora do Óscar 2008 para melhor actriz pelo desempenho da figura de Edith Piaf no filme La Vie en Rose, viu a revista Marianne pôr a circular declarações suas de há um ano, nas quais levantou dúvidas sobre a versão oficial da Casa Branca. A velha notícia foi retomada pela comunicação social britânica e estado-unidense e já se especula que isso lhe custará a carreira, não só em Hollywood como na própria França, quando Sarkozi se está a transformar em mais um lacaio de Bush. Certamente por mero acaso, 25% das acções da revista promotora da campanha pertencem ao Carlyle Group, do nosso bem conhecido Frank Carlucci. Também por acaso, o Carlyle Group foi, durante anos, uma entidade onde convergiram os investimentos de Bush pai e da família Bin Laden, bem como de outros investidores pouco recomendáveis.
Muitos cidadãos estado-unidenses têm desmascarado a versão oficial dos atentados, entre os quais o bem conhecido Noam Chomsky. Mas ainda não tinha encontrado ninguém como o Cap. Erich H. May, ex-oficial da U.S.Army responsável pela inteligência militar e assuntos públicos, ex-redactor de editoriais da NBC e com análises políticas e militares publicadas no The Wall Street Journal, no Houston Chronicle e no Military Intelligence Magazine.
Senhor de um currículo militar e civil impressionante, Erich H. May publicou, no passado dia 26 de Fevereiro, um artigo intitulado False Flag Prospects, 2008 - Top Three US Target Cities, cuja leitura é de deixar os cabelos em pé, não só pelas revelações que faz sobre o passado, mas também pelas perspectivas que avança para o futuro próximo. O autor vive nos Estados Unidos e não consta que tenha sido considerado maluquinho.
Nota: Para quem preferir, encontra-se aqui uma tradução portuguesa do citado artigo.
domingo, março 30, 2008
Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, Abril de 1964
Thiago de Mello*
*poeta brasileiro que hoje celebra 82 anos de idade
sábado, março 29, 2008
Nem as placas resolvem
Quando Salustiano comprou a vendinha da encruzilhada, disse para a mulher:
- Tô feito! Tudo quanto é viajante pára ali pra perguntar o caminho e aproveita pra tomar uma cerveja.
Realmente, deu certo. A estrada de terra bifurcava bem na porta da venda e quem passava a primeira vez por ali tinha mesmo de perguntar, porque não dava para saber qual ia para onde.
Mas tudo tem seu lado ruim, e Salustiano logo viu qual era o dessa localização: o pessoal parava pra perguntar na hora que ele queria, que estava pronto pra vender umas cervejinhas na venda e na hora que ele não queria também.
Era difícil conseguir uma noite inteira de sono. Sempre passava um carro ou um caminhão de noite, até de madrugada, e batiam na porta para perguntar o caminho. No começo, Salustiano até brincava com a mulher:
- Acho que vamos ter mais filhos do que a gente esperava. Esse pessoal acorda a gente de madrugada, nós perdemos o sono e aí...
Depois de dois meses, Salustiano e a mulher, Abadia, já não agüentavam mais. Quando ouviam uma buzina ou batidas na porta de madrugada, tinham vontade de sair xingando, ou então de mudar de vez dali. Um dia, justamente esse “lado bom” de acordar de madrugada foi incomodado. Lá pelas três da manhã, um caminhão buzinou, Salustiano acordou, pôs a cara na janela, o motorista perguntou:
- Qual a estrada que vai pro Cafundó?
- É a da esquerda – respondeu.
Tentou dormir, não dava. Aí, percebeu que Abadia também tinha acordado. Começaram umas carícias etc. e tal e, quando iam partir para os finalmentes, ouviram um barulho de motor. Logo batiam à porta com insistência e tiveram de interromper o namoro para Salustiano dar informações para mais um motorista. Quando voltou para a cama, tinha perdido o estímulo.
Irritou-se. A Abadia também esbravejava:
- Amanhã ponho uma placa nessa porcaria dessa encruzilhada.
Logo cedo, Salustiano pegou duas tábuas, cortou em forma de setas e escreveu “Cafundó” numa delas e “Patrimônio” na outra. Fincou um pau no chão, bem na encruzilhada, mas deixou para pregar as tábuas nele no final da tarde, para aproveitar um dia a mais com a parada de motoristas que queriam informações e gastavam um pouco na venda. Acabou pregando as tábuas só de noite, logo antes de dormir. Aí foi tranqüilo para a cama:
- Ninguém mais incomoda a gente agora, Abadia.
Meia-noite, seu sono profundo foi interrompido por pancadas na porta. Foi ver e era seu compadre, Durvalino, que tinha ido pra cidade a cavalo e estava de volta, parecendo ter bebido um pouco.
- Quê que houve, compadre Durvalino? Precisa de alguma coisa?
- Nada não, compadre Salustiano. Só queria saber o que é que tá escrito naquelas placas ali.
Mouzar Benedito
(publicado no livro “Memória vagabunda”, de Mouzar Benedito – editora Publisher Brasil)
Retirado daqui
quinta-feira, março 27, 2008
A Implosão da Mentira
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Affonso Romano de Sant'Anna *
*poeta mineiro que hoje celebra 71 anos
quarta-feira, março 26, 2008
O epitáfio


Gregory Nunzio Corso, nascido em 26 de Março de 1930, foi o mais novo dos quatro membros mais importantes da chamada Beat Generation (com Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs) e o primeiro a ter obra publicada.
Natural de Greenwich Village, nos Estados Unidos da América, a mãe, com 16 anos à data do seu nascimento, natural da Itália e emigrada para os Estados Unidos aos 9 anos de idade, deixou a família um ano mais tarde e regressou a Itália. Como consequência, Gregory passou a infância em orfanatos e casas de acolhimento.
Quando tinha 11 anos, o pai voltou a casar e Gregory, embora tivesse passado a viver com ele, fugiu por várias vezes, até que foi enviado para uma casa de acolhimento para jovens, da qual também fugiu.
Com 17 anos, foi condenado, por roubo, a 3 anos de prisão, passados na Cadeia Estadual de máxima segurança de Clinton, onde foi um ávido leitor da livraria da prisão e onde começou a escrever poesia..
Após ser libertado, em 1949, regressou a Nova Iorque, onde conheceu Allen Ginsberg que o apresentou - e à sua poesia – aos outros membros da cena literária Beat.
O seu primeiro livro foi "The Vestal Lady on Brattle and Other Poems» (1955), seguindo-se «Gasoline» (1958) e «Bomb» (1958) ou o famoso «Long Live Man» (1962), entre muitos outros.
Poeta carismático, tornando sérios acontecimentos artísticos os seus recitais em bares ou universidades do seu país, a sua obra, expoente da denúncia social do seu grupo literário, destila sátira e sarcasmo, com os quais zurze os mais diversos aspectos da vida quotidiana dos Estados Unidos, não sendo por acaso que Ginsberg o chamou de “o maior poeta da América”.
Último moicano da Beat Generation - Kerouac morreu em 1969, Ginsberg e Burroughs em 1997 – faleceu no Minnesota, de cancro da próstata, em 17 de Janeiro de 2001.
De acordo com a sua vontade, as suas cinzas foram depositadas junto do túmulo da poetisa inglesa Percy Bysshe Shelley, no Cemitério Protestante de Roma, com um epitáfio escrito por ele próprio:
Spirit
is Life
It flows thru
the death of me
endlessly
like a river
unafraid
of becoming
the sea
Natural de Greenwich Village, nos Estados Unidos da América, a mãe, com 16 anos à data do seu nascimento, natural da Itália e emigrada para os Estados Unidos aos 9 anos de idade, deixou a família um ano mais tarde e regressou a Itália. Como consequência, Gregory passou a infância em orfanatos e casas de acolhimento.
Quando tinha 11 anos, o pai voltou a casar e Gregory, embora tivesse passado a viver com ele, fugiu por várias vezes, até que foi enviado para uma casa de acolhimento para jovens, da qual também fugiu.
Com 17 anos, foi condenado, por roubo, a 3 anos de prisão, passados na Cadeia Estadual de máxima segurança de Clinton, onde foi um ávido leitor da livraria da prisão e onde começou a escrever poesia..
Após ser libertado, em 1949, regressou a Nova Iorque, onde conheceu Allen Ginsberg que o apresentou - e à sua poesia – aos outros membros da cena literária Beat.
O seu primeiro livro foi "The Vestal Lady on Brattle and Other Poems» (1955), seguindo-se «Gasoline» (1958) e «Bomb» (1958) ou o famoso «Long Live Man» (1962), entre muitos outros.
Poeta carismático, tornando sérios acontecimentos artísticos os seus recitais em bares ou universidades do seu país, a sua obra, expoente da denúncia social do seu grupo literário, destila sátira e sarcasmo, com os quais zurze os mais diversos aspectos da vida quotidiana dos Estados Unidos, não sendo por acaso que Ginsberg o chamou de “o maior poeta da América”.
Último moicano da Beat Generation - Kerouac morreu em 1969, Ginsberg e Burroughs em 1997 – faleceu no Minnesota, de cancro da próstata, em 17 de Janeiro de 2001.
De acordo com a sua vontade, as suas cinzas foram depositadas junto do túmulo da poetisa inglesa Percy Bysshe Shelley, no Cemitério Protestante de Roma, com um epitáfio escrito por ele próprio:
Spirit
is Life
It flows thru
the death of me
endlessly
like a river
unafraid
of becoming
the sea
terça-feira, março 25, 2008
Se os homens menstruassem
Morar na Índia me fez compreender que a minoria branca do mundo passou séculos nos enganando para que acreditássemos que a pele branca faz uma pessoa superior a outra. Mas na verdade a pele branca só é mais susceptível aos raios ultravioleta e propensa a rugas.
Ler Freud me deixou igualmente céptica quanto à inveja do pénis. O poder de dar à luz faz a “inveja do útero” mais lógica e um órgão tão externo e desprotegido como o pénis deixa os homens extremamente vulneráveis.
Mas ao ouvir recentemente uma mulher descrever a chegada inesperada de sua menstruação (uma mancha vermelha se espalhara em seu vestido enquanto ela discutia, inflamada, num palco) eu ainda ranjo os dentes de constrangimento. Isto é, até ela explicar que quando foi informada aos sussurros deste acontecimento óbvio, ela dissera a uma plateia 100% masculina: “Vocês deveriam estar orgulhosos de ter uma mulher menstruada em seu palco. É provavelmente a primeira coisa real que acontece com vocês em muitos anos!”
Esta peça, que pode ser lida na íntegra aqui e faz parte do livro "Memórias da Transgressão", uma colectânea de artigos publicados ao longo de vinte anos da sua carreira , é da autoria da jornalista, feminista e militante anti-racista estado-unidense Gloria Steinem, que hoje completa 74 anos de idade.
segunda-feira, março 24, 2008
Exemplo de cidadania
Brattleboro é uma pequena cidade (12 mil habitantes) de um dos mais pequenos Estados dos Estados Unidos, Vermont (15 mil quilómetros quadrados e 600 mil habitantes).
O sistema eleitoral do Vermont baseia-se em assembleias locais (os caucuses), um exercício de democracia directa, onde se fala abertamente sobre os problemas locais e se dá a todos os cidadãos que o desejem tempo para falar.
Pois os cidadãos de Battleboro decidiram prender o presidente George Bush e o vice-presidente Dick Cheney no caso de estes visitarem a cidade.
Em 25 de Janeiro o Secretário do Município recebeu uma petição de um habitante da cidade, Kurt Daims. Segundo a Carta da Cidade, uma petição que contenha as assinaturas de 5% dos eleitores pode ser submetida a consulta para toda a cidade se pronunciar. A petição do Sr. Daims reunia os requisitos para tal e o Conselho Municipal decidiu, por 3 votos contra 2, levar a petição à votação dos eleitores. O texto rezava assim:
“Deve o Conselho Municipal ordenar ao Procurador da Cidade que emita acusações formais contra o presidente Bush e o vice-presidente Cheney por crimes contra a nossa Constituição e publicar essas acusações para que sejam tidas em consideração por outras autoridades e deve ser lei da cidade de Brattleboro que a polícia de Brattleboro, actuando de acordo com as acusações anteriormente mencionadas, arreste e detenha George Bush e Richard Cheney em Brattleboro se não tiverem sido, em devido tempo, submetidos a julgamento* político, e que sejam processdos ou extraditados para outras autoridades que possam ter razões fundadas para os processar?”
No passado dia 4 (creio que durante as primárias dos democratas), após acesa discussão, a petição foi aprovada por 2.012 votos a favor face 1.795 contra.
Segundo um artigo sobre o assunto, publicado por Amy Goodam, o Vermont é o único dos 50 Estados que George Bush não visitou durante a sua presidência. Mas que parece que os têm no devido lugar, lá isso parece.
*o termo inglês, impeach, não tem tradução para português e implica que o visado se demita do seu cargo caso o impeachment seja aprovado pela Câmara.
domingo, março 23, 2008
Bem Invulgar
Um homem a quem é dado possuir um bem invulgar não pode considerar-se um homem vulgar. Cada um é tal qual os bens que possui. Um cofre vale pelo que tem lá dentro, melhor dizendo, o cofre é um mero acessório do conteúdo. Imaginemos um saco cheio de dinheiro: que outro valor lhe atribuímos além do valor das moedas nele contidas? O mesmo se verifica com os donos de grandes patrimónios: não passam de simples acessórios, de suplementos. A razão de o sábio ser grande está na grande alma que possui. Por conseguinte, é verdade que tudo quanto está ao alcance do mais desprezível dos homens não deve ser considerado um bem. Nunca direi, por exemplo, que a insensibilidade é um bem: quer a cigarra quer o pulgão são dotados dela! Nem sequer chamarei um bem ao repouso ou à ausência de desgostos: há bicho mais repousado do que um verme?
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Retirado daqui
sábado, março 22, 2008
Catacumbas
Somos argila, noite
onde os dedos se afundam,
hemorragia de espantoso silêncio
nas galerias do corpo.
O resto,
o resto é pura perda
e transitória insônia.
Hélio Pellegrino
sexta-feira, março 21, 2008
quinta-feira, março 20, 2008
Kosovo, neutralidade e o queijo parmesão
“Comprovo que o Direito Internacional e a neutralidade são um pouco como o queijo parmesão. Põe-se na massa de acordo com molho com que se cozinhe. Sabemos que com alguns molhos não se põe o parmesão. Se for massa com gambas, a cozinha italiana recomenda que não se ponha parmesão. Se for esparguete à bolonhesa, o parmesão é bem vindo. Com isto quero dizer que, cada vez mais, se invocam a neutralidade e o Direito Internacional quando interessam e se esquecem quando são incómodos”.
Dick Marty
Silvia Cattori é uma jornalista independente de nacionalidade suíça e língua materna italiana, com grande compreensão do mundo, dos seus mecanismos de poder e das suas injustiças, compreensão essa adquirida através de estreitos contactos com o meio diplomático e com várias agências da ONU no sudeste asiático e na zona do Índico.
Quando, em Abril de 2002, Ariel Sharon empreendeu acções militares em larga escala contra a Cisjordânia ela estava em Israel; preocupada com o efeitos da violência da guerra sobre as crianças, resolveu visitar a Palestina ocupada para ver com os seus próprios olhos o que se estava a passar, descobrindo que superava tudo quanto pudera imaginar.
Desde então tem-se dedicado a chamar a atenção da opinião pública para os crimes cometidos pelo exército de ocupação israelita contra as populações indefesas e para as injustiças que as mesmas sofrem, bem como para outras causas similares, como uma leitura dos seus artigos publicados na Rede Voltaire demonstra.
Atendendo a que a neutra Suiça integrou o primeiro grupo de países a reconhecer a independência do Kosovo, decidiu entrevistar o seu compatriota Dick Marty, senador do Partido Radical Democrático, na sua qualidade de presidente da Comissão de Política Externa do Conselho dos Estados da Confederação Helvética.
O resultado, muito elucidativo, pode ser encontrado aqui em francês ou, se preferir, em castelhano.
quarta-feira, março 19, 2008
Respigos de presciência
Na noite em que se cumprem 5 anos sobre o início da violenta guerra terrorista no Iraque – a dos terroristas “bons” (os nossos, salvo seja) contra os terroristas “maus” (os deles) - e quando se estima que os custos ultrapassarão os 3 biliões (3 triliões para os americanos) de dólares, apenas para os Estados Unidos, e se espera outro tanto para os restantes países envolvidos, isto sem contar os mortos e feridos iraquianos, as infra-estruturas destruídas, o sofrimento de milhões de iraquianos sem água, luz e emprego desde o início da guerra, mais de um milhão de refugiados, o petróleo desperdiçado com o consequente aumento exponencial do preço, o medo e o ódio espalhados e outros pormenores sem importância para os donos do império, são muito curiosas algumas previsões então efectuadas:
“O Iraque é um país muito rico, com enormes reservas de petróleo. Eles podem financiar largamente a reconstrução do seu próprio país. E eu não tenho dúvidas de que o irão fazer”.
Richard Perle, presidente da Comissão de Defesa do Pentágono – 11/07/2002
“Os prováveis efeitos económicos [de uma guerra no Iraque] seriam relativamente pequenos.... Da perspectiva de todos os cenários plausíveis, o efeito negativo será muito pequeno comparativamente com os benefícios económicos”.
Lawrence Lindsey, conselheiro económico da Casa Branca – 16/09/2002
“É inimaginável que os Estados Unidos teriam de contribuir com centenas de milhares de milhões de dólares e altamente improvável que nós teríamos de contribuir até mesmo com dezenas de milhares de milhões de dólares”.
Kennet Pollack, antigo director dos negócios do Golfo Pérsico – Comissão Nacional de Segurança – 9/2002
“Os custos de qualquer intervenção seriam muito pequenos”
Glenn Hubbard, conselheiro económico da Casa Branca – 4/10/2002
“Há uma grande quantidade de dinheiro para pagar isto que não tem de ser dinheiro dos contribuintes dos Estados Unidos, e começa com os activos do povo do Iraque. Estamos a falar de um país que pode realmente financiar a sua própria reconstrução e relativamente depressa”.
Paul Wolfowitz, Vice Secretário da Defesa – 27/03/2003
Mais algumas pérolas aqui.
“Importam-se de repetir?”
lino, português ingénuo – 19/03/2008
Dia do pai
Hoje é o dia do pai. Tinha-me esquecido completamente, não fora a minha filhota, que está em Davos, na Suiça, num congresso internacional, ter-me ligado a desejar-me um bom dia.
Parece que por lá está bem mais frio do que por cá: oito graus negativos, ontem; quatro graus negativos, hoje, ao princípio da tarde.
Beijos e bom regresso, tita.
Dilema
Vai-se acentuando,
Senhores da justiça - heróis da humanidade,
O verbo tricolor da confraternidade…
E quando, em breve, quando
Raiar o grande dia
Dos largos arrebóis - batendo o preconceito…
O dia da razão, da luz e do direito
- solene trilogia -
Quando a escravatura
Surgir da negra treva - em ondas singulares
De luz serena e pura;
Quando um poder novo
Nas almas derramar os místicos luares,
Então seremos povo!
Cruz e Sousa*
terça-feira, março 18, 2008
E a Vida foi, e é assim
E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!
Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do Além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição.
Toda a dor pode suportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva... essa que traz.
Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da Morte e que se chama A Paz!
António Nobre
segunda-feira, março 17, 2008
Aterrador ou espectacular?
A ciência não para de surpreender-nos. Agora, cientistas desenvolveram uma técnica computorizada de leitura da mente que lhes permite, utilizando scanners para estudar a actividade cerebral, prognosticar com precisão imagens para as quais as pessoas estão a olhar.
Os cientistas americanos serviram-se de equipamento de Imagens por Ressonância Magnética (Magnetic Resonance Imaging) habitualmente utilizado nos diagnósticos hospitalares para observar a actividade do cérebro, enquanto os indivíduos sujeitos à experiência observavam um conjunto de 120 fotografias a preto e branco. Depois, um computador foi capaz de indicar correctamente, em 90% dos casos, qual a imagem em que as pessoas estavam focadas.
O estudo levanta a possibilidade de, no futuro, a tecnologia ser aproveitada para visualizar as memórias ou os sonhos das pessoas. E claro, interrogar suspeitos contra a sua vontade, assim como condenar alguém por “crimes de pensamento”.
Claro que o poema Livre, de Carlos Oliveira, musicado e interpretado pelo Manuel Freire, ainda manterá a sua verdade textual durante algumas décadas, pois as experiências utilizaram equipamento “pesado” e magnetos extremamente potentes, para além do descodificador computacional ter tido de ser adaptado a cada indivíduo durante várias horas de treino com este ligado ao scanner. No entanto, o Professor Jack Gallant, da Universidade de Berkeley e líder do grupo de cientistas, disse que “é possível que descodificar a actividade cerebral possa ter sérias implicações éticas e de privacidade, digamos, num prazo de 30-50 anos”, acrescentando: “acreditamos veementemente que ninguém deve ser sujeito a qualquer forma de leitura cerebral involuntariamente, secretamente ou sem um consentimento completamente informado”.
De qualquer modo, considerando a diarreia mental que por aí campeia, o colorido da leitura cerebral da nossas ditas “figuras públicas” devia ser muito monótono. Cheira-me que se revestiria das várias tonalidades do amarelo, dependendo da sua frugalidade ou gulodice da véspera.
Nota: O estudo foi publicado na Nature de 5 de Março, mas é de acesso restrito.
A ciência não para de surpreender-nos. Agora, cientistas desenvolveram uma técnica computorizada de leitura da mente que lhes permite, utilizando scanners para estudar a actividade cerebral, prognosticar com precisão imagens para as quais as pessoas estão a olhar.Os cientistas americanos serviram-se de equipamento de Imagens por Ressonância Magnética (Magnetic Resonance Imaging) habitualmente utilizado nos diagnósticos hospitalares para observar a actividade do cérebro, enquanto os indivíduos sujeitos à experiência observavam um conjunto de 120 fotografias a preto e branco. Depois, um computador foi capaz de indicar correctamente, em 90% dos casos, qual a imagem em que as pessoas estavam focadas.
O estudo levanta a possibilidade de, no futuro, a tecnologia ser aproveitada para visualizar as memórias ou os sonhos das pessoas. E claro, interrogar suspeitos contra a sua vontade, assim como condenar alguém por “crimes de pensamento”.
Claro que o poema Livre, de Carlos Oliveira, musicado e interpretado pelo Manuel Freire, ainda manterá a sua verdade textual durante algumas décadas, pois as experiências utilizaram equipamento “pesado” e magnetos extremamente potentes, para além do descodificador computacional ter tido de ser adaptado a cada indivíduo durante várias horas de treino com este ligado ao scanner. No entanto, o Professor Jack Gallant, da Universidade de Berkeley e líder do grupo de cientistas, disse que “é possível que descodificar a actividade cerebral possa ter sérias implicações éticas e de privacidade, digamos, num prazo de 30-50 anos”, acrescentando: “acreditamos veementemente que ninguém deve ser sujeito a qualquer forma de leitura cerebral involuntariamente, secretamente ou sem um consentimento completamente informado”.
De qualquer modo, considerando a diarreia mental que por aí campeia, o colorido da leitura cerebral da nossas ditas “figuras públicas” devia ser muito monótono. Cheira-me que se revestiria das várias tonalidades do amarelo, dependendo da sua frugalidade ou gulodice da véspera.
Nota: O estudo foi publicado na Nature de 5 de Março, mas é de acesso restrito.
domingo, março 16, 2008
Língua Mater Dolorosa
Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.
Natália Correia
sábado, março 15, 2008
A parvoíce
Apesar de se poder esperar tudo de pessoas como George Bush, o grau de cretinismo que ele frequentemente deixa transparecer ainda tem o dom de me espantar.
O Gridiron Club, de Washington - a mais antiga organização jornalística da cidade - organiza, anualmente, um jantar a que se acede apenas por convite e que junta o governo com a elite dos meios de comunicação social (aqueles que acedem ao convite, pois alguns dos jornalistas mais conceituados recusam comparecer por causa da promiscuidade entre média e governo).
No jantar de 2008, realizado no passado sábado, o Sr. W. resolveu brindar os comensais “cantando” uma paródia desafinada da canção “The Green Grass of Home”, com uma letra da sua lavra em que tentou fazer graça com alguns dos momentos mais polémicos da sua administração: o colapso da sua nomeação de uma advogada medíocre (Harriet Miers) para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos, o julgamento do braço direito do Vice Presidente, Scooter Libby, condenado a 5 anos de prisão por perjúrio e cuja pena foi perdoada por Bush, além de outras “minudências”.
Como seria der esperar, as imagens foram parar ao You Tube, embora sejam de fraca qualidade, Bush não apareça durante grande parte do vídeo e algumas partes dos seus “trinados” não se percebam. Mas uma jornalista que estava presente transcreveu-os na íntegra, para que cada um possa avaliar a atitude do Presidente da única super-potência existente.
I spend my days clearing brush
I clear my head of all the fuss
Oh, like the fuss you made over Harriet and Brownie
Down the lane, I look out
Here comes Scooter
Finally free of the prosecutor
It’s good to touch the brown, brown grass of home.
I awake and look around me
At the oval walls that surround me
And I realize I was only dreaming
There’s Condi and Dick, my old compadre
Talking to me about some oil-rich Saudi
But soon, I’ll touch the brown, brown grass of home
Yes you’re all gonna miss me
The way you used to quiz me
But soon I’ll touch the brown, brown grass of home
Dick Cheney strolling with documents he’s been withholding
It’s good to touch the brown, brown grass of home
Yes you’re all gonna miss me
The way you used to diss me
But soon I’ll touch the brown, brown grass of home.
sexta-feira, março 14, 2008
O Milagre da Vida
Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
Retirado do Citador
quinta-feira, março 13, 2008
Lar doce lar
Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.
Cacaso* - in Na Corda Bamba (1978)
*poeta brasileiro
quarta-feira, março 12, 2008
Balcanizar os Balcãs

Parecia impossível recortar ainda mais a minguada ex-Jugoslávia, mas não: com o reconhecimento imediato dos EUA e da maioria da União Europeia, a chamada independência de Kosovo é coisa feita. Pouco importa que este acto viole o direito internacional, a Carta das Nações Unidas e resoluções do seu Conselho de Segurança. O decisivo é que assim o quiseram os “falcões-galinha” de Washington, com o apoio de uma porção bem armada da OTAN e o olhar virado para outro lado da ONU. As consequências são inimagináveis e recordamos a profética frase que Otto von Bismarck cunhou em finais do século XIX: “Quando explodir a Grande Guerra, será por alguma maldita coisa nos Balcãs”. Assim foi.
A análise é do poeta e escritor argentino Juan Gelman

Parecia impossível recortar ainda mais a minguada ex-Jugoslávia, mas não: com o reconhecimento imediato dos EUA e da maioria da União Europeia, a chamada independência de Kosovo é coisa feita. Pouco importa que este acto viole o direito internacional, a Carta das Nações Unidas e resoluções do seu Conselho de Segurança. O decisivo é que assim o quiseram os “falcões-galinha” de Washington, com o apoio de uma porção bem armada da OTAN e o olhar virado para outro lado da ONU. As consequências são inimagináveis e recordamos a profética frase que Otto von Bismarck cunhou em finais do século XIX: “Quando explodir a Grande Guerra, será por alguma maldita coisa nos Balcãs”. Assim foi.
A análise é do poeta e escritor argentino Juan Gelman
terça-feira, março 11, 2008
Ninguém meu amor
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-los a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
Sebastião Alba*
*poeta bracarense naturalizado moçambicano
segunda-feira, março 10, 2008
Passar Fome Pelos biocombustíveis?
Segundo dados da FAO a superfície agrícola está em redução nos últimos anos; muitos terrenos estão exaustos com excesso de adubos e culturas intensivas, ou, na conjuntura de deficit elevado, são transformados em superfícies industriais e áreas turísticas com campos de golfe, ou acimentados pela especulação imobiliária. Os preços dos produtos básicos, como centeio, cevada, trigo, aveia e milho, explodem e com eles os preços das rações e produtos para animais.
Mas não é só isso. À medida que a cultura de combustão capitalista esgota as reservas de energias fósseis, a produção de biocombustíveis entra em concorrência com a produção de alimentos. Atestar um automóvel com etanol devora o consumo anual de cereais de um ser humano.
A análise é do escritor e jornalista alemão Robert Kurz.
Alto como o silêncio
A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.
No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.
Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.
Maria Manuela Margarido*
*poetisa são-tomense
domingo, março 09, 2008
A lista dos mais procurados
Terrorismo internacional
Os apologistas mais notórios dos crimes dos Estados Unidos e de Israel explicam com a maior solenidade que, enquanto os árabes matam pessoas propositadamente, os Estados Unidos e Israel – sendo sociedades democráticas— não têm a menor intenção de fazê-lo. Os seus assassinatos são, simplesmente, acidentais, e por isso não podem ser comparados, em termos de depravação moral, com os dos seus adversários. Essa foi, por exemplo, a posição do Supremo Tribunal de Israel quando, recentemente, autorizou um severo castigo colectivo ao povo de Gaza, privando-o de electricidade (e, por consequência, de água, do tratamento das águas residuais e de outros requisitos básicos da vida civilizada).
A análise é de Noam Chomsky, linguista, filósofo, escritor, activista político e professor emérito de linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussets. O artigo está traduzido para castelhano e para português, mas recomendo vivamente a versão original dado que certos aspectos das traduções não reproduzem com clareza o que o autor escreveu.
sábado, março 08, 2008
Eu ...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca
São rosas


Uma rosa SILVER JUBILEE para as amigas que me visitam

Uma rosa CRIMSON GLORY para a imna mulher
Uma rosa EIFFEL TOWER para a minha filha

Uma rosa SILVER JUBILEE para as amigas que me visitam
sexta-feira, março 07, 2008
Decisão, Desejo e Acção
A decisão é, na verdade, o que de mais próprio concerne a excelência e é melhor do que as próprias acções no que respeita à avaliação dos caracteres humanos. A decisão parece, pois, ser voluntária. Decidir e agir voluntariamente não é, contudo, a mesma coisa, pois, a acção voluntária é um fenómeno mais abrangente. É por essa razão que ainda que tanto as crianças como os outros seres vivos possam participar na acção voluntária, não podem, contudo, participar na decisão. Também dizemos que as acções voluntárias dão-se subitamente, mas não assim de acordo com uma decisão.
Os que dizem que a decisão é um desejo, ou uma afecção, ou anseio, ou uma certa opinião, não parecem dizê-lo correctamente, porque os animais irracionais não tomam parte nela. Por outro lado, quem não tem auto domínio age cedendo ao desejo, e, desse modo, não age de acordo com uma decisão. Finalmente, quem tem auto domínio age ao tomar uma decisão, mas não age ao sentir um desejo.
Um desejo pode opor-se a uma decisão, mas já não poderá opor-se a um outro desejo. O desejo tem em vista o que é agradável e o que é desagradável. A decisão, contudo, não é feita em vista do desagradável nem do agradável.
Aristóteles*, in Ética a Nicómaco
*no 2330º aniversário do grande pensador
(texto retirado do Citador)
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