O menino mutilado
Bagdá, seis de abril, domingo.
No subúrbio de Diala,
um menino chamado Ali Abbas
perdeu as mãos e o sonho.
O coração do mundo contraiu-se
ferido pela imagem enfática.
Seus pais se desintegraram
nas profundezas do sono.
Com que sonhariam no instante
em que o míssil desvairado
saltou sobre as velhas telhas
e o assombro total das paredes?
Os pais de Ali Abbas talvez
no seu amplo tapete onírico
navegassem o branco da paz.
O sonho, ingênuo e sem olhos,
não situa as portas detonadas.
O míssil de nome Tomahawk
bradou “não” e “não”, e categórico
fez da casa sombras e ruínas.
Devorou falanges, falangetas,
os braços, o amanhã e o sorriso
do guri sonhador Ali Abbas.
Comovido indagou Ali Abbas:
“Quem sabe poderias trazer-me
meus dois braços de volta?”
As lágrimas envoltas no silêncio
afagaram as palavras do menino
e odiaram o míssil e seu ofício
de antropófago no céu de Bagdá.
(poeta mineiro nascido a 6 de Dezembro de 1933)
Um quotidiano terrível transportado para a poesia... ou a poesia para um terrível quotidiano!
ResponderEliminar