How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quarta-feira, agosto 05, 2015
CRISE
Tem um
anti-herói - Macunaíma - levitando no Congresso.
Os
intelectuais estão mudos, perplexos
monologando
sobre a utopia corrompida
relendo
manifestos. Paquidermes ressentidos.
Os políticos
sangram, desencantam
(quem foi
estilingue virou vidraça)
sugam as
entranhas do poder
num inferno
a céu aberto.
Em posições
trocadas, os canalhas
em
espelhismos e disfarces sutis
exorcizam
fantasmas redivivos
- ou seriam
mortos-vivos
canibalizados.
Um batráquio
atônito discursa
para as
colunas surdas
para ouvir o
próprio eco.
Não, não e
não!!! é o bordão
dos
acusados. Ato falho, coerção
enquanto os
jornalistas sádicos
regozijam,
triunfantes
sobre os
escombros.
Os urubus
planam ávidos
sobre a
esplanada desconcertante
e os ratos
roem os alicerces
precários.
Os
banqueiros estão blindados
mas
assustados.
Os militares
cegos, os religiosos surdos
e os juízes
calados.
A população
aturdida
- enquanto a
lama medra -
não entende
mas pressente
a véspera do
nada.
(escritor
maranhense que hoje faz 75 anos)
terça-feira, agosto 04, 2015
DECLARAÇÃO
Eu, abaixo
assinado,
embalsamador
de profissão,
declaro por
minha honra
que deste
corpo extraí o que pulsava
e fazia
cumprir suas funções
quando
funcionava.
Mais declaro
que nele não encontrei
outro
elemento além dos ditos e descritos
nos comuns
manuais de anatomia.
Ausentes
dele qualquer abstracção,
sintomas de
tristeza, desagrado,
sinais de
medo ou discordância
em relação à
hora da paragem.
Por minha fé
ainda certifico
a apropriada
condição estéril
do que
remanesceu e expeço via aérea
com garantia
firme
de ser
reconhecido por quem o conheceu
quando o
corpo era inteiro e se reconhecia.
(poeta
moçambicano que hoje faria 71 anos)
segunda-feira, agosto 03, 2015
Momento
Não sei qual
seja agora o meu querer:
Se ver-te
para não ter mais saudades
Se as
saudades de te ver,
Que ver-te a
dois passos me faz desejar-te
Mais perto
E mais perto
Esmagada
comigo
Num rito
brutal ─ os dois sangues trocados!
Mas eu sei
que ficaremos
Separados
Como valvas
de marisco
No cisco da
praia!
─ Duas peças
do engenho de Deus
Avariado,
Enquanto o
Homem não descobre o Mundo.
(poeta
ansianense falecido faz hoje 76 anos)
domingo, agosto 02, 2015
sábado, agosto 01, 2015
A Chama
Tenho alma
de anarquista
fogos de
artifício, pólvora, paixões
você não me
conhece
Trago em mim
a chama
o perigo, o
dragão
trago o que
mina, o que explode
a grande
subversão
Dentro de
mim o que não se doma
que ninguém
detém, que nada assusta
o dom
a grande
arte da fúria
a fera da
sedução
Nisto
consiste meu crime
e é o melhor
de mim
violenta
ternura
força que se
irradia e expande feito um gás
que
respiramos
e que torna
o que fazemos
maior do que
o que somos.
(Bruna
Lombardi faz hoje 63 anos)
Conjugação
Para o A.
Cruzeiro Seixas
A construção
dos poemas é uma vela aberta ao meio
e coberta de bolor
é a
suspensão momentânea dum arrepio num dente
fino
Como Uma
Agulha
A construção
dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar
muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar
formigas brancas obsessivamente junto
ao peito
olhar uma
paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo
e sentir uma pedrada nas costas
sentir a
pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
(poeta
lisboeta nascido a 1 de Agosto de 1928)
sexta-feira, julho 31, 2015
Se isto é um
homem
Vós que
viveis tranquilos
Nas vossas
casas aquecidas,
Vós que
encontrais regressando à noite
Comida
quente e rostos amigos:
Considerai
se isto é um homem
Quem
trabalha na lama
Quem não
conhece a paz
Quem luta
por meio pão
Quem morre
por um sim ou por um não.
Considerai
se isto é uma mulher,
Sem cabelo e
sem nome
Sem mais
força para recordar
Vazios os
olhos e frio o regaço
Como uma rã
no Inverno.
Meditai que
isto aconteceu:
Recomendo-vos
estas palavras.
Esculpi-as
no vosso coração
Estando em
casa, andando pela rua,
Ao
deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as
aos vossos filhos.
Ou que
desmorone a vossa casa,
Que a doença
vos entrave,
Que os
vossos filhos vos virem a cara.
(Primo Levi
nasceu faz hoje 96 anos)
Tradução de
Simonetta Cabrita Neto
quinta-feira, julho 30, 2015
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