How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
sexta-feira, julho 03, 2015
Um novo
milagre é preciso
“A sua
cidade já não existe.” Sem rosas
nem quimeras
de marear
as rotas,
escuta-se serodiamente
apenas o
intrínseco alvoroço de vozes ausentes
de sílabas
híbridas,
um hálito
dos corpos ébrios de sede
e do olhar
enigmático de alguns ciganos
com a alma
suja de desperdícios
onde só as
altivas sobras de solidão mancham
a visão
retemperadora do astro-rei
queimando o
mondego
quando os
peixes se mutilam
desassossegando
as águas de guelras vermelhas
no regaço alquímico
de Isabel,
hoje o rio
secou o assombro
e a infinda
maresia da embarcação
dos
náufragos primordiais
“desapareceu.
Foi abandonada por toda a gente”,
mas no
centro da cidade
está oculto
um inexplicável oceano
para aqueles
que nunca o ousarem sulcar,
o sustento
da pedra onde se alimentam os corpos
dilacerou a
sua unidade de utopia
obstruindo o
percurso da boca às raízes
“e depois
veio a areia e engoliu-a”.
Um novo
milagre é preciso
e embeber a
inutilidade de um poema é preciso,
deveremos
ser bilíngues de rotas e casas
em uma única
cidade
pois é nela
que a nudez de quem fere e sangra
não
questiona o heróico murmúrio do estorvo do verbo.
(poeta
coimbrão que hoje faz 50 anos)
quinta-feira, julho 02, 2015
Esta Gente
Esta gente
cujo rosto
Às vezes
luminoso
E outras
vezes tosco
Ora me
lembra escravos
Ora me
lembra reis
Faz renascer
meu gosto
De luta e de
combate
Contra o
abutre e a cobra
O porco e o
milhafre
Pois a gente
que tem
O rosto
desenhado
Por
paciência e fome
É a gente em
quem
Um país
ocupado
Escreve o
seu nome
E em frente
desta gente
Ignorada e
pisada
Como a pedra
do chão
E mais do
que a pedra
Humilhada e
calcada
Meu canto se
renova
E recomeço a
busca
De um país
liberto
De uma vida
limpa
E de um
tempo justo
(Sophia de
Mello Breyner faleceu faz hoje 11 anos)
quarta-feira, julho 01, 2015
terça-feira, junho 30, 2015
Deixai os
doidos governar entre comparsas
Deixai os
doidos governar entre comparsas!
Deixai-os
declamar dos seus balcões
Sobre as
praças desertas!
Deixai as
frases odiosas que eles disserem,
Como
morcegos à luz do Sol,
Atónitas
baterem de parede em parede,
Até morrerem
no ar
Que as não
ouviu
Nem percutiu
À distância
da multidão que partiu!
Deixai-os
gritar pelos salões vazios,
Eles, os
portentosos mais que os mares,
Eles, os
caudalosos mais que os rios,
O medo de
estar sós
Entre os
milhares
De esgares
Reflectidos
nos colossais
Cristais
Hílares
Que a sua
grandeza lhes sonhou!
(poeta
português falecido em Lourenço Marques faz hoje 56 anos)
segunda-feira, junho 29, 2015
Dente de
leão
Na beira do
passeio
No fim do
mundo
Olho amarelo
da solidão
Cegos pés
Apertam-lhe
o pescoço
No abdômen
de pedra
Cotovelos
subterrâneos
Empurram
suas raízes
Para o húmus
do céu
Pata canina
ereta
Faz-lhe
troça
Com o
aguaceiro recozido
Contenta-o
apenas
O olhar sem
dono do passante
Que em sua
coroa
Pernoita
E assim
A ponta de
cigarro vai queimando
No lábio
inferior da impotência
No fim do
mundo
(poeta
sérvio nascido faz hoje 93 anos)
Tradução de
Aleksandar Jovanovic
domingo, junho 28, 2015
Trevas
Quando não
aguento mais o tédio,
Saio para o
sol em disparada,
Asa
esvoaçando pelo éter,
A virtude e o
vício misturados.
Morro, eu morro,
o sangue escorre a cântaros
Na couraça
do meu corpo.
Caio em mim -
e então, de novo,
Só enxergo a
guerra em teu olhar.
(poeta russo
falecido faz hoje 93 anos)
Tradução de
André Vallias
sábado, junho 27, 2015
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