segunda-feira, maio 31, 2010

Vida

Sempre a desencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"
E terroristas são os outros!!!

domingo, maio 30, 2010

Eu quero duas rimas

Eu quero duas rimas para liberdade.
Nem cidade nem saudade,
nem faculdade nem eternidade.
Eu quero duas rimas para liberdade
para escrever um poema
que fale da fome de um operário,
que fale da angústia de um camponês.
Achei as duas rimas para liberdade!
Luta e União.

Amigos!
Sejamos todos poetas!
Utilizemos as rimas!
E escrevamos todos juntos.
de uma vez,
o poema da liberdade
que acabe com a fome de um operário,
que acabe com a angústia de um camponês.


*poeta, radialista, letrista e actor brasileiro.

sábado, maio 29, 2010

Os mortos

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
       certas sinfonias
                 algum bater de portas,
       ventanias

           Ausentes
           de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
           se de fato
           quando vivos
           acharam a mesma graça
                
Ferreira Gullar*

*poeta brasileiro

sexta-feira, maio 28, 2010

quinta-feira, maio 27, 2010

Crise: soluções à inglesa
















Cartoon: Peter Brookes/The Times
VIDA 
  
Vida parada, vida. 
Tudo parado, tudo. 
Dia parado. 
Noite parada. 
Tarde parada. 
  
Vento que recusa movimento; 
Criança não brinca. 
Bola parada, 
Água parada, 
Varanda vazia. 
  
Calor parado, ardente. 
Corpo por cima do meu, 
Parado, 
Sem penetrar, 
Sem ser penetrado. 
  
Folhas paradas. 
Lábios molhados 
De saliva grossa 
Parados sem beijos, 
Sem desejos. 
  
Só o mundo insistente 
Continua a girar.

Fernando Tanajura Menezes*

*poeta baiano

quarta-feira, maio 26, 2010

Fotografia com história














A imagem é banal para nós mas tem, em si mesma, um grande significado, já que num reino em que as mulheres só podem sair à rua com a cara tapada e acompanhadas por um guardião (pai, marido ou irmão), somente alguém que não tem de prestar contas a ninguém no seu país, como o Rei Abdullah, pode fazer-se fotografar, juntamente com o seu filho e herdeiro, com um grupo de súbditas, quase todas de cara descoberta.

A foto de grupo, captada durante o Fórum de Diálogo Nacional sobre a Sociedade e Serviços de Saúde, foi saudada em todo o mundo como mais um pequeno passo do velho rei no sentido de tornar a Arábia Saudita um país menos opressor para as mulheres.

Talvez tenha sido animada por este e outros sinais que uma jovem de vinte e poucos anos decidiu dar um arraial de porrada  a um polícia da Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício. A jovem e um amigo estavam a passear num parque quando foram abordados por um polícia dos costumes para confirmar as suas identidades e parentesco, já que um homem e uma mulher não casados não podem passear juntos. Enquanto o rapaz colapsou, a jovem foi-se ao polícia e socou-o repetidamente, fazendo com que tivesse de ser transportado ao hospital com contusões no corpo e na cara. Ora toma!

Imagem: AFP/Getty Images

terça-feira, maio 25, 2010

A roda rangedora




















Cartoon: Tom Toles/Slate Magazine
Cave Canem

Aviso bem-humorado
na fachada das casas de Pompéia.

Mudam-se os tempos, mudam-se os desígnios
e o aviso permanece
curiosidade arqueológica do pai
na fachada de minha casa.

Porém hoje mais certo seria
poupar os cães desse cuidado
e escrever à entrada
de toda casa toda cidade todo país
mesmo na caixa-alta do itálico latim
CAVE HOMINES

Fernando Py*

*poeta carioca

sábado, maio 22, 2010

Pizas e cemitérios

Os napolitanos andam em alvoroço e não é para menos. Na cidade dominada pela máfia, que tem nas pizas um dos seus poucos símbolos duradouros, o ministério público acredita que algumas pizarias têm utilizado madeira de caixões usados para aquecerem os fornos. Numa cidade onde os cemitérios são terreno fértil para os ladrões - só no último ano foram roubados mais de cinco mil vasos de flores - não admira nada que a mira do lucro atinja tão macabros contornos, que o “Il Giornale” afirma estenderem-se também ao pão. 

sexta-feira, maio 21, 2010

Coligações



Cartoon: Peter Brookes/TheTimes
Ar

É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.


*poetisa brasileira

(no seu 77º aniversário)

quinta-feira, maio 20, 2010

Jornalismo de sarjeta

O título da notícia reza: Portugal paga mais do dobro para emitir dívida. No entanto, lendo a notícia, descobre-se que a emissão de ontem da dívida foi colocada a um juro médio que ultrapassa o dobro do verificado em Abril mas que representa apenas 81% do juro médio do último leilão, realizado em 5 de Maio. Sabendo-se que a maioria dos leitores apenas olha para as “gordas” levanta-se a questão de saber ao serviço de quê e de quem estão estes arremedos de jornalistas.
Gramática

1. Fonética

Datilo
grafo
meu espasmo rude
em teu peito
e os dedos cravam
entre a bilabial
e a sibilante
o Ó
inaudível.

2. Vogais

Adiar
odiar
ode e ar.
As vogais se espalham
no céu da boca
e o sopro adiado
imobiliza
a língua
em forma de U.

3. Morfologia

Mastigo
um naco de sombra
e um assombro
de sílabas mudas
escorre dos dentes
entre os escombros
da memória calcinada.

4. Etimologia

Saber de cor
a água
a cor da pele
cada anseio
que a língua
recolhe.
Saber de cor
o coração.


5. Pontuação

Fotograma
atrás de fotograma
teu rosto
é a prolongada pausa
impressa na retina
entre parênteses
do travesseiro.

6. Linguagem figurada

Tropel de trapos
lençol amarfanhado
a convulsão
de umas sílabas rebeldes
desarrumando a cama
& a folha em branco:
o peito de quem ama.

7. Conjugação

Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam.

Carlos Felipe Moisés*

*poeta paulista  

(no seu 68º aniversário)

quarta-feira, maio 19, 2010

Convite

Quando o povo tem fome, tem o direito de roubar, declarou o merceeiro mor do reino. Portanto, pobres do meu país, quando tiverdes fome ide ao Continente ou ao Modelo, trazei aquilo de que necessitardes e pagai só aquilo que puderdes, que o restante é por conta da casa.
Sugestão

As companheiras que não tive,
Sinto-as chorar por mim, veladas,
Ao pôr do sol, pelos jardins...
Na sua mágoa azul revive
A minha dor de mãos finadas
Sobre setins...

Mário de Sá-Carneiro, in Indícios de Oiro