sábado, maio 31, 2008

Monólogo Anseio por uma infância perdida. Foi-se a sinceridade encontrada apenas nos gestos imaturos, e com ela minha alegria. Almejo uma loucura incoerentemente sóbria, que finalmente traga minha alma à tona e desatole tantas emoções contidas. Cultivo pequenos momentos de minha existência e não sou exigente, pois sei que a mediocridade é inerente a todos os sonhadores. Busco minha própria sombra, alguém que me complete. Que me faça ver que valeu a pena encarar o desconhecido, descobrir que não há nenhum prêmio por bom comportamento...falsos ícones. Só um jovem do outro lado da linha. Ana Maria Ramiro* *poetisa brasileira

sexta-feira, maio 30, 2008

João & Joaquim Joaquim Maria Machado de Assis faleceu há 100 anos. João Guimarães Rosa nasceu há 100 anos. Os dois imprimiram dimensão estética ao enigma do feminino: Capitu, por Joaquim; Diadorim, por João. Os dois morreram no Rio, os dois em casa, os dois sozinhos. Joaquim no Cosme Velho, viúvo; João em Copacabana, a 19 de Novembro de 1967, quando a mulher saíra para a missa. Carioca, autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras, Joaquim construiu uma obra de inesgotável polissemia. Seu estilo revela a leveza da pena, graças às suas crônicas para jornais. Seus textos parecem, à primeira vista, ao alcance de qualquer leitor. Porém, exigem acuidade para serem captados em sua profusão de símbolos, subterfúgios, entrelinhas e aparentes tautologias. Mineiro de Cordisburgo - "cidade do coração" -, poliglota, médico e diplomata, João reinventou a língua portuguesa, abrasileirou-a, potencializou-a, implodiu as regras da narrativa convencional, fez do sertão uma epopéia. João observa o mundo pela cerca do pasto; Joaquim, pela janela do sobrado. O primeiro é rural; o segundo, urbano. João se solta nas águas límpidas dos grandes rios para pescar, nas profundezas, as metafísicas interrogações do humano. Joaquim é intimista, realista, encontra nos salões, numa conversa banal, a matéria-prima que lhe permite desvelar recônditos segredos da alma. João encara o mundo de baixo para cima, situado no lugar social dos anônimos; pisa em bosta de vaca para descrever infinitudes. Joaquim é quase dândi, apresenta-se de luvas e cartola e, aos poucos, rasga-nos a fantasia, perfura a pele, escancara o coração, expõe as vísceras. João é teólogo, apocalíptico; Joaquim, filósofo, irreverente. João é assombro; Joaquim, ironia. Este ergue seu bico de pena e penetra nos meandros de nossa inelutável insensatez; João, mete a foice e desbasta, abre veredas em direções inesperadas. Joaquim é cartesiano, explora a dúvida, o suspense, a ambigüidade, o contraditório. João é barroco, retorce a gramática, subverte a sintaxe, arranca o vocabulário de seu perfilar ordenado e o atira no corpo de baile dos entremeios do espírito. Joaquim faz de sua literatura uma caprichosa renda; vista à distância, sua obra parece impecável toalha sobre a mesa, cuja beleza resulta de seus intrincáveis bordados, só apreciados pelo leitor arguto. João prefere juntar os cacos espalhados pelo chão da vida e expor o vitral de tantas sagas e aventuras. Seu talento é inalcançável, pois isolou-se num universo vocabular e semântico único, singular; melhor comparando, apagou o idioma da lousa e nos labirintos da sintaxe reconstruiu-o letra por letra, palavra por palavra, num tecido radicalmente local, esplendorosamente universal. Nos dois, o domínio impecável da língua, o estilo cativante, o ritmo preciso. Os dois são inimitáveis. Joaquim nos convida a um jogo repleto de surpresas; João a uma viagem através do misterioso sertão que cada um de nós traz dentro de si. Este é um ano de muitas comemorações literárias. Há 400 anos nascia o Padre Vieira (6/2/1608), que nos ensinou a reverenciar o idioma português e, há 120 anos, Fernando Pessoa (13/6/1888), para quem "o poeta é um fingidor/ finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Há 60 anos nos deixava Monteiro Lobato, que encantou a minha infância e habituou-me aos livros. Antonio Candido, o maior crítico literário vivo, autor do clássico Parceiros do Rio Bonito, faz 90 anos. E há 90 anos transvivenciou Olavo Bilac, que nos convida a ouvir estrelas. E Manuel Bandeira falecia há 40 anos, ele que nos induz a surfar na poesia: "A onda anda / aonde anda / a onda? / a onda ainda / ainda onda / ainda anda / aonde? / aonde? / a onda / a onda". Frei Betto Retirado daqui

quinta-feira, maio 29, 2008

Y yo me iré Y yo me iré. Y se quedarán los pájaros cantando; y se quedará mi huerto, con su verde árbol, y con su pozo blanco. Todas la tardes, el cielo será azul y plácido; y tocarán, como esta tarde están tocando, las campanas del campanario. Se morirán aquellos que me amaron; y el pueblo se hará nuevo cada año; y en el rincón aquel de mi huerto florido y encalado, mi espíritu errará, nostálgico… Y yo me iré; y estaré solo, sin hogar, sin árbol verde, sin pozo blanco, sin cielo azul y plácido… Y se quedarán los pájaros cantando. Juan Ramón Jiménez* *no cinquentenário da sua morte

quarta-feira, maio 28, 2008

Especuladores e...especuladores!


O multi-milionário estado-unidense de origem húngara, George Soros, famoso pela sua actividade como especulador nos mercados financeiros, assegurou que os especuladores são os grandes responsáveis pelos altos preços do petróleo, em entrevista publicada na passada segunda feira pelo jornal inglês The Daily Telegraph.

O Sr. Soros disse que, embora o dólar fraco, o declínio no abastecimento do Médio Oriente e a procura da China talvez possam explicar algum do aumento nos preços da energia, o mercado petrolífero tem sido significativamente afectado pela especulação. “A especulação está a afectar crescentemente o preço do crude”, disse. “O preço tem esta forma parabólica que é característica das bolhas”, acrescentou.

Apesar de se tratar de uma realidade óbvia, mesmo para pessoas com escassa informação sobre os mecanismos de formação dos preços das mercadorias, não deixa de ser importante que o especulador mor venha fazer tal denúncia e que tenha instado os reguladores a que tomem medidas mais agressivas tendentes a uma melhor supervisão do mercado.

terça-feira, maio 27, 2008

Primavera a poesia não ancorou nesta tarde de primavera ah, cansaço de não ser nada nem inverno nem garoa , nem céu azul ter o cinza na alma e nem assim poder ser completamente cinza este canto esquisito de pássaro estaria numa gaiola ? como um pássaro pode ter um canto tão feio ! cansaço de também não ser pássaro ! a poesia recria, toma tudo emprestado e belo viagem de onde se volta achando tudo engraçado ah, e hoje nem a poesia ... nem ancora nem naufraga navio sem rumo veleiro sem velas ombros curvados ah, que cansaço de também não ser poeta serei passageiro que não seja eu o comandante de nada ... se nem ao menos a primavera é primavera Ana Lamanna* *poetisa brasileira

segunda-feira, maio 26, 2008

Nem os deles escapam


Norman Gary Finkelstein, conhecido cientista político, escritor e historiador judeu estado-unidense, especializado em assuntos relacionados com os judeus, especialmente o Holocausto e o conflito Israelo-Palestiniano, cuja mãe, filha de um judeu ultra-ortodoxo, sobreviveu ao Gueto de Varsóvia e ao Campo de Concentração de Majdanek e cujo pai sobreviveu também ao Gueto de Varsóvia e ao Campo de Concentração de Auschwitz, viu recusada a sua entrada em Israel na passada sexta-feira, dia 23, por suspeita de ter tido contactos com elementos “hostis” a Israel, de acordo com agentes de segurança israelitas não identificados. Finkelstein foi interrogado após a sua chegada ao aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, e recambiado num voo para Amesterdão, de onde tinha partido, tendo sido banido de entrar em Israel durante 10 anos.

É caso para dizer que nem aos seus perdoam as críticas.

domingo, maio 25, 2008

Ignorâncias Há muitos anos, tantos que apenas havia o canal público de televisão que prestava alguns serviços à cultura, uma jovem estrela em ascensão no nosso panorama televisivo, ao pretender anunciar a realização do festival de Bayreuth (pronuncia-se “bairróit”), cidade da Baviera onde viveu Richard Wagner e que todos os anos lhe dedica um festival de ópera, disse que na próxima semana se realizava o festival de Beirute. Tal não a impediu de vir a ser directora de programas e até adida cultural numa culta capital europeia. Anos depois, um outro apresentador de televisão, ao informar-nos de que um determinado julgamento tinha sido adiado sine die, expressão latina que significa sem prazo marcado, disse alto e bom som que o tal julgamento fora adiado “sáinè dai”, como se a expressa latina fosse de origem inglesa. Vários outros “letrados” no mesmo ou em lugares semelhantes, ao pretenderem pronunciar o portuguesíssimo vocábulo item, que por provir directamente do latim se lê tal como se escreve e tem como plural itens, foram falando em “áitem” e áitems”. Há cerca de duas semanas, um outro jornalista, ao fazer uma reportagem sobre a feira do emprego realizada no Porto, informou alegremente que o primeiro passo na procura de emprego consistia na entrega do “curriculum vitái” (referia-se, certamente, ao “curriculum vitae”, outra expressão latina). Como se isso não fosse suficiente, o apresentador do telejornal falou dos vários tornados que assolaram os Estados Unidos, esclarecendo que as cidades mais atingidas tinham sido Missouri e Oklahoma. Ora Missouri e Oklahoma não são cidades mas sim Estados, não consta que haja qualquer cidade chamada Missouri e Oklahoma City, capital e maior cidade do Oklahoma, parece nem sequer ter sido atingida. Ninguém da RTP deu pelo tal “curriculum vitái”, pois a peça foi repetida no jornal das 20H00. Agora, com o acordo da discórdia, é provável que passemos a ouvir dizer “mídia” a torto e a direito quando alguém quiser referir-se aos meios de comunicação social, dado que os crânios da linguística que fizeram o acordo à imagem do próprio umbigo devem desconhecer que os povos de fala inglesa foram pedir de empréstimo o plural da palavra latina “medium” (“media”), adaptando (ou será adatando?) a pronúncia à sua língua.

sábado, maio 24, 2008

Fazer poético Meu fazer não é poético... lírico? Fora um dia, não mais. Agora a forma é áspera E o fruto prima pelo amargor. Poesia, amor, desejo, rebeldia... ficção! Não passa de ironia... Escrever às vezes é maçante Como ler um livro entediado da leitura. Deixo as palavras fluírem... Assim, sem sentido aparente... Postas, sobrepostas, pospostas, antepostas, Vão aos poucos ganhando forma, justapostas. Adquirem significados notórios Desde que atinjam seu objetivo Trancafiado no limiar do inconstante No fluxo desvairado do inconsciente. Alberto da Cruz* *poeta brasileiro

sexta-feira, maio 23, 2008

Pobres contra pobres


No mundo em que vivemos, ver ricos contra pobres não constitui, infelizmente, novidade.


Os poderosos sempre estiveram contra os desfavorecidos e temo que assim continue a ser.

Por isso, quando Nicolas Sarkozy, então ministro do interior, chamou “canalha” aos imigrantes dos subúrbios pobres das grandes cidades francesas, apenas as consciências mais sensíveis se escandalizaram.

Quando o governo italiano começou a perseguir e a prender imigrantes, incluindo os oriundos dos novos países aderentes à União, os burocratas de Bruxelas, sempre tão rápidos a condenar a xenofobia quando ela “mora” longe, assobiaram para o lado e “varreram o lixo para debaixo do tapete”. E mesmo agora, com um deputado fascista italiano a propor a criação de um estado para os ciganos no leste da Europa como a solução que melhor os serve a “eles” e nos serve a “nós”, não se ouvem reacções condignas da parte das “elites” liberais europeias.

Mas já causa algum espanto quando são os pobres a manifestar sentimentos de extrema violenta xenófoba contra outros pobres, assassinando sem piedade os imigrantes dos países vizinhos que foram à procura de melhores condições de vida.

Algo tem de ir muito mal para, num país como a África do Sul, com um enorme potencial de desenvolvimento e que até já foi considerado rico, haver uma taxa de desemprego a rondar os 40%, grassar a fome e a doença e ocorrer uma autêntica caça mortífera ao imigrante.

Conhecendo-se as riquezas do país, os actos de desespero selvagem a que as autoridades se mostram incapazes de responder com a necessária eficácia só podem dever-se à incompetência e corrupção dos poderes instituídos. Não era este, certamente, o “espectáculo” a que Nelson Mandela esperava assistir no ocaso da sua vida dedicada a uma causa nobre.

quinta-feira, maio 22, 2008

O Sofrimento do Hipócrita Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma acção ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjoo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0 traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão. Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar" Retirado daqui

quarta-feira, maio 21, 2008

Ábaco Lembro-me como se fosse hoje: no mato sem cachorro, mesmo sem cão, não caço com gato mas tiro meu cavalinho da chuva. Tarde aprendi que mais vale um pássaro na mão do que dois voando e que uma andorinha só não faz verão. Apanhando como boi ladrão, o homem é o lobo do homem, - Ah King Kong, cada macaco no seu galho. Sem jeito mandou lembranças. Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz. Esperarei sentada. Vivaldi, vida vida, Noves fora: nada Olga Savary* *poetisa brasileira que hoje celebra o 75º aniversário

terça-feira, maio 20, 2008

Persistência recompensada


Óscar Pistorius é um jovem sul-africano de 21 anos, que nasceu com uma ausência congénita do perónio em ambas as pernas, o que fez com que, aos 11 meses de idade, as mesmas tivessem de ser amputadas a uma altura equidistante dos tornozelos e dos joelhos.

Entre os 11 e os 13 anos jogou ténis, pólo aquático e râguebi até que, após uma lesão grave num joelho, foi iniciado no atletismo enquanto se sujeitava a reabilitação e “nunca mais olhou para trás”.

Conhecido como “Blade Runner” e o “homem mais rápido sem pernas”, participou nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2004, em Atenas, e nas mais variadas provas no seu país e no estrangeiro, incluindo provas para atletas não deficientes, a convite da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), tendo chegado a ganhar um Grande Prémio de 400 metros em Inglaterra, o qual lhe foi retirado por correr fora da sua linha.

Começou a acalentar o sonho de correr nos Jogos Olímpicos de Pequim até que, em Junho de 2007, a IAAF alterou as suas regras de competição para banir o uso de “qualquer aparelho técnico que incorpore fibras, rodas ou outros elementos que proporcionem ao seu utilizador uma vantagem sobre outro atleta que não use tal aparelho”.

Garantindo que as alterações não eram especificamente dirigidas a Oscar Pistorius, que usa próteses de fibras de carbono, a IAAF submeteu-o a dois meses de testes na Alemanha, tenho concluído, em Janeiro de 2008, que as suas próteses lhe davam “vantagens consideráveis sobre os atletas que não usavam próteses”, isto é, sobre aqueles que não têm qualquer deficiência. Decidiu, pois, a IAAF, que Óscar Pistorius não podia correr ao lado dos não deficientes.

O atleta não se conformou e recorreu para o Tribunal Arbitral do Desporto em Lausane, na Suiça, o qual acabou por lhe dar razão, abrindo o caminho para que ele tente obter os mínimos para representar o seu país. Mesmo que o não consiga, mais um preconceito foi ultrapassado. Se o conseguir, será o primeiro atleta amputado a participar nuns Jogos Olímpicos.

Mais informação e reacções aqui, onde existem ligações para uma meia dúzia de artigos sobre esta luta de um deficiente por um lugar entre os "normais".

segunda-feira, maio 19, 2008

Fim Quando eu morrer batam em latas, Rompam aos saltos e aos pinotes, Façam estalar no ar chicotes, Chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro Ajaezado à andaluza… A um morto nada se recusa, Eu quero por força ir de burro. Mário de Sá-Carneiro

domingo, maio 18, 2008

O Êxito e a Felicidade A raiz do mal reside no facto de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte da felicidade. Não nego que o sentimento do triunfo torna a vida mais agradável. Um pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego também que o dinheiro, até um certo limite, é capaz de aumentar a felicidade; para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam todos os outros. Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

sábado, maio 17, 2008

Desencanto Tua silhueta ainda arranha minha retina contigo ignorei o futuro vislumbrei apenas o preciso - um blefe do destino - que seja! Atravessei meus espinhos perdi todas as defesas hoje imune à dor refém de mim lastimo a insistência da vida Poderia ser tudo maior. Sim! Poderia! Mas era preciso muito... Muito mais! nessa paixão sem amanhãs réstia de luz refletida nessa taça de cristal trincada. Ana Cristina Souto* *poetisa brasileira

sexta-feira, maio 16, 2008

Descartáveis Onde se fala da NATO no Afeganistão, de soldados polacos presos após a queda do governo de extrema direita, de vingança, do assassinato puro e duro de civis, incluindo mulheres e crianças, da ocultação, da normalidade da morte de civis, do silêncio cúmplice dos media ocidentais (com honrosa excepção da imprensa polaca) e de algumas coisas mais.

quinta-feira, maio 15, 2008

Alonga os braços Alonga os braços e apanha as coisas mais distantes e mais estranhas Fora da intimidade de seus dedos nada fica (Amor e ódio) Nem vasos quebrados nem berços vazios nem reis ou mendigos nem cães vadios Anderson de Araújo Horta* *poeta mineiro

quarta-feira, maio 14, 2008

A invenção Há 60 anos foi declarada a independência do estado de Israel. Visitei a Palestina em 1994, integrado num grupo de cerca de cem pessoas que ocuparam, durante a permanência de uma semana, dois autocarros de turismo, cada um com o seu guia. Eram tempos de alguma descompressão, com os recém celebrados acordos de Oslo e Yitzhak Rabin no poder, se bem que a visita tenha coincidido com uma semana algo tensa, pois estava a ser negociado, creio que nos Estados Unidos sob os auspícios de Bill Clinton, o Tratado de Paz entre Israel e a Jordânia, que viria a ser assinado em Outubro desse ano. No autocarro em que viajei calhou-nos uma guia nascida em Buenos Aires, casada com o guia do outro autocarro, ele nascido no Rio de Janeiro, ambos emigrados para Israel na adolescência. Senhores duma sólida formação histórica (na altura, os guias israelitas eram sujeitos a exames anuais para renovarem a sua licença), eram extremamente liberais e nada preocupados com os preceitos religiosos do judaísmo (confessaram gostar muito de presunto e salpicão, a que apenas tinham acesso quando visitavam Portugal ou Espanha ao serviço da agência). Estranhei, por isso, a resposta que obtive quando abordei o problema do direito dos palestinos à terra. “Não têm”, disse-me a guia. “Esta terra pertence-nos há milhares de anos, enquanto eles (os palestinos) só cá estão desde o fim do século passado”. Ainda tentei argumentar, nas era como bater contra uma parede. Era o regresso do Egipto, o exílio de séculos provocado pelos romanos, o rol de perseguições e o regresso à “Terra Prometida”. Fiquei a pensar como era possível que pessoas deveras inteligentes tivessem uma postura tão radical relativamente à questão do direito à terra. Até que deparei, recentemente, com um artigo do historiador e jornalista israelita Tom Segev, intitulado Uma invenção chamada “o povo judeu”, cuja versão original se encontra disponível aqui. Existe, também, a respectiva tradução em castelhano. A doutrinação tem um enorme poder!

terça-feira, maio 13, 2008

Viver é perigoso Viver é muito, muito perigoso, repetia o jagunço Riobaldo Tatarana, personagem inesquecível de Guimarães Rosa. Para muitos, porém, a afirmação ultrapassa os limites literários e metafísicos. O próprio viver cotidiano, para os mais assustados, é cancerígeno, a acreditar no que lemos em jornais, revistas, sites, blogs, e também no que "aprendemos" em conversas sem melhor assunto. Já li e ouvi de tudo a esse respeito. Que o incenso é altamente cancerígeno, para desespero dos místicos de diferentes crenças. Que o telefone celular é cancerígeno, para desespero de 45% da população mundial, o ouvido atento grudado nele. Que o adoçante artificial é cancerígeno, para desespero de todos os que fazem a eterna dieta. Vale a pena ler na íntegra este saboroso texto de Gabriel Perissé, escritor brasileiro, publicado no Correio da Cidadania.

segunda-feira, maio 12, 2008

Letra para um hino É possível falar sem um nó na garganta é possível amar sem que venham proibir é possível correr sem que seja fugir. Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta. É possível andar sem olhar para o chão é possível viver sem que seja de rastos. Os teus olhos nasceram para olhar os astros se te apetece dizer não grita comigo: não. É possível viver de outro modo. É possível transformares em arma a tua mão. É possível o amor. É possível o pão. É possível viver de pé. Não te deixes murchar. Não deixes que te domem. É possível viver sem fingir que se vive. É possível ser homem. É possível ser livre livre livre. Manuel Alegre