domingo, setembro 30, 2007

Fábula dos Dois Leões Diz que eram dois leões que fugiram do Jardim Zoológico. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o leite. Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Tijuca. Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no Jardim Zoológico outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula. Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da cidade quando, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para o Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt que, para certas coisas, também é leão. Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro coleguinha: — Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir arreglo, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você... vá, diz como foi. O outro leão então explicou: — Eu meti os peitos e fui me esconder numa repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele. — E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários? — Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho... me apanharam. Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) Texto extraído do livro “Primo Altamirando e Elas”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1961, pág. 153. Pedido "emprestado" ao Projecto Releituras

sábado, setembro 29, 2007

Círculo vicioso Bailando no ar, gemia inquieto vagalume: "Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!" Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: "Pudesse eu copiar-te o transparente lume, Que, da grega coluna à gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela" Mas a lua, fitando o sol com azedume: "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume"! Mas o sol, inclinando a rútila capela: Pesa-me esta brilhante auréola de nume... Enfara-me esta luz e desmedida umbela... Por que não nasci eu um simples vagalume?"... Machado de Assis

sexta-feira, setembro 28, 2007

Um computador não é um electrodoméstico Na ânsia de criticar o governo por tudo e por nada, a oposição tem lançado nestes últimos dias uma série de trocadilhos sobre as novas tecnologias, em particular no contexto da distribuição pelo governo de computadores com ligação à Internet. Além do lado caricato, com Portas a chegar tardiamente aos gigas e aos bites e Marques Mendes a falar de software e programas, o que ele imagina serem coisas distintas, estes dois dirigentes consideram que estamos perante uma mera acção de propaganda, uma simples compra de votos, aliás repetidamente comparada com a célebre distribuição de electrodomésticos pelo não menos célebre Major. Continue a ler este excelente artigo de Leonel Moura, de acesso livre, publicado na edição online do Jornal de Negócios

quinta-feira, setembro 27, 2007

Trogloditas Francisco Chimoio é o arcebispo católico do Maputo, pessoa amplamente respeitada em Moçambique pelo papel que assumiu na negociação dos acordos de paz que, em 1992, puseram termo a 16 anos de guerra civil. Pois agora resolveu jogar o seu prestígio numa manobra macabra, acusando fabricantes europeus de preservativos de infectar deliberadamente os produtos com o vírus HIV “para acabar rapidamente com os povos africanos”, dizendo à BBC que “sei que há dois países na Europa... que fabricam preservativos deliberadamente infectados com o vírus”, embora se tenha recusado a identificar tais países. É sabido que a grande maioria dos hierarcas católicos não olha a meios para atingir os seus fins no que aos preservativos – e a muitas outras questões – diz respeito, quer organizando autos de fé para a respectiva queima, quer vociferando enormidades como o vírus ser tão diminuto que passa através do preservativo. Mas chegar a isto? O arcebispo pode ser ignorante nos aspectos científicos que garantem que o vírus HIV não tem quaisquer hipóteses de sobreviver dentro de uma embalagem de preservativos, mas não acredito que seja ignorante (nenhum bispo o é) nos aspectos económicos que dizem que qualquer fabricante que mate os consumidores dos seus produtos vai ter de fechar a fábrica. Só resta, portanto, a má fé e o intuito de minar a campanha do governo Moçambicano para educar as pessoas sobre a melhor forma de evitar o contágio, contribuindo para um autêntico genocídio num país onde um sexto da população está infectada e cerca de 500 pessoas são infectadas diariamente. Ora, segundo os ditames da sua igreja, a má fé, a mentira deliberada e o genocídio são faltas graves, pelo que Francisco Chimoio, pecador público, só tem a alternativa do arrependimento público. Será capaz disso, ou vai continuar a sua campanha cobarde?

quarta-feira, setembro 26, 2007

Sexo e futebol No que se parecem: o sexo e o futebol? No futebol, como no sexo, as pessoas suam ao mesmo tempo, avançam e recuam, quase sempre vão pelo meio, mas também caem para um lado ou para o outro, e às vezes há um deslocamento. Nos dois é importantíssimo ter jogo de cintura. No sexo, como no futebol, muitas vezes acontece um cotovelaço no olho sem querer, ou um desentendimento que acaba em expulsão. Aí um vai para o chuveiro mais cedo. Dizem que a única diferença entre uma festa de amasso e a cobrança de um escanteio é que na grande área não tem música, porque o agarramento é o mesmo, e no escanteio também tem gente que fica quase sem roupa. Também dizem que uma das diferenças entre o futebol e o sexo é a diferença entre camiseta e camisinha. Mas a camisinha, como a camiseta, não distingue, ela tanto pode vestir um craque como um medíocre. No sexo, como no futebol, você amacia no peito, bota no chão, cadencia, e tem que ter uma explicação pronta na saída para o caso de não dar certo. No futebol, como no sexo, tem gente que se benze antes de entrar e sempre sai ofegante. No sexo, como no futebol, tem o feijão com arroz, mas também tem o requintado, a firula e o lance de efeito. E, claro o lençol. No sexo também tem gente que vai direto no calcanhar. E tanto no sexo quanto no futebol o som que mais se ouve é aquele “uuu”. No fim sexo e futebol só são diferentes, mesmo, em duas coisas. No futebol não pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF. Luis Fernando Veríssimo* Feliz 71º aniversário, Luís Fernando Veríssimo!

terça-feira, setembro 25, 2007

O verdadeiro choque de civilizações A expressão "choque de civilizações" como formato das futuras guerras da humanidade foi cunhada pelo fracassado estrategista da Guerra do Vietnã, Samuel P. Huntington. Para Mike Davis, um dos criativos pesquisadores norte-americanos sobre temas atuais, como "holocaustos coloniais" ou "a ameaça global da gripe aviária", a guerra de civilizações se daria entre a cidade organizada e a multidão de favelas do mundo. Seu recente livro "Planeta Favela"(2006) apresenta uma pesquisa minuciosa (apesar da bibliografia ser quase toda em inglês) sobre a favelização que está ocorrendo aceleradamente por todas as partes. A humanidade sempre se organizou de um jeito que grupos fortes se apropriassem da Terra e de seus recursos, deixando grande parte da população excluída. Com a introdução do neoliberalismo a partir de 1980 este processo ganhou livre curso: houve uma privatização de quase tudo, uma acumulação de bens e serviços em poucas mãos, de tal monta que desestabilizou socialmente os países periféricos e lançou milhões e milhões de pessoas na pura informalidade. Para o sistema eles são "óleo queimado", "zeros econômicos", "massa supérflua" que sequer merece entrar no exército de reserva do capital. Essa exclusão se expressa pela favelização que ocorre no planeta inteiro na proporção de 25 milhões de pessoas por ano. Segundo Davis, 78,2% das populações dos países pobres é de favelados (p.34). Dados da CIA de 2002 davam o espantoso número de 1 bilhão de pessoas desempregadas ou subempregadas favelizadas. Junto com a favela vem toda a corte de perversidades, como o exército de milhares de crianças exploradas e escravizadas, como em Varanasi (Benares), na Índia, na fabricação de tapetes, ou as "fazendas de rins" e outros órgãos comercializados em Madras ou no Cairo e formas inimagináveis de degradação, onde pessoas "vivem literalmente na m "(p.142). Ao Império norte-americano não passaram desapercebidas as consequências geopolíticas de um "planeta de favelas". Temem "a urbanização da revolta" ou a articulação dos favelados em vista de lutas políticas. Organizaram um aparato MOUT (Military Operations on Urbanized Terrain: operações militares em terreno urbanizado) com o objetivo de se treinarem soldados para lutas em ruas labirínticas, nos esgotos, nas favelas, em qualquer parte do mundo onde os interesses imperiais estejam ameaçados. Será a luta entre a cidade organizada e amedrontada e a favela enfurecida. Um dos estrategistas diz friamente:"as cidades fracassadas e ferozes do Terceiro Mundo, principalmente seus arredores favelados, serão o campo de batalha que distinguirá o século XXI; a doutrina do Pentágono está sendo reconfigurada nessa linha para sustentar uma guerra mundial de baixa intensidade e de duração ilimitada contra segmentos criminalizados dos pobres urbanos. Esse é o verdadeiro choque de civilizações"(p.205). Será que os métodos usados recentemente no Rio de Janeiro com a militarização do combate aos traficantes nas favelas, com verdadeiras execuções, já não obedece a esta estratégia, inspirada pelo Império? Estamos entre os países mais favelizados do mundo, efeito perverso provocado por aqueles que sempre negaram a reforma agrária e a inclusão social das grandes maiorias pois lhes convinha deixá-las empobrecidas, doentes e analfabetas. Enquanto não se fizerem as mudanças de inclusão necessária, continuará o medo e o risco real de uma guerra sem fim. Leonardo Boff Publicado no site do autor em 24/08/2007 e aqui afixado com a sua autorização

segunda-feira, setembro 24, 2007

Sonhos Quando criança pensava ser adulto. Tanto sonhei que realizei. Adulto tentei ser criança mas já havia perdido a capacidade de sonhar. Zeca Tocantins* *poeta brasileiro

domingo, setembro 23, 2007

Quer comprar? 23 de Setembro é o Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças. Parece incrível que, em pleno século XXI, ainda seja preciso haver um dia especial para sensibilizar as pessoas contra o que a Organização das Nações Unidas (ONU) considera ser o pior desrespeito aos direitos humanos na sociedade atual: o tráfico de pessoas. O tráfico de pessoas é um comércio internacional que lucra bilhões de dólares à custa de milhões de vítimas, sendo que a maioria delas é de mulheres jovens e crianças roubadas em sua dignidade e liberdade, para serem usadas na indústria sexual das regiões ricas do planeta. Conforme o Ministério da Justiça, as mulheres e meninas são as maiores vítimas do tráfico humano para a exploração sexual comercial: 98% do total em relação a 2% de homens e meninos. O(a)s criminoso(a)s lucram ao mesmo tempo que atendem à demanda do(a)s consumidore(a)s. No centro desta cadeia econômica, estão as vítimas em situação de vulnerabilidade pela pobreza, pela desigualdade de gênero e raça e por um processo de desenvolvimento assimétrico entre os países e entre as regiões dentro do mesmo território. O tráfico humano é fruto da globalização baseada no lucro, que exclui milhões de pessoas de uma vida mais digna. Mas em meio de constatações tão perversas, temos também notícias boas. Em Novembro de 2000, a Assembléia das Nações Unidas adotou o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição ao Tráfico de Pessoas, em especial mulheres e crianças, também conhecido por Protocolo de Palermo. O referido Protocolo foi ratificado no Brasil em Março de 2004. Em Outubro de 2006, um decreto presidencial aprovou a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, que traz um conjunto de diretrizes, princípios e ações norteadoras do Poder Público em relação ao tema. Finalmente, no início de Setembro deste ano, foi enviado para a Presidência da República o relatório final da proposta de Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (PNETP), concretizando a Política. Agora, governo e sociedade civil têm no PNETP um instrumento precioso de luta contra o crime do tráfico humano, o qual - tão logo publicado - devemos exigir que seja posto imediatamente em prática no País. Sua duração é de dois anos, após a publicação do decreto presidencial que o institui, tendo sempre de ser avaliado e monitorado para se renovar. Conseguimos vencer uma etapa de nossa luta. O passo seguinte é conseguir que o Congresso Nacional aprove a Legislação de enfrentamento ao tráfico de pessoas em nosso País. Porém, de pouco adiantará conseguirmos políticas públicas para combater o TP se, ao mesmo tempo, o governo federal - que tem dado tanta atenção ao problema - não mudar os rumos de sua macroeconomia, que privilegia os interesses de grupos financeiros nacionais e internacionais. Sem emprego, condições de saúde, educação e melhores perspectivas de vida homens, mulheres e crianças ficarão à mercê do(a)s que lucram com a venda de seus corpos. Priscila Siqueira - ABONG * *Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais Retirado daqui

sábado, setembro 22, 2007

Escrito a Sangue ruas escuras atravessado eu atravesso reviro o avesso nele me meço olho de lince encaro a face da fera espelhos se estilhaçam rasgam minha cara cai a neblina do vazio frio na barriga pago o preço erva bola cogumelo volto ao começo escapo com vida desconverso verso escrito a sangue desapareço quanto mais menos me pareço eco de bicho homem ego sem endereço Ademir Assunção* *poeta paulista

sexta-feira, setembro 21, 2007

73º aniversário The Faith The sea so deep and blind The sun, the wild regret The club, the wheel, the mind, O love, aren’t you tired yet? The club, the wheel, the mind O love, aren’t you tired yet? The blood, the soil, the faith These words you can’t forget Your vow, your holy place O love, aren’t you tired yet? The blood, the soil, the faith O love, aren’t you tired yet? A cross on every hill A star, a minaret So many graves to fill O love, aren’t you tired yet? So many graves to fill O love, aren’t you tired yet? The sea so deep and blind Where still the sun must set And time itself unwind O love, aren’t you tired yet? And time itself unwind O love, aren’t you tired yet? Leonard Cohen Dear Heater- Outubro de 2004

quinta-feira, setembro 20, 2007

O lado negro dos agrocombustíveis À primeira vista, os biocarburantes parecem uma solução altamente satisfatória. Produzidos a partir da cana de açúcar, de cereais, da soja e das palmeiras oleaginosas, constituem energias totalmente renováveis e alegadamente limpas, para além de, hipoteticamente, contribuírem para a melhoria das condições de vida de milhões de camponeses pobres. Mas, quando a esmola é grande, o pobre desconfia. E, como a esmola foi de monta, primeiro com o célebre memorando Bush - Lula e depois com a cimeira União Europeia – Brasil, e eu sou pobre, deu-me para fazer aquilo que seria suposto ser trabalho de jornalista que se preze: investigar, para ver se não haveria “gato escondido com o rabo de fora”. E o panorama não podia ser mais aterrador. Às imensas consequências ambientais negativas provocadas pela desflorestação galopante já verificada na Malásia e na Indonésia e espectável no Brasil, pela monocultura intensiva de espécies não autóctones, pelo consumo intensivo de água desperdiçada no cultivo e pelos gazes com efeitos de estufa provocados pela produção do combustível, que chegam a ultrapassar as emissões dos combustíveis fósseis, é necessário acrescentar os custos sociais associados à espoliação de milhões de camponeses dos seus meios de subsistência e ao aumento exponencial do custo dos cereais no mercado internacional, que já levou a violentos protestos de multidões de mexicanos confrontados com o preço do milho que importam dos Estados Unidos e que é a base do prato nacional, a famosa “tortilla”. Mas o melhor será dar a “tesoura” a quem “percebe da poda”. Entre tanta informação que me parece digna de realce, recomendo um artigo do sociólogo belga François Houtart, intitulado “o custo económico e social dos agrocombustíveis” (em castelhano) e outro de Eric Holtz-Gimenez, director geral do “Food First”, publicado no Le Monde Diplomatic de Junho de 2007, com o título “ Os cinco mitos da transição para os agrocombustíveis”, que pode ser lido em francês ou em inglês. Também já se fala da produção de biocarburantes a partir da celulose, pois os cientistas estão a trabalhar numa bactéria que o permitiria. Para nós, que temos assistido impotentes ao domínio do eucalipto sobre as espécies originais das nossa florestas, com a consequente aridez e desertificação dos solos, será fácil imaginar o que acontecerá à fauna e floras mundiais quando se começar a produzir combustível a partir de árvores de crescimento rápido. Confrontados com o petróleo a esgotar-se, a previsível escassez de água doce num futuro próximo, os efeitos potencialmente devastadores da produção de biocarburantes e as necessidades crescentes de energia, não seremos capazes de encontrar alternativas?

quarta-feira, setembro 19, 2007

A bacia de Pilatos A nação está perplexa e indignada. Na cara da maioria dos políticos e, particularmente, dos jornalistas que acompanharam o caso do Senador Renan Calheiros e sabiam as manobras escusas que usava a partir de seu cargo de presidente da Casa, para se manter no poder, se estampava decepção e abatimento. E com razão, pois o Senado se transformou num sinédrio, cheio de herodianos, aliados do poder dominante. Esses votaram a favor e 6 se abstiveram. Exatamente o número que Renan precisava para escapar-se da punição. Abster-se é dizer não à cassação. Supõe-se que muitos destes votos, secretos, vieram do PT e aliados. O Senador Mercadante revelou seu voto de abstenção. A líder do PT no Senado, Ildeli Salvati, cabalava votos em favor de Renan e deve ter se abstido, facilitando a vitória do acusado. A propósito de falta de decoro por permitir que um lobista pagasse suas contas pessoais referentes ao filho que tivera com sua amante ­ isso se chamava antigamente de adultério público - descobriram-se muitas outras irregularidades graves, atestadas pela polícia federal e pelo jornalismo investigativo da televisão. Esta foi ao local, em Alagoas, documentou em som e em cores as mentiras e falsas alegações de Calheiros, o que comprovava ainda mais sua falta de decoro. Além do mais, mentiu aos Senadores e sonegou informações e documentos ao conselho de ética. Aliados do absolvido falaram em vitória da democracia. Que democracia? Esta, convencional no Brasil, encurtada e farsesca, montada em cima de conchavos, do uso do poder público em benefício próprio, infectada de tráfico de influência e de desvio de dinheiros públicos? O que envergonha os cidadãos é verem Senadores, alguns velhos provectos, sem qualquer dignidade, verdadeiros mafiosos do poder, voltarem as costas à sociedade e fazerem-se cegos e surdos ao clamor das ruas. Estão tão enjaulados em seus privilégios na redoma do Senado que nem lhes importa o que a mídia e a opinião pública pensam deles. Mas, o que envergonha mesmo é a recaída de membros do PT. São pecadores públicos contumazes. Já haviam antes enviado a ética nem sequer para o limbo, mas diretamente para o inferno. Agora repetiram o ato pecaminoso. Por isso, são desprezíveis como Pilatos. Este se acovardou diante do povo e condenou Jesus. Mas, antes fez um gesto que passou à história como símbolo de pusilanimidade, de covardia e de falta de caráter. Diante do povo, lavou as mãos com água. Essa bacia de Pilatos foi ressuscitada no Senado. Mas a água não é água. São lágrimas dos indignados, dos cansados de ver injustiças e dos dilacerados diante da contínua impunidade. A "onorebile famiglia Calheiros" tem novos membros em sua máfia. Todos os que se abstiveram, podem acrescentar a seus nomes o sobrenome de Calheiros. Como revelou publicamente seu voto, o Senador Aloísio Mercadante merece agora ser chamado de Aloisio Mercadante Calheiros. Pelo esforço da argumentação em favor da não cassação de Renan, a Senadora Ildeli Salvatti merece que lhe apodemos de Ideli Salvatti Calheiros. Ela fez a figura inversa da mulher do covarde Pilatos que o advertiu: "não te comprometas com este justo, pois sofri muito hoje em sonhos por causa dele". Ela e outros devem estar sofrendo muito, sim, roídos pela má consciência. Esse sofrimento transparece em seus olhos revirados e em seus rostos desfigurados. O povo não merece ser representado por espíritos menores, faltos de ética, desavergonhados e esquecidos de que são meros delegados do poder popular. Que mostrem a cara, que falem ao povo, que se expliquem por quê, diante de tantas provas, dos relatórios da comissão de ética e do clamor das ruas, puderam agir de forma tão traiçoeira. Leonardo Boff Retirado daqui

terça-feira, setembro 18, 2007

37 anos de ausência Angel Angel came down from heaven yesterday She stayed with me just long enough to recue me And she told me a story yesterday, about the sweet love between the moon and the deep blue sea And then she spread her wings high over me She said she's gonna come back tomorrow And I said "fly on my sweet angel, fly on through the sky, fly on my sweet angel, tomorrow I'm gonna be by your side" Sure enough this morning came unto me Silver wings silhouetted against the child's sunrise And my angel she said unto me "today is the day for you to rise, take my hand, you're gonna be my man, you're gonna rise" And then she took high over yonder And I said "fly on my sweet angel, fly on through the sky, fly on my sweet angel, forever I will be by your side" Jimi Hendrix

segunda-feira, setembro 17, 2007

A imposição do poema Dissimulado, o poema se impõe: aceso o coração, iluminada a rua, o poema dá as caras nas frestas da janela, põe as manguinhas de fora, cospe no prato e, atrevido, vai realizando, meio tonto, meio sonso, sua esfinge de cal, sua natureza de vento, sua estrutura de nada. Inútil, o poema compõe disfarces: armada a cilada, preparado o bote, o poema primeiro dorme, descansa seu corpo de éter, sua alquimia, na primeira pedra, ao menor descuido, para depois, ágil e confiante, estabelecer-se inteiro na superfície rasa do papel vencido. João Carlos Taveira* *poeta mineiro

domingo, setembro 16, 2007

Somos cinco mil Chamava-se Victor Jara, tinha 31 anos, cantou com e para o povo e foi assassinado pelos verdugos do povo. Preso no dia da instauração da ditadura de Pinochet, foi levado com os seus companheiros para o estádio de Santiago do Chile, vilipendiado e torturado durante quatro dias e, em 16/09/1973, cobardemente morto em nome da civilização ocidental. Quebraram-lhe as mãos para que não pudesse mais escrever. Contudo, no meio da tortura, conseguiu redigir a sua última canção, que foi escondida em bocados de papel pelos seus companheiros. Somos cinco mil, para que a memória se não apague: Somos cinco mil nesta pequena parte da cidade. Somos cinco mil, quantos seremos no total, nas cidades e em todo o país? Só aqui dez mil mãos que semeiam e fazem andar as fábricas. Quanta humanidade, com fome, frio, pânico, dor pressão moral, terror e loucura! Seis de nós se perderam no espaço das estrelas. Um morto, um espancado como jamais imaginei que se pudesse espancar um ser humano. Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores um saltando no vazio, outro batendo a cabeça contra a parede, mas todos com o olhar fixo da morte. Que espanto causa o rosto do fascismo! Levam a cabo os seus planos com precisão fantástica, sem que nada lhes importe. O sangue, para eles, são medalhas. A matança é acto de heroísmo. É este o mundo que criaste, meu Deus? Para isso os teus sete dias de assombro e trabalho? Nestas quatro muralhas só existe um número que não cresce e que lentamente quererá mais a morte. Mas prontamente me golpeia a consciência e vejo esta maré sem pulsar, mas com o pulsar das máquinas e os militares mostrando seu rosto de matrona, cheio de doçura. E o México, Cuba e o mundo? Que gritem esta ignomínia! Somos dez mil mãos a menos que não produzem. Quantos somos em toda a pátria? O sangue do companheiro Presidente golpeia mais forte que bombas e metralhas. Assim o nosso punho golpeará novamente. Como me sai mal o canto quando tenho que cantar o espanto! Espanto como o que vivo como o que morro, espanto. De ver-me entre tantos e tantos momentos do infinito em que o silêncio e o grito são as metas deste canto. O que vejo nunca vi, O que tenho sentido e o que sinto Fará brotar o momento...” Victor Jara (Estádio de Chile, 1973)

sábado, setembro 15, 2007

As fases da lua Muito cedo gravou-se em mim o sentimento do mundo. Meus olhos, dilatados pela fé, polidos pelo pós-hegelianismo de Marx, enxergaram a pirâmide social invertida. Consumiu-se minha juventude na embriaguez da utopia. Dela comungavam tantos companheiros e companheiras movidos pelo ardente desejo de morder a lua. Épico o nosso sonho de remover as travas da desvida. Singular aquela estóica dedicação, despojada de toda ambição pessoal, disposta a reinventar o mundo. Tínhamos a ousadia de romper parâmetros, despidos de moralismos e sensíveis à morte e vida Severina. Lutávamos atentos aos clamores da Revolução de Outubro, à Longa Marcha de Mao ao cruzar as pontes de nossos corações, aos barbudos de Sierra Maestra que arrancavam baforadas de nosso alento juvenil, à vitória vietnamita selando-nos a certeza de que arrebataríamos o futuro. A lua seria o nosso troféu. Haveríamos de escalar suas montanhas e, lá em cima, desfraldar as bandeiras da socialização compulsória. Os condenados da Terra arranchavam-se sob o caravansará de nossos ideais e, em breve, saberíamos conduzi-los aos mananciais onde correm leite e mel... Caiu a noite, a lua se apagou, a nação, pisada pelas botas, abortou primícias e promessas. Trocamos a sala de aula pelo combate destemido, a caneta pelas armas, a garganta a ruminar convicta: "Venceremos!" O terror do Leviatã se abateu sobre nós, os gritos de dor ecoaram das masmorras, vidas preciosas ceifadas no carrossel das sevícias, corpos despedaçados e desaparecidos nos labirintos do arbítrio. Ainda assim, a lua não sangrou. Rumo à aurora, demos as mãos à multidão peregrina imbuída da devoção democrática. Nas periferias, o sorriso se abria, a consciência despertava, a mobilização florescia. Até que brilharam os raios fúlgidos e o esplendor da lua iluminou-nos a esperança. Na oficina dos sonhos, forjamos ferramentas apropriadas ao parto do novo Brasil. A luta sindical consubstanciou-se em projeto partidário, a crença pastoral multiplicou-se em células comunitárias, os movimentos sociais emergiram como atores no palco dominado pelas sinistras máscaras dos que jamais conjugaram o verbo partilhar. Cuba, Nicarágua, El Salvador... o olhar impávido do Che... a irredutível teimosia de Gandhi... a sede de justiça dessedentada nas fontes límpidas da ética. Jamais seríamos como eles. Em tempos de chuva, a água sobe rápido e inunda ruas, casas, cidades. Cegos pela miragem, não percebemos o lento e imbatível sopro do vento. A areia fétida, acumulada à soleira da porta, dia após dia subia mais um palmo. Galgamos degraus investidos de mandato popular, fomos entronizados na cozinha de Maquiavel, havia chegado a hora de quem tanto esperou acontecer. Intrépidos, alguns de nós decidiram cavalgar soberbos, convencidos de que o caminho mais curto entre sonho e realidade passa pelo mágico som do tilintar das moedas. Por que não se aventurar pelas mesmas sendas trilhadas pelo inimigo, já que ele se perpetua com tanta força? Qual o segredo dos cabelos de Sansão? Os pobres caíram no olvido, a sedução do poder fez a lua arder em chamas. Ícaros impenitentes, não se deram conta de que as asas eram de barro. A sofreguidão esvaziou projetos, a gula cobiçosa devorou quimeras. O pragmatismo acelerou a epifania dos avatares do poder. O conluio enlaçou históricos oponentes, adversários coligaram-se, e aliados foram defenestrados nessa massa informe que, destemperada de ética, alicerça o Leviatã. Ainda assim, há quem, sob a lua apagada, não tema perseguir pontos de luz na escuridão. Por alguma parte trafega a lanterna de Diógenes. Triste, contudo, ver antigos companheiros na condição de réus de tramóias eleitoreiras e financeiras. Hoje, a história, estuprada pelo neoliberalismo, engravida-se de sonhos medíocres. A utopia escorre pelo ralo. A lua mingua, a estrela já não refulge. Dói em mim tanto desacerto. Os sonhos de uma geração trocados por um prato de lentilha. Aguardo, agora, a lua nova. Frei Betto Retirado daqui

sexta-feira, setembro 14, 2007

Alex (1976-2007)

Alex morreu no passado dia 6. Tinha 31 anos, uma quase tenra idade para um papagaio cinzento africano, cuja esperança de vida é de 50 ou mais anos, e deixou os Estados Unidos a chorar. Se se introduzir no Google as palavras Alex + Parrot

aparecem quase 6 milhões de entradas.

Tem direito a uma Fundação com sítio próprio, o The New York Tymes dedicou-lhe um Editorial e um artigo na secção de Ciência e o Guardian outro artigo também na secção de Ciência.


Alex foi comprado em 1977 pela Dr. Irene Pepperberg, que passou os últimos 30 anos

a ensiná-lo. Conseguia identificar 50 objectos diferentes, 7 cores, 5 formas, quantidades até 6, categorizar mais de 100 itens diferentes e conhecia conceitos como maior/menor, igual/diferente, etc. Além de que era uma celebridade em programas de televisão, onde até dizia piadas breves, como “vamos com calma”.

Testemunha a cientista que, no dia da morte, se despediu dela com as palavras “You be good, see you tomorrow. I love you.” Mas, para o Alex, não houve amanhã, pois a sua dona encontrou-o morto no dia seguinte.

Se gosta de pássaros, especialmente de papagaios, espante-se com esta longa conversa com Irene Pepperberg.

quinta-feira, setembro 13, 2007

O Nosso Futuro Biotecnológico


Este simpático ancião chama-se Freeman Dyson e é um físico teórico e matemático anglo-americano, famoso pelo seu trabalho em mecânica quântica e física do estado-sólido, bem como pelo sua importante teorização sobre os conceitos de futurologia e ficção científica.

Recentemente, publicou na The New York Review of Books um muito interessante e provocatório artigo sobe O Nosso Futuro Biotecnológico (Our Biotech Future), no qual, depois de afirmar que o século XXI será o século da biologia, como o século XX foi o século da física, antecipa um futuro não muito distante em que a “domesticação” e a massificação das descobertas no campo da biotecnologia porão nas nossas mãos um sem número de possibilidades.

O acesso é livre e a leitura aliciante e fácil; aqui fica uma passagem para aguçar o apetite:

“o passo final na domesticação da biotecnologia serão os jogos biotecnológicos, desenhados como jogos de computador para crianças com idade para frequentarem jardins infantis, mas jogados com ovos e sementes reais em vez de imagens num ecrã. Brincando com tais jogos, as crianças irão adquirir uma ternura familiar pelos organismos que estão a ajudar a crescer. O vencedor talvez possa ser a criança cuja semente produzir o cacto mais espinhoso ou o miúdo cujo ovo chocar o dinossauro mais perspicaz”.

Pode ler aqui os comentários de outros e especialistas e a resposta do autor.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Lá como cá Que é ter vergonha na cara? Benjamin Franklin (1706-1790) foi editor, refinado intelectual, escritor, pensador, naturalista, inventor, educador e político. Propunha como projeto de vida um pragmatismo esclarecido, assentado sobre o trabalho, a ordem e a vida simples e parcimoniosa. Foi um dos pais fundadores da pátria norte-americana e participante decisivo na elaboração da Constituição de 1776. Neste mesmo ano, foi enviado à França como embaixador. Frequentava os salões e era celebrado como sábio a ponto de o próprio Voltaire, velhinho de 84 anos, ir ao seu encontro na Academia Real. Certa tarde, encontrava-se no Café Procope, em Saint-Germain-des-Près, quando irrompeu salão adentro um jovem advogado e revolucionário, Georges Danton, dizendo em voz alta para todos ouvirem:"O mundo não é senão injustiça e miséria. Onde estão as sanções?" E dirigindo-se a Franklin perguntou provocativamente:"Senhor Franklin, por detrás da Declaração de Independência norte-americana, não há justiça, nem uma força militar que imponha respeito". Franklin serenamente contestou: "Engano, senhor Danton. Atrás da Declaração há um inestimável e perene poder: o poder da vergonha na cara (the power of shame)". É a vergonha na cara que reprime os impulsos para a violação das leis e que freia a vontade de corrupção. Já para Aristóteles a vergonha e o rubor são indícios inequívocos da presença do sentimento ético. Quando faltam, tudo é possível. Foi a vergonha pública que obrigou Nixon a renunciar à presidência. De tempos em tempos, vemos ministros e grandes executivos tendo que pedir imediata demissão por atos desavergonhados. No Japão, chegam a suicidar-se por não aguentarem a vergonha pública. Ter vergonha na cara representa um limite intransponível. Violado, a sociedade despreza seu violador, pois não se pode conviver sem brio. Que é ter vergonha na cara? O dicionário Aurélio assim define:"ter sentimento da própria dignidade; ter brio." É o que mais nos falta na política, nos portadores de poder público, em deputados, senadores, executivos e em outros tantos ladrões e corruptos de colarinho branco. Com a maior cara de pau e sem vergonhice negam crimes manifestos, mentem sem escrúpulos nos interrogatórios e nas entrevistas aos meios de comunicação. São pessoas que à força de fazer o ilícito e de se sentir impunes perderam qualquer senso da própria dignidade. Roubar do erário público, assaltar verbas destinadas até para a merenda escolar ou falsificar remédios não produz vergonha na cara. Crime é a bobeira de quem deixa sinais ou permite que seja pego com a boca na botija. Nem se importam, pois sabem que serão impunes, basta-lhes pagar bons advogados e fazer recursos sobre recursos até expirar o prazo. Parte da justiça foi montada para facilitar estes recursos e favorecer os sem vergonha com poder. No transfundo de tudo está uma cultura que sempre negou dignidade aos índios, aos negros e aos pobres. Roubou-lhes seu valor ético porque a maioria guarda vergonha na cara e tem um mínimo de brio. Como me dizia um "catador de lixo" com o qual trabalhei cerca de 20 anos: "o que mais me dói é que tenho que perder a vergonha na cara e me sujeitar a viver do lixo. Mas não sou "catador", sou trabalhador que com o meu trabalho digno consigo alimentar minha família". Se nossos políticos desavergonhados tivessem a vergonha desse trabalhador, digna e dignificante seria a política de nosso pais. Leonardo Boff Publicado no seu site em 10/08/2007 e aqui afixado com a sua autorização

terça-feira, setembro 11, 2007

Em memória de Salvador Allende Para ti Salvador Allende, en la furia del mar junto al litoral se sostiene el eco de insólitos recuerdos del heroico e infalible luchador social sus sueños no cesarán y su vida entregara. Allende, por las alturas de los Andes tu alma traicionada y doliente vaga y vuela buscando el corazón de un pueblo dormido y una verdad distorsionada solo queda. Allende, en las frías alamedas despierta el desencanto de las metrallas del odio que callaron el timbre tranquilo de tu voz y la luz febril de tu palabra ausente. Allende, vives en esperanzados rincones y donde ha habido una llama por apagarse miles se han encendido para iluminarte y el pueblo lento espera para organizarse. Allende, compañero consecuente del alma Chile hoy se sostiene en una aparente calma. Las luchas sociales más desigual que antes; el pobre más pobre y los ricos delirantes. Sergio Mouat* *poeta chileno
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Chile Vive Para matar al hombre de la paz para golpear su frente limpia de pesadillas tuvieron que convertirse en pesadilla, para vencer al hombre de la paz tuvieron que congregar todos los odios y además los aviones y los tanques, para batir al hombre de la paz tuvieron que bombardearlo, hacerlo llama, porque el hombre de la paz era una fortaleza Para matar al hombre de la paz tuvieron que desatar la guerra turbia, para vencer al hombre de la paz y acallar su voz modesta y taladrante tuvieron que empujar el terror hasta el abismo y matar más para seguir matando, para batir al hombre de la paz tuvieron que asesinarlo muchas veces porque el hombre de la paz era una fortaleza, Para matar al hombre de la paz tuvieron que imaginar que era una tropa, una armada, una hueste, una brigada, tuvieron que creer que era otro ejército, pero el hombre de la paz era tan sólo un pueblo y tenía en sus manos un fusil y un mandato y eran necesarios más tanques, más rencores más bombas, más aviones, más oprobios porque el hombre de la paz era una fortaleza Para matar al hombre de la paz para golpear su frente limpia de pesadillas tuvieron que convertirse en pesadilla, para vencer al hombre de la paz tuvieron que afiliarse siempre a la muerte matar y matar más para seguir matando y condenarse a la blindada soledad, para matar al hombre que era un pueblo tuvieron que quedarse sin el pueblo. Mario Benedetti **– Homenagem a Salvador Allende **poeta uruguaio