segunda-feira, outubro 22, 2012

Rita Guerra faz hoje 45 anos
Recuso-me

Recuso-me a ficar amolecido
Tragicamente cilindrado
E muito antes de lutar - vencido
E muito antes de morrer - violado.

Recuso-me ao silêncio e à mordaça
Serei independente, livre e exacto
A verdade é uma força que ultrapassa
A própria dimensão em que combato.

Recuso-me a servir a violência
Embora a minha voz de nada valha
Mas que me fique ao menos a consciência
De que tentei romper esta muralha.

Recuso-me a ter medo e a estiolar
Na concha dos poetas sem mensagem
Que me levem o corpo e a coragem
Mas que fique esta voz para cantar.


(poeta português falecido faz hoje 24 anos)

domingo, outubro 21, 2012

Elliot Smith faleceu faz hoje 9 anos
Soneto dos símbolos efêmeros

Os símbolos efêmeros: memento
da vida breve: música secreta
-  do tempo, a se esvair na asa do vento,
-  do sonho, a esmaecer a chama inquieta.

Cresça no céu de pedra o véu nevoento;
junto às nuvens se perca a doida seta
rumo ao não e ao talvez: o sentimento
atrela-se a uma estrela, e essa incompleta

visão apaziguante é misteriosa
luz transcendência: rútila persiste,
seiva do ser, essência poderosa,

pois se foi dito o quanto a carne é triste,
arde em perfume o espírito da rosa
e é mais belo o que só no sonho existe.


(poeta pernambucano falecido faz hoje 6 anos)

sábado, outubro 20, 2012

sexta-feira, outubro 19, 2012

Karl Wallinger faz hoje 55 anos
Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


(Manuel António Pina faleceu esta tarde)
Jacqueline du Pré faleceu faz hoje 25 anos

(Intermezzo das Goyescas de Enrique Granados)
A lenda da maldição

A noite viu a criança que subia a escada cheia de risos e de sombras
E pousou como um pássaro ferido sobre as árvores que choravam.
A criança era o príncipe-poeta que a música ardente fizera subir à última torre
E a noite era a camponesa que amava o príncipe e o adormecia no seu canto.
Quando a criança chegou ao ponto mais alto viu que a música era o riso embriagado
E que o riso embriagado era das estátuas mortas que tinham no ventre aberto entranhas murchas.
A criança lembrou-se da noite cheia de entranhas e cujo riso era a poesia eterna
E a angústia cresceu no seu coração como o mar alto nos penhascos.
O olhar cego das estátuas levou o herdeiro do reino ao fosso negro - ó príncipe, onde estás? - a voz dizia
E a água subia, nos braços, no peito, na boca, nos olhos do amado da noite.

Depois saiu do fosso um homem que era o poeta-amaldiçoado
E que possuiu a noite chorando, adormecida.
A noite que nada viu continua chamando o príncipe-poeta
Enquanto o poeta-amaldiçoado chora nos braços das estátuas mortas...


(Vinícius de Moraes nasceu faz hoje 99 anos

quinta-feira, outubro 18, 2012

Lucky Dube foi assassinado faz hoje 5 anos
Chuck Berry faz hoje 86 anos
Vínculos
   
Caminhamos...
Erramos...
Alcançamos píncaros
e os vínculos
da estrada da vida
comprida
se fortaleceram... 

Pintamos na tela da memória
estórias,
compusemos na música do vento
alentos,
construímos nas ruínas
esquinas
de sonhos matreiros... 

Hoje, paramos...
separamos
nossos retalhos de tempo
e o lamento
escreve na página do destino
matizes
das cicatrizes
dos nossos caminhos inversos...


(escritora paulista que hoje faz 62 anos)