sábado, maio 14, 2011


N.U.N.C.A.

N. unca!
U. ma palavra que
N. unca deveria ser dita
C. omo se fosse,
A. final, algo banal...

José Antonio Klaes Roig

(poeta brasileiro)

Escafederam-se

Engasgado pelos pentelhos cuspidos pelo Catroga ou assustado pelo gato preto da sexta-feira treze, entre as 21H30 do dia 12 e as 6H45 do dia 13 o Blogger eliminou as postas dos dias 11 e 12 bem como os respectivos comentários já publicados. Ontem, ao fim do dia, as postas foram automaticamente repostas, mas os comentários nem vê-los. Penso não ter sido caso único, mas aqui ficam as minhas desculpas aos autores dos comentários eliminados sem “justa causa”.

sexta-feira, maio 13, 2011


Corte transversal do poema

A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada prós meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.


(poeta mineiro, nascido a 13 de Maio de 1901)

quinta-feira, maio 12, 2011

Prato do dia



Ser ou não ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.


(Manuel Alegre completa hoje 75 anos)

quarta-feira, maio 11, 2011

No Woman no cry


Bob Marley faleceu a 11 de Maio de 1981

Velando

Junto dela, velando… E sonho e afago
imagens, sonhos, versos comovido…
Vejo-a dormir… O meu olhar é um lago
em que um lírio alvorece reflectido…

Vejo-a dormir e sonho… Só de vê-la
meu olhar se perfuma e, em minha vista,
há um céu de Amor a estremecê-la
e a devoção ansiosa dum Artista…

Nuvem poisada, alvente, sobre a neve
das montanhas do céu - ó sono leve,
hálito de jasmim, lírio, luar…

 Respiração de flor, doçura, prece…
- Ó rouxinóis, calai! Fonte, adormece,
senão o meu Amor pode acordar!


(Augusto Casimiro dos Santos nasceu em Amarante a 11 de Maio de 1889)

terça-feira, maio 10, 2011


Luar do Sertão


Oh que saudade 
Do luar da minha terra 
Lá na serra branquejando 
folhas secas pelo chão

Este luar cá da cidade 
Tão escuro 
Não tem aquela saudade 
Do luar lá do sertão

Se a lua nasce 
Por detrás da verde mata 
Mais parece um sol de prata 
Prateando a solidão

E a gente pega 
Na viola que ponteia 
E a canção 
É a lua cheia 
A nos nascer do coração

Não há, oh gente 
oh não, Luar 
Como esse do sertão

Coisa mais bela 
Neste mundo não existe 
Do que ouvir-se um galo triste 
No sertão, se faz luar

Parece até que a alma da lua 
É que descanta 
Escondida na garganta 
Desse galo a soluçar

Não há, oh gente 
oh não, Luar 
Como esse do sertão

Ah, quem me dera 
Que eu morresse lá na serra 
Abraçado à minha terra 
E dormindo de uma vez

Ser enterrado 
Numa grota pequenina 
Onde à tarde a sururina 
Chora a sua viuvez


(poeta, músico e compositor brasileiro falecido a 10 de Maio de 1946)

(Canta Maria Bethânia)

Amigos da onça

Enquanto o inflexível FMI nos vai cobrar uma taxa de juro entre 3,25% e 4,25%, a “solidária” Comissão liderada pelo cherne da tanga fica-se por uma “mísera taxa de usura” entre os 5,5% e os 6%. Depois chamem-lhe ajuda.

segunda-feira, maio 09, 2011


Lucidez:

Eis que a procuro;
Que desafia-me a razão
Que esgota-me o intelecto,

Que leva-me
Aos limites do cérebro
E da consciência...

Que confunde-me a fé
Exacerba-me a emoção
E elimina-me a inocência.

E que à sua proximidade,
Espanta-me.

E excita-me!

José Antônio Gama de Souza

(poeta mineiro)

domingo, maio 08, 2011


NAU SEM RUMO

Não preciso de cartas de navegação:
basta-me o sonho de travessias impossíveis.

Caminhar sobre a superfície do oceano,
pisando em pássaros submarinos,
tropeçando em ruínas de outras civilizações,
beijando cadáveres de náufragos,
até a definitiva conversão em água, sal e vento.

Sei que não tenho destino.
É o destino que me possui.
As correntezas traçam a rota
e as tempestades preparam o naufrágio.

O mar não precisa de caminhos,
tece na solidão as formas da morte,
enquanto o vento entoa cantos fúnebres
sobre os campos azuis do país marítimo.

O mar não precisa de navios,
precisa apenas de corpos.

José Antônio Cavalcanti

(poeta brasileiro)

sábado, maio 07, 2011

Sesquicentenário

O Último Negócio

Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso,
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
- Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
- Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
- Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas
e fui-me embora.

Anoitecia e a sebe do jardim
estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
- Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
- Posso comprar-te com nada.
Desde que fiz este negócio a brincar,
sou livre.


(Rabindranath Tagore nasceu a 7 de Maio de 1861)

sexta-feira, maio 06, 2011


As Passagens Secretas

(fragmentos) 

Corremos pela praia com a nossa nudez porque deixamos
algures os mantimentos escassos
de que a nossa tristeza se mantém.

Corremos pela praia e as mãos deslizam
para um cobertor lavado pelo mar,
o oiro magnífico, a distância
mais curta entre dois pontos. É de noite,

e corremos porque o tacto é uma promessa,
casam-se os búzios, conchas
azuis habitam o olhar, barcos,

homens que bebem a água como se fosse terra,
pequeninas sementes,
dissimulam a sede a que deus nos condena. 


(poeta portuense nascido a 6 de Maio de 1953)

quinta-feira, maio 05, 2011


Biografia

Era um grande nome
- ora que dúvida!
Uma verdadeira glória.

Um dia adoeceu,
morreu,
virou rua...

E continuaram a pisar em cima dele.


(poeta gaúcho falecido a 5 de Maio de 1994)

Sucessão de São Pedro

- Seu vigário!
Está aqui esta galinha gorda
que eu trouxe pró mártir São Sebastião!

- Está falando com ele!
- Está falando com ele!


(poeta pernambucano falecido a 5 de Maio de 1965)

quarta-feira, maio 04, 2011


Os festejos das hienas

















Afinal, as hienas não são as únicas a festejar as carnificinas. Muito mais humanos do que seria expectável portam-se, afinal, bem pior. 

As Viagens

Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou.
A posse é um declínio.

Antes um pássaro a voar que dois na mão.
Dois pássaros na mão são o que já não falta.
Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele;
ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares;
dar a volta ao mundo e continuar;
é ter um motivo de viver - é não ter chegado ainda.


(Branquinho da Fonseca nasceu a 4 de Maio de 1905)

terça-feira, maio 03, 2011


Sistema

O desenho de uma estrela
quantifica o papel
deslumbra o vazio. 

A simplicidade
equaciona o absurdo.

Jorge Tufic

(poeta cearense)

segunda-feira, maio 02, 2011


A puta que pariu!

Atentamente repare
como o equilíbrio luta:
A cada puta que pare,
nos nasce um filho da puta.


(poeta brasileiro nascido a 2 de Maio de 1986)

domingo, maio 01, 2011


Recusa

Convosco, não, traidores!
Que poeta decente poderia
Acompanhar-vos um segundo apenas?
À quente romaria do futuro
Não vão homens obesos e cansados.
Vão rapazes alegres.
Moças bonitas,
Trovadores,
E também os eternos desgraçados,
Revoltados
E sonhadores.

Miguel Torga