quinta-feira, dezembro 30, 2010

Missão

Meus versos terão cumprido a sua missão
se puderem ser pedra e areia
servirem de barricada.

Se puderem ser o hino, quando o desânimo
se levantar como a poeira dos escombros.

Se puderem permanecer no alto, como a bandeira
rasgada e irreconhecível, mas tremulando.

Terão cumprido a sua missão
se na hora em que precisarem deles
não negarem fogo como a boa arma,
se outros puderem ouvi-los, como o esperanto,
depois da vitória do homem e da vitória do povo.

J. G. de Araújo Jorge

(poeta alagoano)

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Economia de casino














Agora percebem-se claramente os motivos pelos quais o ministro da finanças alemão e, mais recentemente, o economista chefe do Deutsche Bank insistem tanto nas medidas de austeridade e entrada do FMI em Portugal: jogo puro e duro.

Segundo o insuspeito Finantial Times de ontem, está agendado um mega concerto para a abertura, na véspera de Ano Novo, do Cosmopolitan of Las Vegas, um pequeno hotel casino com três mil quartos, do qual o banco alemão é proprietário e onde investiu mais de três mil milhões de dólares. A economia de casino no seu melhor.
difícil é cantar

À partida tumultuosa das gaivotas em terra
o vento acompanha o murmúrio do ar
na música da espuma;

as ondas, nunca exaustas, de água, sal e lume,
repetem a canção do mar até à
Invenção do mundo.


(Maria Azenha nasceu em Coimbra a 29 de Dezembro de 1945)

terça-feira, dezembro 28, 2010

Arte de viver

Habito no halo
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto

é a arte de viver...

como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida

no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade


(Armando Artur nasceu em Moçambique a 28 de Dezembro de 1962)

segunda-feira, dezembro 27, 2010

lar doce lar

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.


(poeta brasileiro falecido a 27/12/1987)
Carta adiada

Esta carta era para ter sido escrita antes do Natal, mas o número impressionante da cartas ao Pai Natal publicadas nos jornais levou-me a adiá-la para o Boxing Day. Entretanto, o frio fez fugir a pontuação e as maiúsculas, pelo que a missiva ficou uma espécie de arremedo mal alinhavado das redacções da guidinha do saudoso Luís Stau Monteiro e reza assim:

querido pai natal tu que estás sentado no topo do mundo olha para este pequeno rectângulo pendurando no cu da europa que está transformado numa grande “merda” principalmente desde que a chanceler dos “fritz” e o “président” do hexágono começaram a arrotar postas de pescada sobre a dívida e o arroto que é um peido que perdeu o elevador perdeu mesmo o dito e se transformou num telegrama que vai dos intestinos ao ânus a anunciar um descarregamento de “merda” que isto por aqui é pior do que um esgoto a céu aberto na capital do burkina fasso como sabes num mapa pendurado na parede o rectângulo fica na parte de baixo da europa pelo que toda a porcaria vem cá parar temos um governo que não governa e só quer sacar ao povo trabalhador uma oposição que não se opõe um presidente e candidato a presidente que atafulha a boca de bolo rei outro candidato que passa a vida a correr atrás de uma galinha para lhe tirar o pão do bico, economistas que só dizem tretas advogados que não advogam juízes que não julgam mesmo que os malandros sejam apanhados em flagrante de litro jornalistas que não fazem a mínima ideia do que é escrever em bom português locutores pitosgas que não sabem ler o teleponto autarcas que não autarcam empresários que apenas empreendem a mais sórdida exploração do trabalho (pouco) assalariado e mais um rol de coisas que não têm tradução em linguagem de rena deve ser por causa do fado por favor manda daí uma manada de renas para varrer isto tudo à cornada a ver se isto se compõe sem mais adeus pois tenho de poupar papel e caneta para te escrever no próximo ano se o houver

domingo, dezembro 26, 2010

Balada do resplendor deste século

que o resplendor deste século são empolas de água,
e pó sacudido do vento, que todas as cousas da terra têm por fim a terra.



ama ama
ama zonas
certas zonas
miss issipi
ama indo
ama vindo
ama olga
ama volga
ebro ébrio
bramaputra
escalda escalda
gua diana
com apolo
ama dão
e ama deu
ama teu
e ama tua
ama frates
e eufrates
ama núbio
e danúbio
colorido
colorado
ama tejo
ama sena
ama sado
orinoco e tocantim
xingu ural tarim
ama tudo
e por fim
ama pó
ama pó
ama pó
cinza e nada.




(poeta portuense que hoje completa 73 anos) 

sábado, dezembro 25, 2010

Messianeida

São Francisco de Assis pregou aos pássaros,
e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...

Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...


(poeta carioca falecido passam hoje 80 anos)
LITANIA DO NATAL

A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

José Régio

sexta-feira, dezembro 24, 2010

EU

sou o 
avesso
em vez de ir aprendendo
fui me desfazendo
e voltando ao começo

me livrei da fé
depois 
de perder a alma no negócio
perdi 
o amor próprio
e expulsei meu ego a pontapé

perdi a vergonha na cara
e esporreei de
 real prazer e puro deleite
não dei às promissórias da vida o aceite
e me 
desfiz do que me mascara

fui deixando de lado
a solidão vazia das 
conversas de salão
entrei de sola com o dedo no cão
e me absolvi de todo o pecado

abandonei os jornais
doei meu gibis a um orfanato
para um asilo a TV e o rádio
e o de menos virou mais

agora 
tenho a mim
e comigo conto
se a morte é assim
eu já 
estou pronto!

Antonio Thadeu Wojciechowski

(poeta paranaense nascido a 24 de Dezembro de 1950)

quinta-feira, dezembro 23, 2010

As árvores e os livros

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.


(o poeta vila-verdense Jorge Sousa Braga faz hoje 53 anos)
Visto de além-mar

O ajuste europeu

Acuados pelos mercados, governos europeus fazem demonstrações explícitas de genuflexão ortodoxa na esperança de evitar a fuga dos investidores, que ameaçam não financiar mais a dívida pública de Estados quebrados, entre outros motivos, pelo socorro prestado a bancos e empresas durante a crise de 2007/2008. O colapso das finanças desreguladas transmudou-se assim em maior 'risco soberano', medida de confiança dos mercados nos títulos emitidos pelos Tesouros nacionais. Longe de acabar, o que houve foi uma baldeação da crise que se deslocou da contabilidade particular para a das finanças públicas. A ironia suprema é que para continuar financiando os déficits avultados, os mercados exigem agora que os próprios Estados promovam uma segunda baldeação do arrocho, desta feita para o lombo da população. Desmoralizada mas ainda não desbancada, a cartilha neoliberal dá as cartas de como fazê-lo, ao exigir vigorosos cortes nos gastos sociais para destinar recursos ao pagamento de juros e assegurar o resgate de papéis oficiais. Governantes da Irlanda, Grécia, Inglaterra, Portugal e Espanha já acataram a ordem unida. Ontem, foi a vez da Itália. O governo Berlusconi anunciou medidas de arrocho no orçamento universitário que incluem cortes de verbas para bolsas, redução de tempo das pesquisas, novas regras de admissão, maior papel do setor privado na administração do ensino superior público etc. Como fizeram os gregos, ingleses e irlandeses, a juventude italiana foi às ruas aos milhares. Se os protestos esparsos não se fundirem em gigantescas mobilizações de abrangência européia, porém, o veneno que causou a crise será ministrado em dobro para 'tratar' o agônico metabolismo da outrora trincheira da social-democracia mundial.

(in Carta Maior; Quinta-feira, 23/12/2010)

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Regabofe



























As eléctricas festejam o aumento dos preços da energia.

Retirado daqui
Novo epitáfio para um poeta

Na terra nua, as asas desdobraram,
Espigaram,
Deram flor.
Se ali passar alguém
Que tenha o olfacto fino e o dom do humor,
Dirá que aquele morto é um amor:
Dá flor e cheira bem.


(José Régio faleceu a 22 de Dezembro de 1969)

terça-feira, dezembro 21, 2010

No tempo do forte verde

Na sala de jantar
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.

J. B. Sayeg

(poeta paulista)

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Para os Amigos

De entre todos, apenas vós
tendes direito a ver-me
fracassar. Onde caio
entre a vossa irónica
doçura implacável, convosco
partilho o pão e o espaço
e a rapidez dos olhos
sobre o que fica (sempre)
para dar ou dizer.
E de vós me levanto
e vos levo pesando
e ardendo até onde
me ajudais a ser
melhor ou talvez
menos só.

Vítor Matos e Sá, in Companhia Violenta

(poeta português nascido em Lourenço Marques a 20 de Dezembro de 1927 e falecido em Espanha em 1975, de acidente de viação)

domingo, dezembro 19, 2010

Já

já não é hoje ?
não é aquioje?

já foi ontem?
será amanhã?

já quandonde foi?
quandonde será?

eu queria um jàzinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá


(Alexandre O’Neill nasceu a 19 de Dezembro de 1924 e faleceu a 21 de Agosto de 1986)

sábado, dezembro 18, 2010

Invenção do Vento

No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.

J. Anderson

(poeta carioca)

sexta-feira, dezembro 17, 2010

O Silêncio esperado

Agora que vi a neve já posso morrer
de uma morte branca e imaculada
que vai reunir a sombra e a claridade
na vertigem do derradeiro enlace.
Com o seu sopro fremente e lábios frios
ela é o silêncio esperado e sepulta na terra
o amor audacioso e o sonho insensato
como quem esconde um passarinho morto
dos olhos do passante que atravessa o parque.


(poeta alagoano)