sexta-feira, dezembro 17, 2010

A usura














Lê-se e custa a acreditar. Enquanto no seu próprio país mais de 40 milhões de pessoas vivem de senhas de comida, há 10% de desempregados e muitos milhões ficaram sem casa; enquanto em todo o mundo centenas de milhões de pessoas vivem no desespero ou para lá caminham por culpa da crise que a ganância sem limites dos financeiros de Wall Street provocou, os nababos do dinheiro estão prontos para colher os frutos do resgate de centenas de milhares de milhões de dólares de que foram beneficiários, esperam avidamente pelo segundo melhor ano de sempre da catedral do Deus dinheiro e preparam-se para a distribuição de bónus milionários, não no sentido de milhares de dólares mas sim de milhões per capita. Porca miséria!

quinta-feira, dezembro 16, 2010

DERROCADA

A asa de um morcego transparente
e no canto um olho descaído
de pestanas longas espreitando
o ácido viscoso da loucura
escorrendo pelos telhados do mundo

Viajante incansável do pasmo
no silêncio das órbitas vagabundas
dos mares-mortos delírio-espasmo
do cansaço mole das brisas vazias
que do nada se afirmam nas florestas
do ódio de gigantes e anões liliputianos

Blocos monolíticos tristes quedos
imagens-desespero cancerosos
miasmas-visco cobras moribundas
agonizando em convulsões de magma
lanças setas envenenadas dirigidas
ao coração das virgens e crianças

Sombra parda pálida acutilante
teu vulto de insônia transparente
bóia nas trevas flutuantes
da noite dos espiões pelas estradas
das feras que matam as ovelhas
e apunhalam pastores no caminho

Sombra feroz invernal medonha
destroços e cadáveres pútridos
sugando o seio das madonas
e acalentando monstros nas cavernas
pelas horas taciturnas do medo dos teus passos.


(Yolanda Morazzo Lopes da Silva nasceu em São Vicente, Cabo Verde, a 16 de Dezembro de 1927 e faleceu em Lisboa em 28 de Janeiro de 2009)

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Semelhanças

Se não pertence ao mar
o que em seu dorso esplende
brasas de água, se do ar
não vem o que entre as mãos
acorda pombas, trêmula
plumagem sob um céu
cativo de pomares,
acaso envolvo leves
semelhanças evadidas:
ombro, seio, lábios, alma.

Izacyl Guimarães Ferreira

(poeta paulista)
Crime organizado














Só quem - por puro preconceito ideológico ou por deficiência política profunda - não queria acreditar é que não sabia que o filhote mais recente da Nato e espécie de primeiro-ministro de uma excrescência territorial nos Balcãs chamada Kosovo era o chefe de um bando terrorista e de uma rede de contrabando de armas e de drogas.

Já tinham surgido várias denúncias, entre as quais as feitas pela procuradora Carla Del Ponte, sobre a sua implicação numa outra rede mais macabra que se dedicava à recolha e contrabando de órgãos humanos retirados de inimigos sérvios caçados e assassinados para o efeito, mas os mesmos pobres de espírito - não confundir com os pobres em espírito referidos no sermão da montanha – juravam a pés juntos que isso era uma invenção do povo sérvio que, de acordo com a doutrina dominante no chamado ocidente, é responsável por tudo o que de mal se tem passado na Europa, pelo menos desde que Nero mandou incendiar Roma.

Agora, um relatório do Conselho da Europa acaba de pôr a nu a verdadeira natureza de Hashim Thaçi e da sua tropa fandanga. Após a apresentação do relatório aos diplomatas dos 47 estados membros, agendada para amanhã em Paris, espera-se o ranger de dentes e o rasgar de vestes dos hipócritas do costume.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Saudade

Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou...
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança...

Teixeira de Pascoaes – in Versos Pobres

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Fatal

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.


(poetisa mineira que hoje completa 75 anos)
Retrato


Me lembrava da menina
escavacando o chão agreste,
me lembrava do menino
carregando melancias.
Em que terras desembocam
esses talos de crianças
mais finos que as maravilhas,
mais fortes que a ventania?
Dois pés descobriram casa,
multiplicaram-se em hastes
- são cabeleiras de trigo
dos moinhos de Van-Gogh.
A sobra dos dois irmãos
repartiu-se entre os veleiros:
seu tronco desarvorado
virou estrelas no mar.

Zila da Costa Mamede*

* no 25º aniversário da sua morte

domingo, dezembro 12, 2010

O lugar da Casa




















Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade

Posta dedicada à minha companheira, com quem casei faz hoje 34 anos

sábado, dezembro 11, 2010

Catar palavras

Catar palavras
tentar achar o lugar certo de encaixá-las
fazê-las parecidas com o sol
ou simplesmente seduzidas pela lua.
A poesia é isso.
A árdua tarefa de juntar
o que não faz sentido...
como a vida que a gente pensa que leva,
mas leva a gente.
Só isso.
Se hoje sou triste,
pouco importa.
Daqui a pouco,
sento-me diante da máquina
e vou tecendo alegrias inventadas.
Se estou insone,
coloco um filme longo e chato
e logo transformo a fita numa canção de ninar.
No mais,
nada.
Uma saudade, talvez,
que vem de longe,
que encolhe dentro de mim e,
sem que eu possa fazer nada,
ecoa pela casa.
Poetas, poetas...
são almas penadas
neste mundo repleto de Cidades de Deus,
de comícios,
farpas.
São os olhos cegos do amor que perdemos na esquina,
a dura e intrigante abnegação de si mesmo.
O resto é pó.
Pó de palavras queimadas
pela falta de ouvidos e assuntos,
pó de móvel esquecido de limpar
e eu nada sei sobre poemas e poesias,
apenas costuro letras como se tocasse uma canção inaudível.

Iza Calbo

(poetisa baiana)

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Jovem

Suporta o peso do mundo. 
E resiste.

Protesta na praça.
Contesta.
Explode em aplausos.

Escreve recados
nos muros do tempo.
E assina.

Compete
no jogo incerto da vida.

Existe.


(poetisa brasileira)

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Jogo do gato


Para tentar cercar o gato é só seguir esta ligação. O jogo pode ser repetido quantas vezes se quiser. Divirtam-se!
Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


(poetisa brasileira de origem ucraniana, falecida a 9 de Dezembro de 1977)

quarta-feira, dezembro 08, 2010

In memoriam

Imagem: Robert García
Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!


(Florbela Espanca nasceu a 8 de Dezembro de 1894 e faleceu a 8 de Dezembro de 1930)

terça-feira, dezembro 07, 2010

Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.


(Ary dos Santos nasceu a 7 de Dezembro de 1936)

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Amestramento



Símbolo d’arte

Se o meu verso não fora o agonizar de um lírio,
E o suave funeral de um crisântemo roxo,
Diluindo-se, murchando, à vaga luz de um círio,
Entre o planger de um sino e o gargalhar de um mocho;

Se, essas flores do mal, em pleno desabrocho,
Eu não sentira em mim, num êxtase e em delírio,
Meu orgulho de rei julgara vesgo e frouxo,
Pois a glória de um sol não vale esse martírio.

Se, na terra que piso, algum prêmio ambiciono,
É o deserto, a cabala, o claustro, a esfinge, o outono,
O calmo encanto da noite e a augusta paz da morte...

E o meu símbolo d'arte, o ideal que me fascina,
É a tristeza a florir a graça feminina,
Como um farol pressago a iluminar o norte!


(poeta brasileiro falecido a 6 de Dezembro de 1935)

domingo, dezembro 05, 2010

Mulher madura

Esse ar puro oxigenado de maturidade
me dá o aspecto de que já vi tudo na vida,
disposta a rever a própria vida.

Este sentimento de mulher humana
me dá o direito de viver feliz,
inspirando segurança,
como se já tivesse tudo o que quis.

Esse jeito felino ou de criança
me dá a certeza de ser forte como nunca,
agarrada nos braços da esperança.

Essa determinação de chegar faceira,
sem ter que explicar nada
nem dizer porque,
me dá a sensação
de estar no auge da vida,
a vida inteira.

Ivone Boechat

(poetisa carioca)

sábado, dezembro 04, 2010

A voz do dono



Chama-se Geoff Morrel e é o porta-voz do Pentágono, nome por que é conhecido o antro onde se aloja o comando supremo da guerra e do terrorismo terráqueos.

Na quarta-feira passada, a jornalista Megyn Kelly, da Fox News, que, como toda a gente sabe, é um canal perfeitamente conotado com a esquerda laica e socialista, perguntou-lhe por que motivo o todo-poderoso Comando Ciber-Espacial de Departamento de Defesa dos Estados Unidos não fez nada para evitar as revelações do Wikileaks.

E, sem qualquer surpresa, uma resposta antológica:

“Não utilizámos as forças do Ciber-Comando contra o Wikileaks porque a publicação dos documentos não vai ter um impacto negativo para nós a longo prazo. O Secretário Gates simplesmente não acredita que esta situação possa ter um impacto significativo contra a força dos Estados Unidos ou contra o seu prestígio. O mundo não mantém relações connosco porque gosta de nós ou porque lhe merecemos confiança. São nossos aliados porque não têm outro remédio. Somos o último e o único poder indispensável que existe”.

Os crédulos que acham piamente que isto faz parte de mais uma teoria da conspiração, podem verificar aqui por si próprios.
O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.


(Tradução: Augusto de Campos)