terça-feira, junho 15, 2010

Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemitérios - as lajes são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. 

Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

segunda-feira, junho 14, 2010

Não amar

A dor
de não amar
é faca
de serra.
Corta
e dilacera.
Enferrujada,
deixa o tétano
em gotas de indiferença.


*Poeta carioca

domingo, junho 13, 2010

Outro dia

cai na manhã do coração desolado
a toutinegra que longe daqui cantava e
nesse instante
a tristeza do rosto subiu aos lábios
para queimar a morte próxima do corpo e
da terra

mas se a noite vier
cheia de luzes ilegíveis de véus
de relógios parados - ergue as asas
fere o ar que te sufoca e não te mexas
para que eu fique a ver-te estilhaçar
aquilo que penso e já não escrevo - aquilo
que perdeu o nome e se bebe como cicuta
junto ao precipício e à beleza do teu corpo

depois
deixarei o dia avançar com o barco
que levanta voo e traz as más notícias dos jornais
e o cheiro espesso das coisas esquecidas - os óculos
para ver o mar que já não vejo e um dedo incendiado
esboçando na poeira uma janela de ouro
e de vento

sábado, junho 12, 2010

EDITAL

Já estão a funcionar os moinhos da morte,
prontos,
oleados,
com motores novos e peças de reserva.

A instrução militar é muito vagarosa
e é urgente inventar um novo método.
Ainda não há soldados bastantes este verão;
é preciso incorporar mais cedo.

Não é possível perder tempo, ouviram!
Os moinhos da morte estão prestes a iniciar a sua tarefa,
os depósitos de bombas estão repletos,
as rampas de lançamento distribuídas pelos pontos estratégicos.
Tudo está a postos para o próximo dia M.

Os soldados, porém, são ainda insuficientes.

É necessário acabar com os cursos de Botânica,
de Arqueologia, de Belas Artes e Direito Civil.

É preciso queimar os escritos de Malthus,
destruir o método de Ogino-Knaus,
fuzilar um ou outro poeta recalcitrante.

Não ouvem as velas dos moinhos cortando a atmosfera
nos últimos, definitivos, ensaios?
É necessário inventar uma gigantesca correia-sem-fim
que produza diariamente milhares de soldados,
que taylorize o exército e bata os recordes de produção.

Sábios, estudantes, estadistas, pais de família,
homens e mulheres de boa vontade,
onde quer que habitem,
seja qual for o vosso trabalho,
parem de perder tempo, de tomar chá,
de jogar o xadrez, a canasta, a bisca lambida,
parem de ter ócios, ler jornais, fazer ginástica:
atendam este apelo desesperado
dediquem-se à solução deste problema.

As Escolas de Guerra vão diminuir de dois anos o seu curso.
Os moinhos estão prontos.

Não querelem,
não discutam a Arte pela Arte,
não frequentem exposições:
transmitam-nos ideias - nada é desaproveitável.
A mais humilde sugestão,
a mais aparentemente inútil,
pode ser a faísca reveladora do Grande Acontecimento.

Na doença ou na saúde,
na febre delirante, no banho quente,
na praia, no consultório médico,
nas salas de espera, na paragem dos eléctricos,
trabalhem sem descanso,
tentem,
contribuam.

Não leiam livros, não ouçam música,
não pintem - É UMA ORDEM.
trabalhem sem hesitação;
o problema é urgente.

Egito Gonçalves

sexta-feira, junho 11, 2010

A voz do mar

na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o anti-navegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu desde sempre agora nunca mais
cultivo a miração das minhas ilhas.
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar.

Geraldo Carneiro, in Balada do Impostor
Lá como cá



Cartoon: Perter Brookes/The Times

quinta-feira, junho 10, 2010

10 de Junho 

Olhos e carne a beber o verde-rubro
bandeira escancarada à emoção.

Vinho
(será ele o luso símbolo
ou o sangue que ferve e incendeia
este pendão?).

Saudade
mordendo feito bicho
feito tempo, feito chama.

Orgulho
raça amálgama de raças
cravos de abril rasgando a história
língua pátria outra para milhões

Camões
nem é preciso que o digas
nem compêndios, calendários ou cantigas
apenas o sangue a rugir em campanário
rubro lembrete
mais do que nunca hoje é dia
de sentir-se português.

Dalila Teles Veras*

*poetisa madeirense residente em São Paulo

quarta-feira, junho 09, 2010

O Amor aos Sessenta

Dedicado à mulher com quem partilho a minha vida há 34 anos e que celebra hoje o 62º aniversário.

Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.
Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

terça-feira, junho 08, 2010

OBSESSÃO DO MAR OCEANO

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de Outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Mario Quintana -  in O Aprendiz de Feiticeiro
Piratas do Mediterrâneo

segunda-feira, junho 07, 2010

Música

a musa voluptuosa
pede passagem

e lhe damos -
prosa:

qualquer imagem
vale mais

que a floração sentimental de uma
rosa:

gás lacrimogêneo,
luto, melancolia,

estrofe, catástrofe,
catarse:

deposita-se, linear
(limpa e suja como um verso)
pela praia pedregosa da palavra
- esta espuma.


*poeta gaúcho

domingo, junho 06, 2010

A imprensa "livre"

MESMICE

 Quisera eu pôr nestes quatroze versos
 Um leve, fino, alegre comentário
 A algum novo e notável caso diário,
 Entre os casos urbanos mais diversos.

 Percorro dos jornais o noticiário,
 Leio artigos e tópicos dispersos,
 A pedidos satânicos, perversos,
 Desastres, crimes, contos do vigário.

 Nada encontro que inspire à alegre musa
 Uma nota satírica e atrevida
 Que nos nervos um frémito produza.

 É sempre a mesma coisa repetida:
 Luza o sol, venha a noite, o sol reluza,
 Como, o banal, se reproduz a vida!

sábado, junho 05, 2010

Sinto

Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

Federico García Lorca, in Poemas Esparsos

(Tradução de Óscar Mendes)

sexta-feira, junho 04, 2010

Discurso da ira

Os pobres estão se evaporando
à vista de todos.
O tempo vai passando
os pobres vão se decompondo
seus rostos são apagados pelo vento
e da memória dos computadores
até que ninguém se lembre
mais de suas caveiras sorridentes
afugentando os parasitas dos burocratas
nas repartições públicas.

Os pobres estão sumindo
aos olhos de todos.
O tempo os vai tornando
cada vez mais parecidos com a morte.
Enquanto isso, os poderosos
sacodem suas nádegas fotogênicas

fazem belos discursos para a distinta platéia
e afagam avidamente as orquídeas.

Francisco Carvalho*

*poeta cearense
Os novos piratas



























Cartoon: Amer Shomali

quinta-feira, junho 03, 2010

Olhas o amanhecer

Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.


*poeta brasileiro

quarta-feira, junho 02, 2010

Höre, Israel
















Escuta, Israel!

Quando fomos perseguidos,
era eu um dos vossos.
Como continuar a sê-lo,
agora que sois perseguidores?

Era vossa desejo ser
como aqueles povos
que vos assassinaram.
Tornastes-vos hoje como eles.

Soubestes sobreviver
aos que foram convosco crueis.
Mas, não será a crueldade deles
que hoje em vós se exprime ?

Aos vencidos ordenastes
" descalçai os vossos sapatos!".
Para até ao deserto persegui-los
Como bodes expiatórios

Até à grande mesquita da morte
Cujas sandálias são areia
Mas eles rechaçaram o destino
Que quisestes impor-lhes

As pisadas dos seus pés descalços
Sobre as areias do deserto
Sobreviverão aos estragos deixados
Por vossas bombas e vossos tanques.

Erich Fried, poeta judeu austríaco

(Numerosos prisioneiros egípcios capturados durante a guerra dos Seis Dias, em  Junho de 1967, foram obrigados a descalçar as botas e abandonados pelos israelitas no deserto para que que regressassem ao lugar de onde tinham vindo. Na areia ardente, sem calçado, a maioria deles morreu de forma miserável.
Os porta-vozes sionistas negaram posteriormente o incidente, apesar de durante a guerra ter sido transmitido nas televisões inglesa e alemã. Um fotografia que mostra o facto apareceu publicada na antologia sionista O milagre dos Seis Dias, nos Estados Unidos e foi republicada no Konkret, de Hamburgo, em 26 de Agosto de 1969. Mais testemunhos gráficos apareceram, entre outros, no Paris Match (24.06.1967), na Life (30-06-1967) e no L’Europeo (29.06.1967).
Erich Fried)

Interrogo-me sobre o que escreveria o autor se tivesse vivido a última década

terça-feira, junho 01, 2010

Diálogo




























Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

É preciso boicotar